quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A interpretação de Lucas 23.34 à luz do Antigo Testamento

O pecado por ignorância
 
Josivaldo de França Pereira


Qual o significado da oração de Jesus "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" à luz do Antigo Testamento? Os comentaristas costumeiramente ligam Lucas 23.34 a Isaías 53[1] (em especial com o versículo 12) e vice-versa. Isaías 53.12 diz: "Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu".
Conquanto seja correto afirmar que a oração de Jesus em Lucas 23.34 é "um cumprimento literal"[2] de Isaías 53.12, esta última passagem não diz tudo sobre a primeira. Isaías 53.12 fala, de modo geral, da intercessão mediadora do Messias que havia de vir, porém, não trata especificamente da questão do pecado por ignorância. É necessário irmos ao livro de Levítico. 
O capítulo 4 de Levítico lista uma série de sacrifícios pelos pecados por ignorância, isto é, os sacrifícios pelos pecados por ignorância dos sacerdotes (vv1-12); os sacrifícios pelos pecados por ignorância de toda a congregação (vv13-21); os sacrifícios pelos pecados por ignorância de um príncipe (vv22-26) e os sacrifícios pelos pecados por ignorância de qualquer pessoa (vv27-35).
Tanto os sacrifícios pelos pecados por ignorância dos sacerdotes e os de toda a congregação eram semelhantes em seu final, isto é, o novilho devia ser queimado fora do arraial (vv12 e 21; cf. Hb 13.11-13), ao passo que os sacrifícios pelos pecados por ignorância de um príncipe e de qualquer pessoa eram distintos dos dois primeiros, ou seja, o bode e a cabra, respectivamente, não eram levados para fora do arraial (vv26 e 35). A explicação é que o príncipe não era mediador entre Deus e o povo no sentido específico em que o era o sacerdote. E o pecado de um indivíduo não representava o da coletividade, pelo menos não no contexto de Levítico 4.
Na cruz o Filho foi desamparado pelo Pai quanto ao pecado que levava (Mt 27.46), porém, ele foi ouvido em sua oração quanto ao papel de Mediador que desempenhava.[3] Entretanto, se por um lado podemos dizer que Cristo foi o perfeito Mediador de Lucas 23.34, como de fato ele foi; do outro também podemos afirmar que ele se ofereceu em sacrifício ao Pai não apenas como cordeiro de Deus, mas igualmente como sacerdote (ou sumo sacerdote) em seus pecados, por assim dizer; como a vítima do e pelo pecado; como o representante e substituto de uma coletividade pecadora (cf. Jo 11.49-52).  
Em Hebreus 7.26,27 está escrito: “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isso uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu” (itálicos acrescentados). De acordo com o autor aos Hebreus, Jesus é o sumo sacerdote-vítima. Ele não se ofereceu apenas como cordeiro ou novilho para o sacrifício, mas igualmente se entregou como se fosse um sacerdote em pecado.
Sabemos que Jesus foi semelhante a nós em todas as coisas, “mas sem pecado” (Hb 4.15); contudo, “Aquele que não conheceu pecado, ele (Deus) o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21).
Na cruz é como se Jesus dissesse ao Pai: "Eles não sabem o que fazem, mas eu sim, eu assumo a culpa deles." Jesus tomou para si os nossos pecados como se fossem dele mesmo. Portanto, a oração de Jesus “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem", não consistiu em palavras soltas ao vento, inventadas por ele naquela hora. Ele estava cumprindo cabalmente as Escrituras.




[1] "Tem-se dito corretamente que parece que este capítulo foi escrito aos pés da cruz do Gólgota" (J. Ridderbos, Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 440.
[2] Ibidem.
[3] Veja a postagem “Quem são os ‘lhes’ de Lucas 23.34?” em 02/05/2011.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Poder do Espírito

