sábado, 3 de setembro de 2011

A pedagogia do sofrimento

Quando Deus trabalha em nós

 

Josivaldo de França Pereira



O sofrimento é uma verdade tanto para o bem quanto para o mal. Satanás usa o sofrimento para destruir sem dó e sem piedade; Deus se utiliza do sofrimento para construir em nós uma nova criatura em amor.
Focalizando os filhos e as filhas de Deus em especial, podemos dizer que na dor (física e/ou da alma) o Espírito Santo trabalha em nós visando o aprimoramento da nossa fé. Na vida cristã não existe crescimento e amadurecimento na verdade sem as tribulações que nos são impostas por Deus. Os heróis e heroínas dos tempos bíblicos sofreram muito. Eles não tiveram vida mansa, assim como não tem aqueles que nos dias de hoje padecem por causa do evangelho, ou por outro motivo que só Deus sabe. Certamente ninguém sofre por acaso.
O sofrimento que vem de Deus é pedagógico e terapêutico em si mesmo. Por exemplo: ''Quando a provação impede que cometamos atos específicos de pecado, nós nos aproximamos mais do Senhor e vemos as coisas com a importância que ele lhes dá''.[1]
Você já parou para pensar que às vezes sofrerá para não cometer algum pecado grave? Paulo disse: ''E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte'' (2Co 12.7).
Deus nos ama e quer o nosso bem. O salmista, compreendendo a bondade de Deus no sofrimento, disse: ''Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos'' (Sl 119.71). O escritor sagrado mostra-se grato pelos seus sofrimentos, porque estes o levaram a uma nova intimidade com Deus, afastando-o da transgressão.
Até mesmo a respeito de Jesus é dito: ''Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas cousas que sofreu'' (Hb 5.8). “Isso não quer dizer que Jesus progrediu da desobediência para a obediência. O mesmo escritor diz que ele nunca pecou (Hb 4.15). Significa que o processo pelo qual ele demonstrou obediência cada vez mais profunda foi o sofrimento”.[2] “É digno de nota o fato de que, sempre que o exemplo de Cristo nos é apresentado nas Escrituras para nossa imitação, é seu exemplo no sofrimento que é citado”.[3]
“Uma razão primária por que muitos cristãos, hoje, passam por tempos difíceis, é que eles não querem aceitar o papel que o sofrimento desempenha em suas vidas, ou nas vidas de seus amigos e entes queridos. Por isso, não conseguem entender e aceitar a realidade da soberania de Deus. Muitos também não conseguem ver a adversidade segundo a perspectiva divina. Não conseguem ver os efeitos positivos, fortalecedores e perfeitos, provenientes das provações”.[4]



[1] John Feinberg. A pesar do sofrimento. São Paulo: Eclésia, 1998, p. 88.
[2] John Piper. Alegrem-se os povos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 94.
[3] William Fitch. Deus e o mal. São Paulo: PES, 1984, p. 60.
[4] John MacArthur, Jr. O poder do sofrimento. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p. 11.



Natureza ou Criação?

Josivaldo de França Pereira

A Bíblia não se refere nenhuma vez à criação de Deus como natureza. Conquanto o cristão deva ter consciência e comprometimento com o meio ambiente, pois crê num Deus Criador, ele precisa estar atento para o que atualmente é denominado de “Natureza” ou “Mãe Natureza”. Terminologias que alguns cientistas, e leigos também, costumam usar para o que a Escritura Sagrada chama de criação. Isso significa que, para eles, natureza é algo que se cria, se mantém e existe por si só, além de sugerir que somos agentes estranhos e invasores do Planeta Terra. Muitos daqueles que defendem o ecossistema são ateus ou seguidores do Movimento Nova Era. Ou seja, não fazem o que fazem pelo planeta por amor a Deus e para glória dele.
Segundo Van Dyke, “os hebreus chamaram o mundo a seu redor de criação porque (1) acreditavam que ele era incapaz de existir por si mesmo e assim deveria ser sustentado por um Criador, e (2) eles viram a si mesmos como criaturas, coisas feitas e existentes com outras criaturas no mundo, todas para as finalidades e prazeres de Deus”.[1]
E ainda:
“Faríamos bem em cultivar e criar esse tipo de raciocínio novamente. Podemos começar sendo mais cuidadosos ao falarmos do mundo, rejeitando conscientemente a palavra natureza e utilizando deliberadamente a palavra criação. Esta simples mudança de linguagem faria uma grande diferença em nós. Chamar o mundo de criação implica reconhecer que ele (1) é criado por Deus, (2) existe para o prazer de Deus, (3) é sustentado por Deus e (4) inclui os humanos”.[2]
E mais:
“Falar dessa maneira também nos traz à memória algumas negações essenciais: (1) o mundo não criou a si próprio; (2) o mundo não existe para sua própria finalidade e prazer (nem nós); (3) o mundo não se sustenta; e (4) nós, como humanos, não somos separados dele mas parte dele. Que diferença uma pequena palavra pode fazer!”.[3]


