domingo, 24 de abril de 2011

Scriptura Scripturae interpres

Josivaldo de França Pereira


Um dos princípios defendidos pelos reformadores do século XVI é que a Scriptura Scripturae interpres, isto é, a Palavra de Deus é um todo orgânico, no qual as partes se relacionam e todas se subordinam à revelação de Deus e que, em última análise, a Escritura é a intérprete da Escritura. Esse é um princípio correto e bíblico. Por exemplo: Quando Davi diz acerca de Amasa: “Não és tu meu osso e minha carne?” (2Sm 19.13), descobrimos com a leitura de 1Crônicas 2.13-17 que Amasa era sobrinho de Davi, filho de sua irmã Abigail. E quando Paulo afirma em 2Tessalonicenses 3.2 que “a fé não é de todos”, e quase inevitavelmente perguntamos: “Por que não?”, a resposta está em Tito 1.1.

Pouco mais de um século depois da Reforma Protestante, esse princípio foi apreciado e defendido pela Assembleia de Westminster:

A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.[1]

Os reformadores sustentavam, ainda, que a Bíblia é a inspirada Palavra de Deus (cf. 2Tm 3.16,17; 2Pe 1.20,21). Por “inspiração” entendiam que a influência sobrenatural do Espírito Santo sobre os escritores sagrados, em virtude da qual seus escritos obtiveram veracidade divina, constitui-se suficiente e infalível regra de fé e prática. Consideravam a Bíblia a mais alta autoridade e a corte final de apelação em todas as questões teológicas, sendo o Espírito Santo o Juiz Supremo falando na Escritura.

João Calvino – o exegeta da Reforma e teólogo do Espírito Santo, que comentou quase todos os livros da Bíblia, e até hoje é reconhecido seu valor - entendia como “primeiro dever de um intérprete, permitir que o autor diga o que realmente diz, ao invés de lhe atribuir o que pensamos que devia dizer”.[2] Além disso, “Calvino resgatou alguns aspectos da doutrina do Espírito Santo que estavam soterrados debaixo da teologia medieval da igreja católica romana, como por exemplo, a relação entre a Palavra e o Espírito”.[3] Para ele nenhuma pessoa poderia interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito Santo através da própria Palavra. “O ponto central de Calvino era que o Espírito fala pelas Escrituras”.[4] Hoje, esse mesmo pensamento é ratificado por aqueles que, verdadeiramente, creem que as Escrituras Sagradas são a Palavra de Deus e a única regra de fé e prática dada por Deus à sua Igreja.

Pode-se dizer, sem exagero algum, que a interpretação da Bíblia divide-se em antes e depois de Calvino. Segundo Hughes, a exposição bíblica de Calvino representa uma surpreendente e completa ruptura com o método alegórico retorcido e complicado de exposição dos eruditos escolásticos.[5] Calvino interpretou a Escritura de acordo com sua ideia principal, direta e de sentido natural.[6]

Conquanto os reformadores preferissem uma leitura literal das Escrituras, eles estavam perfeitamente conscientes de que determinados textos seriam mais bem interpretados como sendo figurados e simbólicos. Um exemplo são os textos referentes à ceia do Senhor. Os reformadores rejeitaram a interpretação literal da expressão “isto é o meu corpo; isto é o meu sangue”.[7] Do mesmo modo, várias passagens do livro de Apocalipse requerem uma interpretação figurada e simbólica do texto bíblico.[8]


Bibliografia selecionada

ALMEIDA, Antonio. Manual de hermenêutica sagrada. 2ª ed. São Paulo: CEP, 1985.

BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1985.

CARSON, D. A. Os perigos da interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2005.

FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês?. São Paulo: Vida Nova, 1984.

LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes. Cultura Cristã, 2004.



[1] Confissão de Fé de Westminster, I, 9.

[2] Citado por Berkhof, Princípios de interpretação bíblica, 3ª ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1985, p. 30.

