sábado, 23 de julho de 2011

Teólogo liberal não é evangélico

Josivaldo de França Pereira


O teólogo liberal não é um evangélico porque ele nega as verdades fundamentais da fé cristã, como por exemplo: a inspiração e inerrância das Escrituras, o nascimento virginal e a divindade de Cristo, os milagres bíblicos, etc. Entretanto, isso não significa que tudo que é escrito e ensinado por um teólogo liberal deve ser, necessariamente, rejeitado.
A editora Vida Nova publicou os excelentes livros de William Barclay intitulados As Obras da Carne e o Fruto do Espírito e Palavras Chaves do Novo Testamento, mas com a seguinte ressalva: “A publicação destas belas obras de William Barclay não significa que endossamos a teologia dele. O Prof. Barclay não era evangélico, uma vez que negava a inspiração plenária das Escrituras, a divindade de Jesus Cristo e a condenação eterna dos ímpios, entre outras doutrinas fundamentais”.[1] E ainda: “Cremos que seria um grave erro concluir que a divulgação de suas valiosas pesquisas sobre termos gregos, visando uma compreensão maior do Novo Testamento, também inclui o nosso apoio às posições anticristãs que ele abraçava”.[2]
No entanto, via de regra, o teólogo liberal é adepto de um conceito extremamente enganoso. Para Kuyper, muito mais do que mera discordância teórica e cientifica no campo da cristologia, por exemplo, o liberalismo é uma decisiva ameaça existencial ao cristianismo.[3] Segundo Pierard, “O liberalismo teológico teve sua origem na Alemanha, onde convergiram várias correntes teológicas e filosóficas no século XIX. O pensamento alemão teve um impacto profundo sobre a teologia britânica e norte-americana, mas movimentos autóctones nos dois lugares, a tradição da Igreja Ampla na Inglaterra e o Unitarismo nos Estados Unidos, moldaram de modo significativo o desenvolvimento do liberalismo ali”.[4] J. G. Machen definia a teologia dos liberais como “Não o cristianismo, de modo algum, mas uma religião tão inteiramente diferente do cristianismo que pertence a uma categoria separada”.[5]
Há esperança de salvação em Cristo para um teólogo liberal? É claro que sim. Desde que ele se arrependa de seus pecados e pela fé receba a Jesus, o Cristo ressurreto, como Senhor e Salvador de sua vida, será salvo. Um exemplo clássico é o do já citado teólogo holandês Abraham Kuyper (1837-1920). Kuyper foi um destacado estudante da Universidade de Leyden que abraçou o liberalismo e as opiniões teológicas mais recentes. Durante seu primeiro pastorado em Beesd ele passou por uma conversão evangélica. Influenciado pela piedade dos seus paroquianos, Kuyper começou de novo seu estudo de teologia, inspirando-se na tradição calvinista holandesa.
Berkouwer relembra que Kuyper, já octogenário, ainda evocava diante dos alunos da Universidade Livre de Amsterdã sua “petulância espiritual”, causa de seus deslizes passados. “Em Leyden eu me achava”, dizia Kuyper, “entre os que aplaudiram calorosa e ruidosamente quando Rauwenhoff, nosso professor, manifestou sua ruptura total com a fé na ressurreição de Cristo”. Acrescentava, porém: “Hoje a minha alma treme por causa da desonra que outrora infligi a meu Salvador”.[6]


[1] Nota dos editores das referidas obras.
[2] Idem.
[3] Cf. G. C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Juerp/Aste, 1983, p. 10.
[4] R. V. Pierard, Liberalismo Teológico. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 426. O artigo todo é excelente.
[5] Citado por Pierard, op. cit., p. 428.
[6] Cf. G. C. Berkouwer, op. cit., p. 10.