[1] Fred Van Dyke, et al. A criação redimida: a base bíblica para a mordomia ecológica. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 48. Itálicos do autor.
[2] Idem, p. 49.
[3] Ibidem.

A arte de fazer perguntas

Maneira de aumentar a participação do aluno

Josivaldo de França Pereira


A aprendizagem é mais eficaz quando os alunos também falam. A interação professor/aluno é básica à comunicação e à aprendizagem. A interação ocorre quando professores e alunos se expressam diretamente e escutam, com atenção, o que os outros dizem. Os alunos apreciam, de verdade, o professor que desenvolve algumas técnicas ao liderar a interação na sala de aula.
Uma vez fui indagado sobre como fazer os alunos participarem mais na sala de aula. Respondi: “Faça perguntas”. No entanto, para isso é preciso fazer as perguntas corretas. Com o auxilio de alguns mestres na aérea do ensino, foi possível elaborar um esboço do que vem a seguir.
O uso de perguntas é, provavelmente, o recurso mais importante para guiar o pensamento dos alunos e orientá-los na aprendizagem. As perguntas podem ser usadas por professores e alunos.
1)  Os professores podem fazer perguntas a toda classe, ou a um só aluno.
2)  Podem ser escritas numa folha como tarefa ou em testes.
3)  Podem ser usadas como parte de uma série de instruções.
4) Os alunos, também, podem fazer perguntas aos professores, e uns aos outros, e podem fazê-las para uso na própria pesquisa.
Além das muitas maneiras como as perguntas podem ser feitas, é possível combiná-las com uma ampla variedade de atividades e recursos. As perguntas podem ser usadas para:
1)     Incentivar uma discussão sobre um tema conhecido.
2)     Apresentar um tema novo ou uma matéria.
3)     Recapitular matéria já estudada.
4)     Refletir sobre experiências pessoais.
5)     Relacionar um tema bíblico com experiências pessoais.
6)     Interpretar uma passagem bíblica.
7)     Incentivar mais pesquisa sobre algum tema.
8)     Avaliar um filme, documentário, etc.
9)     Pesquisar mais sobre determinada matéria.
10) Analisar um problema pessoal ou social.
11) Comentar sobre um simulado ou outra atividade.
12) Provocar uma explosão de idéias sobre algum problema ou assunto.
13) Entrevistar um convidado que possa ajudar a classe.
14) Considerar outras opções.
15) Esclarecer os valores expressos pelas pessoas.
16) Estudar as crenças e os propósitos das pessoas.
Professor, planeje sua aula fazendo um levantamento das possíveis perguntas que sua classe faria. Um trecho de poesia popular nos diz quais são essas perguntas:
Tinha seis amigos fiéis,
Ensinaram-me tudo quanto sei,
Chamam-se Como e Que e Por que,
Onde e Quando e Quem.
Use o mesmo princípio para estabelecer as perguntas que você faria a sua classe.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sobre perguntas e respostas


