sábado, 3 de dezembro de 2011

Zerá, Urias e José: O que esses homens têm em comum?

Por Josivaldo de França Pereira


Os nomes de Zerá, Urias e José aparecem, respectivamente, na genealogia de Jesus conforme o evangelista Mateus (Mt 1.3,6,16). O mais interessante é que nenhum deles tem participação direta na natureza humana de Cristo como seus ascendentes segundo a carne. Sendo assim, por que Zerá, Urias e José são mencionados na genealogia de Jesus? Vejamos:
Zerá. “Judá gerou de Tamar a Perez e a Zerá; Perez gerou a Esrom; Esrom, a Arão” (Mt 1.3). Perez é o irmão gêmeo de Zerá. A história de Judá e Tamar; Perez e Zerá, está em Gênesis 38. Tamar era nora de Judá, o qual prometeu a ela seu terceiro filho, Selá, após a morte dos dois primeiros (Gn 38.11). Mas a promessa não foi cumprida.
Anos depois Tamar foi informada que o sogro estava na cidade para tosquiar as ovelhas. “Então, ela despiu as vestes de sua viuvez, e, cobrindo-se com um véu, se disfarçou, e se assentou à entrada de Enaim, no caminho de Timna; pois via que Selá já era homem, e ela não lhe fora dada por mulher” (Gn 38.14). Tendo-a como prostituta, Judá a possuiu e ela concebeu. “E aconteceu que, estando ela para dar à luz, havia gêmeos no seu ventre” (Gn 38.27). Zerá devia ter nascido primeiro. Ele pôs a mão para fora e a parteira atou uma fita vermelha nela (Gn 38.28). No entanto, Zerá recolheu a mão e seu irmão Perez tomou sua frente (Gn 38.29,30).
Pela providência divina Perez tornou-se o primogênito e recebeu o “direito” de ser antecessor do Messias prometido. Zerá aparece ao lado de seu irmão na genealogia de Jesus provavelmente porque seu nome ficou mais conhecido em Israel. Zerá foi o fundador de uma família tribal, progenitor do clã judaico dos zeraítas (Nm 26.20) e de outros indivíduos históricos como, por exemplo, Acã (Js 7.1,18,24; 22.20). Nos livros das Crônicas (1Cr 2.6; 9.6) e Neemias (Ne 11.24) o nome de Zerá sobressai ao de Perez.
Urias. “Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6). A informação mais completa que temos sobre Urias, o heteu, encontra-se em 2Samuel 11. Todavia, sabemos por outros textos bíblicos que ele era um dos mais poderosos homens de Davi, valente oficial do exército, pertencente a uma tropa de elite de trinta e sete guerreiros (2Sm 23.39; 1Cr 11.41).
Urias era marido de Bate-Seba. Davi adulterou com ela e assassinou Urias. O caso de Urias foi a mancha no “currículo” de Davi: “Porquanto Davi fez o que era reto perante o SENHOR e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara, em todos os dias da sua vida, senão no caso de Urias, o heteu” (1Rs 15.5). Mais tarde Urias seria homenageado na genealogia de Jesus segundo Mateus. Jesus não descende de Urias, porém, o evangelista “omite” o nome de Bate-Seba e acrescenta o de Urias, dizendo: “Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6).
A justiça e o amor de Deus estão bem claros na história de Davi e Urias. Deus julgou a causa de Urias, punindo Davi por seu adultério e assassinato (2Sm 12.10-12,14). Entretanto, Davi se arrependeu, confessou suas transgressões e foi perdoado pelo Senhor (2Sm 12.13; Sl 32; 51). Na genealogia cheia de graça de Jesus, Davi e Urias vão se encontrar, como se encontram hoje no céu.
José. “E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mt 1.16). Há quem diga que Mateus segue a genealogia de Maria e Lucas a de José. Tanto Mateus quanto Lucas seguem a genealogia de José (cf. Mt 1.16; Lc 3.23). A diferença é que Mateus começa por Abraão e termina com José. Lucas, por sua vez, inicia com José e conclui com Adão.[1] Contudo, uma vez que Jesus nasceu de Maria, por que os autores bíblicos não seguiram a genealogia dela?
Maria pertencia à mesma descendência judaica de José, pois, do contrário, o anjo não diria a ela acerca de Jesus: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32, itálicos acrescentados; v. t. Rm 1.3). De modo que, aquilo que José poderia oferecer a Jesus, em termos de natureza humana, já estava representado na pessoa de Maria.
José tem uma passagem bem discreta nos Evangelhos. Nunca “ouvimos” a sua voz. Mateus registra o nome de José sete vezes, sem contar a única vez quando em Nazaré se referem a Jesus como “o filho do carpinteiro”. Lucas chama José pelo nome cinco vezes. João menciona o nome dele apenas duas vezes e Marcos nenhuma vez. Semelhante a este, nenhum outro livro do Novo Testamento cita o nome de José direta ou indiretamente. No entanto, José nunca aparece nos Evangelhos como sendo um pai adotivo de Jesus. Ele é descrito, em especial por Mateus, como o verdadeiro pai de Jesus segundo a carne, ainda que nada tivesse a ver com a concepção de nosso Senhor. No sentido físico Jesus era “de Maria” e não “de José”. José era o pai de Jesus somente no sentido legal. O sentido legal também era importante. Era através de José, e não de Maria, que se transferia o direito do trono de Davi a Jesus.


[1] Veja a postagem “Por que José, o marido de Maria, é filho de Jacó em Mateus 1.16 e de Heli em Lucas 3.23?”.

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