segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A princesa compassiva

Por Josivaldo de França Pereira


O caráter da princesa Jeosabeate de Judá contrasta radicalmente com o de Atalia, a rainha-mãe de Israel. Atalia era filha do ímpio Acabe e, segundo alguns, também da maligna Jezabel (1Rs 16.29-33). O profeta Elias predisse a morte de Acabe e Jezabel, bem como a extinção de toda sua família (1Rs 21.17-29; cf. 1Rs 22.29-40; 2Rs 9.30-37). Jeú foi o instrumento de Deus para exterminar a casa de Acabe (2Rs 9.1-13; 10.1-14). O reino de Judá teve seus altos e baixos com reis bons e maus. No reino de Israel todos os reis foram maus.[1]
Jeú matou Acazias, filho de Atalia. Com o desejo da vingança somado à sede de poder, “Vendo Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá” (2Cr 22.10; cf. 2Rs 11.1). A Bíblia relata que, além de mãe, Atalia era conselheira de Acazias: “... Ele também andou nos caminhos da casa de Acabe; porque sua mãe era quem o aconselhava a proceder iniquamente” (2Cr 22.3).
Atalia foi o único governante em Judá que não era da linhagem de Davi. “O governo de Atalia é tratado como uma usurpação ou interrupção, de modo que a introdução costumeira para um reinado convencional de Judá é omitida”.[2] Como, sendo ela filha de Acabe, rei de Israel, do Reino do Norte, usurpou o trono de Judá, o Reino do Sul? É simples: (1) Jeorão, o rei que não deixou saudades (cf. 2Cr 21.20)[3], fez uma aliança macabra e assassina com Acabe, pois “Andou nos caminhos dos reis de Israel, como também fizeram os da casa de Acabe, porque a filha deste [Atalia] era sua mulher; e fez o que era mau perante o SENHOR” (2Cr 21.6; cf. 2Rs 8.18). Atalia foi esposa e mãe de dois reis de Judá (Jeorão e Acazias). (2) Após o golpe de Jeú no norte, Atalia procurou salvar alguma coisa para a família de Acabe ao tentar exterminar a dinastia de Davi, em Judá.
A atitude de Atalia em destruir a descendência real não é nova. Jeorão, seu esposo, fez o mesmo com seus irmãos (2Cr 21.4). Atalia conseguiu ser ainda mais perversa porque “levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá”.
O príncipe Joás era tão pequeno – tinha apenas um ano de idade quando Atalia decretou a matança da realeza judaica – que, humanamente falando, não havia esperança de salvação nem para ele. “Mas Jeosabeate, filha do rei, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei, aos quais matavam, e o pôs e à sua ama numa câmara interior; assim, Jeosabeate, a filha do rei Jeorão, mulher do sacerdote Joiada e irmã de Acazias, o escondeu de Atalia, e não foi morto. Joás esteve com eles seis anos na Casa de Deus, e Atalia reinou no país” (2Cr 22.11,12; cf. 2Rs 11.2,3).[4]
Jeosabeate resgatou o infante Joás do massacre da linhagem real impetrado por Atalia. Era ela filha de Jeorão, irmã de Acazias e tia de Joás[5], todos eles foram reis de Judá. Por seis anos Joás e sua ama ficaram escondidos numa câmara interior (um quarto contíguo ao templo) pertencente aos sacerdotes. “As dependências privadas dos sacerdotes não podiam ser violadas por visitas profanas, nem mesmo pela rainha, pelo que Joás esteve seguro ali durante todos aqueles anos”.[6]
Jeosabeate era esposa do sacerdote Joiada, homem de Deus. Ela é a única princesa na Bíblia casada com um sacerdote. Durante o tempo que Joiada esteve vivo, Joás prosperou no reinado de Judá. Joás tinha apenas sete anos de idade quando subiu ao trono (2Cr 24.1), graças à misericórdia de uma tia. Na Bíblia nenhum monarca governou com menos idade. Atalia foi morta (2Cr 23.12-15; cf. 2Rs 11.13-16), durante quarenta anos Joás reinou em Jerusalém e Joiada foi seu conselheiro enquanto viveu (2Cr 24.2). Ele é o único sacerdote na Bíblia sepultado junto com os reis de Judá, na Cidade de Davi (2Cr 24.16).