[3] Agustus Nicodemus Lopes, Calvino, o teólogo do Espírito Santo. São Paulo: PES, S/d, p. 5.

[4] Idem, p. 13. (Itálico do autor).

[5] Philip E. Hughes, La pluma del profeta. In: Juan Calvino, profeta contemporáneo. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 94.

[6]Na exposição de 2Coríntios 3.6, Calvino explica porque rejeitou o método alegórico de interpretação em favor da ênfase no sentido literal, gramático-histórico do texto. Veja também Berkhof, op. cit., p. 28-31; Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e seus intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 159-167.

[7] Cf. Lopes, op. cit., p. 166,67.

[8] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 24-31.

O jovem desnudo de Marcos 14.51,52

Josivaldo de França Pereira

“Seguia-o um jovem, coberto unicamente com um lençol, e lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol, fugiu desnudo”
Quem é o jovem que estranhamente aparece em Marcos 14.51,52? Embora não possamos afirmar com toda a certeza, há um forte indício de que seja o próprio autor do Livro, o evangelista João Marcos.[1] O episódio ocorre somente em Marcos, sem qualquer importância para Mateus, Lucas e João.
O ocorrido seria aparentemente sem significado para o próprio Marcos se não fizesse sentido para ele. Considerando que o livro de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos a serem escritos, e que Mateus, Lucas e João tiveram acesso a ele, só reforça a afirmação de que o relato da noite de Marcos 14.51,52 era significativo para o autor do Segundo Evangelho, como se fosse a assinatura de um artista no canto da tela.
Champlin diz que a ideia de identificar o evangelista Marcos com o jovem desnudo ignora a declaração feita por Papias de que Marcos não era testemunha ocular dos fatos e, “... nem ouvira ao Senhor e nem o seguira...”, mas que registrara as memórias de Pedro.[2] Contudo, nada indica no texto de Marcos 14.51,52 que o evangelista (considerando que era ele mesmo o jovem desnudo) ouvira o Senhor ou o seguia como um “discípulo” no sentido comum do termo.
O fato de o jovem desnudo estar envolto num lençol, sugere que ele seguiu a Jesus mais pela curiosidade do que pela devoção? Não sabemos ao certo. Champlin declara: “Mas pelo menos é significativo que esse jovem seguiu a Jesus, ao passo que os próprios doze apóstolos fugiram”.[3] No entanto, o texto diz que quando “lançaram-lhe a mão”, o jovem largou o lençol e “fugiu desnudo”. É como se Marcos também se incluísse no verso 50: “Então, deixando-o, todos fugiram”.
Talvez o jovem estivesse dormindo quando soube do que estava para acontecer com Jesus. Só teve tempo de se cobrir com um lençol e ir atrás dele. Hendriksen descreve como uma das cenas poderia ter ocorrido:
“É também possível que o jovem tivesse sido despertado de seu sono – supondo que dormia! – um pouco depois [da partida de Jesus e os onze do cenáculo]. A situação pode ter acontecido como segue: Judas e sua tropa chegaram à casa de Marcos, pensando que Jesus estivesse ali. A comoção causada pela frustração deles desperta Marcos. Envolto ligeiramente com um lençol, pressentindo o que acontece, corre para fora [do quarto] a fim de prevenir a Jesus, mas ele já tinha partido. Chega ao Getsêmani no exato momento em que os onze fogem e Jesus é levado. Ao seguir a Jesus, ocorre este intento de captura”.[4]


[1] Este ponto de vista é sustentado pela maioria dos comentaristas. Guillermo Hendriksen (In: Comentario del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Marcos. Grand Rapids: SLC, 1897, p. 609-10. Nota 749) apresenta uma lista dos principais defensores e opositores de Marcos como sendo o jovem desnudo. Veja os argumentos de Hendriksen em defesa de Marcos como o jovem desnudo nas páginas 608-611 de sua obra.
[2] R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 786.
[3] Idem, p. 787.
[4] Hendriksen, op. cit., p. 611. Veja também as páginas 11 e 12.

domingo, 3 de abril de 2011

Por que os discípulos não desconfiaram de Judas Iscariotes?

