sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Ele será chamado Nazareno"

Josivaldo de França Pereira


Mateus é um dos evangelistas que mais relacionam os primeiros anos de Jesus com as Escrituras. Em Mateus 1.23 ele cita Isaías 7.14. Em Mateus 2.6 ele cita Miquéias 5.2. Em 2.15 cita Oséias 11.1 e em 2.17,18, Jeremias 31.15. Contudo, quando trata da volta do Egito, Mateus declara: “E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2.23).

O problema é que não temos no Antigo Testamento nenhuma citação direta ou indireta sobre a cidade de Nazaré ou de que Jesus seria chamado “Nazareno”. Quando Natanael disse a Filipe: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46), não o fez por causa de ignorância bíblica, mas porque não há nenhuma profecia veterotestamentária que relacione o Messias à cidade de Nazaré. Diferente do que ocorre em João 7.52 (cf. Is 9.1,2; Mt 4.15,16). Mesmo o famoso historiador judeu Flávio Josefo, ao enumerar quarenta e cinco cidades da Galileia, não menciona Nazaré.[1] A ARA e a NVI apontam para Isaías 11.1, porém, em tal passagem não temos nada que lembre Mateus 2.23.

Por que Mateus disse, então, que José “foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele (Jesus) será chamado Nazareno”? A melhor resposta que encontrei para Mateus 2.23 foi a de R. V. G. Tasker. Diz ele:

A citação ele será chamado Nazareno, anotada pelo evangelista no verso 23 como cumprida no fato de Jesus residir em Nazaré, há muito é considerada um enigma, pois tais palavras simplesmente não existem no Antigo Testamento. Mas o fato de que o evangelista introduz a afirmação como tendo sido dito por intermédio dos profetas pode ser uma indicação de que ele não estava querendo fazer uma citação verbal exata, mas sim apontar em termos gerais que ela estava inteiramente de acordo com o que os profetas haviam predito, que Jesus deveria vir a ser conhecido como “Jesus de Nazaré”.

Tal designação dele foi no início um termo de escárnio e desprezo (ver João 1.46). Aliás, Isaías tinha profetizado que o Sevo do Senhor seria desprezado pelos homens. Parte do “cumprimento”, portanto, desta e de outras passagens do Antigo Testamento, está no desprezo por Jesus demonstrado pelas autoridades religiosas de Israel por causa das associações dele com o que consideravam sua origem provincial.

Esta foi a explicação da passagem dada por Jerônimo e provavelmente esteja correta. Alguns eruditos entendem que o evangelista está jogando com a semelhança verbal entre a palavra Nazõraios, traduzida nazareno, e a palavra hebraica nêzer, que significa “ramo”, e também que passagens como Isaías 11.1 e Jeremias 23.5 estavam na sua mente; mas tal pensamento parece algo irrelevante no presente contexto. Outros têm defendido uma associação verbal semelhante a esta entre as palavras Nazõraios e Naziraios (nazireu). Isto parece menos provável, uma vez que Jesus não era nazireu.[2]

A fórmula de citação de Mateus 2.23 difere da que aparece, por exemplo, em Mateus 1.22; 2.15,17. Mateus 2.23 parece sugerir que um tema profético, e não uma predição específica, estava na mente do escritor sagrado.[3]



[1] Citado por R. N. Champlin. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 283.

[2] R. V. G. Tasker. Mateus: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985, p. 35, 36. Itálicos do autor.

[3] Cf. A. F. Walls. Nazareno. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1101.

A Oração do Pai Nosso: Considerações Gerais

Josivaldo de França Pereira


A Oração do Pai Nosso, conhecida também como Oração do Senhor e Oração Dominical, foi considerada por Agostinho, Lutero e outros gigantes do passado como “a coisa mais maravilhosa de toda a Bíblia”.

O presente estudo trata-se de uma pequena introdução à oração que o Senhor Jesus ensinou. Nosso propósito é verificar porque ela é o modelo ideal para todas as outras orações e quais são os seus principais objetivos.

· O modelo perfeito de oração

De acordo com o Catecismo Maior de Westminster (CMW), resposta 186, “Toda a Palavra de Deus é útil para nos dirigir na prática da oração; mas a regra especial é aquela forma de oração que nosso Senhor Jesus Cristo ensinou aos seus discípulos, geralmente chamada “Oração do Senhor” (ou “Dominical”, conforme o Breve Catecismo).

Segundo Mateus, Jesus ensinou a Oração do Pai Nosso como um modelo a ser copiado (“Portanto, vós orareis assim...”); de acordo com Lucas, uma forma para ser usada (“Quando orardes, dizei...”). Assim, podemos utilizar a Oração do Senhor como ela é, e também como modelo para as nossas próprias orações. “Tudo o que é necessário para a alma e para o corpo, nosso Senhor Jesus Cristo incluiu na oração que ele mesmo nos ensinou”, declararam Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano no Catecismo de Heidelberg.

A Oração Dominical é o modelo perfeito para as nossas orações por duas razões principais: (1) Foi dada aos discípulos (e por extensão a todos os filhos de Deus) pelo próprio Deus. O que a distinguia, sobremaneira, da oração hipócrita e mecânica dos fariseus e pagãos, respectivamente (Mt 6.5-7). “A economia de palavras, a maneira de sumariar aquilo que realmente importa, reduzindo tudo a algumas poucas sentenças, é algo que verdadeiramente proclama o fato que quem ensinou essa oração não foi outro senão o próprio Filho de Deus” (D. M. Lloyd-Jones). Enfim, é uma oração celestial que jamais foi ensinada por homem algum (Lc 11.1). (2) Nela encontramos os princípios fundamentais para todas as outras orações. Ou se preferir, essa oração é uma espécie de esboço no qual todas as outras orações devem seguir a estrutura estabelecida, isto é, sendo curta ou longa toda oração deve conter os mesmos princípios centrais da Oração do Pai Nosso. Na Oração Dominical “encontramos uma perfeita sinopse das instruções de nosso Senhor sobre como se deve orar e sobre o que se deve orar” (Jones).

