segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Debaixo da figueira: a mensagem de João 1.43-51

Josivaldo de França Pereira

Segundo João, dos doze discípulos de Jesus, somente Pedro e Natanael não foram chamados diretamente pelo Mestre, por assim dizer. André levou seu irmão a Jesus (Jo 1.40-42) e Filipe convidou o amigo Natanael, conhecido nos sinóticos como Bartolomeu (Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.14). O encontro entre Jesus e Natanael é um dos mais notáveis da Bíblia.
“Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José”. Filipe faz um relato perfeito da pessoa de Jesus a Natanael. Sua citação das Escrituras relembra o que Jesus diria a dois discípulos no caminho de Emaús: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (Lc 24.27; cf. v44). Contudo, Natanael se declara francamente incrédulo de que qualquer coisa boa, muito menos o Messias, saia de Nazaré. Nazaré era uma cidade pequena, inexpressiva e insignificante aos olhos de muitos. Ela não é citada uma única vez no Antigo Testamento, nos apócrifos, nos escritos de Josefo ou no Talmude.
Filipe convida Natanael a vir e ver com os próprios olhos o Messias. “Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em que não há dolo”. Nosso Senhor conhece perfeitamente a natureza humana (Jo 2.23-25). Portanto, ele pôde dizer com exatidão que Natanael é “um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”. Uma declaração que, por sinal, recorda o que Deus disse acerca de Jó: “... Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (Jó 1.8; cf. 1.1; 2.3).
A declaração de Jesus deixou Natanael surpreso: “... Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira”. Certamente Jesus não diria o que disse a Natanael se este estivesse simplesmente dormindo embaixo da figueira, ou comendo figos. Debaixo da figueira Natanael estava com a mente e o espírito sintonizados em Deus. À semelhança de Simeão, Natanael também era um homem justo e piedoso que esperava pela Consolação e Salvação de Israel: o Messias prometido. O Verbo encarnado era a resposta viva às orações de Natanael. Deus atendeu as preces dele!
A primeira confissão de fé de um discípulo feita a Jesus vem cheia de emoção: “... Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. “Ao que Jesus lhe respondeu: Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores cousas do que estas verás”. Quem crê nas menores coisas que Jesus diz haverá de ver as maiores também. Talvez você esteja debaixo de sua “figueira” hoje – orando, clamando e chorando na presença de Deus. Saiba que ele vê. Deus é o Deus que vê (cf. Gn 16.13) e virá ao seu encontro. Creia nisso.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A perspectiva missionária do pentecostes

Josivaldo de França Pereira


O Pentecostes é o ponto alto da sequência de eventos relacionados à morte, ressurreição e ascensão de Jesus. É por isso que para Lucas o Pentecostes possui um significado prático e dinâmico, traduzido em termos de nascimento e missão da igreja neotestamentária.

Lucas apresenta o Pentecostes como o início da missão mundial da Igreja, visto que igreja e missão são partes inseparáveis na mente do Espírito. Por isso, a implementação do programa de Atos 1.8 dependia do Pentecostes. Aqueles que testificaram os efeitos do derramamento do Espírito Santo e ouviram o evangelho pregado por Pedro, representavam "todas as nações debaixo do céu" (At 2.5). A lista de Lucas inclui um vasto panorama das nações do Mediterrâneo oriental (cf. At 2.9-11).

O caráter missiológico de Atos 2 é facilmente percebido pela importância que Lucas dá ao Pentecostes. O Pentecostes está no começo de um novo livro escrito por ele e não no final de sua primeira obra. Não seria exagero dizer que pela posição do Pentecostes em Atos, Lucas atribui a ele um valor e importância semelhantes ao nascimento de Cristo no início de seu Evangelho, ou mesmo a algo como o relato da criação no início de Gênesis. Concordamos com Kistemaker quando diz: "Depois da obra da criação de Deus e a encarnação do Filho de Deus, a descida do Espírito Santo no Pentecostes é o terceiro maior ato divino.”[1]

Línguas

Não é preciso especular se as línguas faladas em Atos 2 eram dos homens ou dos anjos. Lucas deixa claro que os "galileus"[2] (no caso os apóstolos e outros que estavam na casa) de Atos 2.7 falavam as línguas das nações presentes naquela festa (At 2.6-11).