Josivaldo de França Pereira

As Escrituras predisseram a traição de Judas Iscariotes (Sl 41.9; 55.12-14,20,21; 69.25; 109.8). Pedro disse: “Irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus” (At 1.16). Em sua oração sacerdotal Jesus falou ao Pai: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura” (Jo 17.12).
Desde o início Jesus sabia, é claro, que Judas o trairia: “Replicou-lhes Jesus: Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo, um de vós é diabo. Referia-se ele a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque era quem estava para traí-lo, sendo ele um dos doze” (Jo 6.70,71). “Pois ele sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: Nem todos estais limpos” (Jo 13.11). Os termos “diabo” (Jo 6.70) e “filho da perdição” (Jo 17.12) que Jesus usou para se referir a Judas Iscariotes, são os mesmos nomes atribuídos a Satanás (Ap 12.9) e ao Anticristo (2Ts 2.3), respectivamente.
Embora Judas fosse do Maligno, até poucas horas antes de trair a Jesus, ele aparentava ser igual aos outros, a ponto dos discípulos não desconfiarem dele nem mesmo quando Jesus apontou o traidor. Lucas diz que Judas “se tornou traidor” (Lc 6.16) e João declara que, durante a ceia, o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes que traísse a Jesus (Jo 13.2), indicando que a traição brotou no coração de Judas fazia pouco tempo. Contudo, João havia, outrora, revelado o caráter diabólico de Judas na ocasião em que o Mestre era ungido por Maria em Betânia: “Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava” (Jo 12.4-6).
Quanto ao fato de Judas não ter cuidado dos pobres e ser ladrão, João ficou sabendo somente depois da traição. Judas era o tesoureiro do colégio apostólico e, para os discípulos, ele era um homem acima de qualquer suspeita. Isso ficou claro por ocasião da Ceia, quando o Senhor Jesus disse: “... Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá. Então, os discípulos olharam uns para os outros, sem saber a quem ele se referia” (Jo 13.21,22).
Assim que Pedro fez sinal e João perguntou ao Mestre acerca de quem ele se referia (Jo 13.23-25), “Respondeu Jesus: É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado. Tomou, pois, um pedaço de pão e, tendo-o molhado, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás. Então, disse Jesus: O que pretendes fazer, faze-o depressa. Nenhum, porém, dos que estavam à mesa percebeu a que fim lhe dissera isto. Pois, como Judas era quem trazia a bolsa, pensaram alguns que Jesus lhe dissera: Compra o que precisamos para a festa ou lhe ordenara que desse alguma cousa aos pobres” (Jo 13.26-29). Apesar de todas as evidências (a entrega do bocado por Jesus e suas palavras dirigidas diretamente a Judas), os discípulos ainda não descobriram que Judas era o traidor.
Certamente, o bocado recebido por Judas não foi “o pão da comunhão”, mas a “deixa” de Jesus para Satanás se apoderar definitivamente do traidor. “E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás...” (Jo 13.27).
Por que os discípulos não desconfiaram de Judas Iscariotes? Seria por que Judas era um mestre da esperteza, o mais dissimulado dos homens, um ladrão genial? Nada disso. Judas era tão “brilhante” em sua inteligência quanto os outros discípulos. Falou de “trezentos denários” (Jo 12.4,5) e traiu o Mestre por “trinta moedas de prata” (Mt 26.15); sentiu um remorso patético pelo que fez, devolveu as moedas e se matou (Mt 27.3-5).
Os discípulos não desconfiaram de Judas porque o Mestre o tratava igual aos outros. Mesmo sabendo que Judas o trairia, Jesus nunca o tratou com indiferença ou menosprezo. Nosso Senhor não agiu desse modo nem quando teve, por assim dizer, a oportunidade de fazê-lo (Jo 12.4-8).[1] Mateus relata que, após o beijo da traição, Jesus chama Judas de amigo. “Amigo, para que vieste?” (Mt 26.50). Lucas registra que Jesus disse: “Judas, com um beijo trais o Filho do homem?” (Lc 22.48). Judas tinha acabado de trair Jesus pelas costas (Mt 26.14-16), agora o traía pela frente com um beijo hipócrita (Mt 26.48,49). Ainda assim, nosso Senhor falou terna e afetuosamente com ele, chamando-o de amigo e pelo nome. Judas reconheceria tardiamente que pecou “traindo sangue inocente” (Mt 27.4).
Em suma, não foi Judas Iscariotes que conseguiu se disfarçar entre os discípulos, foi Jesus que não quis revelar antes a verdadeira identidade do traidor.


