segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Avivamento e a Bíblia


Josivaldo de França Pereira




A Bíblia é o padrão inerrante, infalível e indispensável de qualquer avivamento.[1] A história e a experiência têm mostrado que a relação entre a Bíblia e o avivamento é tão intrínseca que é impossível um reavivamento de verdade sem que ela faça parte dele. Assim, uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela que pode nos dar a direção correta e inequívoca nesse assunto.
Além disso, numa época de tantos extremos como esta em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde aqueles que veem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento, até aqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação humana sem respaldo bíblico.[2] É necessário, mais que nunca, recorrermos à lei e ao testemunho. Os extremos são sempre perigosos e precisam ser evitados.
Permita-me dar um exemplo: Edwin Orr, uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões assim: "Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr menciona esse fato para relatar um desses extremos em que a palavra "avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o mesmo fosse simplesmente uma produção humana com data e hora marcadas.[3] Por isso, é imprescindível que um avivamento seja sempre avaliado pela Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na Bíblia e na História da Igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre persuadidos com e para a Palavra. Avivamento onde a Bíblia não está presente não passa de um movimento avivalista convencional.
"Um reavivamento", diz Campos, "que é produto da obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus passa a ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus".[4] Não existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia.
Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o nome do Senhor" (Gn 4.26).[5] O nome Enos quer dizer fraco ou doente, o que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina".[6] À parte dessa indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da raça humana. O relato subsequente do dilúvio ilustra de modo dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.
Depois temos os patriarcas que, por vários séculos, lideraram o povo de Deus. Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia eles agiam com a força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8; 32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).
No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js 7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31).
O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é inevitável. Então, após longos anos de opressão o povo se arrepende e clama ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período, sob a direção de Samuel (1Sm 7.1-17).
Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um avivamento (2Sm 6.12-23). A dedicação do Templo, no início do reinado de Salomão, é outro grande exemplo (1Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos dias de Asa (1Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (1Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2Rs 11.4-12.16). Outro poderoso despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2Rs 18.1-8). Por fim, a descoberta do Livro da Lei do Senhor, durante o reinado de Josias, dá início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2Rs 22,23; 2Cr 34,35).
Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os judeus a interromperem a reconstrução do Templo, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais atenção à lei do Senhor (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31). Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.
No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa de receberem a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação desse dia – o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo, redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a proclamar o evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)".[7]
O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá são muitos os relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na História da Igreja, como por exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI; o “Grande Despertamento” do século XIX; o avivamento entre os Zulus da África do Sul, na década de 1960; e na Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.
A busca por uma vida de obediência a Deus e à sua Palavra, a santificação do corpo e da alma, bem como a valorização da moral e ética cristãs, são desejadas ansiosamente num avivamento de verdade. Que em sua soberana graça e misericórdia, o Senhor nosso Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador", que purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.
"Tenho ouvido, ó SENHOR, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2).






[1] Os termos “avivamento”, “reavivamento”, “despertamento” e correlatos são usados aqui no mesmo sentido.
[2] Cf. Frans Leonard Schalkwijk, Aprendendo da história dos avivamentos. In: Fides Reformata. Vol. II, No. 2. São Paulo: JMC, 1997, p. 61.
[3] Citado por Brian H. Edwards em Revival! A people saturad with God. England: Evangelical Press, 1994, p. 25.
[4] Héber C. Campos, Crescimento da igreja: com reforma ou com reavivamento?. In: Fides Reformata. Vol. I, No. 1. São Paulo: JMC, 1996, p. 45.
[5] Robert Coleman, A chegada do avivamento mundial. São Paulo: CPAD, 1996, p. 53.
[6] Ibidem.
[7] Idem, p. 61.

Chamado Missionário

Josivaldo de França Pereira

"Separai-me agora mesmo a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado" (At 13.2).