Josivaldo de França Pereira

A partir dos três, quatro anos de idade a criança passa a fazer centenas de perguntas por dia. São “porquês” que parecem não ter fim. O ser humano é um perguntador nato. Perguntamos porque esperamos respostas que nos satisfaçam a curiosidade. Faz parte da filosofia de vida questionar. Faz parte da própria ciência filosófica o inquirir. E enquanto não obtemos respostas, continuamos perguntando. Somos incansáveis e insaciáveis perguntadores.
O que é mais fácil, perguntar ou responder? Depende do ponto de vista; do tipo de pergunta e da resposta. Para a Filosofia, por exemplo, muitas vezes as perguntas são mais importantes do que qualquer resposta que se possa encontrar. Não que a Filosofia, propriamente, ignore as respostas. Encontrar resposta para toda pergunta é o ideal filosófico, porém, o trabalho principal da Filosofia é o questionamento mesmo sem respostas, visto que as respostas podem ser muito diferentes umas das outras, dependendo das pessoas, povos e culturas. Sócrates (c. 469-399 a.C.) obtinha respostas de seus interlocutores fazendo-lhes muitas perguntas. Voltaire (1694-1778), como todo bom filósofo, valorizava o ato de perguntar: “Devemos julgar um homem”, dizia ele, “mais pelas suas perguntas que pelas respostas”.
Nem todas as perguntas exigem, necessariamente, algum tipo de resposta. São as chamadas perguntas retóricas. Aquelas que subentendem que todos, teoricamente, já sabem quais são as respostas. Um exemplo clássico são aquelas perguntas que o apóstolo Paulo faz aos crentes da igreja de Roma: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. E ainda: “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?”. No entanto, as perguntas retóricas não estão em todas as culturas. Entre algumas tribos africanas, por exemplo, exige-se a resposta “ninguém”, no caso de Romanos 8.31; 11.34,35.
Há perguntas que nunca terão respostas, ou, pelo menos, não como muitas vezes gostaríamos. Novamente citamos o apóstolo Paulo para exemplificar o que queremos dizer: “Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu a sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?” (Rm 9.19,20). É isso aí: Deus, em sua soberana vontade, faz o que quer sem precisar dar satisfação a ninguém.
A primeira pergunta de Deus registrada na Bíblia foi feita aos nossos primeiros pais quando estes pecaram. “Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?” (Gn 3.8,9). É claro que Deus sabia onde eles estavam, mas queria que eles mesmos dissessem. E as respostas foram as mais escusas e evasivas possíveis (cf. Gn 3.10-13).
Algumas perguntas são “respondidas” com outra pergunta. “Aconteceu que, num daqueles dias, estando Jesus a ensinar o povo no templo e a evangelizar, sobrevieram os principais sacerdotes e os escribas, juntamente com os anciãos, e o argüiram nestes termos: Dize-nos: com que autoridade fazes estas cousas? Ou quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes: Também eu vos farei uma pergunta; dizei-me: o batismo de João era dos céus ou dos homens? Então, eles arrazoavam entre si: Se dissermos: do céu, ele dirá: Por que não acreditastes nele? Mas, se dissermos: dos homens, o povo todo nos apedrejará; porque está convicto de ser João um profeta. Por fim, responderam que não sabiam. Então, Jesus lhes replicou: Pois nem eu vos digo com que autoridade faço estas cousas” (Lc 20.1-8).
Perguntas e respostas foram muito utilizadas pelos reformadores na confecção de catecismos, como por exemplo: os catecismos de Lutero, Calvino, o de Heidelberg, Maior e Breve de Westminster.  

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Caro leitor, se Jesus fosse pastorear uma igreja hoje, você acha que ele seria pastor na sua igreja?