[1] No episódio de Betânia (Jo 12.1-8) fica claro que, após a declaração de Judas, o Mestre se dirige a todos os discípulos (Jo 12.7,8). Mateus (26.6-11) e Marcos (14.3-7) relatam que os discípulos foram coniventes com o parecer de Judas.

A Páscoa no calendário

Josivaldo de França Pereira


Por que o Natal é comemorado sempre no dia 25 de dezembro e a Páscoa é celebrada em dia e até mês diferentes da páscoa anterior? Sabemos que a páscoa judaica e a páscoa cristã são distintas em sua essência, embora ambas abordem o mesmo tema da libertação. A primeira comemora a libertação do cativeiro egípcio sob a liderança de Moisés, enquanto que a segunda, a páscoa cristã, enfoca a libertação do pecado em Cristo Jesus, mediante sua morte e ressurreição.

Contudo, gostaria de chamar sua atenção para o lugar da páscoa nos calendários judaico e cristão. Os judeus comemoram a páscoa no mês de nissan, que equivale ao nosso mês de março ou abril. O calendário judaico é basicamente lunar; o cristão é solar. O calendário cristão remonta ao período de Júlio César, o primeiro imperador romano.

Com o auxílio de Sosígenes, astrônomo de Alexandria, Júlio César elaborou um calendário em que o ano comum seria de 365 dias e que, para acertar o ano civil ao ano trópico (designação para o tempo decorrido entre duas passagens consecutivas), fosse acrescentado de 4 em 4 anos um dia complementar. Ao ano de 366 dias foi dado o nome de bissexto. Por isso, a cada quatro anos o mês de fevereiro tem 29 dias. Esse calendário foi criado no ano 45 a.C. e denominou-se calendário juliano em homenagem ao imperador que o instituiu.

No século XVI o papa Gregório XIII fez algumas correções no calendário juliano, e por isso passou a ser chamado também de gregoriano. É que o ano trópico não tem exatamente 365 dias e 6 horas como se pensava, e sim, 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 50 segundos. Portanto, o calendário juliano estava errado em 11 minutos e 10 segundos por ano para mais. Esses, acumulados no decorrer dos séculos, trouxeram confusão, a ponto de em 1585 já haver uma diferença de 10 dias entre o ano trópico e o ano civil. Coube então ao papa Gregório XIII determinar a reforma do calendário cristão.

Em suma, o calendário cristão (gregoriano) é solar e o judaico lunar (Luach). Por ser solar, o calendário cristão torna-se bissexto a cada quatro anos. Já o calendário judaico, por ser lunar, cada mês (com 29 ou 30 dias) inicia-se com a lua nova. Se comparado com o calendário gregoriano, temos em um ano solar 12,4 meses lunares, ocorrendo uma diferença anual de aproximadamente 11 dias. Para compensar essa diferença, a cada ciclo de 19 anos acrescenta-se um mês inteiro (Adar II), o ano de 13 meses ou embolísmico. Essa alteração é necessária por causa da páscoa. A páscoa judaica deve cair sempre na primavera.