· As partes integrantes da Oração do Pai Nosso

“A Oração do Senhor consiste de três partes: prefácio, petições e conclusão” (CMW, resposta 188). A oração segue o mesmo esquema em Mateus 6.9-13 e Lucas 11.1-4, embora seja mais condensada neste último.

Prefácio: “Pai nosso que estás nos céus”.

1. Primeira petição: “Santificado seja o teu nome”.

2. Segunda petição: “Venha o teu reino”.

3. Terceira petição: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

4. Quarta petição: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”.

5. Quinta petição: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”.

6. Sexta petição: “Não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal”.

Conclusão: “Teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.”

· Os objetivos da Oração do Pai Nosso

Oração ao Pai, visando a sua glória. O prefácio, as três primeiras petições e a conclusão tratam de Deus e sua glória; ou seja, a glória de seu nome, reino e vontade. Oração ao Pai, visando as necessidades de seus filhos. As três últimas petições contemplam os filhos de Deus e suas necessidades materiais, morais e espirituais.

Como vimos, a Oração do Pai Nosso é o padrão por excelência para todas as nossas orações. Contudo, nada impede que ela seja repetida com freqüência, desde que sejamos cuidadosos em fazê-la com entendimento e coração, para que não se torne uma oração meramente formal e friamente mecânica; pecados que o Senhor Jesus tanto condenou. Sendo assim, amados, não somente a Oração Dominical, mas todas as nossas orações sejam verdadeiras expressões de glorificação a Deus e de nossas necessidades.


Literatura recomendada

BARTH, Karl. O Pai Nosso: a oração que Jesus ensinou aos discípulos. São Paulo: Novo Século, 2003.

LUTERO, Martinho. O Pai Nosso. São Paulo: Editora Fittipaldi, 1965.

PACKER, J. I. A Oração do Senhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"Assim como nós perdoamos..."

Josivaldo de França Pereira


Uma das petições mais desafiadoras da Oração Dominical (ou Oração do Pai Nosso, ou do Senhor, como queira), e ao mesmo tempo a que exige de nós maior reflexão quando pronunciada, é a quinta petição que diz: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores" (Mt 6.12). Lucas 11.4 fala: "Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo o que nos deve".

Nosso Senhor Jesus Cristo explica a importância dessa oração assim: "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" (Mt 6.14,15).

Até onde temos compreendido essa oração?

Observe que o texto sagrado não diz: "Perdoa-nos as nossas dívidas porque vamos perdoar aos nossos devedores". Pelo contrário, o que a Palavra de Deus nos ensina é: "Perdoa-nos as nossas dívidas (pecados) assim como nós temos perdoado (já perdoamos) aos nossos devedores (aqueles que nos tem prejudicado, seja por palavras ou ações)". Não fazemos essa observação por acaso. Precisamos sentir o peso da responsabilidade de uma oração que muitas vezes é feita de forma leviana. O significado das palavras "assim como" nesta petição é tremendamente desafiador, pois significa que só podemos ser perdoados por Deus se perdoamos os outros, ou, como disse acertadamente o professor R. V. G. Tasker, "se não mostrarmos espírito perdoador, não podemos esperar perdão para nós".

O Dr. David Martin Lloyd-Jones, em seus Estudos no Sermão do Monte, faz uma explanação interessante da quinta petição. Vale a pena transcrevê-la:

“Se pensarmos que os nossos pecados são perdoados por Deus, mas nos recusarmos a perdoar aos nossos semelhantes, estaremos praticando um grave erro; e isso será prova de que jamais fomos perdoados. O homem que sabe que foi perdoado em virtude do sangue vertido por Cristo, e nada mais, é o indivíduo que sente a compulsão de perdoar a outros. Não pode mesmo evitá-lo. Se realmente conhecemos a Cristo como nosso Salvador, então nossos corações serão quebrantados e não poderão mostrar-se duros, e nós não poderemos recusar o perdão a quem nos tiver ofendido. Se você está recusando a perdoar a quem quer que seja, então quero sugerir-lhe que você nunca foi perdoado por Deus. ‘E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós temos perdoado aos nossos devedores’. Afirmo para a glória de Deus, e com a mais completa humildade, que sempre que eu me vejo perante Deus e percebo ao menos alguma coisa daquilo que meu bendito Senhor fez por mim, então me disponho a perdoar qualquer coisa que outrem tenha feito contra mim. Não posso reter o perdão, e nem ao menos quero retê-lo”.

Espantosa declaração, não é mesmo?

Mas em que consiste perdoar os nossos devedores? Perdoar os nossos devedores "consiste em lançar voluntariamente de nosso coração toda ira, ódio e desejo de vingança, e esquecer definitivamente toda injúria e ofensa que nos tenham feito, sem guardar rancor algum contra alguém" (João Calvino).

Perdoar é algo de tamanha importância para a nossa perfeita comunhão com Deus que Jesus achou por bem falar mais sobre esse assunto. Veja, por exemplo, Mt 5.23,24; 18.21-35 (principalmente o verso 35); Lc 6.37; 17.3,4.

Será que quando fazemos a Oração do Pai Nosso estamos sempre cientes do que pedimos na quinta petição?

Deus nos perdoou em Cristo apesar de nossos muitos e grandes pecados. Nossos pecados mataram o Rei da Glória. E até hoje pecamos. Por amor Àquele que tanto nos perdoou e ainda continua nos perdoando, perdoemos aqueles que pecam contra nós (cf. Mt 18.23-35). Pois não tem sentido fazermos a oração do Senhor, ou qualquer outra oração, se não perdoamos ao próximo. Será uma oração vã e, consequentemente, condenatória, porque Jesus condenou aqueles que oravam em vão (Mt 6.7).

