sábado, 14 de janeiro de 2012

A oração que Jesus não faria

 Josivaldo de França Pereira

 
Jesus ensinou que aquilo que queremos para nós devemos da mesma forma desejar aos nossos semelhantes (Mt 7.12; Lc 6.31). Portanto, devemos seguir os seus passos (cf. Cl 2.6; 1Pe 2.21). Entretanto, pareceria estranho dizer que nosso Senhor não faria a oração que ele mesmo ensinou aos seus discípulos, ou seja, a oração do Pai Nosso (Mt 6.9-13; Lc 11.2-4). Por quais razões Jesus não faria a oração que serve de modelo e referência para todas as nossas orações? Jesus não faria a oração dominical pelo menos por quatro razões:
Em primeiro lugar, Jesus nunca diria “Pai nosso” em sua oração. Quem deve orar assim somos nós. O Mestre nos ensinou a chamar a Deus de Pai, no entanto, ele fazia distinção entre “meu Pai” e “vosso Pai”.[1] A expressão “meu Pai” aparece dezenas de vezes nos Evangelhos (exceto em Marcos) e três vezes no Apocalipse. A expressão “vosso Pai”, dita por Jesus a seus discípulos, também ocorre dezenas de vezes nos Evangelhos. João é o único a mencioná-la somente uma vez (Jo 20.17). O fato é que não temos uma só referência bíblica em que Jesus se dirija a Deus como “nosso Pai”. O apóstolo Paulo, em várias de suas epístolas, teve o cuidado de escrever: “graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.3; cf. 2Co 1.2; Gl 1.3; Ef 1.2; Fp 1.2; Fm 3, itálicos acrescentados).
Isto não significa que não haja nada na oração dominical que Jesus pudesse dizer. Ele poderia, por exemplo, orar: “... santificado seja o teu nome; venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9,10; Lc 11.2). E ainda: “... [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém]” (Mt 6.13). Contudo, ele não oraria dessa forma juntamente conosco, pois essa é uma oração que ele ensinou aos seus dozes discípulos e, consequentemente, a todos nós. “Portanto, vós orareis assim...” (Mt 6.9). “Quando orardes, dizei...” (Lc 11.2).
Em segundo lugar, Jesus não oraria pedindo alimento para si mesmo. Se necessário fosse ele transformaria pedras em pães. Jesus sabia que ao sentir fome no deserto seria tentado pelo diabo. Satanás sabia que o Filho de Deus tinha poder para transformar pedras em pães (Mt 4.3; Lc 4.3).[2] “Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4; Lc 4.4). "... e eis que vieram anjos e o serviram" (Mt 4.11).
 Parece que Jesus nunca precisou fazer milagre para se alimentar. Por duas vezes ele multiplicou pães e peixes para alimentar as multidões. Os evangelhos não relatam, porém, seria perfeitamente natural entender que nosso Senhor não comeu dos pães e peixes que milagrosamente multiplicou. Quando, no Evangelho de João, os discípulos voltaram da cidade trazendo alimento, o apóstolo relata: “Nesse ínterim, os discípulos lhe rogavam, dizendo: Mestre, come! Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhes-ia, porventura, alguém trazido o que comer? Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.31-34).
Isto não quer dizer que Jesus não se alimentava. Os Evangelhos nos falam de Jesus participando de festas e jantares (Lc 7.36; 14.12; Jo 2.2). De modo que “... o Filho do homem, que come e bebe” foi chamado injustamente de “glutão e bebedor de vinho” (Mt 11.19). E ceava com os seus discípulos (Lc 22.20; Jo 24.41-43).
Em terceiro lugar, Jesus jamais oraria “perdoa-nos as nossas dívidas”. Jesus não possuía as virtudes da confissão e penitência. Sabemos que virtude é sempre algo bom. Não existe má virtude como não há má qualidade. No entanto, se a confissão e a penitência são práticas virtuosas, por que Jesus não as possuía? Simplesmente porque ele é santo e perfeito. Só precisa de perdão quem peca. Nesse caso, todos nós! Mas Jesus, que era semelhante a nós em todas as coisas, não tinha pecado (Hb 4.15; 1Pe 2.22; 1Jo 3.5). “Quem dentre vós me convence de pecado?”, disse ele aos judeus (Jo 8.46). Na cruz do Calvário Jesus tomou sobre si as nossas iniquidades (cf. Is 53.6) e, ainda assim, ele não orou: “Pai, perdoa-nos”, mas sim: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34). Jesus tomou para si os nossos pecados, contudo, ele mesmo não se transformou em um pecador.
Percebeu, então, porque não teria sentido Jesus fazer conosco, ou se incluir na oração do Pai Nosso? Pecado é uma coisa tão nossa que nosso Senhor acrescentou: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14,15).
Em quarto lugar, Jesus dificilmente diria “não nos deixes cair em tentação”. Que Jesus podia ser tentado não temos a menor dúvida. Lucas destaca: “Passadas que foram as tentações de toda sorte, apartou-se dele o diabo, até momento oportuno” (Lc 4.13). Por conseguinte, Jesus jamais cairia em tentação. Ele é o infinito Deus-homem. Segundo Calvino, a natureza divina de Cristo sustentava sua natureza humana., impedindo que ele caísse em tentação. Dietrich Bonhoeffer, em seu livro Tentação, lembra-nos que quando Satanás tentou Adão e Eva eles caíram. Quando o diabo tentou a Jesus foi ele, o diabo, quem caiu.
Jesus nunca se sentiu nem ao menos balançado pela tentação. Jamais ficou inseguro entre o certo e o errado. A sedução do pecado nunca mexeu com Jesus. Um exemplo clássico é o de Mateus 16.21-23: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas cousas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das cousas de Deus e sim das dos homens”.
Portanto, por estas e outras razões é que Jesus não faria a oração do Pai Nosso.



[1] Veja mais na postagem "O Deus Pai segundo o Deus Filho".
[2] A condicional grega “ean” (se) não é de dúvida, mas de fato. Em outras palavras, Satanás estava dizendo: “Posto que”, ou, “Visto que és Filho de Deus...”.

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