quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO: CONSIDERAÇÕES GERAIS

Josivaldo de França Pereira

A eleição, conhecida também como predestinação[1] e eleição incondicional, é um ato da livre, amorosa e soberana graça de Deus. Mas como é possível Deus eleger sem ser parcial, cometer injustiça ou fazer acepção de pessoas? De que maneira a eleição pode auxiliar na evangelização? Qual a relevância desta doutrina para a espiritualidade cristã?
A predestinação é a missão resgate de Deus, pois Deus não deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e miséria que merecia. A doutrina da eleição é construída, sustentada e revelada na Palavra de Deus. Veja, por exemplo, Deuteronômio 7.6-9; Atos 13.48; Romanos 8.29,30; Efésios 1.4,5; 2Tessalonicenses 2.13; 2Timóteo 2.10 e Tito 1.2. A eleição, conforme dizem corretamente os teólogos calvinistas, é “incondicional”, isto é, Deus elege independente de méritos, fé ou obras do indivíduo. E isso só é possível porque a eleição é um ato de amor gracioso e soberano de Deus (cf. Rm 11.1-5). Sendo assim, devemos compreender que a eleição divina não é uma questão de justiça; portanto, erram os que dizem que Deus seria injusto se escolhesse este e não aquele outro também para a salvação. A eleição é questão de graça. A condenação sim é questão de justiça.
Mas ninguém poderá entender a doutrina bíblica da eleição se não compreender adequadamente a doutrina bíblica do pecado. “A pressuposição do eterno decreto divino da eleição é que a raça humana é caída; a eleição envolve o plano gracioso de Deus para o resgate”.[2] Você acredita realmente que todos pecaram em Adão (cf. Rm 5.12) e que ninguém é merecedor da vida eterna? (cf. Rm 3.23). Se a sua resposta for afirmativa, então esteja certo que nunca poderá entender a eleição como sendo injustiça. Deus teria sido perfeitamente justo se não elegesse ninguém (cf. Mt 20.14,15; Rm 9.14,15); no entanto, ele quis, soberanamente, mostrar para alguns o seu favor imerecido. Por isso, Paulo fala da “eleição da graça” (Rm 11.5). Na verdade, tudo que recebemos de bom é pura expressão da livre graça de Deus para conosco, como por exemplo, o arrependimento para a vida eterna (At 11.18), a salvação em Cristo (At 13.48; 15.11; Ef 2.8,9) e o serviço cristão (Jo 15.16; 1Co 15.10; Ef 2.10).
Deus também não faz acepção de pessoas, porque ele não escolhe uma pessoa e rejeita outra com base em circunstâncias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. O fato de Deus não salvar todo mundo só confirma a tese de que ele não é obrigado a salvar todo mundo. Graça não é dívida; é graça!
É importante esclarecer ainda que a eleição divina não é a salvação; é para a salvação (2Ts 2.13; 2Tm 2.10). E entre ambas (eleição e salvação) está a evangelização, servindo de ponte para ligar duas partes inseparáveis (Rm 10.14-17; cf. At 18.9-11). Com isso aprendemos que não procede o falso conceito que se uma pessoa é eleita, ela será salva independentemente de crer ou não em Cristo pelo evangelho. Pensar assim seria simplesmente absurdo! Como também não procede a ideia de que a doutrina da eleição “acomoda o crente para a evangelização”.  A eleição, conforme a Bíblia ensina, é para o serviço (cf. 1Pe 2.9; 2Pe 1.10). “Serviço” aqui deve ser entendido na forma ampla do termo, como a adoração a Deus, o discipulado, a evangelização, a ação social, etc.; portanto, somente os desavisados acreditariam que a eleição acomoda o crente para a obra de Deus. Lendo 2Timóteo 2.10, vemos que para Paulo a eleição incentiva a evangelização (“tudo suporto por causa dos eleitos”, diz ele) e garante os bons resultados da evangelização (“para que também eles [como os demais crentes] obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com eterna glória”). Não é verdade que o apóstolo que mais sustentou a doutrina da predestinação foi um dos que mais trabalhou na obra do Senhor?
Além da salvação e o serviço, a eleição também é para a santidade de vida (Ef 1.4). A eleição é “para sermos santos”, diz o ensino bíblico. Sendo assim, não procede a objeção de que a eleição divina compromete o testemunho cristão, contradiz a certeza da vida eterna e promove a prática do pecado. A vida que não se expressa em santidade é incompatível com as doutrinas bíblicas da eleição e salvação (cf. 2Pe 1.3-11).
Finalmente, de tudo o que foi dito aqui, o mais importante é que o propósito último da divina eleição é a glória de Deus (cf. Ef. 1.3-14). Louvado seja o Senhor!





[1] Embora o termo “predestinação” seja usado às vezes como sinônimo de “eleição”, no sentido restrito a eleição é uma das duas partes da predestinação, sendo a “reprovação” ou “preterição” o outro lado dela.
[2] F. H. Klooster, Eleição, eleito. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 12.

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