domingo, 3 de julho de 2011

Acerca da ordem cronológica dos livros do Novo Testamento

Josivaldo de França Pereira


Os 27 livros do Novo Testamento, conforme se encontram em nossas Bíblias, não seguem, em sua maioria, a ordem cronológica da composição original. A maior parte das epístolas foi escrita antes mesmo dos Evangelhos. Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos a ser escrito e João o último. Mateus ocupa o primeiro lugar em nossas Bíblias porque, como foi destinado especialmente aos judeus, faz a transição natural do Antigo para o Novo Testamento com a genealogia de Jesus.
Contudo, uma vez que as nossas Bíblias não seguem a ordem cronológica da formação do Novo Testamento, por que o Evangelho de Lucas não vem logo após o de João, ficando ao lado de Atos, que também foi escrito por Lucas? É que Mateus, Marcos e Lucas são livros “sinóticos”, isto é, tratados com um foco semelhante ou mesma visão em relação a Cristo. O Evangelho de João é mais místico; enfatiza a divindade de Jesus. Os outros o fazem, mas não com a mesma intensidade de João.
As cartas também não seguem uma ordem cronológica. As epístolas paulinas, por exemplo, foram organizadas diferentemente da cronologia original. A primeira epístola de Paulo foi Gálatas, segundo alguns[1], ou 1Tessalonicenses, segundo outros[2]; finalizando com as pastorais.[3] A sequência adotada em nossas Bíblias para as epístolas paulinas segue a ordem decrescente; da maior para a menor em número de capítulos. Começa com a epístola aos Romanos (dezesseis capítulos) e termina com Filemon (um capítulo).[4] Além disso, a carta aos Romanos serve como transição natural de Atos para as epístolas paulinas. O livro de Atos termina com a prisão de Paulo em Roma.
A carta aos Hebreus vem logo após as epístolas reconhecidamente de Paulo. Como não se tem certeza da autoria da epístola aos Hebreus, e alguns a atribuem a Paulo, ela foi deixada onde a conhecemos atualmente. Há também, em nossas Bíblias, uma ordem decrescente nas epístolas gerais[5], porém, em duas etapas distintas, ou seja, de Hebreus[6] às cartas de Pedro; das epístolas de João a Judas.
O livro do Apocalipse está, cronologicamente, no lugar certo. Ele não apenas trata do fim dos tempos como foi o último livro da Bíblia a ser escrito.
Por volta do ano 100 da Era Cristã o Novo Testamento estava completo, ou substancialmente completo, sendo que a maioria dos livros já existia de 20 a 40 anos antes dessa data. A lista mais antiga dos livros do Novo Testamento apareceu em 367 d. C. numa carta de Atanásio, bispo de Alexandria. A ordem era: Evangelhos, Atos, epístolas gerais, epístolas paulinas e Apocalipse. O cânon do Novo Testamento foi oficialmente reconhecido como escritura sagrada no Concílio de Cartago em 397. Esse concílio decretou que nada devia ser lido na Igreja com o nome de Novo Testamento, a não ser os nossos 27 livros canônicos.[7]


Bibliografia selecionada:

BRUCE, F. F. Merece confiança o Novo Testamento? Série Clássicos Vida Nova. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1990.
CULLMANN, Oscar. A formação do Novo Testamento. 7ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2003.
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 3a ed. São Paulo: Vida Nova, 1985.
METZGER, Bruce M. The canon of the New Testament: Its origin, development and significance. Oxford: Clarendon Press, 1997.
TENNEY, Merrill C., O Novo Testamento: sua origem e análise. São Paulo: Shedd Publicações, 2008.




[1] Este é o ponto de vista adotado pela maioria dos estudiosos que, segundo os quais, a epístola aos Gálatas foi escrita antes do Concílio de Jerusalém de Atos 15. Contudo, outros atribuem a ela uma data posterior, poucos anos mais tarde.
[2] Cf. Oscar Cullmann, A formação do Novo Testamento. 8ª ed. Revisada. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p. 41.
[3] Para uma ordem cronológica completa das epístolas paulinas com suas respectivas datas, consulte F. F. Bruce, Merece confiança o Novo Testamento? Série Clássicos Vida Nova. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 20.
[4] Com exceção apenas das epístolas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) que interrompem a sequência antes da carta a Filemom.
[5] Epístolas gerais: Genericamente falando, são as epístolas que não foram escritas por Paulo.
[6] A epístola aos Hebreus é geral normalmente para quem não aceita a autoria paulina dela.
[7] Quanto ao critério para um livro do Novo Testamento fazer parte do cânon sagrado, veja a postagem abaixo.