Embora o calendário cristão seja essencialmente solar, ele é lunar quanto à páscoa. Os cristãos usam o calendário lunar para que a data da páscoa cristã fique próxima, ou coincida, com a da páscoa judaica, isto é, sempre no primeiro domingo depois da lua cheia que aparece entre 21 de março e 24 de abril. A páscoa nunca ocorre antes de 22 de março ou após 25 de abril. É por isso que a cada ano a nossa páscoa cai em dias e até meses diferentes. O princípio é o mesmo para o carnaval. Não existe carnaval no calendário judaico, mas por ser o carnaval uma festividade essencialmente pagã, adota-se o calendário lunar para que a terça-feira de carnaval aconteça, pelo menos, há 47 dias antes da páscoa.

Lembre-se que a páscoa é uma das festas mais importantes para o judeu. Sua comemoração nunca deve acontecer fora da primavera. É verdade que não é em todo o mundo que se comemora a páscoa na primavera, e sim no outono também. Isso é possível porque metade do planeta está no hemisfério norte e a outra no hemisfério sul. Aqui no Brasil, por exemplo, na época da páscoa estamos no outono, mas nos Estados Unidos, Europa e Israel é primavera.

Os Evangelhos relatam que Jesus ressuscitou num dia muito especial. Ele ressurgiu no primeiro dia da semana; no dia do Senhor, no domingo. O primeiro dia da semana nunca mais seria o mesmo após a ressurreição de Jesus. Sua ressurreição também ocorreu num dia ensolarado. E na primavera, a estação mais alegre do ano.

Finalmente, quanto ao Natal ser comemorado no dia 25 de dezembro, independente do dia da semana (embora não se saiba ao certo o dia em que Jesus nasceu) é que, além de não existir Natal no calendário judaico, e por ser o nascimento de Jesus uma data tão importante para o cristianismo, preferiu-se adotar o calendário solar.

sábado, 2 de abril de 2011

Só em Jesus

Josivaldo de França Pereira


Desde os tempos mais remotos o ser humano tem procurado respostas que satisfaçam os anseios e indagações de sua alma. A Bíblia ensina que as respostas para os muitos questionamentos do ser humano estão em Cristo. A salvação não é apenas um ato redentivo "que nos livra da ira futura" (1Ts 1.10), mas a chave que abre a fechadura das incertezas existenciais que aterrorizam a humanidade nos dias de hoje.

A verdade é que o ser humano – como indivíduo e na sociedade – está em perigo de morte e necessita de ajuda, de salvação. O diabo tem procurado mostrar até mesmo para a igreja que as coisas não estão tão ruins para o mundo como se pensa. "As pessoas estão bem, estão saudáveis", é no que ele pretende que a igreja acredite. Mas para o apóstolo João dizer que "o mundo inteiro jaz no maligno" (1Jo 5.19), é porque a coisa está realmente feia!

Por que tanta violência? Por que tanta injustiça social? Por que tanta falta de amor? É porque o mundo jaz no maligno. Por isso, a horrenda sorte do ser humano é descrita como fracasso, destituição, vazio, alienação, escravidão, rebelião, enfermidade, corrupção e morte. E no naufrágio de sua cegueira espiritual o ser humano se agarra desesperadamente a qualquer tábua que, como sempre, não suporta o seu peso.

Como são múltiplas as fúteis tentativas para remediar essa triste situação – iluminação intelectual da ignorância, reforma moral, esforços ascéticos, tratamento médico ou psicológico, melhoramento social pelo avanço tecnológico, estratégia política e econômica e, acima de tudo, técnicas religiosas criadas pelo próprio homem.