Jeosabeate, apesar de ter na família gente perversa, como Jeorão, Acazias e Atalia, casou-se com um homem que foi bênção na vida dela. O que a princesa fez por Joás era reflexo de um ambiente familiar sadio. No entanto, se Jeosabeate, de um lado, arriscou a própria vida para salvar o sobrinho da tirana Atalia, por outro lado, vemos a direção de Deus na condução dos fatos, cumprindo a promessa que fez a Davi de dar a ele, sempre, uma lâmpada e a seus filhos (cf. 1Rs 11.36; 2Rs 8.19; 2Cr 21.7), preservando a linhagem real até Jesus. Portanto, a importância de Jeosabeate na história bíblica não foi somente o de ter protegido Joás da perversa Atalia, mas principalmente em ter sido ela usada por Deus para preservar a linhagem messiânica. Para entendermos o que isso realmente significa precisamos voltar um pouco no tempo.
Em Gênesis 3.15 temos a promessa inicial de Deus de que a semente (o descendente) da mulher, que é Cristo, ferirá a cabeça da serpente, Satanás, e este lhe ferirá o calcanhar. Aqui em Gênesis 3 o confronto é anunciado. Daí por diante, o diabo vai sempre pelejar para destruir Jesus na pessoa de seus ascendentes. Nascem os filhos de Adão e Eva – Caim e Abel. Caim era do Maligno (cf. 1Jo 3.12) e assassinou seu irmão. A promessa não é interrompida porque de Adão nasce Sete. Satanás compreende que a família de Sete fora escolhida para gerar a semente prometida, o Messias? Sim, pois o diabo começa agora a fazer tudo o que pode para destruir os filhos de Sete, insinuando que eles deveriam se casar com as filhas de Caim. Uma tentativa para destruir as gerações de Sete a fim de anular a promessa acerca do Messias.
Aparentemente parece que Satanás alcançaria seu objetivo, todavia, dentre as famílias que descendem de Sete há uma que teme ao Senhor – a família de Noé. Deus salva essa única família enquanto o dilúvio destrói o resto. Dessa única família a promessa é levada adiante.
A promessa acerca do Messias é agora dada a Abraão e a Sara, sua esposa. Humanamente falando essa promessa nunca se cumpriria porque Abraão é velho e Sara estéril, mas o milagre acontece e nasce Isaque. A promessa é passada a Isaque, porém, Rebeca também é estéril. E outra vez o Deus da promessa realiza um milagre e Rebeca concebe, para continuar a promessa por meio da linhagem de Jacó. Por ter “roubado” do pai a promessa que lhe cabia, Esaú persegue Jacó para matá-lo, e não consegue. Mais uma vez a promessa é salva.
Contudo, Satanás não desiste. Ele ataca a descendência de Jacó – os judeus. O Senhor Deus tirou o povo do Egito com braço forte, entretanto, eles o rejeitam e estão dançando ao redor de um bezerro de ouro. “Disse mais o SENHOR a Moisés: Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma; e de ti farei uma grande nação” (Êx 32.9,10). Moisés intercede a Deus em favor do povo e de novo a promessa é salva.
Da tribo de Judá Deus escolhe uma família – a de Davi. O Messias prometido nascerá como a semente de Davi (2Sm 7.11-16; 1Rs 8.25; Sl 89.29,35,36; Jr 23.5; At 2.30). Um espírito maligno se apodera de Saul que, desesperadamente, tenta várias vezes matar Davi. Em todas as investidas de Satanás Davi sai ileso. Por fim, Satanás consegue chegar ao trono de Judá através de Atalia que, como vimos, tentou destruir toda descendência real. Parecia que a prometida linhagem do Messias fracassaria. Isso não aconteceu por causa de Jeosabeate, a mulher que Deus usou para cuidar do único remanescente da casa de Davi – Joás – e preservar a linhagem do Messias prometido.





[1] Até mesmo Jeú, que seria uma exceção entre os reis de Israel, apartou-se dos caminhos do Senhor (2Rs 10.29-31).
[2] Donald J. Wiseman, 1 e 2Reis: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 202.
[3] Veja mais sobre Jeorão em meu livro Personagens esquecidos da Bíblia, p. 62-66.
[4] No texto paralelo de 2Reis 11.2,3, o nome de Jeosabeate aparece na forma abreviada: Jeoseba.
[5] Em 2Reis 11.2 o nome do rei Jeorão também aparece na forma abreviada: Jorão. Não confundir com Jorão, filho de Acabe, rei de Israel. Alguns estudiosos acreditam que Jeosabeate era filha de Jeorão por meio de outra esposa, e não de Atalia. Ela provavelmente era uma meia-irmã de Acazias, e o infante Joás, seu sobrinho. (Cf. R. N. Champlin; J. M. Bentes, Jeosabeate/Jeoseba. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol.3. São Paulo: candeia, 1991, p. 447; Wiseman, p. 202).
[6] R. N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 3. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1510. 

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