O Cânon Sagrado: Considerações Gerais


Josivaldo de França Pereira


O processo por meio do qual os livros da Bíblia foram reunidos, e seu valor reconhecido pela Igreja Cristã como Escritura Sagrada, é denominado de "História do Cânon". Etimologicamente, o termo cânon é o empréstimo semítico de uma palavra que, originalmente, significava "junco", que passou a significar "vara de medir" e, por conseguinte, "regra", "padrão" ou "norma". Depois recebeu o sentido meramente formal de "lista" ou "tabela".
Na Igreja Primitiva, durante os três primeiros séculos, o vocábulo cânon era utilizado para se referir ao conteúdo normativo doutrinário e ético da fé cristã. Por volta do século IV passou a designar a lista de livros que constituem o Antigo e o Novo Testamentos. É esse último sentido que predomina até os nossos dias. A palavra cânon é sinônimo de "coleção completa e definitiva" dos 66 livros que formam a Bíblia Sagrada, nossa única regra de fé e prática.[1] Da palavra "cânon" deriva-se canônico (verdadeiro, inspirado), em oposição a apócrifo (falso, espúrio).[2]

O Antigo Testamento

Deus escolheu o povo de Israel para ser o colecionador e guardião dos diversos livros que, através de quinze séculos, formariam o Antigo Testamento. Por volta de 400 anos antes de Cristo o AT estava completamente concluído.
A Bíblia Hebraica, ou Texto Massorético, como também ficou conhecida, possui 24 livros. Isso não significa que tenha menos livros que a nossa. A única diferença está na ordem que os mesmos são colocados. A ordem da Bíblia Hebraica é a seguinte:
1)     A Lei: - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio;
2)     Os Profetas: - Profetas Anteriores:
Josué, Juízes, Samuel (1 e 2) e Reis (1 e 2);
Profetas Posteriores:
a)     Os Maiores: Isaías, Jeremias e Ezequiel;
b)     Os Doze (os Profetas Menores segundo a ordem que se encontra em nossa Bíblia);
3) Os Escritos: - Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras e Crônicas (1 e 2).[3]
Note que na Bíblia Hebraica 1o e 2o Samuel formam um só livro. Do mesmo modo 1o e 2o Reis e 1o e 2o Crônicas. Os doze Profetas Menores foram considerados um único livro e Esdras e Neemias, idem.
Nos rolos ou papiros do Mar Morto (designação popularmente dada aos manuscritos descobertos em jarros de barro dentro de várias cavernas [e num mosteiro não muito distante] de 1947 a 1965, no lado oeste do Mar Morto, em Qumran, na Palestina), temos confirmações importantes da autenticidade escriturística do Antigo Testamento, como nós o conhecemos hoje. Schultz comenta: "Nos rolos da comunidade de Qumran, que foi dispersa pouco antes da destruição de Jerusalém, em 70 d.C., figura cada livro do Antigo Testamento, com exceção de Ester. As evidências extraídas dessas descobertas recentes têm confirmado o ponto de vista de que o texto hebraico, preservado pelos massoretas, foi transmitido sem alterações sérias desde o primeiro século a.C.".[4]
A lista mais antiga das Escrituras canônicas do Antigo Testamento que se tem conhecimento é de 170 d. C., feita por um estudioso cristão chamado Melito de Sardes.

O Novo Testamento

"Embora o cânon do AT tivesse sido formalmente encerrado, a vinda de Cristo o reabriria em certo sentido. Deus estava falando de novo. Visto que a cruz era o ato redentor central de Deus na história, o NT tornou-se uma necessidade lógica. Desta maneira, a voz dos apóstolos e, mais tarde, os seus escritos, foram aceitos como comentário divino sobre o evento de Cristo".[5]
O surto de heresias no século II e o surgimento de literatura paralela ao Novo Testamento, foram impulsos poderosos em direção à formação de um cânon definitivo do NT. E qual seria o critério para se reconhecer um Livro inspirado e incluí-lo no cânon? Foi necessário um processo de triagem em que as Escrituras válidas se distinguiram da literatura cristã em geral. Alguns critérios para admissão foram: 1) a autoria apostólica, 2) a recepção pelas igrejas e 3) a consistência da doutrina com aquilo que a Igreja já possuía.
Dentre os três critérios citados, "a autoria apostólica" era o principal. Praticamente, o que determinou a canonicidade dos livros que compõem o Novo Testamento foi o teste da apostolicidade. O Espírito Santo conduziu a Igreja Primitiva nesse assunto. Várias epístolas foram escritas por homens bons e bem intencionados, nas quais eles tinham dito coisas maravilhosas acerca de Cristo e da vida cristã. Mas não foram incluídas no cânon justamente por serem reprovadas no teste da apostolicidade.[6] Segundo Martyn Lloyd-Jones, "As únicas coisas incluídas foram as que haviam sido escritas pelos próprios apóstolos, pelos seus discípulos ou por aqueles que foram influenciados por eles”. [7] “Este é um princípio verdadeiramente vital e essencial", diz Jones.[8]



