segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tentações

 Josivaldo de França Pereira


A palavra “tentação” geralmente é definida como ato ou efeito de provocação. Embora não seja equivocado pensar assim, esse conceito expressa apenas um aspecto da tentação. A tentação pode ser classificada em duas categorias. Vamos chamá-las de tentação ativa e tentação passiva.
Tentação ativa, como o próprio nome diz, é aquela que deliberadamente provoca ou procura provocar a queda de quem é tentado. A Bíblia nos dá vários exemplos de tentação ativa. Lembremos da esposa de Potifar que todos os dias buscava seduzir José para se deitar com ele (Gn 39.7-12), das investidas de Satanás no deserto contra Jesus (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13) e do modo como o procônsul Sérgio Paulo era provocado pelo falso profeta Barjesus, o qual procurava desviar a atenção daquele quando Saulo pregava o evangelho (At 13.4-12). Em todos esses exemplos nem é preciso dizer que a vitória sobre a tentação foi certeira.
Enquanto a tentação ativa está impregnada de pecados, insinuações e provocações, a tentação passiva é isenta de tudo isso. Imagine, por exemplo, uma carteira de dinheiro esquecida em cima de um balcão, sem ninguém por perto. Quem a esqueceu não teve intenção de tentar ninguém e a própria carteira não tem nada a ver com isso. O honesto não será seduzido por ela; enquanto outra pessoa.... Há um ditado popular que diz: “A ocasião faz o ladrão”. Machado de Assis, no romance Esaú e Jacó, corrige esse adágio dizendo: “Não é a ocasião que faz o ladrão. A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”. É que as mesmas coisas nem sempre são tentação para todas as pessoas.
Dois exemplos bíblicos de tentação passiva são os de Acã que cobiçou uma capa babilônica, ouro e prata de Jericó (Js 7.20,21) e de Judas Iscariotes que traiu nosso Senhor por trinta moedas de prata (Mt 26.14-16; Mc 14.10,11; Lc 22.3-6). Considerando, ainda, a tentação passiva, alguém poderia cobiçar a mulher do próximo sem que esta deliberadamente o provocasse nisso. Um homem casado se apaixona por outra mulher sem que esta saiba ou nem mesmo o tenha visto. A tentação passiva, por assim dizer, é do bem, visto que em si mesma não há nada de errado. O erro está no cobiçoso. Enquanto na tentação ativa o cobiçoso é levado; na passiva ele se leva. Quem se leva na tentação passiva o faz sem motivação aparente do objeto desejado. É na categoria de tentação passiva que podemos incluir as exigências e proibições do décimo mandamento: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem cousa alguma que pertença ao teu próximo” (Êx 20.17; cf. Dt 5.21). Todavia, nenhuma tentação, ativa ou passiva, chega a ser pecado para o tentado, a menos que seja bem vinda e aceita por ele.
Tiago tinha em mente as tentações ativa e passiva quando disse aos seus destinatários: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.13-15). Quando Tiago diz que Deus não pode ser tentado pelo mal, ele se refere basicamente à tentação ativa. E quando fala que cada um é tentado pela sua própria cobiça, ele aponta basicamente para a tentação passiva. Por “basicamente” quero dizer que não podemos ser taxativos como se as tentações passiva e ativa não estivessem presentes em ambos os casos, na mente de Tiago. A linha divisória é tênue e sutil. Contudo, está claro que algumas tentações estão impregnadas de provocações enquanto outras não. Caímos tanto em uma quanto em outra por causa de nossa natureza humana pecaminosa.
De qualquer maneira, sendo a tentação ativa ou passiva, precisamos nos recordar sempre do que Jesus ensinou: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a cerne é fraca” (Mt 26.41). E ainda: “... E não nos deixes cair em tentação” (Lc 11.4).[1]  



[1] Leia mais na postagem “Tentação e Queda”.

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