Duas coisas estão evidentes na declaração de Atos 13.2. A primeira diz respeito aos chamados ou vocacionados pelo Espírito Santo. O Espírito manda separar Barnabé e Saulo. Quem eram Barnabé e Saulo senão a nata da Igreja Primitiva? E o que os diferenciava dos demais de Atos 13.1? Simplesmente o fato de que naquela ocasião Paulo e Barnabé eram os melhores em termos de liderança. A obra que iam realizar exigia líderes experimentados.[1]
A tarefa missionária requer preparo. Por isso, um líder experimentado é sempre a melhor escolha em termos de missões; o que, por si só, deve levar a igreja evangélica brasileira a uma reflexão muito séria, pois não são poucos os erros cometidos nesse particular. Aquilo que o missiólogo ugandense David Zac Niringiye disse em termos da África, com certeza serve também para levar a igreja brasileira a uma análise geral. Ao criticar os Estados Unidos por desafiar jovens estudantes e seminaristas para saírem da América e encararem um campo missionário, sem qualquer experiência pastoral, Niringiye comentou: "Precisamos de líderes mais experimentados no campo missionário. Infelizmente, eu tenho encontrado muitos missionários que necessitam de mais aprendizagem e experiência".[2]
Quanto mais carente for o campo, maior deve ser o preparo do missionário. Muitas vezes nossas igrejas e agências missionárias enviam para o campo aquele candidato que não se saiu muito bem num seminário teológico ou centro de treinamento missionário, ou aquele pastor que ficou sem igreja (porque nenhuma igreja local o quis por ser fraco de púlpito ou algo parecido). Missões não é uma alternativa de trabalho para quem fracassou no ministério! O Espírito Santo é zeloso e exigente. Ele sempre vai pedir o melhor para a obra de Deus.[3] Não que o vocacionado pelo Espírito seja por si mesmo o melhor em termos de capacidade e habilidade naturais, e sim, alguém que o próprio Deus capacita com seu poder e graça (cf. 1Co 15.9,10; 2Co 3.5; Ef 3.7,8). O desenvolvimento da atividade missionária representa um esforço que vai além da capacidade humana.
É interessante notarmos que João Marcos, o primo de Barnabé e autor do Segundo Evangelho, não estava na lista dos chamados pelo Espírito Santo em Atos 13.2. Lembremos que Marcos já havia trabalhado com Paulo e Barnabé anteriormente (At 12.25); tempos depois os acompanhou na primeira viagem missionária (At 13.5), porém, logo desistiu (At 13.13-15), tornando-se o pivô da separação entre Paulo e Barnabé na segunda viagem missionária (At 15.36-41). Tudo indica que Marcos não era o homem certo (pelo menos não até aquele momento) para auxiliar numa tarefa missionária como aquela que Paulo realizaria.  O Espírito Santo não somente conhece o campo missionário, mas também o perfil do missionário certo.
A segunda coisa que observamos na declaração do Espírito Santo em Atos 13.2 é que ele sempre vocaciona para uma missão específica. "Para a obra a que os tenho chamado", diz o texto bíblico. Há tempo que Paulo e Barnabé vinham sendo trabalhados pelo Espírito. Os dois missionários trabalharam juntos algumas vezes (At 9.26-28; 12.25). Paulo, por exemplo, mesmo antes de ir para Antioquia já tinha conhecimento de seu chamado missionário (At 9.6; cf. 22.10-15; 26.15-18). Desse modo, a convocação para a missão em Atos 13 não era o chamado propriamente dito, mas a confirmação de um chamado feito algum tempo atrás. Portanto, a convocação de Paulo e Barnabé, especificamente, não aconteceu na igreja de Antioquia. Atos 13.2 apenas confirmou o que todo mundo, inclusive eles e a igreja de Antioquia, já sabia. Isso está claro no uso que Lucas faz do verbo proskeklémai, imperfeito médio de kaléo (chamar), que indica uma ação ocorrida no passado, mas confirmada no presente. Foi assim que o Espírito Santo confirmou perante a igreja de Antioquia o chamado de Paulo e Barnabé. No Novo Testamento o chamado missionário é sempre confirmado pelo Espírito através da igreja. "Quando o crente é chamado pelo Espírito, o mesmo Espírito o revela à igreja.”[4] Agora, como isso é feito hoje? Como o Espírito Santo nos dias atuais  chama e confirma a vocação missionária de alguém pela igreja?
Muitos de nossos jovens que almejam o ministério parecem  viver  entre  a tensão de um chamado dramático do Espírito, de um lado, e da não necessidade de chamado algum, do outro. Os primeiros querem sonhos e visões, como Paulo os teve; os segundos se contentam em afirmar que a tarefa missionária é responsabilidade de todos nós e por isso nenhum tipo de chamado é exigido.[5] É verdade que a missão, num sentido geral, pertence a todos, porém, existe um chamado específico para uma obra específica. É o caso do apóstolo Paulo, que além de ter uma experiência tremenda no caminho de Damasco, foi dotado de uma perspectiva toda especial de vocação missionária.
Não obstante, a experiência de Paulo não deve ser padrão para todos os chamados. E por que não? Simplesmente porque, apesar do Espírito Santo possuir regras básicas bem definidas de atuação, seus métodos vocacionais são variados e diversificados. O testemunho no interior de alguém pelo Espírito é mais intangível e pessoal, variando de pessoa para pessoa. Carriker observou isso muito bem quando disse que o chamado missionário pode acontecer de várias maneiras, mas sempre em relação aos seguintes fatores: "A convicção cresce através do conhecimento da Bíblia, do reconhecimento do senhorio de Jesus e do testemunho interior do Espírito Santo; e esta convicção pessoal é reconhecida e confirmada publicamente pela igreja.”[6] 
Em suma, o Espírito Santo ensina em Atos 13 que a vocação missionária exige a confirmação da igreja. O que não significa dizer que a obra do Espírito só tem valor se for validada pela igreja; pelo contrário, a ela são dadas a iluminação e graça de apenas reconhecer que o Espírito Santo chamou mais um para a obra de Deus.