O Senhor nos dê da sua graça para que sejamos verdadeiramente sinceros quando orarmos: "Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores". Portanto, quando orarmos o Pai Nosso, oremos neste espírito: "Perdoa-nos, ó Deus, assim como temos perdoado aos outros, por aquilo que tens feito por nós. Tudo quanto te pedimos é que nos perdoes da mesma maneira; não com o mesmo grau, porquanto tudo quanto fazemos é imperfeito. Por assim dizer, da mesma maneira que nos tens perdoado, nós temos perdoado aos outros. Perdoa-nos como nós os temos perdoado, por causa daquilo que a cruz de Cristo tem realizado em nosso coração".

O significado de "nascer da água e do Espírito" de João 3.5

Josivaldo de França Pereira


O que significa nascer da água e do Espírito? A expressão nascer da água e do Espírito tem sido interpretada de várias maneiras. As diferentes opiniões acontecem, basicamente, em torno da expressão "nascer da água". As principais interpretações referem-se 1) à palavra de Deus (A. W. Pink, Matthew Henry, entre outros); 2) ao batismo com água (W. Hendriksen, R. C. H. Lenski, entre outros); 3) à operação purificadora do Espírito Santo (J. Calvino, J. I. Packer, entre outros). Estou convencido de que a terceira interpretação é a correta. O argumento de Calvino sobre essa passagem é digno de consideração. Diz ele que:

(...) depois de Jesus Cristo expor a Nicodemos a corrupção de nossa natureza, e dizer-lhe que é preciso que sejamos regenerados, como Nicodemos imaginava um segundo nascimento corporal, Cristo lhe mostra de que maneira Deus nos regenera; a saber, em água e em Espírito; como se dissesse: Pelo Espírito, o qual purificando e regando as almas faz o ofício da água. Desse modo é que eu tomo a água e o Espírito simplesmente pelo Espírito, que é água. Esta maneira de falar não é nova, visto que está de acordo com a que se encontra em Mateus, onde João Batista diz: 'O que vem após mim vos batizará com Espírito Santo e com fogo' (Mt 3.11). Portanto, como batizar com Espírito Santo e com fogo é dar o Espírito Santo, o qual tem a natureza e a propriedade do fogo para regenerar aos fiéis, da mesma forma nascer da água e do Espírito não quer dizer outra coisa senão receber a virtude do Espírito Santo, que faz na alma o mesmo que a água no corpo.

Sei que outros interpretam esta passagem de outra maneira; mas eu não tenho dúvida de que este é o sentido próprio e natural da mesma, uma vez que a intenção de Cristo não é outra que advertir-nos sobre a necessidade de nos despojarmos de nossa própria natureza se queremos entrar no reino de Deus. (...) ninguém pode entrar no reino de Deus até ser regenerado com a água viva; isto é, com o Espírito.[1]

Packer, seguindo o pensamento de Calvino, afirma que em João 3.5 a palavra água "não se refere a nada externo que seja complementar à obra interior do Espírito nem ao batismo de João nem ao batismo cristão nem às águas do nascimento natural, como algumas pessoas têm suposto, mas, sim, ao aspecto purificador da renovação interior como tal, da maneira como é retratada em Ezequiel 36.25-27".[2] Diz ele, ainda, que o fato de não se mencionar a água no versículo 6 de João 3 é uma evidência de que no verso 5 a água é apenas "uma ilustração de um aspecto da ação renovadora do Espírito". [3]

Concluímos, portanto, que assim como não há diferença entre ver o reino de Deus e entrar nele; nenhuma distinção entre ver a vida (Jo 3.36) e entrar nela (Mt 19.17; Mc 9.43,45), também não existe qualquer diferença entre nascer da água e do Espírito. Ou seja, “longe de se referir a dois nascimentos, significa apenas um (o fato de que ambos os substantivos [água e Espírito] são regidos por apenas uma preposição [no grego] certamente favorece esse ponto de vista). Isto torna os versículos 3, 5, 6b e 7 (de João 3) afirmações paralelas”.[4]



[1] João Calvino, Institución de la Religión Cristiana. Vol. II. 3ª ed. Países Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986, IV, xvi, 25. Em seu Comentário de João, Calvino trata desse assunto ainda com mais detalhes. Consulte Calvin's Commentaries: The Gospel According to St John 1-10. Grand Rapids: Eerdmans, 1961, p. 64,65.

[2] J. I. Packer, Na dinâmica do Espírito. São Paulo: Vida Nova, 1991, p. 64.

[3] Idem, p. 64,65.

[4] D. A. Carson, Os perigos da interpretação bíblica. 2a ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 40.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Considerações gerais acerca do Reino de Deus

