quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O corpo ressurreto precisa de uma terra

Josivaldo de França Pereira


O ser humano não foi feito para morrer. A morte entrou na história da humanidade como um agente estranho por causa da desobediência dos nossos primeiros pais. “E o SENHOR Deus lhe deu [a Adão] esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Após a queda Deus disse a Adão: “No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19).
A Bíblia ensina que Deus criou o ser humano corpo e alma, e que este não é um ser completo aparte de seu corpo. A morte física é a separação entre o corpo e a alma. A alma, ou espírito, vive sem o corpo, mas o corpo não subsiste sem o espírito. Sem o espírito o corpo é apenas pó. Por isso, diz o Pregador: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12.7).
A matéria não é má, como pensavam os filósofos gregos. Ela faz parte da boa criação de Deus e a separação entre corpo e alma não é definitiva. Todos os que morreram desde Adão irão ressuscitar na Segunda Vinda de Cristo. Disse Jesus: “Não vos maravilheis disto, porque vêm a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo” (Jo 5.28,29). Na Confissão de Fé de Westminster encontramos a seguinte declaração: “Os corpos dos injustos serão, pelo poder de Cristo, ressuscitados para a desonra; os corpos dos justos serão, pelo seu Espírito, ressuscitados para a honra e para serem semelhantes ao próprio corpo glorioso de Cristo”.[1] 
O ser humano é um todo, podendo ser definido como uma comunidade integrada de corpo e alma. Embora os que morreram no Senhor já estejam desfrutando da verdadeira alegria na presença de Jesus, essa alegria não será completa até que seus corpos ressuscitem dentre os mortos. O Breve Catecismo de Westminster diz: “Na ressurreição, os crentes, sendo ressuscitados em glória, serão publicamente reconhecidos e absolvidos no dia do juízo, e tornados perfeitamente felizes no pleno deleite de Deus, por toda a eternidade”.[2] A plenitude da alegria dos salvos consiste da ressurreição do corpo e da nova terra que Deus criará como culminação de sua obra redentora em Cristo Jesus. Segundo Antony Hoekema, “deixar a nova terra fora de nossa consideração ao pensar no estado final dos crentes é empobrecer o ensinamento bíblico com respeito à vida futura”.[3] O corpo ressurreto e glorificado só pode habitar uma terra regenerada e restaurada.[4]
Os primeiros capítulos de Gênesis mostram que Deus prometeu a Adão e Eva nada além do que a própria terra como sua morada e herança: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). A Abraão, e sua descendência, Deus disse: “Dar-te-ei e à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus” (Gn 17.8; cf. 13.15,17). É importante notar que Deus prometeu dar a terra de Canaã não somente para a descendência de Abraão, mas para o próprio Abraão também. Contudo, veja o que diz Estêvão em Atos 7.5: “Nela, não lhe deu herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prometeu dar-lhe a posse dela e, depois dele, à sua descendência...”. Abraão nunca possuiu nem sequer um metro quadrado de chão na terra de Canaã, com exceção do local que comprou dos heteus para sepultar Sara, sua mulher (Gn 23).
Qual foi a atitude de Abraão a respeito da promessa de herança da terra de Canaã, que nunca se cumpriu durante sua vida? A resposta está em Hebreus 11.9,10: “Pela fé [Abraão], peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador”. Hoekema observa: “Quando se fala da ‘cidade que tem fundamentos’ devemos entender que se faz referência à santa cidade ou a nova Jerusalém que se encontrará na nova terra. Abraão, em outras palavras, antecipava a nova terra como o cumprimento real da herança que se lhe havia prometido – e assim o fizeram todos os outros patriarcas”.[5]
Que os outros patriarcas também aguardavam “a cidade que tem fundamentos” está claro em Hebreus 11.13-16: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade”. Essa “cidade” ou “pátria superior” é aquela mesma da qual Paulo disse aos filipenses: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). A mesma cidade que João vê descendo do céu, tornando céu e terra uma coisa só: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens, Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram” (Ap 21.2-4).
O Salmo 37.11 diz que “os mansos herdarão a terra”, num sentido localista. No Sermão do Monte (Mt 5.5), Jesus aplica o referido salmo num sentido universal.[6] Algo parecido encontramos em Gênesis 17.8 e Romanos 4.13, respectivamente: “Dar-te-ei e à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus”. “Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo...”. Observe que a terra de Canaã em Gênesis 17.8 se transforma em mundo em Romanos 4.13.
Jesus disse aos discípulos: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar” (Jo 14.2). William Hendriksen comenta: “... Jesus afirma que nesta grande casa há muitas mansões ou moradas. Em outras palavras, o céu não se assemelha a uma moradia, onde cada familiar talvez ocupasse um quarto. Pelo contrário, se parece muito mais com um belo edifício, com apartamentos ou moradas espaçosos e totalmente mobiliados, não como um cortiço qualquer”.[7]

“A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”
(Rm 8.19-23).



Bibliografia:
A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 1997.
HENDRIKSEN, William. A vida futura segundo a Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
HOEKEMA, Antonio A. La Biblia y el futuro. Grand Rapids: SLC, 1984.
KENNEDY, D. James. Verdades que transformam. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 1986.
O BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
SUMMERS, Ray. A vida no além. 2ª ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1979.


[1] XXXII, 3.
[2] Resposta 38. Itálico meu.
[3] A. A. Hoekema. La Biblia y el futuro. Grand Rapids: SLC, 1984, p. 309. No Antigo Testamento, por três vezes o profeta Isaías fala da promessa divina de uma “nova terra” (Is 51.16; 65.17; 66.22). No Novo Testamento o mesmo é dito por Pedro (2Pe 3.13) e João (Ap 21.1). Veja a interpretação dessas passagens e o significado do adjetivo “nova” em Hoekema, op. cit, p. 229-31, 314-19; Ray Summers. A vida no além. 2ª ed. Rio de Janeiro: Juerp, p. 176.
[4] Veja “O estado final dos justos: Com o que o novo universo se parecerá?”. In: William Hendriksen. A vida futura segundo a Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 257-60; Hoekema, op. cit., p. 308-22; Ray Summers, op. cit., p. 171-79.
[5] Hoekema, op. cit., p. 313.
[6] Idem, p. 316.
[7] W. Hendriksen, op. cit., p. 263. Para uma sugestão de como seriam “as muitas moradas da casa do Pai”, consulte D. James Kennedy. Verdades que transformam. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 1986, p. 154,55. Para um estudo detalhado sobre “a ressurreição do corpo” e “a nova terra”, veja Hoekema, op. cit., p. 269-84, 308-22.

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