Josivaldo de França Pereira


Fico impressionado como Jesus quebrava os paradigmas de seu tempo, fossem esses religiosos, sociais ou culturais. Lembremos das coisas que ele fazia no dia de sábado, e a revolta que provocava nos religiosos de seu tempo. Como recebia os publicanos, meretrizes, pecadores e marginalizados em geral, e como ele era criticado pela sociedade e “igreja” da época. Além disso, Jesus valorizou as mulheres, andando com elas e salvando suas vidas. Evangelizou uma samaritana; depois muitos samaritanos. E, se não bastasse, fez de um samaritano o personagem principal de uma história, o mocinho do filme, por assim dizer, na parábola do Bom Samaritano, que para um judeu era o mesmo que levar um tapa na cara.
Creio que se Jesus viesse ao mundo hoje, ele deixaria muitos pastores e líderes eclesiásticos de cabelo em pé também, sejam esses conservadores, carismáticos, tradicionais ou neopentecostais. Em algumas igrejas ele não serviria como pastor. "Sabe como é, aquela ordem litúrgica dele... A igreja tem reclamado muito. Conversamos com ele para mudar e fazer diferente, mas, infelizmente...”. Ou ainda: “Pedimos que ele atendesse mais a igreja local (afinal ele é pago pra isso) e não ficasse saindo tanto para pregar, ensinar e curar quem não fosse da nossa igreja ou denominação. Contudo, ele não quis nos ouvir. Por isso, achamos por bem mudar de pastor. Jesus não serve para a nossa igreja".
Por mais paradoxais que estas suposições pareçam ser, tenho certeza que muitas das igrejas de hoje, que dizem adorar ao Senhor Jesus, não o teriam, pelo menos não por muito tempo, como pastor delas. E quem viesse após ele, no mesmo espírito dele, também não serviria. Nos tempos do Novo Testamento não foi diferente. Disse Jesus: "Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?" (Mt 10.25). E mais: "Tenho-vos dito estas cousas para que não vos escandalizeis. Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus. Isto farão porque não conhecem o Pai, nem a mim" (Jo 16.1-3).
Paulo disse: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.3,4).

Teologia de Missões dos Salmos


Josivaldo de França Pereira

O presente estudo é uma tentativa de se mostrar que os Salmos têm muito mais a oferecer que o uso litúrgico em nossas igrejas. Existe uma perspectiva missionária neles que muitas vezes passa despercebida por nós. Convido você a repensar o livro dos Salmos e resgatar um de seus enfoques originais que era cantar louvores a Deus com todos os povos.

I - TÍTULO E DIVISÕES DO LIVRO DOS SALMOS
1.1. O título do livro dos Salmos
O título original do livro dos Salmos é tehllim (louvores). A palavra portuguesa "salmos" deriva-se da LXX pela tradução do termo hebraico mismor, que significa "cântico acompanhado de instrumentos musicais". Outra palavra correlata é o verbo zamar_ (cantar, cantar louvores, fazer música). Ocorre apenas no piel, grau que expressa ação ativa intensiva no hebraico. Zamar_é cognato de zammeru "cantar", "tocar um instrumento". É usado apenas em poesia, quase exclusivamente nos Salmos. Termos como maskil_são desconhecidos.[1]
1.2. As divisões do livro dos Salmos
O livro dos Salmos compreende 150 cânticos divididos em cinco livros - Salmos 1-41, 42-72, 73-89, 90-106 e 107-150 - cada um terminando numa doxologia especial, sendo o Salmo 150 uma doxologia do saltério todo. Como livro de louvores, os Salmos são caracterizados por seu testemunho devocional, composto à luz das atividades salvíficas de Deus em Israel. Enquanto nos outros livros da Bíblia geralmente é Deus quem fala às pessoas, indo ao encontro delas, nos salmos Deus "não" fala; as pessoas vão ao encontro dele, com reverência mas com muita espontaneidade. As experiências sentidas nos salmos transcendem as divisas do tempo, cultura e nacionalidade. Nós nos identificamos com as experiências dos salmistas e com eles compartilhamos nossas alegrias e tristezas na presença do Senhor.