Josivaldo de França Pereira

A ideia de reino de Deus está presente em toda a Bíblia. No entanto, a expressão como tal aparece somente no Novo Testamento. A expressão "reino de Deus" ocorre 4 vezes em Mateus, 14 vezes em Marcos, 31 vezes em Lucas, 2 vezes em João, 6 vezes em Atos, 8 vezes em Paulo e 1 vez no Apocalipse. "Reino dos céus" aparece somente em Mateus (31 vezes). "Reino de Deus" e "reino dos céus" são variações linguísticas da mesma ideia (cf. Mt 19.23,24).[1] Mateus, que escreveu para os judeus, preferia usar a expressão idiomática semítica, enquanto que os demais escritores do NT, a forma grega theós (Deus). Os judeus, por respeito e temor, normalmente usavam um termo apropriado no lugar do nome de Deus (cf. Mt 21.25).
O reino de Deus também é o reino de Cristo. Jesus fala do reino do Filho do homem (Mt 13.41; 16.28); de "meu reino" (Lc 22.30; Jo 18.36). Paulo fala do "reino do Filho" (Cl 1.13) e "seu reino celestial" (2Tm 4.18). Pedro menciona a "entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 1.11). Deus confiou o reino a Cristo (Lc 22.29), e quando o Filho tiver completado o seu governo, entregará o reino ao Pai (1Co 15.24). Por isso, é o "reino de Cristo e de Deus" (Ef 5.5). "O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo" (Ap 11.15). Não existe nenhuma tensão entre "o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo" (Ap 12.10).
Quando se compara João com os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), percebe-se algo interessante. Nos sinóticos o tema dominante é o reino de Deus, cuja expressão aparece somente 2 vezes em João (3.3,5),[2] enquanto que vida ou vida eterna é um conceito menos usado. Num estudo cuidadoso de Reino nos sinóticos e de Vida em João, descobre-se que "ambos pertencem à mesma categoria teológica, e são sinônimos".[3] De acordo com C. K. Barret, vida eterna em João "substitui o reino de Deus dos evangelhos sinóticos".[4] Portanto, quando Jesus fala de ver ou entrar no reino de Deus, é o mesmo que ter vida eterna ou ser salvo (cf. Jo 3.16,17). O reino de Deus é o âmbito em que seu domínio é reconhecido e obedecido, e no qual prevalece sua graça.[5]
A menos que alguém nasça de novo, não pode sequer chegar a ver o reino de Deus; isto é, não pode experimentá-lo e participar dele; não pode possuí-lo e desfrutá-lo (cf. Lc 2.26; 9.27; Jo 8.51; At 2.27; Ap 18.7). Antes que alguém possa ver esse reino, antes que alguém possa entrar nesse reino, e antes que alguém possa ter vida eterna em qualquer sentido, é necessário nascer de novo.


[1] Cf. G. E. Ladd, Reino de Cristo, de Deus, dos Céus. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, Vol. III, 1990, p. 262.
[2] Não estamos considerando as três vezes em que a palavra "reino" aparece isoladamente em João 18.36.
[3] Cf. Júlio Paulo Tavares Zabatiero, Vida. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, Vol. IV, 1983, p. 758. Um exemplo de que as expressões reino de Deus e vida eterna são equivalentes pode ser encontrado em Marcos, onde "entrar na vida" (Mc 9.43,45) é o mesmo que "entrar no reino de Deus" (Mc 9.47).
[4] Ibidem.
[5] Cf. G. Hendriksen, Comentario del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 143.

Sofrimento em Paulo

(2Coríntios 11 e 12)

Josivaldo de França Pereira


O apóstolo Paulo é um exemplo de como o sofrimento pode ser uma bênção. Paulo escreveu sua Segunda Epístola aos Coríntios como um homem rejeitado pelas pessoas que ele mais amava. Nela ele derrama seu coração em meio a sérios ataques contra seu caráter e ministério. Seu apostolado foi posto em dúvida por seus inimigos. Sua integridade e lealdade, suas habilidades em liderar e seu amor pelos coríntios foram da mesma maneira questionados. Essa foi, provavelmente, a maior tempestade de oposição que o apóstolo enfrentou em sua vida. No capítulo 11 da mesma epístola, Paulo faz uma lista das muitas dificuldades e situações ameaçadoras pelas quais ele passara por amor ao evangelho. Incluídas em sua lista estão grandes aflições físicas, aprisionamentos, espancamentos, apedrejamentos, naufrágios, rios perigosos, assaltantes, perseguição de judeus e gentios, noites mal dormidas, frio e calor, fome e sede, além da preocupação diária com todas as igrejas.

Paulo era um homem extremamente humilde. Portanto, é com relutância que ele relata as visões e revelações do Senhor no capítulo 12 como uma das reivindicações do seu apostolado. Apesar de humilde, mesmo para um homem como Paulo não seria difícil se ensoberbecer diante de tão gloriosa revelação. Para que se evitasse tamanho pecado, diz ele: ''foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte'' (2Co 12.7).

Existem várias teorias a respeito da natureza do ''espinho na carne'' de Paulo. Nenhuma delas é conclusiva. Seja como for, está claro que o espinho tinha origem satânica (Deus usou Satanás como seu instrumento), era algo extremamente doloroso (a palavra grega para espinho em 2Co 12.7 é scólops, indicando alguma coisa pontiaguda como uma estaca). O diabo cravou-lhe essa ''estaca'', se no corpo ou na alma não sabemos. O que quer que fosse era algo terrivelmente doloroso que incomodava demais o apóstolo. Além disso, o espinho na carne era algo tremendamente humilhante. Paulo era constantemente humilhado (esbofeteado) pelo ''mensageiro de Satanás'' para que não se ensoberbecesse com a grandeza das revelações que recebeu do Senhor Jesus.

A grandeza das revelações que Paulo teve não teria sentido para a vida dele se a soberba tomasse conta de seu coração. Por isso, ao invés de gloriar-se com a grandeza daquelas revelações, Paulo passa a gloriar-se na experiência oposta, que revelava suas fraquezas e total dependência da graça suficiente de Jesus Cristo (2Co 12.9,10). Assim como Paulo, Deus muitas vezes nos humilhará através do sofrimento para não cometermos o pecado da soberba, ou qualquer outro tipo de pecado que possa nos levar ao prejuízo espiritual.


Bibliografia:

Calvino, João. 2Coríntios. São Paulo: Paracletos, 1995.

Champlin, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 4. São Paulo: Hagnos, 2002.

Kistemaker, Simon. Comentário do Novo Testamento: 2Coríntios. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.

Kruse, Colin. II Coríntios: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1994.

Lopes, Augustus Nicodemus. O que você precisa saber sobre batalha espiritual. São Paulo: Editora Cultura Cristã, S/d.

A vida nas mãos de Deus

A Mensagem do Salmo 31.15
Josivaldo de França Pereira

Durante anos e anos o livro dos Salmos tem enriquecido a vida espiritual do povo de Deus. A razão disso está no fato de nos identificarmos com as lutas e as vitórias dos salmistas. Muitas das experiências dos salmistas são, de certa forma, as nossas experiências também. Porém, o que mais tem fascinado os crentes através dos tempos é a vida espiritual de comunhão com Deus que os salmistas levavam. Um bom exemplo dessa espiritualidade é a oração de Davi no Salmo 31, em especial a primeira parte do verso 15 que diz: "Nas tuas mãos estão os meus dias". Permita-me compartilhar com você esta preciosidade dos Salmos.