Quanto à natureza, propósito e conteúdo das línguas faladas em Atos 2 é importante observar que "a história ensina que línguas humanas inteligíveis são significativas, não as línguas ininteligíveis como as frequentemente encontradas na glossolalia moderna ou como as que usualmente pensa-se ter sido faladas em Corinto"[3]. O propósito principal dos dons do Espírito concedidos à igreja era a missão, e não especificamente a edificação particular da igreja ou dos seus membros individuais.[4]

É provável que o conteúdo das línguas em Atos 2.4 consistisse da mensagem profética da justiça e graça de Deus a todos os povos, línguas e nações, conforme sugere Pedro em Atos 2.14-41.

Vale lembrar que enquanto no Antigo Testamento Moisés (Dt 28.49) e Isaías (Is 28.11) profetizaram a deportação de Israel e Judá por um povo de língua estranha (o que aconteceu no ano 722 a.C. com o cativeiro assírio e em 587 a.C. com o cativeiro babilônico, respectivamente), em Atos 2 as línguas eram sinais evidentes da bênção de Deus para todas as famílias da terra. Enquanto em Babel (Gn 11.1-9) houve confusão e divisão, em Jerusalém foi proclamada uma só mensagem em muitas línguas. A mensagem da unidade e universalidade em Cristo Jesus.

Vento e fogo

Qual o significado do som como de vento impetuoso e línguas como de fogo em Atos 2? O vento simboliza o Espírito Santo (cf. Jo 3.8). O som do vento denota poder celestial e seu aparecimento repentino revela a inauguração de algo sobrenatural.

O fogo era o cumprimento da descrição de João Batista do poder de Jesus: "Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11; Lc 3.16). No Antigo Testamento o fogo é frequentemente um símbolo da presença de Deus para indicar santidade, juízo e graça (cf. Ex 3.2-5; 1Rs 18.38; 2Rs 2.11). Em Atos 2 o fogo se dividiu em línguas de fogo que pousaram sobre cada um dos crentes presentes na casa. Em decorrência disso eles falaram em outras línguas.

Notemos que Lucas tem o cuidado de observar que não foram simplesmente vento e fogo que invadiram a casa, mas sim o Espírito Santo como vento e fogo. Essa foi a maneira que Lucas encontrou para dizer que o que aconteceu naquele dia não tinha nada a ver com fenômenos meramente naturais.[5]



[1] Simon J. KISTEMAKER, New Testament Commentary: Exposition of the Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 91.

[2] Um estudo interessante do termo "galileus" em Atos 2.7 pode ser encontrado em C. S. Mann, Pentecost in Acts. In: MUNCK, Johannes (ed.). Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., 1967, p. 271-275.

[3] I. H. MARSHALL, The Significance of Pentecost. In: Torrance, T. F. & Reid J. K. S. (eds.). Scottish Journal Theology. Scottish Academic Press, N0 4, 1977, p. 357.

[4] MARSHALL, Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985, p. 50. Veja também Paul E. PIERSON, Atos que contam. Londrina: Descoberta Editora, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179,180.

[5] Veja mais em meu livro Atos do Espírito Santo. Londrina: Descoberta, 2002, p. 101-118.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Paulo

Josivaldo de França Pereira


O “divisor de águas” na vida de Paulo foi o seu encontro com Jesus no caminho de Damasco. A vida do apóstolo, portanto, pode ser dividida em antes e depois de sua conversão.

1. Seu passado

Antes da sua conversão, Paulo era um judeu comprometido e zeloso com suas tradições. O orgulho de Paulo com a sua herança judaica (Rm 3.1,2; 9.1-5; 2Co 2.22; Gl 1.13,14 e Fp 3.4-6) o levou a perseguir a comunidade cristã (Gl 1.13; Fp 3.6; 1Co 15.8; cf. At 8.1-3; 9.1-30).