[1] Para um estudo abrangente sobre a história do cânon na língua portuguesa, consulte N. H. Ridderbos, Cânon do Antigo Testamento. In: O Novo Dicionário da Bíblia, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 246-255; J. N. Birdsall, Cânon do Novo Testamento. In: O Novo Dicionário da Bíblia, p. 255-261; W. Kerr, O cânon do Antigo Testamento. São Paulo: Imprensa Metodista, 1952, p. 73-89; D. A. Carson, et al., O cânon do Novo Testamento. In: Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 541-556. Para quem lê inglês recomendo ainda: David G. Dunbar, The Biblical Canon. In: Hermeneutics, Authority and Canon. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1986, p. 295-360; R. Laird Harris, Inspiration and Canonicity of the Scriptures. Greenville: A Press, 1995, p. 123-284; Bruce M. Metzger, The canon of the New Testament: Its origin, development and significance. Oxford: Clarendon Press, 1997, p. 289-293.
[2] Uma análise sucinta mas muito proveitosa dos livros apócrifos à luz da Bíblia encontra-se em H. E. Alexander, Introdução à Bíblia. São Paulo: Casa da Bíblia, S/d, p. 127-134.
[3] Jesus se referiu a esta divisão da Bíblia em Mateus 23.35. Nessa passagem ele diz que todos os profetas de Deus que foram mortos desde o primeiro livro da Bíblia (Gênesis) até o último (Crônicas, o último livro da Bíblia até então) seriam vingados.
[4] Samuel J. Schultz, A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 2,3.
[5] R. H. Mounce, Bíblia. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 172.
[6] Cf. Martyn Lloyd-Jones, Autoridade: De Jesus Cristo, das Escrituras, do Espírito Santo. Queluz: Núcleo, 1978, p. 71-78.
[7] Idem, p. 72.
[8] Ibidem.

sábado, 2 de julho de 2011

A Igreja de Éfeso


Josivaldo de França Pereira


A igreja de Éfeso foi plantada pelo apóstolo Paulo durante sua terceira viagem missionária, em meados do ano 54 A. D., na província da Ásia, região ocidental da Ásia Menor. Paulo trabalhou durante três anos na cidade de Éfeso (At 19; 20.31). Foi da prisão em Roma, por volta do ano 62, que ele redigiu a Epístola aos Efésios. Timóteo estava pastoreando a igreja de Éfeso quando o apóstolo escreveu duas cartas ao seu filho na fé (1Tm 1.3). Acredita-se que João, o apóstolo amado, residia nessa cidade quando foi levado para a ilha de Patmos.
A igreja de Éfeso está entre as quatro igrejas do Apocalipse que receberam críticas e elogios do Cristo glorificado. Ela foi elogiada especialmente por sua dedicação doutrinária e criticada por ter abandonado seu primeiro amor – a prática das primeiras obras. A igreja de Éfeso lembra algumas igrejas e concílios que conheci: muito zelo doutrinário e pouco amor. Em minha própria denominação, Igreja Presbiteriana do Brasil, temos igrejas que são muito cuidadosas com a sã doutrina e herança reformada. Igrejas que se orgulham bastante de sua teologia calvinista. Quanto a isso não há nada de errado. A nossa doutrina é boa mesmo. É bíblica! O problema é que muitas vezes falhamos no amor e na misericórdia com quem pensa um pouco diferente da gente. Não são raras as vezes que julgamos e rotulamos conciliares e colegas, simplesmente porque discordam nalgum ponto de nós. Além disso, nossas igrejas locais, salvo exceções, frequentemente são apáticas no relacionamento fraternal e indiferentes com aqueles que nos visitam em “nossos” templos.  
Assim como a igreja de Éfeso, muitas igrejas de hoje também deixaram de ser o que foram no passado – igrejas verdadeiramente amorosas. Como eu disse, conheço algumas delas, e olha que não sou tão velho assim. Falo de igrejas que até pouco tempo eram vibrantes, caridosas e aconchegantes, mas atualmente estão num desfalecimento espiritual que é de assustar. Desvelo doutrinário é bom, porém, se o amor ficar em segundo plano de nada adianta. Paulo disse aos coríntios que o amor é tudo. Pouco importa ser isso ou aquilo, fazer bem uma coisa ou outra. Se não tiver amor de nada serve.
A ordem do Cristo glorificado é o retorno ao primeiro amor. Daquele amor a Deus sobre todas as coisas, e também do amor demonstrado ao necessitado de afeto e de recursos. Precisamos clamar ao Espírito Santo por um avivamento que só ele pode nos dar, pois o tempo está passando e o amor de muitos se esfriando. Jesus disse que por se multiplicar a iniquidade o amor de muitos se esfriará. Imagino que muitas igrejas irão conseguir manter o zelo doutrinário até o fim, porém, muitas dessas mesmas igrejas terão abandonado de vez seu primeiro amor.
À igreja de Éfeso, e para aquelas que estão seguindo no caminho dela, a exortação de Jesus é contundente: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras...” (Ap 2.5).