Num mundo em que as pessoas estão cada vez mais interessadas em si mesmas, autoconfiantes, porém (paradoxalmente) confusas e inseguras acerca do dia de amanhã, em que circunstância poderíamos nos aproximar de Deus e dizer-lhe com a mesma convicção de Davi, "Nas tuas mãos estão os meus dias"? Consideremos três aspectos.

1) Em primeiro lugar, podemos dizer "nas tuas mãos estão os meus dias" quando dependemos inteiramente de Deus.

Somente alguém que se entrega totalmente aos cuidados de Deus é capaz de declarar ao Senhor: "Nas tuas mãos estão os meus dias". Somente quem vive em função do próprio Deus pode dizer e cantar:

De ti, Senhor, careço!

Do teu amparo, sempre!

Oh, dá-me tua bênção!

Aspiro a ti.

(Dependência - NC 120)

Uma das maiores expressões de dependência de Deus é a oração. Ao orarmos reconhecemos diante de Deus que somos fracos, pequenos e necessitados de sua graça e compaixão imensuráveis. O Salmo 31 é uma oração de Davi do começo ao fim, onde o versículo 15 é ponto alto de sua súplica. É como se Davi dissesse a Deus: "Nas tuas mãos estão os meus dias porque sem a tua ajuda, sem a tua proteção e sem a tua providência constante em minha vida eu não tenho condições de dar um passo sequer". Este anseio de Davi em estar ligado a Deus também é marcante nos Salmos 42 e 63. Contudo, uma das melhores ilustrações da oração de Davi no Salmo 31.15 está no pedido de Pedro em João 6. Depois que o Senhor Jesus acabou de proferir o sermão do pão da vida, muitos que o seguiam se escandalizaram e o abandonaram. Em seguida Jesus se voltou para os doze e lhes perguntou se também queriam deixá-lo. "Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus" (Jo 6.68). Observe a expressão: "Senhor, para quem iremos?". O que Pedro quis dizer foi exatamente isto: "Não há outra pessoa a quem podemos ir; não há outra pessoa que satisfaça o anelo do coração" (G. Hendriksen).

Assim oraram Davi e Pedro; assim deve orar todo aquele que crê que "a nossa suficiência vem de Deus" (2Co 3.5).

2) Em segundo lugar, podemos dizer como o salmista "nas tuas mãos estão os meus dias" quando confiamos verdadeiramente em Deus.

Quem depende inteiramente de Deus com certeza confia nele. Davi confiava no Senhor de maneira absoluta e incondicional. Observe que o versículo 15 do Salmo 31 é o reflexo da confiança impressa no versículo 14. Enquanto os inimigos de Davi confiavam nos ídolos e a eles dedicavam suas vidas, o salmista buscava ao Senhor dizendo: "Quanto a mim, confio em ti, Senhor. Eu disse: Tu és o meu Deus. Nas tuas mãos estão os meus dias...". Havia, ainda, um problema específico, mas o salmista o entregou a Deus: "... livra-me das mãos dos meus inimigos e dos meus perseguidores" (v15b). Davi faz um jogo de palavras com o termo "mãos" do verso 15, como se quisesse dizer: "Livra a minha vida das mãos dos meus inimigos porque a minha vida está nas tuas mãos". Todavia, fosse qual fosse o problema, era costume de Davi confiar totalmente em Deus para solucioná-lo.

Será que temos confiado em Deus com a mesma intensidade do salmista? Temos confiado em Deus a ponto de o deixarmos resolver os nossos problemas? Muitas vezes permitimos que os nossos problemas pareçam maiores que o nosso Deus. Não acreditamos que ele possa resolvê-los de fato, ou então esperamos que ele os resolva ao nosso modo. Não ousamos dizer-lhe que faça a nossa vontade, mas Deus, que é poderoso e tremendo, sonda o nosso coração e se entristece ao ver que não confiamos nele de verdade.

"Ajuda-me, Senhor, a confiar em ti de tal maneira que eu não carregue comigo aqueles problemas que já entreguei ao teu cuidado" (W. Kaschel).

3) Finalmente, mas não menos importante, podemos fazer das palavras de Davi, "nas tuas mãos estão os meus dias", nossas palavras, quando reconhecemos a direção de Deus em nossa vida.

É interessante notar que Davi faz mais do que crer na existência de Deus. Ele nem ao menos pede a Deus: "Daqui pra frente dirige a minha vida". Ao contrário, o que ele faz no verso 15 é "relembrar" ao Senhor que a sua vida está nas mãos de Deus porque o Senhor já é o seu Deus! (cf. v14). Por isso Davi não precisaria temer os seus inimigos e perseguidores ou qualquer outra situação de perigo (veja Salmos 27.3; 46.1-3). A direção de Deus na vida de Davi fazia diferença.

Semelhantemente, quando Deus dirige nosso destino não somos sufocados pelo desespero e ansiedade (cf. Mt 6.25-34; Fp 4.6; Hb 13.5,6; 1Pe 5.7). Quando Deus dirige a nossa vida somos profundamente gratos a ele por tudo (1Ts 5.18) e nos comportamos com maturidade em relação ao próximo. Alguns exemplos desse último: Por estar ciente da direção de Deus em sua vida foi que Davi poupou a vida de Saul (1Sm 24). E José do Egito? Sabendo que Deus dirigia o rumo de sua existência, José deixou para Deus as ofensas de seus irmãos ao invés de fazer justiça com as próprias mãos. José perdoou seus irmãos porque viu o propósito de Deus em meio à maldade deles. Davi fez o mesmo com Saul. Nós também podemos fazer o mesmo com o nosso semelhante se de fato reconhecemos a direção de Deus em nossa vida.