Desde seu nascimento, por volta de 30 A.D., até seu aparecimento em Jerusalém como perseguidor dos cristãos, há pouca informação sobre a vida de Paulo. Sabe-se pelo testemunho dele mesmo que era da tribo de Benjamim e zeloso membro do partido dos fariseus (Rm 11.1; Fp 3.5; At 23.6). Era cidadão romano (At 16.37; 21.39; 22.25-28). Nasceu em Tarso, um centro grego de cultura e intelectualidade, cidade universitária localizada na Cilícia, nas proximidades da costa nordeste do Mar Mediterrâneo, ao norte de Chipre.

Alguns eruditos supõem que Paulo se tornou familiarizado com diversas filosofias gregas e cultos religiosos durante sua juventude em Tarso.[1] Entretanto, Atos 22.3 parece indicar que Paulo apenas nasceu em Tarso e foi educado em Jerusalém. “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje”.[2]

Quando jovem, Paulo recebeu autoridade oficial para dirigir uma perseguição contra os cristãos, na qualidade de membro de uma sinagoga ou concílio do Sinédrio, conforme ele mesmo descreve em Atos 26.10 (“e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam”) e Atos 26.12 (“Com estes intuitos, parti para Damasco, levando autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado”).

À luz da educação e preeminência precoce de Paulo (cf. At 7.58; Gl 1.14), supomos que sua família desfrutava de alguma posição político-social. O acesso do sobrinho de Paulo entre os líderes de Jerusalém (At 23.16,20) parece favorecer essa hipótese.

2. Sua conversão

Apesar de não existir evidências bíblicas de que Paulo conheceu Jesus durante seu ministério terreno, seus parentes crentes (cf. Rm 16.7) e sua experiência com o martírio de Estevão (At 8.1) devem ter produzido algum impacto nele. A pergunta, e principalmente, a afirmação de Cristo ressurreto, conforme registrada em Atos 26.14, dá a entender isso. “E, caindo todos nós por terra,” discursa Paulo perante o rei Agripa, “ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões”. A experiência de conversão de Paulo provocou uma revisão radical no seu estilo de vida e na sua visão do mundo. Passou de principal perseguidor a principal protagonista do movimento cristão primitivo; de "zeloso pelas tradições dos nossos pais" a "apóstolo dos gentios”.

Ainda sobre a conversão de Paulo, Carriker faz-nos uma breve, mas não menos importante observação. Diz ele:

A conversão de Paulo não era resultado de grandes sentimentos de culpa pelo pecado, como tipificado na tradição luterana. Alguns (como K. Stendhal) até preferem falar dum "chamamento" em vez de conversão, e observam que Paulo mesmo prefere esse primeiro termo. Dizem que Paulo não "mudou de religião", de judeu para cristão, mas que permaneceu judeu, qualificando sua fé como a de um judeu cristão.[3]

Apesar desta observação, o próprio Carriker admite que ainda prefere usar o termo conversão “para descrever o encontro de Paulo com Jesus, pois obviamente ele revisou radicalmente sua percepção sobre Jesus. Embora ele não tenha abandonado todos os elementos do judaísmo, alguns pontos fundamentais foram completamente reformulados”.[4] Segundo Carriker:

Mesmo que Paulo tenha reformulado radicalmente muitos dos seus conceitos judaicos, ainda mantinha muitas convicções em comum, mesmo em termos da sua missão. Por exemplo:

a. Paulo aceitou as Escrituras Hebraicas como a Palavra revelada de Deus, e constantemente elaborou sua perspectiva em diálogo com as Escrituras, usando técnicas rabinas adquiridas do judaísmo.

b. Na elaboração da sua eclesiologia, Paulo retinha um papel especial para Israel, embora sempre mantivesse o acesso dos gentios à salvação também.

c. Empregou temas do uso corrente da pregação missionária judaica na sua pregação missionária e na sua estimação do mundo gentílico.[5]

Vale lembrar, ainda, que os três relatos da conversão de Paulo (Atos 9, 22 e 26) são importantes, não somente pelo significado da sua conversão propriamente dita, mas também pela importância de se entender a pessoa de Paulo acerca de sua união com Cristo e de seu ministério entre os gentios.