[1] Cf. David Zac NIRINGIYE, op. cit., p. 61.
[2]Ibidem. Veja mais sobre a importância do preparo missionário em J. H. BAVINCK, An Introduction to the Science of Missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, p. 98,99; Margaretha N. ADIWARDANA, Missionários: preparando-os para perseverar. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1999, p. 23-36; William D. Taylor (ed.), Valioso demais para que se perca: um estudo das causas e curas do retorno prematuro de missionários. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1998 (o livro todo é excelente); Howard DUECK e Antônia L. van DER MEER, O preparo psicológico e cultural do missionário. In: BURNS, Bárbara Helen (S. G.). Capacitando para missões transculturais. Revista missiológica da associação de professores de missões no Brasil. São Paulo: APMB, N0 6, 1998, p. 17-45; David HARLEY, Missões: preparando aquele que vai. São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 18-24 e a resenha de Antônia der Meer do livro de Harley, op. cit., p. 65-69.
[3] Cf. Edison QUEIRÓZ, O melhor para missões. 2a ed. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1999, p. 22-28.
[4] Orlando BOYER, Atos: o evangelho do Espírito Santo. Série Livros Evangélicos. [S.I.], [196-], p. 169.
[5] C. Timóteo CARRIKER, A vocação missionária. In: Missões e a igreja brasileira: a vocação missionária, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 1.
[6] Idem, p. 5. V. t. Oswaldo PRADO, Do chamado ao campo. São Paulo: Sepal, 2000, p. 49-56. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ciúme, Inveja e Cobiça

                                                                                                                     Josivaldo de França Pereira



Ciúme, inveja e cobiça são pensamentos, palavras e atitudes dos desejos e paixões carnais. Esses desejos e paixões, causas dos pensamentos, palavras e atitudes, embebidos pelo ciúme, inveja e cobiça, foram exemplificados nos ensinamentos de Jesus. Disse nosso Senhor no Sermão do Monte: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.27,28). O apóstolo João também declarou: “porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1Jo 2.16).
O que são o ciúme, a inveja e a cobiça? Ciúme é o sentimento doloroso causado pela suspeita de infidelidade da pessoa amada; zelos. Angústia provocada por sentimento exacerbado de posse. Inveja é o desgosto ou pesar pelo bem ou felicidade de outrem. Cobiça é o desejo violento de possuir o bem alheio; avidez de bens materiais. Em outras palavras: Ciúme é o medo de perder aquilo que me pertence (ou penso que me pertence) para outra pessoa. Inveja é eu desejar algo igual ou melhor em relação àquilo que o outro tem. Cobiça é eu querer avidamente o que é do outro.
Em suma, no ciúme eu perco, na inveja eu imito e na cobiça eu me aproprio. O que está por traz do ciúme, da inveja e da cobiça? A falta de amor e desconfiança; o egoísmo e a maldade. Em que resultam, muitas vezes, o ciúme, a inveja e a cobiça? O ciúme promove contendas e homicídios, entre os quais se encontram os chamados crimes passionais; a inveja leva às disputas e porfias levianas; a cobiça aos furtos e roubos desalmados.
Se compararmos o ciúme, a inveja e a cobiça com os dez mandamentos, podemos dizer que o ciúme está relacionado ao sexto mandamento (“Não matarás”); a inveja ao nono (“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”) e a cobiça aos mandamentos sétimo (“Não adulterarás”), oitavo (“Não furtarás”) e, evidentemente, ao décimo mandamento (“Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”). O salmista orou: “Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça” (Sl 119.36).
Há três Provérbios de Salomão que cabem perfeitamente aqui: “Porque o ciúme excita o furor do marido; e não terá compaixão no dia da vingança” (Pv 6.34); “O ânimo sereno é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos” (Pv 14.30); “O cobiçoso cobiça todo o dia, mas o justo dá e nada retém” (Pv 21.26). Há outros três pensamentos que também vem a calhar: “O ciúme é, dentre todas as doenças do espírito, aquela à qual mais coisas servem de alimentos, e, nenhuma de remédios” (Michael Montaigne); “A inveja é um atestado de inferioridade a serviço da superioridade do invejado; estigma psicológico de humilhante inferioridade, sentida, reconhecida” (José Ingenieros); “Não cobices o que te não é lícito possuir; não queiras o que te pode causar embaraço e privar da liberdade interior” (Thomas à Kempis).
Conquanto, via de regra, o ciúme, a inveja e a cobiça estejam associados aos desejos e paixões de nossa natureza humana decaída, seria possível, mesmo assim, falarmos de um ciúme, inveja ou cobiça saudáveis? Parece que sim. Existem dois tipos de ciúmes: o ciúme doentio que desconfia de tudo e de todos, cheio de furor, ódio e vingança enlouquecida e o ciúme do bem que pode ser exemplificado pelo zelo na proteção da pessoa amada. Alguém disse que as pessoas casadas que não sentem ciúmes com a intrusão de um amante ou um adúltero em seu lar, certamente tem falta de percepção moral, pois a exclusividade é a essência do casamento (cf. Nm 5.11-31). O ciúme do bem é retrato principalmente na pessoa de Deus. A Bíblia fala de Deus como ciumento. J. I. Packer, em seu excelente livro “O Conhecimento de Deus”, traz um capítulo precioso denominado “O Deus Ciumento”. Vale muito a pena ler.
A inveja também tem seu lado bom. Há uma máxima árabe que diz: “Há dois tipos de inveja: a boa e a condenável. A boa consiste em, quando encontrares alguém superior a ti, desejares ser como ele; a condenável consiste em desejar a sua queda”. O mesmo deve ser dito em relação à cobiça. E tudo pode ser resumido na seguinte proposição: o que não visa o prejuízo do meu semelhante, nem o meu mesmo, e nem entristece o Espírito Santo de Deus que em mim habita, é do bem.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Interpretação de 1Coríntios 15.50