Um dos piores males existentes no meio do povo de Deus hoje em dia é a falta do perdão. Esta falta de perdão, por sua vez, é motivada pela falta de compreensão da direção de Deus. Quando entendermos que é Deus quem dirige as grandes e as pequenas coisas do nosso viver e não o acaso, a fatalidade, a sorte ou o azar, e que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28), então nunca mais teremos problemas em nosso relacionamento interpessoal porque não teremos mais dificuldade em perdoar quem quer que seja. As pessoas com maior dificuldade em perdoar são aquelas que não conseguem ver Deus na direção de suas vidas.

Depender de Deus em tudo, confiar totalmente nele e ser dirigidos pelas suas mãos deveriam ser os nossos maiores ideais todos os dias da nossa vida. Porque na vida o que realmente deve importar ao servo e à serva de Deus não é se os sonhos serão ou não realizados, se haverá ou não muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender durante o ano, mas sim, poder entrar, passar e sair de mais um ano com a mesma certeza de Davi: "Nas tuas mãos, Senhor, estão os meus dias"! Que Deus o (a) abençoe.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

"Segundo a ordem de Melquisedeque"

Interpretação de Hebreus 7.3

Josivaldo de França Pereira


Em Hebreus 7.3 é dito acerca de Melquisedeque: "Sem pai, nem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto feito semelhante ao Filho de Deus". E ainda: "Permanece sacerdote perpetuamente". Qual o significado dessa passagem?

Este texto não deve ser entendido como se Melquisedeque tivesse aparecido do nada. Quando o texto sagrado diz que ele não tinha pai e mãe, nem princípio nem fim, significa tão somente que ele não tinha genealogia no sentido de não existir registro algum de sua origem, de sua descendência (se porventura teve filhos) ou de sua morte. O próprio Deus determinou que fosse assim para que Melquisedeque tipificasse o sacerdócio perfeito de Cristo. Ou como o próprio Davi declarou: "O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (Sl 110.4; cf. Hb 5.6; 6.20; 7.17,21).

Quando o autor da carta aos Hebreus diz em 7.3 que Melquisedeque "permanece sacerdote perpetuamente" também não está dizendo que Melquisedeque seja o próprio Senhor Jesus. O texto bíblico diz que ele "foi feito semelhante ao Filho de Deus". A palavra "semelhante" significa parecido e não a mesma pessoa. Melquisedeque foi feito por Deus semelhante a Jesus quanto ao fato de não ter princípio nem fim (figuradamente falando) e, conseqüentemente, em seu aspecto sacerdotal. Portanto, a expressão "permanece sacerdote perpetuamente" refere-se à ordem sacerdotal de Melquisedeque cumprida na pessoa de Cristo. Com sua encarnação, morte e exaltação, Jesus tornou-se nosso eterno sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque.

Por não existir registro da origem e do fim da vida de Melquisedeque, seu sacerdócio é tido como superior ao sacerdócio levítico, como foi o de Jesus. Veja Hebreus 7.4-19.

Vale destacar ainda que a expressão "não teve princípio de dias, nem fim de existência" também aponta para a natureza divina da pessoa de Cristo. Como Deus eterno Jesus não teve princípio e não terá fim.

Esboço de Sermões

Josivaldo de França Pereira


A CORRIDA CRISTÃ: POR QUE E COMO DEVEMOS CORRÊ-LA?

Hebreus 12.1-3

As competições olímpicas eram práticas apreciadas e admiradas no mundo antigo. Ainda hoje os eventos olímpicos mexem com a emoção de muita gente. Escritores bíblicos como Paulo e o autor da carta aos Hebreus fizeram constante menção das atividades esportivas em seus escritos. Eles eram apreciadores do esporte e dele sabiam tirar lições preciosas para a vida cristã. Um exemplo clássico disso é a passagem bíblica de Hebreus 12.1-3. O autor aos Hebreus extrai da figura de um estádio lotado, do espírito da dinâmica de uma competição olímpica, uma ilustração para a vida cristã. Após relatar a luta e a vitória dos heróis e heroínas da fé do Antigo Testamento, o autor aos Hebreus direciona o olhar de seus leitores para o Campeão dos campeões, Jesus. Mostra a eles como aqueles campeões, e principalmente Jesus Cristo, venceram a corrida cristã e porque e como eles (seus leitores) deviam corrê-la.

Mas entremos também nesta corrida, pois ela é de todo aquele que verdadeiramente corre a corrida da fé.

I. Por que devemos participar da corrida cristã?

1. Porque ela é determinada por Deus (v1).

2. Porque ela é incentivada pelos heróis da fé (v1).

3. Porque ela é inspirada na vitória de Cristo (v2).

II. Como devemos correr a corrida cristã?

1. Negativamente falando:

a. Desembaraçando-nos de todo peso (v1)

b. E do pecado que tenazmente nos assedia (v1)

2. Positivamente falando:

a. Devemos correr com perseverança (v1)

b. Olhando firmemente para Jesus (v2)

III. O exemplo de Jesus

1. Em sua humilhação (v2, 3)

2. Em sua exaltação (v3)

Conclusão e aplicação:

Devemos participar da corrida cristã porque ela é determinada por Deus, incentivada pelos heróis da fé e inspirada na vitória de Cristo. Devemos corrê-la com perseverança, abandonando tudo que é ruim, olhando firmemente para Jesus, nosso maior exemplo de vitória.

Quero me dirigir primeiramente a você que está desanimado na fé. Olhe para Jesus, não se esqueça que ele venceu para você vencer. E a você que está na raia certa, eu também quero lhe dizer: não olhe para trás. Siga avante! Não se importe com os obstáculos, apesar de não serem poucos nem pequenos. Enquanto você estiver seguindo adiante, olhando firmemente para Jesus, você estará garantindo e confirmando sua vitória nas olimpíadas da fé.


