domingo, 8 de abril de 2012

A Conversão de Lídia

Josivaldo de França Pereira


O pouco que sabemos de Lídia está em Atos 16.14. Sua cidade natal era Tiatira.  Uma próspera cidade da província romana da Ásia, a oeste do que atualmente se conhece como Turquia Asiática. Foi colonizada por Seleuco Nicátor, rei da Síria, em 280 a.C. No ano 133 a.C. passou para o domínio romano.
Tiatira era um ponto importante do sistema de estradas do império, pois ficava na estrada que vinda de Pérgamo, a capital da província, se estendia até às províncias orientais. Tiatira foi, nos tempos do Novo Testamento, um importante centro manufatureiro. Tinturaria, tecidos e vestimentas, cerâmica e trabalhos em bronze figuravam entre os artigos da região. Hoje, no mesmo local, existe uma grande cidade chamada Akhisar.
Profissionalmente Lídia era uma vendedora bem sucedida. Ela trabalhava no próspero comércio de tecidos de púrpura[1] e/ou na venda da tinta de mesmo nome quando se mudou para Filipos. Quanto à sua religiosidade, Lídia era "temente a Deus" (At 16.14; cf. At 10.1,2).
A expressão "temente a Deus" de Atos 16.14 significa mais do que afirmar apenas que Lídia cria em Deus ou algo parecido, e sim, que ela fazia parte de uma classe de gentios simpatizantes do judaísmo.
Em quase toda sinagoga judaica existiam, além de judeus é claro, dois grupos distintos de gentios. O primeiro grupo era formado pelos denominados "prosélitos", isto é, gentios convertidos ao judaísmo. Os homens eram circuncidados, concordavam em obedecer a lei e guardar o sábado; faziam peregrinações a Jerusalém, e daí em diante não eram mais gentios, e sim judeus. "O historiador romano Tacitus criticou estes prosélitos por abandonarem sua pátria e família para viver entre um povo estrangeiro".[2]
O segundo grupo de gentios que normalmente frequentava a sinagoga era formado pelos "tementes a Deus". Eram apreciadores da lei e do ensinamento judaicos, mas por uma série de razões pessoais achavam por bem não se desvincular de suas raízes gentílicas, como os prosélitos, para se tornarem judeus.
Lucas relata: “Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio,[3] onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para lá tinham concorrido. Certa mulher chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às cousas que Paulo dizia” (At 16.13,14).
Aqui temos o que biblicamente denominamos de novo nascimento ou conversão de Lídia. Uma obra do Espírito de Deus. O verbo grego dienoixen (abriu) está no aoristo e significa que ali houve uma ação completa e definitiva do Espírito Santo. Durante a pregação de Paulo Lídia "escutava" e o seu coração foi "aberto" para que atendesse. É necessário que a intervenção divina, que torna o homem natural receptivo para com a Palavra de Deus, anteceda o ouvir com proveito a pregação do evangelho. "Deus concedeu a Lídia um coração receptivo para compreender coisas espirituais. Ele deu a ela o dom da fé e a iluminação do Espírito Santo".[4] E como resultado desta conversão o Senhor Deus salvou, pela instrumentalidade de Lídia, e principalmente de Paulo, toda a família dela (At 16.15).



[1] Para o significado e emprego da púrpura nos tempos bíblicos, veja R. A. Cole, Cores. In: O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 324,325.
[2] J. H. Bavinck, An introduction to the science of missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1960, p. 27.
[3] Paul E. Pierson (Atos que contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 146,147) comenta: "Paulo normalmente ia primeiro à sinagoga quando estava em uma nova cidade, a fim de compartilhar o evangelho com os judeus e os tementes a Deus. No entanto, eram necessários 10 homens adultos para formar uma sinagoga. Aparentemente nesta cidade, onde havia um sentimento anti-judeu, não havia o suficiente para isto. Em uma situação como esta, era comum haver um lugar de oração, normalmente perto de um rio. Ali, os judeus do lugar, ao lado dos tementes a Deus, se encontravam no Sábado. Encontrando o lugar pelo rio, Paulo e seus companheiros se juntaram a eles para orarem e adorarem, e então lhes anunciaram as Boas Novas de Jesus.”
[4] Cf. Simon J. Kistemaker, New Testament Commentary: Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 591.

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