II - ORIGEM E AUTORIA DOS SALMOS
2.1. A origem dos Salmos
Alguns estudiosos, como Georg Fohrer, afirmam que a maioria dos Salmos foi redigida no período pós-exílico.[2] Contudo, tanto a evidência arqueológica recente quanto a comparação literária apontam para uma datação do período de Davi e Salomão. Segundo Laird Harris,
Não parece existir prova positiva contra o ponto de vista tradicional de que a maior parte dos salmos foi escrita em torno do ano 1000 a.C., como afirmam as inscrições. As novas provas derivadas dos pergaminhos do mar Morto descartam a idéia de que a escritura de alguns salmos se estendeu até ao segundo século antes de Cristo, conforme o sustentaram alguns exegetas no passado (Bíblia de Estudo Vida, 1984, p. 638).
Carriker complementa dizendo que alguns Salmos (como o Salmo 48) podem ter tido origem no inicio da monarquia, e outros, no período do exílio (como o Salmo 137). Alguns podem ser mais recentes ainda (Salmos 105, 106 e 136), e outros podem ter origens mais antigas que o tempo de Israel, provindo de fontes pagãs.[3] E ainda:
Israel utilizou a mesma forma poética das culturas vizinhas, isto é, o estilo, a estrutura, a rima e, freqüentemente, até mesmo as mesmas figuras de linguagem a fim de efetuar uma comunicação familiar e compreensível ao nível popular. Todavia, rejeitou qualquer material que não coadunava com a fé em Iahweh, e modificou outros materiais para exprimir as verdades de sua fé (CARRIKER, 1992, pp. 113, 14).
2.2. A autoria dos Salmos
O livro dos Salmos é, provavelmente, o livro da Bíblia com o maior número de autores.
Davi. Setenta e três Salmos, quase metade do saltério, contém a expressão hebraica le Davi - "De Davi". Embora a preposição le_tenha uma variedade de significados ("ao" ou "para o" mestre de canto), pouca dúvida pode haver de que nesse contexto, e em contextos análogos, tenha le o sentido do genitivo de autoria – “De”. Isso está claro no título mais amplo do Salmo 18. O Antigo Testamento conserva outras poesias de Davi (2Sm 1.17-27; 23.1-7), o reconhece como o "mavioso salmista de Israel" (2Sm 23.1) e como inventor de instrumentos musicais (Am 6.5). O Novo Testamento também reconhece o Davi histórico cujo "túmulo permanece entre nós até hoje" (At 2.29), conforme declaração de Pedro no dia de Pentecostes.
Salomão. O rei Salomão, e filho de Davi, é o autor dos Salmos 72 e 127.
Os filhos de Coré. Doze Salmos (42-49, 84 e 85, 87 e 88) são atribuídos a essa família levita, descendentes do líder rebelde com este nome, cujos filhos - para maior proveito nosso - foram poupados quando ele morreu por sua rebeldia (Nm 26.10,11). Uma parte da família tornou-se porteiros e guardas do templo (1Cr 9.17ss.; cf. Sl 84.10); outra parte, cantores e músicos do coro do templo fundado por Hemã no reinado de Davi. Os levitas companheiros de Hemã, Asafe e Jedutum (ou Etã), dirigiam os corais tirados de dois outros clãs da tribo de Levi (1Cr 6.31,33,39,44).
Asafe. Autor de doze Salmos (50,73-83). Asafe era descendente de Gérson, filho de Levi (1Cr 6.39); nomeado pelos principais levitas como líder de música, quando a arca foi transportada para Jerusalém (1Cr 15.17,19). Davi o tornou líder da adoração cantada em coral (1Cr 16.4,5).
Hemã. Salmo 88. Hemã foi o fundador do coral conhecido como "os filhos de Coré". Era famoso pela sua sabedoria (1Rs 4.31).
Etã. Salmo 89. Provavelmente é o mesmo Jedutum (Sl 39, 62, 77) que fundou um dos três corais de Israel (cf. 1Cr 15.19; 2Cr 5.12).
Moisés. Salmo 90.
A LXX ainda atribui a Ageu e Zacarias a autoria de cinco Salmos. Contudo, uma boa parte dos Salmos é de autoria desconhecida.