Josivaldo de França Pereira

Existe uma série de palavras para indicar “poder” no Novo Testamento. Lucas empregou dynamis em Atos 1.8, mas há também exousia, thronos, bia, ischys, energia, kratos e keras. Será que houve algum motivo especial para Lucas usar a palavra dynamis ao invés de qualquer outra, ou ele a escolheu aleatoriamente?
Vejamos: exousia é uma palavra usada com muita frequência no Novo Testamento. A rigor é traduzida como "autoridade". Contudo, geralmente era empregada num contexto político (cf. Rm 13.1-3). Thronos indicava, a priori, a sede do governo, mas depois passou a significar a pessoa que detinha semelhante posição de autoridade ou força. Bia está associada ao emprego da força coerciva. Ischys significa força física. Energia é poder no seu exercício; força em ação. Kratos tem um sentido semelhante ao de ischys, porém, se refere mais ao exercício da autoridade. E keras (lit.: chifre), por sua vez, indica força e, juntamente com kratos, formam as duas palavras do Novo Testamento cujo significado fica mais perto de exousia e dynamis. Contudo, dynamis tem um sentido todo exclusivo. É a palavra do poder sem fronteiras, por assim dizer. A palavra apropriada para se referir, por excelência, ao poder sobrenatural e extraordinário da pessoa do Espírito Santo.
Portanto, Lucas sabia muito bem que ao escolher dynamis estava utilizando o termo que melhor representa a ação poderosa do revestimento do Espírito na vida do crente e da igreja. "... permanecei, pois, na cidade", disse Jesus aos discípulos, a quem ele havia primeiramente comissionado para evangelizar o mundo, "até que do alto sejais revestidos de poder..." (Lc 24.49; cf. At 1.8).
Quando o Espírito Santo foi derramado por ocasião do Pentecostes, "Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus..." (At 4.33). E ainda: "Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais..." (At 6.8). Temos também a declaração de Pedro na casa de Cornélio a respeito de Jesus, que "Deus ungiu...com o Espírito Santo e poder..." (At 10.38). Nesses exemplos Lucas revela que desde o princípio o evangelho foi disseminado pelo poder do Espírito Santo.
O poder do Espírito é o segredo do sucesso da missão da igreja. Lembremos que os discípulos de Jesus foram homens que andaram cerca de três anos com o Mestre. Conheceram-no intimamente, foram ensinados por ele, ouviram seus sermões e viram seus milagres. Presenciaram seus sofrimentos, morte, ressurreição e ascensão. Se alguma vez existiram homens que estivessem em melhor posição e condição de falar ao mundo acerca da ressurreição de Jesus e de todos os fatos a respeito dele, esses homens foram seus discípulos. No entanto, o que o Senhor Jesus diz é que eles seriam totalmente incapazes de fazê-lo se do alto não fossem revestidos do poder do Espírito. Isso é extremamente significativo, principalmente quando olhamos para o livro de Atos e percebemos que Lucas não pretende, pelo menos a princípio, enfatizar a obediência dos apóstolos em cumprir a Grande Comissão, mas sim, deixar em evidência a relutância de todos eles em obedecê-la (cf. At 8.1).




Aos mestres com carinho

10 lembretes importantes

                                                            Josivaldo de França Pereira

Querido(a) professor(a): 

1) Ao lecionar na classe bíblica, evite dar as respostas de suas próprias perguntas imediatamente. Se a classe sabe que você irá responder logo em seguida, sem que ela tenha tempo de responder, com certeza não se entusiasmará em respondê-las. Na verdade ela ficará com a impressão de que você não está tão interessado assim no que a classe pensa.
2) Nunca desdenhe de uma pergunta por mais óbvia que ela pareça ser.
3) Não ria jamais com a pergunta de seu aluno. Geralmente ele receberá isso como desprezo, não da pergunta, mas da própria pessoa dele.
4) Faça elogios sinceros aos seus alunos por mais simples que sejam as perguntas ou respostas.
5) Quando tiver dificuldade com alguma pergunta e/ou achá-la muito interessante, valorize seu aluno ou aluna pela “boa pergunta” e peça-lhe permissão para compartilhá-la com a classe.
6) Jamais manipule a palavra. Você não é o dono da verdade. O bom professor aprende juntamente com seus alunos.
7) Seja humilde e sincero, não tenha vergonha de dizer “não sei” ou “vou pesquisar e trago a resposta semana que vem”. Mas traga mesmo! A classe saberá que além de humano você é uma pessoa de palavra.
8) Evite o distanciamento do assunto proposto na classe. Tenha o controle da situação.
9) Seja dinâmico e dê sua aula com gosto e entusiasmo. Isso compensará o fato de, por exemplo, o aluno levantar cedo e ir à escola dominical, pois ele irá à aula com o mesmo entusiasmo seu.
10)Sua aula precisa ter começo, meio e fim. E se, porventura, não teve tempo de terminar a lição, deixe bem claro que ela terá um fim. Seus alunos precisam saber aonde você e eles estão indo.

Eliabe, o homem que Deus rejeitou

Josivaldo de França Pereira


"Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse consigo: Certamente, está perante o SENHOR o seu ungido. "Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1Sm 16.6,7).

