sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O pecado por ignorância e a salvação no Novo Testamento

Josivaldo de França Pereira


Qual o significado da oração de Jesus “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34) para o Novo Testamento? Antes de tudo, é importante salientar que Deus perdoa nosso pecado não por causa da ignorância, mas apesar dela, visto que a ignorância não justifica o erro e muito menos absolve alguém do pecado. Segundo J. C. Ryle, 
O princípio que essas palavras [de Lucas 23.34] encerram merece bastante atenção. Por outro lado, importa não supor que a ignorância não seja culpável e que os ignorantes merecem o perdão. Segundo esse critério a ignorância seria um dom de grande preço. Por outro lado, não se pode negar que a Escritura ensina que os pecados cometidos por ignorância são menos graves aos olhos de Deus do que os que se cometem com pleno conhecimento.[1]

No entanto, a frase "eles não sabem o que fazem" não quer dizer que os objetos da intercessão de Cristo estavam inconscientes do crime que praticavam. O pecado por ignorância inclui tanto os atos conscientes da desobediência quanto transgressões cometidas como resultado de fraqueza e fragilidade, conforme observa MacArthur:
Essas pessoas estavam se comportando de modo cruel e sabiam disso. A maioria estava completamente ciente do fato de seu mau procedimento. O próprio Pilatos tinha testemunhado da inocência de Jesus. O Sinédrio estava completamente ciente de que nenhuma acusação legítima poderia ser apresentada contra ele. Os soldados e a multidão poderiam facilmente ver que uma grande injustiça estava sendo cometida, e mesmo assim eles todos alegremente participaram. Muitos dos espectadores que estavam escarnecendo no Calvário tinham ouvido Cristo ensinar e o tinham visto fazer milagres. Eles realmente não poderiam ter acreditado no próprio coração que ele merecia morrer desse modo. A própria ignorância deles era inescusável, e certamente não os absolvia da culpa pelo que estavam fazendo.[2]

Então, por que Jesus orou "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" se na verdade a maioria daquelas pessoas sabia que ele estava sendo injustiçado? Jesus orou assim porque elas não tinham ideia da enormidade do crime que estavam cometendo. Não compreenderam a grandeza da maldade que estavam praticando. Não sabiam que matavam o Autor da vida, o Messias prometido, o Filho de Deus. Isso fica claro quando ouvimos o testemunho dos apóstolos no Novo Testamento.
Após a ressurreição de Jesus e o cumprimento da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, os apóstolos entenderam o significado da oração do Senhor em Lucas 23.34. Durante seu discurso no templo, Pedro diz ao povo: "Dessarte, matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas" (At 3.15). E completa: "E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades; mas Deus, assim, cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer" (At 3.17,18).
Em seu testemunho em Antioquia da Pisídia, Paulo afirma: "Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se lêem todos os sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias; e, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto" (At 13.27,28). E em Atenas o apóstolo discursa: "Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos" (At 17.30,31).
Aos Coríntios Paulo escreve: "Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória" (1Co 2.6-8).
Aos Efésios ele diz: "Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza" (Ef 4.17-19).
E a Timóteo: "Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade" (1Tm 1.12,13).
Pedro conclui: "Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo" (1Pe 1.14-16).
“É importante compreender”, diz MacArthur, “que o apelo de Jesus pelo perdão dos seus assassinos não garantiu o perdão imediato e incondicional de todos os que participaram da crucificação. Ele estava intercedendo em nome de todos os que se arrependeriam e se voltariam a ele como Senhor e Salvador. (...). O perdão divino nunca é concedido a pessoas que permanecem na incredulidade e no pecado”.[3]





[1] J. C. Ryle, Comentário expositivo do evangelho segundo Lucas. Rio de Janeiro: Confederação Evangélica do Brasil, 1955, p. 330.
[2] John MacArthur, Jr., A morte de Jesus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 208,9.
[3] Idem, p. 209,10.

3 comentários:

  1. Reunidos em nome do Senhor Jesus, a expressão "Rei da Glória" (Sl 24.7-10) refere-se ao Pai e ao mesmo tempo ao Filho, visto que o Salmo 24 é também messiânico e Jesus é Rei.

    ResponderExcluir