sábado, 13 de outubro de 2012

Decepção: Suas causas e cura


Josivaldo de França Pereira


O vocábulo “decepção” deriva-se do latim decepcione. Aurélio o define como 1. Malogro de uma esperança; desilusão, desengano, desapontamento. 2. Surpresa desagradável; desapontamento. 3. Contrariedade, desgosto.
A palavra “decepção” não aparece na Bíblia. No entanto, sua ideia está presente em toda Escritura.[1] O texto de 2Timóteo 4.16-18 é um dos exemplos que passamos a considerar. Paulo diz: “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta! Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém” (2Tm 4.16-18).
Por que nos decepcionamos tanto com as pessoas?
Basicamente porque o ser humano não é totalmente confiável. Por isso você se decepciona com os outros; os outros se decepcionam com você e você às vezes se decepciona consigo mesmo. Mas não é só. A decepção acontece também porque somos carentes da atenção alheia. Somos seres sociáveis por natureza. Não existimos para viver numa redoma ou ilha deserta, isolados de todos e de tudo.
Ainda precisamos um do outro. E aí nos decepcionamos porque esperamos das pessoas mais do que elas podem nos oferecer.
A decepção é um fato. Uma realidade da qual não podemos fugir; porém, não precisamos conviver com ela.
O apóstolo Paulo era ser humano como qualquer um de nós. Tinha sentimentos e por isso também se frustrava. Paulo disse: “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram”. Paulo estava triste; muito triste. Sua experiência de abandono lembra um pouco a história de Galileu.
O filósofo Bertrand Russell disse que se Isaac Newton tivesse enfrentado um centésimo das dificuldades de Galileu, provavelmente não teria escrito uma única linha. Galileu foi muito mais fustigado que Newton por causa de sua coragem ao desafiar 1600 anos de crenças em falsas teorias. O preço foi enfrentar sozinho a oposição dos seus contemporâneos e uma pena de prisão domiciliar pelos tribunais eclesiásticos.[2]
Contudo, o que Paulo passou em sua vida supera em muito as lutas de Galileu (Cf. 2Co 11.23-33). E o que Jesus passou? Não há palavras que possam descrever com justiça os sofrimentos de nosso Senhor...
Como podemos vencer a decepção?
Ouso dizer que o único antídoto contra a decepção é o perdão. “Quem não perdoa se mantém preso ao que o decepcionou”, disse alguém.
O ressentimento é um mal que mata aos poucos. Paulo sabia disso e por isso tratou de se livrar da decepção que teve com seus amigos, dizendo: “Que isto não lhes seja posto em conta!”. Para mim essa é uma das declarações mais fantásticas da Bíblia. Quê revolução incomensurável aconteceria em nossa vida se estivéssemos dispostos a fazer o mesmo! Se não fôssemos tão arrogantes; tão cheios de si e duros de coração, nós não nos decepcionaríamos com tanta frequência porque nos apressaríamos logo em resolver nossos relacionamentos interpessoais malfadados.
“Que isto não lhes seja posto em conta!”. Ah! se fizéssemos como Paulo!
Geralmente os homens de coragem ficam sozinhos na defesa de suas convicções. São deixados para trás quando mais precisam de apoio. Ficam decepcionados porque contavam com aqueles que pareciam amigos de verdade. Mas o que seria da humanidade se não fossem os homens e mulheres que, desafiando o senso comum vigente, deram a cara à tapa por um ideal, ainda que sozinhos?
Assim como Paulo, os discípulos de Jesus o abandonaram quando ele mais precisou deles, a começar no Getsêmani. Não oraram com ele, não o acompanharam de perto em seu julgamento e, salvo João, deixaram-no sozinho na cruz. Ainda assim, ele os perdoou. Paulo sabia perdoar porque aprendeu com o Mestre. E você?
Deus jamais decepciona
“Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças... e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém”. É possível perceber a euforia e entusiasmo do apóstolo nessa declaração. E não é só. A declaração anterior, pedindo que Deus não leve em conta o abandono de seus amigos, é entendida melhor agora, à luz dessa declaração. 
Paulo sabia que podia contar com Deus. Todos abandonaram o apóstolo, menos o Senhor. Todos decepcionaram o servo do Senhor, porém, Deus esteve ao lado dele, fazendo-o sentir sua presença de uma maneira notável. Além disso, quando se compreende a direção de Deus na adversidade, temos muito mais facilidade em perdoar. Foi assim com José do Egito, Paulo, Jesus e tantos outros exemplos na Bíblia e fora dela.
Finalmente, o apóstolo tinha tanta confiança em Deus a ponto de afirmar que não somente em sua primeira defesa, mas o que viesse daí por diante estaria também sob os cuidados do Senhor. Do modo como Deus o fortaleceu, Paulo se fortalece no Senhor para o presente e o futuro. Reafirma no Senhor a certeza de que “nenhum ataque dos seus inimigos subverterá sua fé ou sua coragem, ou leva-lo-á a cair em pecado desastroso.”[3]
Só se decepciona com Deus quem não conhece verdadeiramente a Deus.







[1] Cf. Ralph E. Powell, Deception. In: Wycliffe Dictionary of Christian Ethics, p. 167; R. K. Harrison (ed.), Deception. In: Encyclopedia of biblical and christian ethics, p 102, 3.
[2] Galileu Galilei, um dos criadores da Ciência Moderna, foi prisioneiro da Inquisição devido a sua opinião de que a Terra girava em torno do Sol.
[3] J. N. D. Kelly, I e II Timóteo: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1983, p. 201.

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