Tudo aconteceu por volta do ano 1000 a.C. A nação de Israel estava um caos. Crises de todos os tipos e tamanhos assolavam as tribos de Jacó. Saul, o primeiro rei de Israel, perdera completamente o rumo e a direção do seu governo. A constante desobediência do monarca para com o Senhor o fez perder definitivamente o domínio da nação. Deus rejeita Saul e escolhe um novo sucessor. Quando Samuel, o grande juiz e profeta de Israel, partiu para Belém a fim de ungir um dos filhos de Jessé, Deus não havia revelado ao seu profeta qual filho de Jessé ele deveria ungir.
Samuel tinha verdadeira intimidade com o Senhor, por isso, assim que viu Eliabe achou que naquele momento o seu coração também fosse um só com Deus. Mas estava enganado. A Bíblia relata: "Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse consigo: Certamente, está perante o SENHOR o seu ungido" (1Sm 16.6). O que levou Samuel a pensar assim? Eliabe era um jovem de boa aparência e estatura, o que por certo lembrava Saul (1Sm 9.1,2; 10.23,24). Um sucessor que lembrasse algo de bom do seu antecessor aparentemente faria uma transição de governo menos traumática. Mal sabia Samuel que Deus queria apagar de diante de si qualquer referência a Saul.
Outra questão que Samuel deve ter considerado favorável a Eliabe, como um possível candidato ao trono, era o fato de ele ser o primogênito de Jessé. Nos tempos bíblicos era comum conceder ao filho mais velho honra dobrada. Na ausência do pai o primeiro filho estava investido de autoridade sobre seus irmãos. Sua posição só era inferior a de seu pai. O privilégio da primogenitura era grandemente apreciado. Contudo, o filho mais velho podia ficar sem os direitos de primogenitura em caso de algo muito grave cometido por ele (cf. Gn 49.3,4; 1Cr 5.1,2). Tudo indica que aos olhos de Deus Eliabe já não era mais o primogênito, no verdadeiro sentido do termo. Algumas das razões pelas quais Samuel pensou que Eliabe fosse o ungido do Senhor foram ditas pelo próprio Deus: "Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1Sm 16.7; cf. 1Cr 28.9).
Será que Samuel acreditava que o porte físico era realmente o critério de Deus para a escolha de um rei? Será que o profeta do Senhor se deixou levar simplesmente pela aparência e estatura de Eliabe? Lembremos que Israel passava por uma crise tremenda. Religiosa e politicamente a nação não estava bem. Era preciso reverter esse quadro tenebroso o quanto antes. O povo não aguentava mais. Samuel não aguentava mais. No entanto, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos e os nossos caminhos não são os caminhos de Deus (cf. Is 55.8). Acredita-se que desde o momento da unção de Davi até sua subida ao trono houve um período de aproximadamente quinze anos. Quer dizer, Deus levaria cerca de quinze anos para restaurar Israel! E por quê? Porque Deus não está em crise. Ele está acima das crises. Ele sabe o que faz e como faz. Por isso ele age no tempo certo. Não chega antes e nem depois. Deus age na hora certa.
Portanto, não foram simplesmente a aparência e estatura de Eliabe, ou mesmo o conceito de primogenitura, que levaram Samuel a pensar que o filho mais velho de Jessé fosse o sucessor de Saul, e sim, o fato de Eliabe ser um homem feito. Na concepção de Samuel, Eliabe estava pronto para subir ao trono naquele mesmo dia e no dia seguinte pôr a casa em ordem. No entanto, os planos de Deus eram outros, como Samuel logo haveria de compreender (1Sm 16.10-13).
Ficaremos sem saber ao certo por que Deus rejeitou Eliabe. Seria essa rejeição a mesma nos moldes daquela destacada por Paulo em Romanos 9 quando se referindo a Esaú e Jacó ele diz: "Como está escrito: Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú" (Rm 9.13)? Com certeza não, visto que em Romanos Paulo está tratando da "eleição da graça" (cf. Rm 11.5) ou, como ele mesmo explica, "E se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça" (Rm 11.6).
Se no caso de Esaú sua rejeição por parte de Deus foi sem obras, em 1Samuel 16.7 a rejeição de Eliabe foi por obras. Eliabe fez alguma coisa que o desqualificou para sempre diante de Deus como o provável sucessor de Saul. Seria Eliabe um mau caráter? Teria Deus rejeitado Eliabe por alguma coisa de errado que este pensara ou fizera contra Davi? Não sabemos ao certo, apesar do único diálogo de Eliabe com Davi registrado na Bíblia não ser de bom tom.
Quando Jessé enviou Davi a seus irmãos com mantimento, porque estavam num acampamento militar, e Davi começou a se interessar com o que ali estava se passando, "Ouvindo-o Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se-lhe a ira contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção, e a tua maldade: desceste apenas para ver a peleja. Respondeu Davi: Que fiz eu agora? Fiz somente uma pergunta" (1Sm 17.28,29). A réplica de Davi: "Que fiz eu agora?", sugere que o irmão mais velho o perturbava há algum tempo.
O que sabemos com certeza é que Deus não queria Eliabe como rei do seu povo. Deus vê o coração. Eliabe não era um homem segundo o coração de Deus, como seria Davi (cf. At 13.22). O coração de Eliabe não era tão bom quanto a sua aparência física. Ele não era um candidato apropriado. Sua aparência era tão enganosa como foi a de Saul.
A lição a ser aprendida nesta história é: As aparências enganam, mas Deus conhece os corações. Mais do que conhecer a Deus é ser conhecido por Deus.
É preciso nos ajustarmos à maneira divina de avaliar as pessoas.






segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster

Considerações Gerais

Josivaldo de França Pereira


Elaborado no século XVII pela famosa Assembleia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
Segundo o Breve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna eficaz para a salvação? Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento? Para muitos evangélicos é provável que não haja dificuldade em responder essas perguntas. Mas para outros é possível existir uma vaga lembrança acerca do presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total.
Os sacramentos não devem ser vistos como mera formalidade pública. Estudá-los (e principalmente vivenciá-los) é uma das tarefas mais gratificantes e enriquecedoras que possa existir. Portanto, o estudo dos sacramentos deve ser feito no intuito de crescermos na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18). Que o Espírito de Deus nos oriente nesse sentido.

Definição, importância e bênçãos dos sacramentos

Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão direta e objetiva quanto a definição do Breve Catecismo: "Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual, por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes" (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente definição do Breve Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre outras.
A importância do sacramento está no fato de ser "uma santa ordenança, instituída por Cristo". Indubitavelmente a Palavra de Deus é o mais importante meio de graça, porém, não podemos subestimar ou diminuir o valor de um sacramento, visto que foi o próprio Deus quem instituiu os dois (a Palavra e os sacramentos) como meios de graça.
Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra quanto dos sacramentos. E do modo como recebemos a Cristo em nosso coração pela fé, assim devemos receber a Palavra e os sacramentos. E receber a Palavra de Deus e os sacramentos pela fé é, segundo Berkhof, "o único modo no qual o pecador pode chegar a ser participante da graça que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos". [1].
O sacramento, além de ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos espirituais. É por isso que a negligência voluntária dos sacramentos, por parte do crente, resulta em sérios prejuízos espirituais, conforme 1Coríntios 11.29,30.
De que maneira somos beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos ensina que "por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes". Segundo Agostinho (354-430), os elementos sensíveis dos sacramentos são "sinais visíveis de uma graça invisível", pois representam a purificação espiritual que é feita no sangue de Cristo, o sacrifício remidor (cf. At 22.16; 1Jo 1.7). Os sacramentos selam a nossa união e vivificação com Cristo. Aplicam as bênçãos da promessa de pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de Cristo.

A eficácia dos sacramentos

"Como os sacramentos se tornam meios eficazes para a salvação? Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação, não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Pergunta e Resposta 91; cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17).
Veja que antes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve Catecismo é cuidadoso ao nos informar sobre o que não torna os sacramentos eficazes. Em primeiro lugar, os elementos sensíveis ou visíveis dos sacramentos não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum. Sem dúvida a Assembleia de Westminster tinha católicos e luteranos em mente quando fez a afirmação acima. Porque ambos (católicos e luteranos) defendem, quanto ao batismo, a chamada "regeneração batismal", atribuindo poder regenerador à água do batismo. Quanto à ceia do Senhor, os primeiros falam de uma "transubstanciação", isto é, uma transformação do pão em carne de Cristo e do vinho em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas não menos equivocados, enfatizam uma "consubstanciação", isto é, ensinam que os elementos da ceia não se transformam em substâncias de carne e sangue, porém, Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado.
Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude daqueles que os ministram (ex: os pastores). Para os católicos romanos, que consideram o batismo absolutamente essencial para a salvação, é cruel fazer a salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um sacerdote; então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as parteiras. Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado por um ministro devidamente credenciado. Mas a eficácia do batismo não está nele e não depende dele. Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação "somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Resposta 91). E assim os sacramentos fortalecem, confirmam e aumentam a nossa fé e dão testemunho de nossa religião perante os homens.