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”
(Ap 2.7)


sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Quarto Homem: a mensagem de Daniel 3.24,25


Josivaldo de França Pereira
 

O capítulo três do livro de Daniel é um dos mais belos da Bíblia. Ele fala do Deus que honra a fé dos que nele confiam. Os companheiros de Daniel se recusaram peremptoriamente a se prostrarem diante da imagem de ouro gigantesca que o rei Nabucodonosor tinha feito. Foram levados perante o rei...
Na presença do rei, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego testemunharam que permaneceriam fiéis a Deus até o fim, reafirmando o compromisso que tinham com o verdadeiro Deus. Não se abalaram nem mesmo com a ameaça de serem lançados na fornalha de fogo ardente, como de fato aconteceu.
Ao serem lançados na fornalha, algo de extraordinário ocorreu: “Então, o rei Nabucodonosor se espantou, e se levantou depressa, e disse aos seus conselheiros: Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo? Responderam ao rei: É verdade, ó rei. Tornou ele e disse: Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses”.
Note que a maior surpresa do rei não foi em relação aos três homens que passeavam dentro do fogo, mas pelo surgimento de um quarto homem. Para o rei, o quarto homem era “semelhante a um filho dos deuses”. Para nós, era o Cristo pré-encarnado que veio em socorro daqueles que “... por meio da fé... extinguiram a violência do fogo...” (Hb 11.33,34), porque não negaram o Deus de verdade.
Numa época, em que as pessoas estão mais dispostas a serem servidas por Deus do que servir a Deus, é maravilhoso ver como os amigos de Daniel se dispuseram a dar a própria vida pelo Senhor, independente de serem libertados ou não da fornalha ardente pelo próprio Deus. Deus honrou a fé dos seus filhos. E ainda hoje, o Senhor socorre os que nele se refugiam, honrando a fé dos que o honram. E quem nesta vida perecer por sua fé em Deus, certamente receberá no além seu galardão junto ao Trono da Graça.
Se você se sente perdido e desorientado, saiba que existe um quarto homem que salva e protege. Se você está sendo escarnecido por ser um servo ou uma serva de Deus, lembre-se que existe um quarto homem que honrará a sua fé. Ele é Jesus, o mesmo que nos prometeu em Mateus 28.20, “... E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”.
Ainda que a sua vida esteja uma fornalha, nele você pode confiar!