Josivaldo de França Pereira


As principais perguntas que se levantam em relação à 1Coríntios 15.50 são: “Se carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, então como pode haver uma ressurreição física?”. “Considerando que haverá uma ressurreição futura, a composição física do corpo ressurreto será diferente?”. Enfim, “haverá continuidade ou descontinuidade entre o corpo de agora e o corpo ressurreto?”.
O contexto da referida passagem (1Co 15.50) claramente indica que o apóstolo Paulo não está tratando da composição física do corpo ressurreto. Ele conclui o verso 50 dizendo: “... nem a corrupção herdar a incorrupção”. E também afirma nos versos 53 e 54: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória”. Paulo informa, portanto, que nossos corpos ressurretos serão imortais e incorruptíveis, não marcados pela fraqueza e corruptibilidade de nossos corpos atuais. Eles serão semelhantes ao corpo glorioso do Senhor Jesus, conforme Filipenses 3.21.[1]
Nota-se, assim, que Paulo não está falando da carne no corpo ressurreto, mas da carne que é corruptível. Ele não está afirmando que o corpo ressurreto não será de carne, porém, que ele não será de carne corruptível. “Carne e sangue” neste contexto significam carne e sangue mortais, ou seja, um mero ser humano. Segundo Geisler e Howe, “a interpretação mais natural de 1Coríntios 15.50 parece ser que os seres humanos, como agora são: terrenos e corruptíveis, não podem herdar o reino glorioso e celestial de Deus”.[2]
Haverá continuidade ou descontinuidade entre o corpo presente e o corpo da ressurreição? Com base em dados bíblicos, deve-se dizer que haverá tanto continuidade como diferença. Assim como há continuidade entre a semente e a planta (cf. 1Co 15.37), do mesmo modo haverá continuidade entre o corpo de agora e o corpo da ressurreição. Além disso, se não houvesse continuidade entre o corpo presente e o corpo ressurreto, não teria razão em se falar de uma ressurreição dos mortos. Portanto, somos nós mesmos que “estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17). Contudo, embora haja continuidade, também haverá diferença. Há várias passagens bíblicas que descrevem essas diferenças, como por exemplo, Mateus 22.30 (cf. Mc 12.25; Lc 20.35); 1Coríntios 6.13; 15.42-44.[3]


[1] Cf. William Hendriksen, A Vida Futura Segundo a Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 268,69. V. t. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 805,06.
[2] Norman Geisler e Thomas Howe, Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 475. Itálicos dos autores.
[3] Veja mais em Antonio A. Hoekema, La Biblia y el Futuro. Grand Rapids: SLC, 1984, p. 283,84. O capítulo todo é excelente. 