Os sacramentos do Novo Testamento

           Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também os sacramentos do Antigo Testamento. Os sacramentos do Velho Testamento foram a páscoa e a circuncisão. "Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor" (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 1Co 11.23-26). A igreja romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para sete. Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a penitência, as ordens, o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas não reconhecem os sacramentos de Roma, porque não existe ordem expressa do Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos. Por exemplo: O crente pode casar-se, porém, não recebeu uma ordem de Cristo, através do Evangelho, para se casar. E embora o matrimônio tenha sido instituído por Deus, não tem a finalidade de ser um meio de graça. O sacramento verdadeiro exige uma cerimônia externa, ordenada por Cristo para confirmação de alguma promessa.
         Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe uma diferença de grau e não de essência. Os sacramentos do Antigo Testamento tiveram um caráter nacional, apesar de sua significação espiritual. Apontavam para frente, para Cristo, e eram selos de uma graça que ainda seria adquirida; enquanto que os sacramentos do Novo Testamento apontam para trás, para Cristo, e para sua obra consumada. Os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos crentes uma medida ainda mais rica de graça espiritual. [2].
Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta bem o pensamento do Breve Catecismo quando diz: "Os sacramentos, quando administrados de conformidade com os princípios estabelecidos nas Escrituras, nos fazem relembrar continuamente a grande base de nossa salvação, a saber, Jesus Cristo em sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que temos de andar de modo digno da chamada mediante a qual fomos chamados". [3].


NOTAS

[1] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p. 736.
[2] Quanto à unidade essencial dos sacramentos do Antigo e Novo Testamentos, veja o testemunho do apóstolo Paulo em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e Colossenses 2.11.
[3] R. J. Coates, Sacramentos. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1435.



Sacramentos de Roma

Josivaldo de França Pereira


       Sacramentos são ordenanças sagradas instituídas por Cristo para simbolizar, selar e aplicar ao crente os benefícios da salvação. Cristo instituiu dois sacramentos: o Batismo e a Ceia do Senhor (Mt 28.19; 26.26-30; Mc 14.22-26; Lc 22.14-20; 1Co 11.23-25).
A Igreja Romana, durante a Idade Média, aumentou de maneira injustificada o número dos sacramentos para sete. Além dos que foram instituídos por Jesus, acrescentaram a confirmação, a penitência, a extrema-unção, as ordens e o matrimônio.
A confirmação é o "sacramento" em que o bispo faz o sinal da cruz na testa do indivíduo batizado e lhe toca na face a mão direita com óleo, para confirmá-lo e fortificar na graça da fé recebida no batismo. A confirmação é conhecida também como o sacramento da crisma*.
O "sacramento" da penitência ou simplesmente penitência é o da "remissão" dos pecados de quem os confessa e se arrepende deles.
Extrema-unção é a unção que se faz aos moribundos com o "santo óleo".
As ordens referem-se à hierarquia eclesiástica. É o "sacramento" que conferido pelo bispo dá o poder de exercer as funções eclesiásticas. Cada grau hierárquico forma uma ordem. As ordens podem ser Maiores (presbítero, diácono e subdiácono) ou Menores (porteiro ou hostiário, leitor, exorcista e acólito).
Quanto ao matrimônio há grande incoerência por parte de Roma ao denominá-lo sacramento. Uma vez que a mesma o considera um mal necessário. Se é um mal como pode ser sacramento? Por um lado é sacramento, mas por outro sujeira, poluição e imundícia carnal. Se por um lado é sacramento, por outro é proibido aos sacerdotes.
A Igreja Romana procura encontrar base escritural para a confirmação em Atos 8.17; 14.22; 19.6; Hebreus 6.2; para a penitência em Tiago 5.16; para a extrema-unção em Marcos 6.13; Tiago 5.14; para as ordens em 1Timóteo 4.14; 2Timóteo 1.6 e para o matrimônio em Efésios 5.22,23.**
Nunca é demais lembrar que os verdadeiros sacramentos são aqueles instituídos por Cristo através de cerimônia externa, com promessas para todos o que nele creem e deles participam em plena comunhão.

__________________
* A palavra "crisma" é de origem grega e significa unção. Na Igreja Romana é feita com o denominado "santo óleo" (azeite perfumado com bálsamo que serve para unção na administração de certos sacramentos e celebração de outras cerimônias).