3. Seu ministério

A partir do encontro com Jesus no caminho de Damasco, Paulo passaria de perseguidor a perseguido; de causador de sofrimentos a sofredor.

O Senhor resumiria, ao relutante Ananias, o árduo ministério de Paulo nestes termos: “Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (At 9.15, 16).

À parte de um intervalo no deserto da Transjordânia, Paulo passou os três primeiros anos de seu ministério pregando em Damasco (At 9.19; Gl 1.17). Pressionado pelos judeus de Damasco, o apóstolo fugiu para Jerusalém, onde Barnabé o apresentou aos irmãos duvidosos de sua conversão (At 9.26-28). Seu ministério em Jerusalém dificilmente durou duas semanas, pois novamente os judeus procuravam matá-lo (At 9.29). Para evitá-los, Paulo retornou à cidade de seu nascimento (At 9.30), passando ali um "período de silêncio" por cerca de dez anos. Certamente esse período é silencioso apenas para nós, pois Barnabé, ouvindo falar de sua obra e relembrando seu primeiro encontro com o apóstolo, solicitou a este que fosse para Antioquia da Síria ajudá-lo numa florescente missão entre os gentios (At 11.19-26). De Antioquia, Paulo e Barnabé foram enviados para socorrer os irmãos pobres da Judéia (At 11.29,30). Os dois permaneceriam juntos até a primeira das três viagens missionárias do apóstolo.



[1] Cf. E. E. Ellis, Paulo. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1217.

[2] Ibidem.

[3] Timóteo Carriker, Missão Integral: Uma teologia bíblica. São Paulo: Editora Sepal, 1992, p. 226.

[4] Ibidem.

[5] Idem, p. 223,24.

Breve reflexão sobre a paternidade de Deus e a nossa filiação

Josivaldo de França Pereira

Em sua exposição sobre O Pai Nosso, Lutero diz algo que pode ser perfeitamente aplicado aqui. Segundo ele, “pode existir entre todos os nomes um que nos relacione melhor com Deus que o nome de PAI? Como é carinhosa, suave, sentida e cordial esta palavra!”.[1] E ainda: O nome Pai “agrada a Deus mais que qualquer outro, e o comove também mais profundamente do que qualquer outra palavra, quando ele ouve que assim o invocamos”.[2]
R. B. Kuiper, lembrando que o natural segue o modelo do espiritual, salientou: “A razão pela qual a Escritura fala de Deus como Pai não é que ele de algum modo lembra os pais humanos, mas os pais humanos são assim chamados porque remotamente se assemelham a Deus. A paternidade de Deus é desde a eternidade. Antes que existisse a paternidade humana, Deus é Pai”.[3] De acordo com J. I. Packer, a adoção (por meio da qual nos tornamos filhos de Deus em Cristo Jesus), é o mais alto privilégio que o Evangelho oferece, maior ainda que a justificação.[4] “A adoção é maior por causa da riqueza do relacionamento com Deus que ela envolve”.[5]
O conceito de paternidade de Deus é revolucionário no Novo Testamento. O judeu não tinha costume de chamar a Deus de Pai e nem de se denominar filho de Deus. O Senhor Jesus ensinou aos seus discípulos e a nós que “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12,13; cf. Gl 3.26).
Em sua primeira epístola o apóstolo João declara: "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus..." (1Jo 3.1). E Paulo complementa: "O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados" (Rm 8.16,17).
“Ser filho de Deus, portanto, não é um estado universal que todos adquirem pelo nascimento, mas um dom sobrenatural que se recebe através de Jesus. ‘Ninguém vem ao Pai’ – em outras palavras, é reconhecido por Deus como filho – ‘senão por mim’ (Jo 14.6). O dom da filiação a Deus se torna nosso, não por termos nascido, mas através do novo nascimento”.[6]
Na cruz Cristo pagou um alto preço para que você e eu fôssemos salvos gratuitamente. Isso nos leva a uma reflexão séria, no sentido que precisamos viver a vida cristã em compromisso diante de Deus e da sociedade; no relacionamento familiar e eclesiástico; numa vida de fé e obediência; de amor e adoração ao Senhor, de amor e serviço ao próximo; no testemunho cristão, conscientes do fato de que agora somos filhos de Deus.