"Desde bem cedo em sua história, o homem teve de perceber, como continua tendo de ver, que não pode produzir a sua própria salvação, por causa da natureza radical de seu pecado e egocentrismo; as suas tentativas para salvar a si mesmo são a pior afronta feita a Deus, e fazem-no incorrer em seu julgamento" (G. Walters). Jesus é a única esperança de salvação do ser humano.

Deus Tudo Pode E Nenhum Dos Seus Planos Pode Ser Frustrado

Josivaldo de França Pereira


Somente quem passou por uma prova de fogo, como a que Jó experimentou, seria capaz de dizer com a mesma intensidade ao Senhor: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).

Quando se é provado, a tendência muitas vezes é a de questionar e duvidar do caráter santo de Deus. Somos tentados a pensar que Deus não é tão forte como parecia ser, e que os homens muitas vezes conseguem, através de seus maus intentos, frustrar os planos de Deus; que ele não está sendo justo com a gente, ou que a sua bondade está longe de ser absoluta. Dizer o que Jó disse num momento de provação é extremamente significativo. Ele começa afirmando: “Bem sei...”. Uma oração feita por quem realmente conhece a Deus e é conhecido por Deus (cf. Jó 1.1,8; 2.3; 42.8).

Numa provação é preciso evitar a pane mental. É importante recordar o que Deus já fez no passado por você. “Então, respondeu Jó ao SENHOR: Bem sei....” (Jó 42.1,2). E o salmista complementa: “Tu, que me tens feito ver muitas angústias e males, me restaurarás ainda a vida e de novo me tirarás dos abismos da terra” (Sl 71.20, ênfase acrescentada). Quem conhece a Deus sabe que “de novo” será socorrido por ele.

Na prova da fé não devemos duvidar do amor de Deus. Deus nos prova para o nosso próprio bem. Não somos provados para Deus nos conhecer melhor. Somos provados para conhecermos a Deus e a nós mesmos. O nosso Deus é maravilhoso! Quanto mais o conhecemos, mais conhecemos a nós mesmos, e o quanto precisamos e dependemos dele para tudo.

A Bíblia de Estudo de Genebra diz o seguinte sobre a passagem em questão: “Jó testifica que Deus é onipotente. Ele é o Todo-Poderoso. Deus tem poder para fazer tudo aquilo que, em sua perfeita sabedoria e vontade, ele deseja fazer. Onipotência não significa que Deus possa fazer literalmente tudo: Deus não pode pecar, não pode mentir, não pode mudar sua natureza ou negar as exigências do seu caráter santo (Nm 23.19; 1Sm 15.29; 2Tm 2.13; Hb 6.18; Tg 1.13,17). Não pode fazer um círculo quadrado, porque a noção de um círculo quadrado é contraditória. Deus não pode cessar de ser Deus. Porém tudo o que quer e promete ele pode e fará”.

Saiba, amado irmão, distinta irmã, que Deus nunca é pego de surpresa; portanto, não desista de Deus porque ele ainda não desistiu de você.

O Espírito Santo e a Salvação no Antigo Testamento

Josivaldo de França Pereira


O Antigo Testamento é o berço de toda doutrina bíblica. E não existe nada revelado a respeito do Espírito Santo no Novo Testamento que não tenha sido sugerido antes no Velho. Com toda a evidência se depreende do Antigo Testamento que a origem da vida depende da ação soberana do Espírito Santo. Retirar o Espírito significa morte!

O Espírito Santo atuava como vivificador no Antigo Testamento. Mas de que maneira o Espírito regenerava os crentes no Antigo Testamento? Como ele aplicaria a obra redentora de Cristo se o próprio Cristo não tinha vindo? Será que os crentes do Antigo Testamento foram igualmente regenerados e salvos como os crentes do Novo Testamento? Um dos motivos que nos levaria a fazer tais perguntas seria, a priori, o fato de que o Antigo Testamento não apresenta o Espírito Santo atuando de maneira tão proeminente na salvação de indivíduos como o Novo Testamento.