Objetos do nosso amor

Josivaldo de França Pereira

 
Conquanto possamos falar em “nosso amor”, bem sabemos que o amor é uma dádiva de Deus. O amor não é uma criação humana ou algo que recebemos por osmose. O amor é um atributo inerente à natureza de Deus. A Bíblia diz que Deus é amor. Ele é o amor em essência. Provou seu amor por nós (e quê prova!) na pessoa de Jesus. Portanto, o amor é um dom da livre graça de Deus. Deu-nos para que pudéssemos exercitá-lo em relação a ele, ao próximo e a nós mesmos.
Deus
Deus é o maior e mais digno objeto do nosso amor. Nós o amamos porque ele nos amou primeiro. O amor de Deus é inigualável e imbatível. Em amor fomos escolhidos por Deus antes da fundação do mundo. Em amor ele nos criou e mantém a nossa vida. Em Cristo Deus provou e prova o seu grande amor para conosco. Portanto, o mínimo que podemos fazer em retribuição ao nosso Deus, pelo que ele é, fez, faz e fará por nós é amá-lo com todo o nosso ser. O mínimo que devemos fazer ao nosso Deus é dar o máximo de nós a ele em amor.
O nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nos ensinou que devemos amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento. Isso significa que todo o nosso ser, tudo que somos, deve convergir para uma vida de adoração prática na presença do Senhor. Somente um Deus como o nosso Deus pode e deve ser amado e obedecido espontânea, voluntária e apaixonadamente por cada um de nós.
O próximo
O meu próximo, o seu próximo, é todo aquele com quem devemos usar de misericórdia. A coisa mais importante que eu preciso ter em mente não é quem deve ser o meu próximo, mas de quem eu devo ser o próximo. A minha preocupação maior não deve ser tão-somente com quem vem a mim, mas principalmente a quem eu devo ir. Quando foi a última vez que eu amei um inimigo e orei por quem me perseguia? E você saberia dizer quando foi a última vez que fez essas coisas?
Não precisamos ir tão longe, se for o caso. Podemos pensar quanto tempo temos dedicado em oração por nossa igreja, nossos irmãos e amigos. No quanto estamos dispostos a ser aquele ombro amigo, o lenço que enxuga as lágrimas dos olhos de um coração aflito; a ser os ouvidos pacientes e prontos no consolo de um irmão ou de uma irmã. Não podemos esquecer que sempre haverá alguém numa condição de vida pior que a nossa. E ao invés de chorarmos e lamentarmos muito a nossa dor, num estado mórbido de autocomiseração, saiamos ao encontro de quem necessita da nossa compaixão. Veja só: o ladrão vem para matar, roubar e destruir. O ladrão diz: “o que é seu é meu”. O ladrão não pede emprestado e nem empresta. Ele simplesmente se apropria daquilo que não lhe pertence. O egoísta diz: “o que é meu é meu”. O egoísta não divide; não compartilha. O egoísta visa seu próprio interesse. Mas o altruísta é diferente. O altruísta ama o seu semelhante e por isso ele pode dizer: “o que é meu é seu”. O altruísta divide, distribui, não se preocupa apenas consigo mesmo. O altruísta pensa e age em relação ao próximo. Ele faz o bem sem olhar a quem.
Nós mesmos
 Não existe um mandamento explícito na Bíblia de que devemos amar a nós mesmos. Esse mandamento está implicitamente ordenado no Antigo Testamento e na declaração de Jesus e dos apóstolos de que devemos amar ao próximo como amamos a nós mesmos. A razão pela qual não é necessário nenhum mandamento direto para que amemos a nós mesmos é porque, por natureza, cada um de nós ama a si mesmo. Embora haja exceções, é claro, no geral o ser humano tem um alto conceito a respeito de si próprio. E apesar da Palavra de Deus nos ensinar corretamente que somos pecadores, também nos ensina que cada um de nós deve dar-se o devido valor por ser criado à imagem e semelhança de Deus, e principalmente (se já nasceu de novo) pelo que é em Cristo Jesus, ou seja, uma nova criação, filho ou filha do Pai celestial.
Ter uma autoestima positiva de si mesmo é bíblico e, por isso, recomendável sempre, pois o cristão tem a mente de Cristo e o seu corpo é o templo do Espírito Santo de Deus. Devemos, portanto, cuidar bem do nosso corpo e da nossa mente. O suicídio, por outro lado, é o cúmulo no extremo da falta de amor-próprio. O amor-próprio, por sua vez, caminha em cima de uma linha tênue entre o egoísmo interesseiro e o altruísmo abnegado. O amor a Deus e ao próximo nos dá o equilíbrio necessário para amarmos a nós mesmos na medida certa. 



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O que é profissionalismo?

Josivaldo de França Pereira 


“Profissionalismo” é um termo que aponta para o trabalho dedicado e responsável do profissional.
O profissionalismo deve estar acima da amizade e da inimizade também. Isso é indispensável para quem pretende ser bem sucedido no que faz.
O profissional que favorece esse ou aquele por ser amigo dele, facilmente levará para o lado pessoal quando o amigo não concordar com suas ideias e/ou refutar seus argumentos.
Para ser um bom profissional é indispensável ter ética e humildade. Ética no ambiente de trabalho significa tratar um ao outro com respeito e urbanidade. Humildade no ambiente de trabalho significa admitir erros, reconhecer limitações pessoais e querer aprender sempre.
Além disso, quem ocupa cargo de chefia e liderança, certamente será bem sucedido se trabalhar em prol da unidade e harmonia do grupo, zelando sempre pelo bem-estar da empresa ou instituição.
Biblicamente, os termos “profissional” e “profissionalismo” não aparecem nas Escrituras. Contudo, a ideia do que é profissionalismo está presente em toda a Bíblia. Trabalhar com dedicação e empenho é uma exigência bíblica. A guisa de exemplo, temos o zeloso trabalho de Paulo no ministério que Deus lhe confiou (At 20.24; 26.19; 2Tm 4.7) e suas recomendações às igrejas gentílicas (Ef 6.5-9; Cl 3.22-4.1).
“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co 15.58).