[1] Martinho Lutero, O Pai Nosso. São Paulo: Editora Fittipaldi, 1965, p. 21.
[2] Ibidem.
[3] R. B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica. São Paulo: PES, 1976, p. 107.
[4] J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 188. (Itálicos do autor).
[5] Idem, p. 189.
[6] Idem, p. 183. 

Por que sofremos?

Josivaldo de França Pereira

No início de meu pastorado (lembro-me como se fosse hoje!) fui indagado por uma jovem irmã sobre o porquê do sofrimento dos crentes. "Pastor, por que os crentes sofrem?", foi a pergunta sem titubear.
Na verdade, essa é uma pergunta antiga. Desde os tempos bíblicos encontramos uma ou outra pessoa se deparando com o dilema existencial do sofrimento. O Salmo 73, por exemplo, é um clássico dessa indagação. Nele encontramos Asafe se debatendo com a questão da prosperidade dos ímpios, uma vez que ele, sendo um homem temente a Deus, passava por provações que nem de longe os incrédulos experimentavam. A resposta de Deus a Asafe é simplesmente magnífica. Eu recomendo a você a leitura do Salmo 73, com calma, sem pressa, meditando e digerindo cada um de seus versículos. E para uma compreensão e aproveitamento ainda maiores, sugiro a você ainda a leitura do excelente livro Por que prosperam os ímpios? Estudos no Salmo 73 (Editora PES) de autoria do Dr. Martin Lloyd-Jones.
Voltando à indagação do porquê do sofrimento dos crentes, respondi à querida irmã que a Bíblia não diz em nenhum lugar que os crentes não deveriam sofrer ou que nunca sofrerão. Dentre as passagens bíblicas que lhe apresentei, mencionei o Salmo 41.3, que diz assim acerca daquele que teme a Deus: "O Senhor o assiste no leito da enfermidade, na doença, tu lhe afofas a cama". Repito: A Bíblia não promete em hipótese alguma ausência de sofrimento para o crente enquanto ele vive neste mundo, porém, ela nos garante a presença de Deus e de sua assistência em meio às nossas tribulações (cf. Sl 46.1). Deus nem sempre tirará o espinho de nossa carne conforme gostaríamos que ele o fizesse, mas com certeza ele sempre nos providenciará um santo remédio: o bálsamo de sua graça (cf. 2Co 12.9).
Em João 16.33 o Senhor Jesus diz: "...No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo". O apóstolo Paulo também nos ensina que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28). O que ele quer dizer com “todas as coisas” em Romanos 8.28 é que, tanto as coisas boas como as coisas ruins, têm um propósito definido na vida daqueles que pertencem a Deus. Talvez não compreendamos de imediato tudo que nos acontece nesta vida (cf. Jo 13.7), mas com certeza nada nos acontece por acaso. “Nas tuas mãos estão os meus dias”, diz o salmista (Sl 31.15). Deus nos ama e por isso sempre nos fará bem, mesmo quando aquilo que recebemos dele pareça-nos mal.
Precisamos aprender com os heróis da fé e, principalmente, com o Senhor Jesus Cristo, a ver o propósito de Deus em todos os acontecimentos de nossa vida. Talvez você, meu irmão, minha irmã, esteja vivendo dias de profunda angústia e dor. Saiba, porém, que o seu Deus nunca o desamparará. Aguente firme! Não desista de Deus, porque ele jamais desistirá de você. “Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti” (Is 43.2), diz o Senhor.
Seus sofrimentos podem ser agudos e intensos, no entanto, eles não têm o propósito de arruiná-lo. O propósito do sofrimento na sua vida é aproximá-lo de Deus e não afastá-lo dele. É para você conhecê-lo melhor, assim como dele você é conhecido. Deus tudo pode e nenhum dos planos que ele reservou para a sua vida poderá ser frustrado (cf. Jó 42.2).
Lembre-se: Deus não promete um caminho suave, mas a garantia da chegada; Deus não promete ausência de luta, mas a certeza da vitória. Siga em frente porque nada poderá separar você do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (cf. Rm 8.31-39).
“Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18).