III - A MISSIOLOGIA DOS SALMOS
Carriker observa:
Quando lembramos que, como poesia, oração e hinos, os salmos possuem uma qualidade altamente emotiva, então reparamos especialmente os temas relacionados â esperança humana. Embora estes não esgotem os temas que os salmos elaboram, são especialmente significantes do ponto de vista missiológico (Missão Integral, 1992, p. 114).
3.1. Os principais temas dos Salmos
Há três temas principais nos Salmos. Em primeiro lugar, um encontro pessoal com Deus envolvendo o princípio da sua existência real. Em segundo lugar, a importância da ordem natural das coisas, envolvendo o princípio do poder criador, universal e sábio de Deus. Em terceiro lugar, um conhecimento consciente da história, envolvendo o princípio da escolha de Israel para desempenhar um papel especial e benevolente entre os povos.
Nos Salmos (por exemplo, Sl 22.28; 24.1; 33.8; 47.8; 48.10; 66.7; 67; 87; 93-100; 117) está claro que o trato de Deus com Israel está relacionado diretamente com todos os povos. Num Salmo das nações como o 67, por exemplo, essa afirmação salta aos olhos. Israel cantava e orava: "Seja Deus gracioso para conosco e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o seu rosto, para que se conheça na terra o teu caminho; em todas as nações a tua salvação" (Sl 67.1,2). A conclusão é ainda mais gloriosa: "Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra o temerão" (v.7). A bênção de Deus para o povo de Israel era com propósitos missionários. Os mesmos propósitos missionários de Deus para Israel podem ser claramente vistos no Salmo 117 e nos Salmos que mencionamos acima.
As nações foram criadas por Deus (Sl 86.9) e convidadas, mediante Israel, a louvar o Deus de toda terra. Israel pecou em não cumprir a contento a sua missão. Entretanto, Davi, por exemplo, tinha uma concepção profunda de missões. Ele compreendeu o propósito missionário de Deus para os povos quando enfrentou Golias. Disse ele: "Hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão; ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial dos filisteus darei hoje mesmo às aves dos céus e às bestas-feras da terra; e toda terra saberá que há Deus em Israel" (1Sm 17.46). Essa consciência missionária de Davi marcou significativamente alguns de seus Salmos (Sl 66.1,4,7,8; 72.11,17; 86.9; 96.3; 98.2,4; 117.1), como os de outros salmistas também.
3.2. O conteúdo e as implicações missionárias dos Salmos
Como poesia, oração e hinos, os Salmos são especialmente significantes do ponto de vista missiológico. A esperança religiosa é uma categoria escatológica e, consequentemente, os temas que eles (os Salmos) contêm exprimem uma esperança escatológica e, por isso, são orientados em grande parte para o futuro. Estes temas são: a glória de Deus, o domínio universal de Deus, a esperança messiânica, juízo e misericórdia.[4]
Carriker, comentando acerca de seu estudo das implicações missiológicas dos Salmos, observa:
É mister lembrar que as implicações missiológicas elaboradas através do nosso estudo são meramente sugestivas e representativas e de maneira alguma pretendem ser compreensivas e exaustivas. Uma teologia de missão, inclusive uma teologia bíblica de missão, jamais é definitiva pois, enquanto o povo de Deus permanece com uma missão, uma tarefa de testemunho ao mundo, sempre e em todo lugar terá que repensar, atualizar e contextualizar a sua fé em novas situações e para novos desafios. Não é que a fé em si mude, mas a expressão adequada e efetiva dela (Missão Integral, 1992, p. 117).[5]

IV - RELEVÂNCIA PARA O NOSSO POVO
A importância de um estudo missiológico dos Salmos para o povo brasileiro consiste em sua mensagem de salvação e esperança, conforme exemplificamos acima. As pessoas sem Cristo vivem ou na apatia mórbida da desesperança ou no desespero insuportável que leva ao caos e até mesmo ao suicídio. A pregação dos Salmos deve ter em vista o contexto social do povo brasileiro, a fim de oferecer a ele a redenção do Messias salvador.
Estudar o livro dos Salmos missiologicamente é antes de tudo uma questão de justiça para com a igreja, a sociedade e ao próprio livro dos Salmos. Na missiologia dos Salmos precisamos compartilhar da esperança em Cristo e da companhia inspiradora do Deus que pode suprir todas as nossas necessidades (Sl 116.8).
Cantemos os nossos belos Salmos, aprendamos a orar com os salmistas, mas, principalmente, façamos de sua mensagem de salvação e esperança a razão de ser de nossa existência no mundo.




[1] Maskil aparece em 57 salmos, normalmente em conexão com um nome ou título.
[2] Citado por Timóteo CARRIKER, Missão Integral: Uma Teologia Bíblica. São Paulo: Sepal, 1992, p. 111.
[3] Ibidem.
[4] Para uma exposição interessante sobre cada um desses temas veja CARRIKER, op. cit., p. 114-117. E para um estudo exegético nos Salmos messiânicos veja Gerard Van GRONINGEN, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 284-367.
[5] Um estudo sobre os vários princípios missiológicos para a comunicação efetiva da fé nos Escritos em geral, e nos Salmos em particular, pode ser encontrado em CARRIKER, op. cit., p. 118-128.