sexta-feira, 8 de junho de 2012

Cultura: uma perspectiva antropológica

Adaptado por J. F. Pereira


Todos os seres humanos foram criados por Deus e adquirem traços culturais que são vitais para a sobrevivência da raça humana em todo e qualquer contexto. Ainda que não notemos, cada um de nós carrega uma enorme bagagem cultural adquirida no lar, escola, no trabalho, na igreja.
Em escala maior nós somos herdeiros de uma cultura mais abrangente que é a cultura do nosso país, do nosso povo. Nós falamos assim, nós gesticulamos daquela maneira, nós somos emotivos, nós somos relacionais. Nossos funerais têm estas características, nossas cerimônias de casamento são feitas assim. Não nos apercebemos, mas todos os nossos traços culturais mostram que nós somos brasileiros.
É neste contexto cultural que o evangelho é implantado e tentará germinar. Influenciará e será influenciado pela cultura. Modificará a cultura e será modificado pela cultura. Segundo os antropólogos, a diferença fundamental entre o ser humano e os animais é que os humanos criam e possuem cultura.
O conceito "cultura" é chave para a compreensão do contexto em que se prega o evangelho. O que se entende quando se fala em cultura? Podemos referir-nos ao conceito cultura através de dois enfoques: um, no sentido tradicional, e outro, no sentido mais amplo e moderno e mais antropológico.
De acordo com o enfoque restrito e tradicional, ter cultura significa, por exemplo, tocar piano, ler Cervantes, escutar música clássica, etc. Implica também ser muito educado, ter uma formação acadêmica ou ser profissional e/ou letrado, ou seja, uma "pessoa culta".
Este conceito limitado de cultura exclui as grandes populações do mundo que não têm acesso aos sistemas educativos formais do Ocidente. Segundo esta visão, será que as comunidades nativas e rurais teriam cultura? Esta visão elitista de "cultura" às vezes traz consigo desprezo para com aqueles que não tiveram acesso a essa educação formal.
A Antropologia Sociocultural, uma disciplina relativamente nova, tem resgatado o termo "cultura", passando a aplicá-lo e utilizá-lo num sentido muito mais amplo. Os antropólogos, quando falam de cultura ou culturas, estão se referindo às diversas formas e estilos de vida peculiares aos diferentes povos da terra.
Este conceito se refere a coisas muito concretas, como a forma de dormir, levantar-se, comer, beber, trabalhar, brincar, lutar, expressar amor, apaixonar-se, casar-se, criar e educar os filhos, adoecer, morrer, etc. Existem, por exemplo, várias maneiras de se dormir. Nem todos dormem do mesmo jeito, usando cama, colchão e lençóis. Em muitas comunidades do interior dorme-se no chão ou numa plataforma de barro com pelegos de carneiro; e na selva, como também em várias regiões do continente, usam-se redes e estrados de madeira. Não seria demais dizer que cada povo da terra tem sua própria maneira de realizar suas tarefas cotidianas e de encarar a vida.
O conceito de cultura tem a ver também com coisas um tanto abstratas, como a forma de se comunicar (oral ou simbolicamente), a maneira de pensar (como se vê o mundo, o universo e não somente o mundo e os universos físicos, mas também a realidade espiritual e sobrenatural: qual deve ser o comportamento correto com relação a outras pessoas, a Deus ou aos deuses?). Por exemplo, as culturas ocidentais geralmente fazem uma separação entre o sagrado e o secular; muitas vezes, nestas sociedades, uma pessoa pode, no âmbito social, conversar sobre tudo, menos sobre suas crenças religiosas, pois isto pertence ao mundo privado e religioso. Por outro lado, nas culturas não-ocidentais, nas comunidades rurais e nativas, ocorre uma integração entre o secular e o religioso: ambos se afetam e influenciam mutuamente. As enfermidades, por exemplo, têm uma explicação não somente empírica, mas têm muitas vezes um sentido essencialmente religioso, e seu tratamento não é apenas "secular", mas sim religioso.
Como podemos observar, o conceito “cultura”, embora pareça um tanto abstrato, é, na realidade, bastante dinâmico, específico e concreto. Refere-se àquilo que constitui o humano, o cotidiano, aquilo que se faz, crê e pensa no dia-a-dia de uma comunidade, povo ou nação. Sendo assim, a cultura tem uma importância fundamental para a comunicação e expressão do evangelho.



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