O Espírito Santo e sua ligação com Jesus

Josivaldo de França Pereira

Quem é o Espírito Santo? No decorrer da história eclesiástica, muitos têm negado a personalidade e a divindade do Espírito, preferindo considerá-lo como uma força ou poder impessoal e ativo, sem inteligência própria, através do qual Deus realiza seus propósitos. Sendo assim, o Espírito que não é um ser pessoal também não pode ser Deus, afirmam. Nas páginas da Bíblia encontramos um número considerável de referências que dizem que o Espírito Santo tem personalidade própria e é Deus. O Espírito Santo tem inteligência (Jo 14.16; Rm 15.30; Ef 4.30); vontade (At 16.7; 1Co 12.11). Realiza atos próprios de uma pessoa: Age (Gn 6.3); ensina, consola e faz lembrar (Lc 12.12; Jo 14.16; 16.26); testifica (Jo 15.26; Rm 8.16); convence (Jo 16.8); fala (At 8.29); ordena (At 13.2); vivifica e guia (Rm 8.11,14); intercede (Rm 8.26); revela (1Co 2.10,11) e se entristece (Ef 4.30). Além disso, mentir para o Espírito Santo é mentir para Deus (At 5.3,4); blasfemar contra ele é cometer um pecado imperdoável (Mt 12.31,32; Mc 3.29).
Qual a ligação entre o Espírito Santo e Jesus Cristo? O testemunho que glorifica a Cristo é a tarefa principal do Espírito em relação ao nosso Senhor. Essa finalidade do Espírito Santo é declarada pelo próprio Senhor Jesus em João 16.14: “Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar”. Mesmo antes de ser enviado como o “outro Consolador” (Jo 14.16), o Espírito Santo já estava poderosamente ativo no ministério de Jesus. Ele preparou e capacitou o Senhor Jesus em sua obra redentora (Lc 1.35; 3.22; Jo 3.34; Hb 10.5-7). Essas referências bíblicas mostram que o Espírito Santo agiu nele e por ele.
A ligação do Espírito Santo e Jesus é tão estreita que o apóstolo Paulo fala do “Espírito de Cristo” (Rm 8.9); “Espírito do Filho” (Gl 4.6) e “Espírito de Jesus Cristo” (Fp 1.19). Em outro lugar Paulo diz: “Ora, o Senhor é o Espírito” (2Co 3.17). Isso não significa que Jesus Cristo e o Espírito Santo sejam a mesma pessoa, e sim, que existe entre eles uma ação conjunta e harmoniosa para a nossa salvação. Cooperam mutuamente com essa finalidade. Podemos ver a clareza desse fato quando lemos Mateus 28.20; João 15.16; 16.14,15, onde Cristo retorna a seus discípulos no Espírito. Além disso, Paulo diz algumas vezes que é Cristo e em outras que é o Espírito Santo quem habita nos crentes (Rm 8.9,10; 1Co 3.16; Gl 2.20). Segundo J. I. Packer, a aplicação da redenção em nós pelo Espírito Santo “é tão importante que, se não fosse pela sua ação não haveria evangelho, nem fé, nem igreja, nem cristianismo no mundo”.
Deus seja louvado pelo Espírito Santo que nos foi outorgado em Cristo Jesus.