segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Encontro Inevitável

Josivaldo de França Pereira

 
O capítulo 32 do livro de Números relata que as tribos de Rúben e Gade, por terem gado em muitíssima quantidade, pediram permissão a Moisés para se estabelecerem na Transjordânia, região a leste do rio Jordão, que já havia sido conquistada.
Como todo Israel devia participar da conquista da Terra Prometida, e a ausência deles desencorajaria as outras tribos, Moisés os advertiu severamente contra o pecado da geração que saiu do Egito (cf. Nm 13, 14). Entretanto, Moisés consentiu (após a promessa das duas tribos em seguir adiante e ajudar seus irmãos), com a seguinte ressalva: “Porém, se não fizerdes assim, eis que pecastes contra o SENHOR; e sabei que o vosso pecado vos há de achar” (Nm 32.23).
A primeira coisa que se destaca em Números 32.23 é que o não cumprimento da promessa das duas tribos resultaria em pecado contra o Senhor. O pecado nunca é cometido contra o próprio pecado. Peca-se sempre contra Deus. “Pecado” é tudo aquilo que vai de encontro à vontade de Deus. Nas palavras do Catecismo Maior de Westminster, “Pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por ele dada como regra à criatura racional” (cf. Rm 3.23; Gl 3.10-12; Tg 4.17; 1Jo 3.4).
Contudo, chama nossa atenção a parte final do versículo que diz: “sabei que o vosso pecado vos há de achar”. Moisés sabia disso por experiência própria. Quando ele era príncipe no Egito viu certo egípcio espancando um hebreu e, percebendo que não havia ninguém por perto, matou o egípcio e o escondeu na areia. No dia seguinte viu dois hebreus brigando e perguntou ao culpado: “Por que espancas o teu próximo?”. “Pensas matar-me”, retrucou o homem, “como mataste ao egípcio?”. Moisés temeu e disse: “Com certeza o descobriram” (Ex 2.11-14). “Por mais que você tente esconder um pecado, não o conseguirá, pois ele se tornará cada vez mais evidente; somente o arrependimento pessoal e o perdão divino conseguirão apagá-lo” (Crisóstomo).
A expressão “sabei que o vosso pecado vos há de achar” nos remete diretamente ao ensino de Jesus: “Nada há oculto, que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado” (Lc 8.17). Ainda que alguém tente deter “a verdade pela injustiça” (Rm 1.18), um dia ela (a verdade) aparecerá. A mentira sempre vem à tona por mais soterrada que ela possa estar. No entanto, o que porventura “escapar” nesta vida, com certeza não logrará sucesso no juízo final. “O vosso pecado vos há de achar”.
Caim ficou muito indignado quando Deus aceitou a oferta de Abel e a dele não. “Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.6,7). Caim não ouviu o Senhor, pois abriu a porta para o pecado, deixou-se dominar por ele e, consequentemente, matou seu irmão.
O livro de Josué (caps. 1, 4, 22) registra que os gaditas e os rubenitas cumpriram a promessa, liderando a campanha de Canaã até que a principal oposição a Israel fosse subjugada e a terra distribuída entre as outras tribos; ou seja, diferentemente de Caim eles não se deixaram dominar pelo pecado.
Somos todos moralmente responsáveis por nossos atos. Se pecarmos, ainda que ocultamente, o nosso pecado nos há de achar; portanto, ao invés de darmos lugar ao pecado, cumpre a nós dominá-lo.



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