Os Seis Dias da Criação

Josivaldo de França Pereira


A Bíblia relata que o cosmos foi criado em seis dias. Alguns afirmam que os dias dos quais Gênesis 1 trata eram longos períodos de tempo. Creem que as Escrituras admitem e até favorecem essa interpretação, ao considerarem que:
(1) A palavra “dia” algumas vezes denota um período indefinido (Sl 50.15; Ec 7.14; Zc 4.10).
(2) O sol não foi criado até o 4º dia, de modo que a extensão dos dias anteriores não podia ser determinada no relacionamento da terra com o sol.
(3) O 7º dia continua até hoje e já tem mais de seis mil anos.
O fato da palavra “dia” indicar um período relativamente extenso em algumas passagens bíblicas, não prova que os dias anteriores à criação eram longos períodos de tempo. Portanto, o 7º dia de Gênesis 2.2,3 terminou há mais de seis mil anos. A interpretação literal da palavra “dia” tem a seu favor as seguintes considerações:
(1) A palavra hebraica yom (dia) indica um dia normal. Deve ser entendida assim, a não ser que o contexto exija outra interpretação. Gênesis 1 nos apresenta uma interpretação literal ao repetir “e houve tarde e manhã”. Cada dia teve tarde e manhã (Gn 1.5, 8, 19, 23, 31), o que é próprio do dia de 24 horas na Bíblia. Os dias foram numerados (primeiro dia, segundo dia, terceiro dia, etc.), uma característica peculiar dos dias de 24 horas na Bíblia. “Todo dia teve somente uma tarde e uma manhã. Se esses dias fossem longos períodos de Geologia, devia ter intermináveis noites de milhares de anos. Que aconteceria a todos os vegetais durante as longas noites que seguiram ao terceiro dia?”.[1]
(2) Em Êxodo 20.9-11 Israel recebe ordens para trabalhar seis dias semanais, porque o Senhor fez os céus e a terra em “seis dias”. Êxodo 20.9-11 “certamente não pode ser interpretado em um sentido diferente do normal. Deus, no quarto mandamento, certamente, chama toda a humanidade para seguir seu modelo: trabalhar seis dias de 24 horas e descansar um dia de 24 horas”.[2] Isso quer dizer que a palavra “dia” de Gênesis 1 também deve ser entendida literalmente.
(3) Os três últimos dias foram normais por serem determinados pela relação da terra com o sol. E se esses foram dias comuns, por que os outros não haveriam de ser?[3]

Bibliografia:
BERKHOF, Louis. Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: Luz Para o Caminho/Ceibel, 1985.
GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.
KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1988.
GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação: o Reino, a Aliança e o Mediador. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.



[1] Louis Berkhof. Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: LPC/Ceibel, 1985, p. 96.
[2] Gerard Van Groningen. Criação e Consumação: o Reino, a Aliança e o Mediador. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 56.
[3] Para um ponto de vista diferente, consulte Norman Geisler e Thomas Howe. Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 37.

A Mente Renovada



Josivaldo de França Pereira

O que significa ter uma mente renovada? Com Paulo aprendemos: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). Hendriksen, comentando Romanos 12.2, observa: “Paulo não diz: ‘Substituam a forma externa por outra’. Isso não traria solução nenhuma, pois o problema com os que se deixam moldar segundo o padrão desta presente era [má] se acha bem arraigado. É de transformação que se necessita, mudança interior, renovação da mente, ou seja, não só do órgão que pensa e raciocina, mas da disposição interior; melhor ainda, do coração, do ser interior”.[1] E mais: “Por conseguinte, essa transformação não deve ser uma questão de impulso: ora avança, ora se retrai. Tem de ser contínua. (...). Equivale à santificação progressiva”.[2]
Há um ditado popular, e muito correto, que diz: “Mente vazia é oficina do diabo”. A mente vazia e desocupada é terra fértil para a tentação e o pecado. Um exemplo bem conhecido é o de Davi. No tempo em que os reis costumavam sair para a guerra, Davi resolveu ficar em Jerusalém. Sem ter o que fazer, ele se levanta da cama, vai ao terraço da casa real e... Sabemos no que deu (2Sm11.1-5). No entanto, não basta estar com a mente ocupada. É preciso que ela esteja cheia de coisas boas, afastando dela tudo que seja ruim. Pensar em coisas que não convém é um prato cheio para a tentação e o pecado. “Pense no mal, e ele aparecerá; volte seus pensamentos para o pecado, e seus pés logo o seguirão”, dizia Spurgeon. Por isso Paulo fala da “renovação da vossa mente”.
“Ter uma mente renovada é a definição bíblica de transformação espiritual”.[3] Mente renovada é mente santificada: “para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”, diz Paulo. Aos tessalonicenses o apóstolo escreveu: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação...” (1Ts 4.3). Daí sua recomendação aos colossenses: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as cousas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas cousas lá do alto, não nas cousas que são aqui da terra” (Cl 3.1,2). “Da mente espiritual é que se originam todas as questões da vida eterna; mas da mente carnal só pode provir água pútrida e estagnada”.[4]
A mente renovada caracteriza o chamado homem espiritual, visto que o “homem espiritual” é todo aquele que, segundo Paulo, tem “a mente de Cristo” (1Co 2.16). Com isso, o apóstolo “não quer dizer que o cristão é capaz de compreender todos os pensamentos de Cristo. Mas, sim, quer dizer que o Espírito que nele habita revela Cristo. Por conseguinte, o homem espiritual não vê as coisas na perspectiva do homem do mundo. Ele as vê na perspectiva de Cristo”.[5]