A palavra "regeneração" que aparece no Novo Testamento não é encontrada em nenhum livro do Velho Testamento. O termo grego que designa a regeneração pelo Espírito não tem nenhum equivalente no hebraico. Nem mesmo na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento, aparece as palavras palingenesia ou gennaw que traduzem a idéia bíblica de regeneração e novo nascimento, respectivamente. O que mais se aproxima é a forma verbal ewj palin genwmai, que é uma tradução livre de Jó 14.4: "Morrendo o homem, porventura tornará a viver?". No entanto, aqui não existe nenhum pensamento do renascimento espiritual do indivíduo como há no Novo Testamento. O que temos no Velho Testamento são promessas claras de uma renovação futura (cf. Jr 31.31-33; Ez 11.29; 36.26,27).

No entanto, apesar da obra regeneradora do indivíduo não ser enfatizada no Antigo Testamento, não significa que o Espírito Santo não tenha atuado salvificamente. Mesmo assim, a possibilidade de alguém ser regenerado no Antigo Testamento foi totalmente descartada pelo teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Para ele era impossível que alguém fosse regenerado na antiga dispensação, uma vez que Cristo não se fez Verbo encarnado e sua obra, portanto, não podia ser aplicada àqueles crentes.

Não há dúvida que os crentes do Velho Testamento foram regenerados. Seria contradição de termos falar de "crentes não regenerados". Eles eram crentes de fato e o autor da carta aos Hebreus no capítulo 11 de sua epístola atesta esta veracidade. Ele não os nomearia como heróis da fé se não fossem regenerados e salvos. Paulo se refere ao patriarca Abraão como “o crente Abraão” (Gl 3.9). Contudo, como o Espírito Santo os regenerava e os salvava em Cristo Jesus? Simplesmente aplicando a obra redentora do Messias no qual eles criam (cf. Jó 19.25).[1]

Somente através da obra regeneradora do Espírito Santo é que os crentes do Antigo Testamento podiam "olhar" para Cristo e exercer fé nele (cf. Jo 8.56; Hb 11.26; 1Pe 1.10,11); pois, no conceito bíblico, onde há fé salvadora, houve regeneração pelo Espírito.



[1] Veja a postagem de Março/2011 intitulada “Cristo e a Salvação no Antigo Testamento”.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A simplicidade do evangelho


"Não é lícito ir além da simplicidade do evangelho" (João Calvino)