O PASSAPORTE PARA O REINO DE DEUS

João 3.1-12

Suponhamos que você estivesse seguindo em direção ao aeroporto a fim de viajar para um país distante. Na hora de mostrar o passaporte no guichê você não o encontra de jeito nenhum. De repente você se lembra que o deixou em casa, em cima do televisor; porém, buscá-lo agora não seria possível porque você mora longe e, de qualquer forma, perderá o vôo. Sem passaporte não há como embarcar. Assim é em relação ao reino de Deus. Sem passaporte não há como entrar nele, e nem ao menos vê-lo.

Que passaporte é esse? Quem o expede? Como podemos consegui-lo? Quanto custa? É o que pretendemos conferir neste sermão.

1. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento.

a. Um homem chamado Nicodemos (v1)

b. O conceito joanino de reino de Deus (vv3,5)

c. O contexto do novo nascimento (v6)

2. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo.

a. O significado de nascer da água e do Espírito (v5)

b. Livre e soberanamente (v8)

c. Sobrenatural e misteriosamente (v8)

3. O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo de graça.

a. Por que de graça? (v7)

b. A graça de Deus no novo nascimento (v7)

c. A condição necessária do novo nascimento (vv3,7)

Conclusão e aplicação:

O passaporte para o reino de Deus é o novo nascimento produzido pelo Espírito Santo de graça. Se você pensa como Nicodemos e ainda se encontra acomodado em sua própria religiosidade e confiante em suas próprias obras, saiba que se você não nascer de novo não entrará no reino de Deus. Se você não tiver uma profunda compreensão do que é a natureza humana, não se arrepender de seus pecados e confiar somente em Jesus para a vida eterna, de modo algum você verá a vida ou entrará no reino de Deus.


UMA ATITUDE VERDADEIRAMENTE CRISTÃ

Gênesis 50.15-21

Jacó havia morrido e os irmãos de José temeram por suas vidas (v15). Então, enviaram um mensageiro a José para interceder por eles (v16). Sensibilizado, José chorou enquanto o mensageiro lhe falava (v17). Em seguida chegaram seus irmãos, prostraram-se diante dele e disseram: "Eis-nos aqui por teus servos" (v18). A palavra hebraica abadim (servos) pode ser traduzida por "escravos", que é melhor, mais forte, e se adéqua perfeitamente no contexto.[1]

O que segue é uma das mais belas antecipações do evangelho.

1. José deixa com Deus a maldade de seus irmãos

"Respondeu-lhes José: Não temais; acaso estou eu em lugar de Deus?" (v19).

2. José vê o propósito de Deus na maldade de seus irmãos

"Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida" (v20, cf. 45.5-8).

3. José paga com o bem a maldade de seus irmãos

"Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração" (v21)

Conclusão e aplicação:

De tudo que podemos aprender de José, o que ficam são suas lições práticas para a vida cristã. Considerando que José viveu cerca de 1600 anos antes de Cristo, ele antecipou para nós o verdadeiro sentido do adjetivo que qualifica alguém como cristão ou semelhante a Cristo. José, em uma atitude verdadeiramente cristã, soube deixar com Deus a ofensa de seus irmãos (v19) porque aprendeu a ver o propósito divino na maldade dos mesmos (v20) e, além de tudo isto, pagou com o bem o mal que lhe fizeram (v21). Em outras palavras, José praticara o que o Senhor Jesus e o apóstolo Paulo ensinariam futuramente; a saber, pagar o mal com o bem (Rm 12.21) com demonstração prática de perdão (Mt 18.23-35). Eis aí um típico cristão no Antigo Testamento, com o qual o cristão do novo milênio deveria aprender e a ele imitar.

Quero dizer a você que porventura esteja brigado com um irmão ou parente qualquer, que você só poderá dizer que confia verdadeiramente no juízo de Deus e reconhece a direção dele em sua vida, quando você aprender a pagar o mal com o bem.



[1] A mesma palavra abadim aparece em Gênesis 44.9. A diferença é que nessa passagem (Gn 44.9) ela foi dita hipoteticamente, enquanto que em Gênesis 50.18, sincera e verdadeiramente.

A Trindade

Josivaldo de França Pereira


A palavra “Trindade” é usada para expressar a verdade bíblica de que o ser divino existe em três pessoas distintas. Embora o vocábulo “trindade” não apareça na Bíblia, a idéia percorre todos os livros da mesma.

O primeiro a usar o termo foi o teólogo Tertuliano de Cartago em seu tratado “Contra Práxeas”, na última década do 2o século da era cristã, além de ter sido também o primeiro a formular esta doutrina. No entanto, sua definição foi deficiente, posto que ensinava uma injustificada subordinação do Filho ao Pai.

Não seria demais ressaltar que o verdadeiro sentido da doutrina da Trindade só pode ser entendido pelo estudo da Bíblia. E foi mediante o estudo sério da Palavra de Deus que encontramos a seguinte definição do Breve Catecismo de Westminster: “Há três pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”.

1. A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA

Conforme a definição do Breve Catecismo, Deus é uma Divindade única, existente em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Estas pessoas não são, como tantas pessoas entre os homens, três indivíduos inteiramente separados. “São antes três modos ou formas em que existe a essência divina” (L. Berkhof). “O termo ‘essência’ descreve Deus como uma soma total de infinitas perfeições” (W. G. T. Shedd).

O mistério real da Trindade consiste no fato de que as três pessoas são um em seu ser essencial e que a essência divina não está dividida entre as três pessoas, mas inteiramente, com todas as suas perfeições ou atributos em cada uma delas. Além disso, em seu ser essencial as três pessoas não estão subordinadas uma à outra, ou seja, o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo, e vice-versa, ao contrário do que ensinava a heresia conhecida como “patripassionismo”, combatida por Tertuliano. Pode-se dizer, no entanto, que na ordem de existência o Pai é o primeiro, o Filho o segundo e o Espírito Santo o terceiro, e essa ordem se reflete também na obra da criação e da redenção; a saber, na economia da Trindade.