Minha mente para mim é um reino,
Tantas alegrias presentes ali encontro
Que ultrapassam toda outra felicidade
Que a terra dê ou medre dessa espécie:
Embora muito eu queira do que a maioria desejaria ter,
Contudo, minha mente me proíbe de cobiçar.
(Sir Edward Dyer)[6]


[1] William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 532.
[2] Ibidem.
[3] R. C. Sproul. Discípulos Hoje. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 171.
[4] Russell N. Champlin. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 134.
[5] Leon Morris. 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 49.
[6] Citado por Champlin, op. cit., p. 134.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tentação e Queda

Josivaldo de França Pereira


Tiago procurou corrigir uma distorção que alguns estavam tendo a respeito do caráter santo de Deus. Ele advertiu seus destinatários a não culpar Deus, mas compreender a causa e o resultado da tentação. Disse ele: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.13-15). Parece que os leitores de Tiago estavam confundindo tentação com provação. Deus nos prova em nossas forças. Satanás nos tenta em nossas fraquezas.
A tentação não é o pecado. A tentação só se torna pecado quando damos guarida a ela em nosso coração. Lutero disse: “Eu não posso impedir que os pássaros voem sobre minha cabeça, mas posso impedir que eles façam ninhos nela”. Algo semelhante afirmou Paul Holdcraft: “Você não pode impedir que a tentação bata à porta de sua casa; mas será de sua inteira responsabilidade deixá-la entrar”. Aquilo que Deus disse a Caim, em relação ao pecado que este estava prestes a cometer contra seu irmão Abel, é perfeitamente aplicável em relação à tentação: “... eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.7). É exatamente o que Tiago quis dizer aos seus leitores quando afirmou que “cada um é tentado pela sua própria culpa, quando esta o atrai e seduz” (Tg 1.14).
Cair em tentação é um prejuízo tão grande para a nossa vida espiritual que Jesus nos ensinou a orar, dizendo: “... E não nos deixes cair em tentação” (Lc 11.4; cf. Mt 6.13). Quando cedemos à tentação deixamos de desfrutar, por um momento, daquela preciosa comunhão com Deus. E Jesus não quer que isso aconteça conosco. Então, por que muitas vezes caímos em tentação, a pesar de pedirmos ao Pai “não nos deixes cair em tentação”? Creio que O. Hallesby responde muito bem essa indagação quando diz: “Se somos vencidos pela tentação é porque não agimos com inteira sinceridade em nosso desejo de obter a vitória, e, secretamente, entramos num pacto com o pecado”. Jesus diria ainda: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41; cf. Mc 14.38; Lc 22.40). Como o pecado é uma consequência da tentação, o Salmo 119.11 declara: “Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti”. A tentação e o pecado nos afastam da oração e da Bíblia. Entretanto, a oração sincera e o meditar diligente na Palavra de Deus nos afastam da tentação e do pecado.
Quero concluir essa nossa pastoral com duas palavras motivadoras e confortantes. A primeira delas está em 1Coríntios 10.13. Diz assim o apóstolo Paulo: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar”. Temos também na carta aos Hebreus: “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18). Deus tem feito a parte dele. É preciso que façamos a nossa.

Deus e a Terra

Josivaldo de França Pereira


Há, pelo menos, três princípios que devemos ter em mente ao tratarmos da relação de Deus com a Terra, ou seja: (1) Deus criou a Terra; (2) Deus amaldiçoou a Terra e (3) Deus restaurará a Terra. Vejamos:
Deus criou a Terra. Para judeus e cristãos essa é uma declaração óbvia. Contudo, o Deus Criador é negado pelo evolucionismo ateísta. A maioria dos documentários da TV trata a Terra do ponto de vista evolucionista, porém, a Bíblia relata: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). No hebraico, o verbo bara’ (criar) de Gênesis 1.1 significa “criar do nada”, isto é, Deus não utilizou matéria preexistente para formar o cosmos. Como sabemos que foi assim? Pela fé. O autor aos Hebreus declara: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das cousas que não aparecem” (Hb 11.3). Gênesis 1.1 e Hebreus 11.3 têm uma ligação estreita. É por isso que o escocês Robert S. Candlish (1806-1873), em sua obra Studies in Genesis, escreveu uma introdução muito apropriada começando por Hebreus 11.3.
Deus amaldiçoou a Terra. Por causa da desobediência de Adão e Eva o pecado entrou no mundo. E Deus amaldiçoou a Terra. “E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo” (Gn 3.17,18). Por isso, Paulo declara: “Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou”. “Porque sabemos que toda criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.20,22). No entanto, a Terra não foi sujeita à vaidade e amaldiçoada por Deus tanto quanto poderia ter sido. É que em meio à maldição e sujeição Deus se mostrou gracioso e misericordioso para com ela, de modo que “a terra está cheia da bondade do SENHOR” (Sl 33.5). Semelhantemente, o Senhor Deus quer que o ser humano cuide dela também (cf. Gn 2.15). Um dos motivos para a condenação dos caldeus foi a sua “violência contra a terra” (Hc 2.17).
Deus restaurará a Terra. A Bíblia fala da “regeneração” ou “restauração de todas as coisas” que ocorrerá por ocasião da Segunda Vinda de Cristo (Mt 19.28; At 3.21). Isso inclui, evidentemente, o Planeta Terra. Segundo Paulo, “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.19-21). No Antigo Testamento, por três vezes o profeta Isaías fala da promessa divina de uma “nova terra” (Is 51.16; 65.17; 66.22). No Novo Testamento o mesmo é dito por Pedro (2Pe 3.13) e João (Ap 21.1). O adjetivo “nova”, que aparece nessas referências, não é do novo em tempo e origem, mas em natureza e qualidade, isto é, Deus não vai aniquilar tudo e começar do zero. Invés disso, ele irá restaurar a Terra já existente – que agora se encontra amaldiçoada e sujeita à vaidade[1] (cf. Gn 3.17; Rm 8.20) – ao seu estado original de perfeição.[2] Há um estudo excelente intitulado “A Nova Terra” no livro A Bíblia e o Futuro de Antony Hoekema (1913-1988). Vale a pena conferir.