Josivaldo de França Pereira

O substantivo "evangelho" é de origem grega e significa literalmente "boas novas". O termo aparece 96 vezes no Novo Testamento.
O evangelho pode ser definido como as boas novas de salvação em Cristo para todo aquele que nele crer. Jesus é o evangelho de Deus, a salvação para agora e a esperança da vida eterna. Mas em que o evangelho é simples? Em que consiste a sua simplicidade? Consideremos três pontos básicos.
1. O evangelho é simples em sua mensagem
Há uma singeleza sem igual que reveste o evangelho de Jesus Cristo. Sua mensagem é simples. E se existe dificuldade em se entender as verdades nele contidas, certamente isso não se dá por causa do evangelho em si, porém, por causa da dureza de coração daqueles que não querem aceitá-lo. O Senhor Jesus tratou dessa questão muitas vezes. Contudo, sua pregação e ensino eram simples: "Arrependei-vos e crede no evangelho". O evangelho de Jesus era o oposto daquilo que muitas vezes a sociedade de hoje recebe, quer seja no campo religioso, quer seja no campo sócio-cultural.
A mensagem do evangelho de Cristo é simples, mas muitos hoje em dia agem como verdadeiros escribas e fariseus (Mt 23.4,15). O novo convertido recebe fardos que nem de longe se assemelham ao fardo que Cristo propôs (Mt 11.28-30). São usos e costumes, doutrinas e leis de homens que subjugam e oprimem o povo. Fomos chamados para a liberdade, diz Paulo (2Co 3.17; Gl 5.1; Cl 2.16-19), e se Cristo nos libertou, quem são aqueles que querem subjugar novamente os libertos do Senhor?
  1. O evangelho é simples em sua linguagem
A mensagem simples do evangelho consiste da simplicidade de sua linguagem. Podemos ter dificuldade em entender uma ou outra palavra; um ou outro termo, porém, no geral, é muito fácil entender o que o evangelho diz. Infelizmente parece que na ânsia de explicar o óbvio acabamos complicando. O evangelho puro e simples não perde a eficácia de sua singeleza. Pelo contrário. Mesmo um menino e uma menina creem porque podem entender a linguagem do evangelho. Um matuto também pode e tem crido. Da mesma maneira um iletrado.
É preciso resgatar a simplicidade da linguagem da mensagem bíblica. A linguagem evangélica (o evangeliquês) com termos técnicos complicados, que geralmente usamos entre nós, precisa ser "traduzida" ou evitada, a fim de alcançarmos os não-crentes que estão em nosso meio, visto que eles precisam compreender a doutrina do evangelho para que sejam salvos.
  1. O evangelho é simples, mas não simplório
Pensar num evangelho simples, numa linguagem compreensível, não quer dizer que o evangelho seja simplório. Pelo contrário, o evangelho de Jesus é deveras exigente. É o evangelho da porta e caminho estreitos (Mt 7.13,14). É o evangelho do discipulado com responsabilidade (Lc 9.23,24).
É triste constatar o tipo de evangelho enganador que está sendo pregado hoje em dia. Um evangelho descomprometido da ética cristã e da santidade de vida. Um evangelho falsificado que propõe atalhos para os que o seguem ao invés do verdadeiro caminho (Gl 1.6-8). Um evangelho que está longe de ser seguido por aqueles que pretendem seguir a Jesus de perto (cf. Mt 7.21-29).
"Se alguém quer vir após mim", disse Jesus, "a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me". Esse é o único evangelho que nos leva a Deus, e do qual o apóstolo Paulo disse a Timóteo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente de Davi, segundo o meu evangelho; pelo qual estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2.8,9).  
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Beleza vendida

Uma história fictícia com aplicação real

Josivaldo de França Pereira

Linda Maria era o nome artístico de Eliza. Foi-lhe dado por uma ex-colega de trabalho e logo pegou. Também pudera, Eliza era uma bela morena de olhos verdes, de cabelos lisos e longos, naturalmente pretíssimos.
Eliza passou por acaso em frente de uma agência que ela pensou fosse de modelos. Foi convidada a entrar. Era uma casa agenciadora de garotas de programa. Facilmente a proprietária a convenceu a fazer um teste. O salário era tentador e ela, como estava desempregada, rapidamente aceitou.
Não demorou muito, Linda Maria veio a ser uma das garotas mais solicitadas na alta sociedade. Tornou-se atriz pornô de renome. Com o passar dos anos Linda já não possuía mais a beleza de outrora e, por isso, também já não era tão requisitada como antes. Contudo, Linda Maria não conseguia deixar a vida que escolhera. O pouco dinheiro que agora ganhava ia embora com drogas, bebedeiras e prostituição barata.
Assim como Linda Maria, não são poucos aquelas e aqueles que estão vendendo a beleza que receberam como dom de Deus, em troca de uma vida que não vale a pena. Não são poucas as lindas marias que estão seguindo o caminho da morte por um salário não menos comprometedor. “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Pv 14.12), “porque o salário do pecado é a morte...” (Rm 6.23).
O fim de uma vida promíscua é a condenação eterna (1Co 6.9,10; Ap 21.8). Contudo, “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as cousas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17; cf. 1Co 6.11).
A beleza exterior muitas vezes engana os homens, mas jamais engana a Deus, “porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1Sm 16.7).