** Para uma ampla apresentação dos sacramentos romanos e a refutação dos mesmos, veja As Institutas de João Calvino, Livro IV, Capítulo XIX.


sábado, 1 de outubro de 2011

Quando o sofrimento é bênção


Josivaldo de França Pereira

Nem todo sofrimento é bênção; nem toda bênção do sofrimento é para todos. De acordo com a Bíblia, “Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Essa verdade pode ser exemplificada através da experiência de três personagens bíblicas.

1. O autor do Salmo 119.71

Não se sabe ao certo quem é o autor do Salmo 119. O que sabemos com certeza é que uma das mais belas declarações do Salmo 119 está no verso 71: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos”. Semelhante a este são os versículos 67 e 75 que dizem, respectivamente: “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra”. “Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste”. Parece que Tiago tinha as palavras do salmista em mente quando disse: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança” (Tg 1.2,3). O sofrimento sempre tem um fim proveitoso na vida daqueles que amam a Deus.
Spurgeon, comentando o Salmo 119.71, declara: “Infindos benefícios nos têm sobrevindo através de nossas dores e tristezas; e no mais, permanece isto: que assim temos sido instruídos na lei”.[1] E ainda: “Mui pouco se tem a aprender sem aflição. Para sermos bons alunos, temos de ser bons sofredores. Como dizem os latinos: Experientia docet – a experiência ensina. Não há estrada régia para se aprenderem estatutos régios; os mandamentos de Deus são melhor lidos por olhos úmidos de lágrimas”.[2]

2. Paulo em 2Corintios 12.7

O texto de 2Corintios 12.7 é parte integrante do relato da visão celestial que o apóstolo Paulo teve nos versos de 1 a 4. Então, ele prossegue: “E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte”. Note que a bênção do sofrimento de Paulo consistia no fato dele não pecar. O espinho na carne de Paulo foi para que ele não se vangloriasse com a grandeza das revelações.
Existem várias teorias a respeito da natureza do ''espinho na carne'' de Paulo. Nenhuma delas é conclusiva.[3] A única certeza é que o espinho na carne de Paulo era algo que o incomodava terrivelmente, a ponto do apóstolo pedir três vezes ao Senhor que o afastasse dele. O bálsamo ou antídoto contra o “espinho” estava na maravilhosa graça de Deus que, apesar de não “arrancar” o espinho como Paulo queria, era suficiente para trazer alívio e refrigério ao apóstolo do Senhor.
Assim como Paulo, Deus muitas vezes nos humilhará através do sofrimento para não cometermos o pecado da soberba, ou qualquer outro tipo de pecado que possa nos levar ao prejuízo espiritual.

3. Jesus segundo Hebreus 5.8,9

Talvez uma das declarações mais intrigantes acerca da pessoa de Cristo seja a de Hebreus 5.8,9: “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas cousas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Como é que Jesus – que não tinha pecado e, portanto, nunca pecou – aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e foi aperfeiçoado?
A passagem bíblica de Hebreus 5.8,9 não quer dizer que Jesus progrediu da desobediência para a obediência, ou da imperfeição para a perfeição. O mesmo escritor diz que ele nunca pecou (Hb 4.15). O significado do texto é que o processo pelo qual Jesus demonstrou obediência cada vez mais profunda, e tendo sido aperfeiçoado, foi o sofrimento. Segundo Kistemaker, “em sua humanidade, Jesus teve de mostrar total obediência; ele teve de tornar-se ‘obediente até a morte – mesmo morte na cruz!’ (Fp 2.8). Como diz uma outra versão: ‘Apesar de ser filho, ele aprendeu a obediência na escola do sofrimento’”.[4] E mais: “No Jardim do Getsêmani e na cruz do Calvário, ele sofreu os testes máximos. Jesus foi aperfeiçoado pelo sofrimento. Sua perfeição ‘tornou-se a fonte de salvação eterna para todo o que obedece a ele’. O autor de Hebreus repete o pensamento que ele expressou em Hebreus 2.10 – Jesus, aperfeiçoado pelo sofrimento, conduz muitos filhos para a glória. A perfeição, portanto, deve ser vista como uma realização da tarefa que Jesus tinha de realizar”.[5]  


[1] Charles Haddon Spurgeon, Salmo 119: O Alfabeto de Ouro. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, p. 115.
[2] Ibidem.
[3] Consulte Colin Kruse, II Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1994, p. 219.
[4] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 200.
[5] Idem, p. 201.