terça-feira, 13 de março de 2012

O conceito bíblico de templo

Josivaldo de França Pereira

 
As palavras “templo” e “santuário” aparecem centenas de vezes na Bíblia. A maior parte das ocorrências refere-se ao templo de Jerusalém. Um número menor de vezes é para indicar o templo pagão de El-Berite dos siquemitas (Jz 9.46), de Dagom e Astarote dos filisteus (1Sm 5.5; 1Sm 31.10), de Baal dos cananeus (1Rs 16.31) e Diana dos efésios (At 19.27,35), bem como para designar o cristão e a igreja do Senhor Jesus (1Co 3.16; 6.19).   
O tabernáculo em certas ocasiões também foi chamado de templo antes da construção do santuário por Salomão (Dt 23.17; 1Sm 1.9: 3.3; 22.7). O “templo de Jerusalém” era assim denominado tanto pelos judeus como por cristãos. Nenhuma outra edificação “religiosa” chamava-se templo por judeus ou cristãos. Os judeus da Diáspora ou Dispersão que moravam fora da Palestina – ou dentro da Palestina, mas longe de Jerusalém – denominavam o local de culto de sinagoga. Os cristãos, quando não se referiam ao templo de Jerusalém, falavam da igreja que se reúne ou se hospeda numa casa (Rm 16.5; Cl 4.15). O cristão do Novo Testamento nunca chama o lugar onde o crente congrega de igreja.
O templo de Jerusalém foi construído por Salomão por volta do ano 950 a.C e destruido por Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 587/6 a.C. O templo de Salomão, como também ficou conhecido, foi reconstruído após o cativeiro babilônico em 516 a.C sob a liderança de Esdras, Neemias e Zorobabel. No ano 167/8 a.C. o imperador sírio Antíoco Epifânio profanou o templo de Jerusalém colocando nele uma estátua de Zeus. Ele erigiu um altar pagão no lugar do altar do sacrifício, sobre o qual imolou porcos. Em 4 a.C. Herodes, o Grande, querendo agradar os judeus reformou o templo de Jerusalém, deixando-o ainda mais suntuoso que os dois primeiros. No ano 70 d.C. o santuário foi destruido pelo general romano Tito, conforme profecia do Senhor Jesus (Mt 24.2; Mc 13.2; Lc 19.44; 21.6). Hoje, o que resta erguido do templo de Jerusalém é o Muro das Lamentações, usado por judeus ortodoxos como lugar de oração.
Os cristãos judeus de origem hebreia, a priori, tinham mais afinidade com o templo de Jerusalém que os judeus de origem grega. Jesus, por sua vez, não fez pouco caso do templo, pelo contrário, ele foi zeloso para com a casa do Pai (cf. Mt 21.12,13; Mc 11.15-17; Lc 19.45,46; Jo 2.13-17), o que agradava aos cristãos hebreus (cf. Lc 24.53; At 2.46; 3.1-3,11; 5.20,21,25,42). Entretanto, Jesus também disse: “Aqui está quem é maior que o templo” (Mt 12.6; cf. Jo 2.19-22), o que deveras era apreciado pelos cristãos judeus de origem helênica.
Jesus foi um frequentador assíduo do templo. Lá ele curava e ensinava o povo diariamente (Mt 21.14,23; 24.1; 26.55; Mc 11.11,27; 12.35; 13.1; 14.49; Lc 2.27,46; 19.47; 20.1; 21.37,38; 22.53; Jo 7.14,28; 8.2,20,59; 10.23; 18.20). O apóstolo Paulo também reconhecia o valor do templo (At 21.26-29; 22.17; 24.12,18; 25.8; 26.21). No entanto, os cristãos judeus de origem grega perceberam antes dos hebreus que em Cristo o templo de Jerusalém perde seu significado como centro religioso e local exclusivo de adoração (At 7.46-50; cf. Jo 4.20,21; 1Rs 8.27; 2Cr 6.18; Is 66.1,2).
Saulo – que consentiu na morte de um helenista acusado injustamente de falar contra o templo de Jerusalém (At 6.13,14) porque dizia que o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas (At 7.48) – mais tarde adotaria um nome helenista (Paulo) e usaria o mesmo argumento de Estêvão na evangelização dos gregos em Atenas: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17.24).  
Daí em diante, os termos templo e santuário seriam usados, especialmente por Paulo em suas epístolas, para designar a igreja em geral e o crente em particular (cf. 1Co 3.16; 6.19; 2Co 6.16). Mas o autor aos Hebreus também declara: “Ora, o essencial das cousas que temos dito é que possuímos tal sumo sacerdote, que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem” (Hb 8.1,2).[1]
Concluindo: O que me vem à mente agora são os conceitos de alguns colegas contrários ao uso das palmas no louvor a Deus. Uns dizem que no templo de Jerusalém não se batiam palmas, portanto, em “nosso templo” também não se deve bater. Não conheço nenhuma literatura séria que fale de proibição do uso de palmas no templo de Jerusalém. Outros afirmam que no “templo” não se devem bater palmas, mas no salão social anexo pode como também em acampamentos e lugares abertos. Parece que alguns não se libertaram dos resquícios do catolicismo romano. O mais impressionante é que os que defendem esses pensamentos são os mesmos que dizem em alto e bom som: “Nós somos o templo do Espírito Santo”; “Prédio não é templo”. No mínimo contraditório, você não acha?


[1] Veja mais na postagem “O conceito bíblico de igreja”. 

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