As três pessoas se distinguem por certas características pessoais: O Pai gera o Filho, o Filho é gerado pelo Pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Esta doutrina é um dos grandes mistérios da fé, e por isso está muito além de nossa compreensão humana. Portanto, não está ao alcance da Igreja explicar o mistério da Trindade; ela apenas sistematiza o que a Bíblia diz, formulando a doutrina de tal modo que se evitem os erros e as heresias.

2. PROVAS BÍBLICAS DA TRINDADE

a) No Antigo Testamento

Alguns são de opinião que o Antigo Testamento não contém quaisquer indicações da Trindade, mas isso não é verdade. É mais correto dizer que o Antigo Testamento não contém uma revelação completa da existência trinitária de Deus em relação ao Novo Testamento. Todavia, que o Deus Triúno está presente no AT é inquestionável.

Há passagens que indicam que existe mais de uma pessoa em Deus, como por exemplo, naquelas em que Deus fala de si mesmo no plural (Gn 1.26; 11.7); quando o Anjo do Senhor é apresentado como uma pessoa divina, recebendo adoração (Ex 3.2-6; Jz 13.12-22; Ml 3.1); e também nas passagens em que se personifica a Palavra ou Sabedoria de Deus (Sl 33.4,6; Pv 8.12-31). Em alguns casos menciona-se mais de uma pessoa (Sl 33.6; 45.6,7, compare com Hb 1.8,9), e em outros Deus fala acerca do Messias e do Espírito Santo, ou o Messias fala de Deus e do Espírito (Is 48.16; 61.1; 63.9,10). Desse modo, o Antigo Testamento contém uma clara antecipação da revelação da Trindade, que no Novo Testamento aparece plenamente desenvolvida.

b) No Novo Testamento

É perfeitamente natural que as provas neotestamentárias sejam ainda mais claras que as do Velho Testamento, uma vez que o Novo registra a encarnação do Filho de Deus e o derramamento do Espírito Santo. Há diversas passagens em que as três pessoas são expressamente mencionadas, como em relação ao batismo de Jesus (Lc 3.21,22); no discurso de despedida de Jesus (Jo 14.16); na Grande Comissão (Mt 28.19); na bênção apostólica (2Co 13.13), e também em passagens como estas: Lucas 1.35; 1Coríntios 12.4-6; 1Pedro 1.2.

O Novo Testamento oferece a revelação clara do Deus que envia seu Filho ao mundo (Jo 3.16; Gl 4.4; Hb 1.6; 1Jo 4.9); e os dois, Pai e Filho, enviam o Espírito Santo (Jo 14.26; 15.26; 16.7; Gl 4.6). Encontramos o Pai dirigindo-se ao Filho (Mc 1.11; Lc 3.22), o Filho se comunicando com o Pai (Mt 11.25,26; 26.39; Jo 11.41; 12.27,28) e o Espírito Santo orando a Deus nos corações dos crentes (Rm 8.26). Dessa maneira, as pessoas da Trindade se perfilam melhor em nosso entendimento.

c) Comparação entre o Antigo e o Novo Testamentos

No Antigo Testamento Deus é apresentado como o Redentor e Salvador do seu povo (Jó 19.25; Sl 19.14; 78.35; 106.21; Is 41.14; 43.3,11,14; 47.4; 49.7,26; 60.16; Jr 14.3; 50.14; Os 13.3). No Novo Testamento o Filho de Deus claramente se destaca nessa obra (Mt 1.21; Lc 1.76-79; Jo 4.42; At 5.3; Gl 3.13; 4.5; Fp 3.30; Tt 2.13,14). No Antigo Iaveh habita no meio de Israel e nos corações dos que o temem (Sl 74.2; 135.21; Is 8.18; 57.15; Ez 43.7-9; Jl 3.17,21; Zc 2.10,11). No Novo o Espírito Santo é quem habita nos crentes (At 2.4; Rm 8.9,11; 1Co 3.16; Gl 4.6; Ef 2.22; Tg 4.5).

3. CONCEITOS ERRADOS SOBRE A TRINDADE

Na Igreja Cristã Primitiva alguns apresentaram as três pessoas da Trindade como sendo três deuses.

Os sabelianos do 3o século negaram a existência das três pessoas na divindade, e afirmaram que Deus se revelou como Pai na criação e na transmissão da lei, como Filho na encarnação e como Espírito na regeneração e santificação. As três pessoas eram reduzidas em uma.

Paulo de Samosata, também do 3o século, os socinianos da época da Reforma e as Testemunhas de Jeová do presente, representam a Trindade como consistindo em Deus Pai, o homem Jesus Cristo e a influência divina chamada Espírito de Deus. Essa opinião também representa Deus como um, não só no ser, mas igualmente em pessoa; por isso ignoram o verdadeiro conceito de Trindade.

Que o Espírito Santo nos ajude a viver de maneira que expressemos o significado do Deus Trino de forma autêntica e segura.

Perguntas de Recapitulação

1. Em que consiste o mistério real da Trindade?

2. Qual deve ser a atitude da Igreja em relação a esta doutrina?

3. Quais são os erros cometidos em relação a esta doutrina?


Bibliografia:

BERKHOF, Louis. A história das doutrinas cristãs. São Paulo: PES, 1992.

______________. Manual de doutrina cristã. Campinas/Patrocínio: LPC/Ceibel, 1985.

BROMILEY, G. W. Trindade. In: Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990.

GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2011.

MARRA, Cláudio A. B. (Ed.). O breve catecismo de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

MESQUITA, Antonio Neves de. A doutrina da Trindade no Velho Testamento. Rio de Janeiro: Dois Irmãos, 1956.

SHEDD, W. G. T. Dogmatic Theology. Vol. 1. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1980.