Algumas considerações sobre os Salmos 10 e 13


Josivaldo de França Pereira


Ao destacarmos alguns versículos dos referidos salmos, nos deparamos com declarações impressionantes, como por exemplo: “Por que, SENHOR, te conservas tão longe? E te escondes nas horas de tribulação?” (10.1). Não sabemos ao certo de quem é este salmo. Ele está no meio de outros salmos de Davi. É provável que o Salmo 10 também seja dele. O verso primeiro lembra, além de Davi, de salmos dos filhos de Coré e Asafe quando, do mesmo modo, questionaram a Deus com várias perguntas (Sl 22.1; 42.9; 43.2; 44.23,24; 74.1,11; 80.12; 88.14). Jó também indagou a Deus com alguns porquês (Jó 7.20,21; 10.2,18; 13.24). É errado um crente fazer o que Davi e outros servos de Deus fizeram? Pecamos contra Deus quando o questionamos acerca do por que disso ou daquilo? Há quem diga que quando passamos por problemas, para os quais não temos respostas definidas, que ao invés de perguntar a Deus “por quê?”, deveríamos dizer “para quê?”, visto que a expressão “para quê” indica propósito, pois nada nos acontece por acaso. Conquanto “para quê” seja uma forma interessante de “interrogar” a Deus, não existe base bíblica para afirmarmos que seja errado dizer “por quê?” ao Senhor.
No entanto, a questão principal é a maneira como a pergunta deve ser feita. Se indagarmos a Deus com indignação, irreverência e incredulidade no coração seremos blasfemos, pecando contra o Senhor. As perguntas do Salmo 10.1 expressam amor e temor de quem verdadeiramente conhece a Deus. Isso fica claro quando lemos o verso 13: “Por que razão despreza o ímpio a Deus, dizendo no seu íntimo que Deus não se importa?”. O “por que” do salmista não é de quem despreza a Deus no coração como o ímpio o faz. É por isso que o Salmo 10 termina com uma confissão de fé magistral: “Tens ouvido, SENHOR, o desejo dos humildes; tu lhes fortalecerás o coração e lhes acudirás, para fazeres justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem, que é da terra, já não infunda terror” (vv17, 18).
 Semelhante ao Salmo 10 é o 13, também com muitas indagações de Davi ao Senhor. “Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto? Até quando estarei eu relutando dentro em minha alma, com tristeza no coração cada dia? Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo?” (Sl 13.1,2). Enquanto no Salmo 10 o salmista procura saber de Deus as razões e motivos das suas tribulações, no Salmo 13 as perguntas são em relação ao tempo, isto é, a hora do término de suas tribulações. Enquanto escrevo estas palavras, recordo que Theodoro de Beza, o primeiro biógrafo de Calvino, relatou que em várias ocasiões o reformador perguntou a Deus quando seria o fim de todos os seus sofrimentos. Note que, igualmente ao Salmo 10, as indagações do Salmo 13 também não são levianas. O salmista é reverente para com Deus o tempo todo. Suas perguntas não partem de um coração incrédulo e desesperançoso, mas de alguém que tem em Deus seu alto refúgio. Não são perguntas vazias de fé, nem de uma fé vazia. São indagações de uma fé racional e inquiridora. De alguém que, como Davi, não tem medo de pensar, questionar e acreditar que de Deus obtemos as melhores respostas.  E assim, o cantor de Israel pôde concluir seu salmo: “No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação. Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem” (Sl 13.5,6).

Casamento Misto: uma reflexão bíblica


Josivaldo de França Pereira


Entende-se por casamento misto a união matrimonial de quem confessa verdadeiramente a Cristo como seu Senhor e Salvador com alguém que não professa a mesma fé.
Por esta razão, há várias exortações na Bíblia contra o casamento misto, como Êxodo 34.16; Deuteronômio 7.3,4; Josué 23.12,13; 1Reis 11.1-8; Esdras 9.1-3; Neemias 13.23-27; 1Coríntios 7.39, etc.
A Lei Mosaica não permitia aos israelitas casar-se com mulheres estrangeiras porque elas adoravam outros deuses. Duas louváveis exceções foram Rute e Raabe, porque se dispuseram a renunciar suas práticas e crenças para servirem o Deus vivo e verdadeiro (cf. Rt 1.15,16; Hb 11.31).
No Novo Testamento Paulo foi o que mais tratou acerca do referido tema. Ele tem prescrições para um casamento que se tornou misto (cf. 1Co 7.12-14), mas nenhuma recomendação positiva para um casamento que começaria misto. Para o apóstolo Paulo, casamento verdadeiramente abençoado é “somente no Senhor” (1Co 7.39).
Infelizmente, para alguns, casar-se “no Senhor” significa apenas receber a bênção matrimonial na igreja, ou algo parecido, independente de serem ambos os nubentes servos do Senhor. Casar-se no Senhor, no conceito paulino, é o oposto do que o casamento misto significa. A exemplo do Antigo Testamento, o apóstolo ensina que o servo de Deus deveria se casar somente com alguém que comungue a mesma fé e prática em Cristo Jesus (cf. 1Co 7).
A Confissão de Fé de Westminster observa que “é dever dos cristãos casar-se somente no Senhor; portanto, os que professam a verdadeira religião reformada não devem casar-se com infiéis, papistas ou outros idólatras; nem devem os piedosos prender-se a jugo desigual por meio do casamento com os que são notoriamente ímpios em suas vidas, ou que mantêm heresias perniciosas” (CFW, XXIV, 3).
É dever de todo pastor instruir a igreja sobre casamento misto, declarando que a Escritura Sagrada é bastante precisa em salientar a inconveniência de tais matrimônios e, assim, tentar evitar os grandes perigos decorrentes dessas uniões.