[1] “Vaidade" em Romanos 8.20 não significa "orgulho frívolo" ou "ares impertinentes". Não se refere a nenhuma manifestação ambiciosa. A ideia é de futilidade, falta de eficiência por causa da corrupção.

[2] Cf. William Hendriksen. A vida futura segundo a Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 257-60.

Poder e Testemunho

Josivaldo de França Pereira


Em Atos 1.8 o Senhor Jesus repete as promessas da Grande Comissão (cf. Mt 28.18-20; Mc 16.14-18; Lc 24.44-49; Jo 20.21). No dia de Pentecostes as promessas da Grande Comissão em geral, e de Atos 1.8 em particular, se cumpriram. A igreja foi batizada e revestida do poder do Espírito Santo. Contudo, o poder do Espírito para a igreja não teve, como até hoje não tem, um fim em si mesmo. Em Atos não existe esta concepção moderna equivocada de que o poder do Espírito é para tão somente edificar o crente. Não! O poder do Espírito tinha como finalidade primordial capacitar os crentes para dar testemunho de Cristo.
No Novo Testamento os dons ou manifestações do Espírito (línguas, curas, profecias, etc.) foram dados com o objetivo principal de que a igreja testemunhasse de Jesus ao redor do mundo.[1] Nada do que a igreja recebe do Espírito tem nela um fim em si mesmo. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas...", disse Jesus (At 1.8; cf. Lc 24.48). Quando o Espírito Santo foi derramado por ocasião do Pentecostes, "com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor Jesus..." (At 4.33).
Vejamos o que significava nos tempos bíblicos, e o que deveria significar para a igreja evangélica brasileira hoje, ser testemunha de Jesus Cristo. E para uma reflexão imediata, vale conferir um alerta de Charles van Engen:
Logo antes de sua ascensão, Jesus disse a seus discípulos, como está registrado em Atos 1.8: "... sereis minhas testemunhas [kaí esesthe mou martyres]...", começando em Jerusalém e espalhando-se geográfica e culturalmente para fora, para os confins da terra (eôs eschatou tês gês). Muito dessa comissão, quanto à expansão geográfica e cultural da Igreja, se cumpriu. Mas provavelmente não captamos as palavras de Cristo em todo o seu peso: "...sereis minhas testemunhas...[2]
O substantivo grego martys[3] (martyres) do verbo martyréo já possuía, nos tempos bíblicos, cinco significados principais, sendo que o último deles era a expressão mais elevada daquilo que significava ser testemunha de Jesus; a saber:
·     testemunha judicial de fatos;
·     testemunha de fatos numa confissão de fé;
·     declaração de um fato como testemunha ocular de um ocorrido;
·     o testemunho evangelístico da natureza e da importância de Cristo;
·     martírio.[4]
Pela própria natureza da evangelização e pelas perseguições e adversidades futuras que desafiariam a Igreja Primitiva, seria imprescindível o poder do alto para se testemunhar de Jesus. Que a Igreja muitas vezes testemunhou a preço de sangue é algo que dispensa comentários.[5]


[1] Cf. Paul E. PIERSON, Atos que contam. Londrina; Descoberta, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179,180; I. H. MARSHALL, Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1982, p. 50; H. E. DANA, O Espírito Santo no livro de Atos. 3a ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1989, p. 58; R. C. SPROUL, O mistério do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 144.
[2] Charles Van ENGEN, Povo missionário, povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 1996, p. 122,123.
[3] Das 34 ocorrências de martys no Novo Testamento, 13 estão em Atos.
[4] Cf. G. KITTEL e G. FRIEDRICH, citado por C. Van ENGEN, op. cit., p. 123. V. t. C. S. Mann, "Eyewitnesses" in Luke. In: MUNCK, Johannes (ed.). Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., p. 268-270. Para um ponto de vista diferente, consulte D. A. CARSON, Os perigos da interpretação bíblica: a exegese e suas falácias. 2a ed. São Paulo, 2005, p. 33,34.
[5] Veja mais em meu livro Atos do Espírito Santo. Londrina: Descoberta, 2002, p.43-52.