quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Da perseverança dos santos

Josivaldo de França Pereira

 
A doutrina da perseverança dos santos é a última dos chamados cinco pontos do calvinismo, artigos elaborados no século XVII pelo Sínodo de Dort, na Holanda, para rebater a Remonstrance (O Protesto), documento referente aos cinco pontos do arminianismo.
A expressão “perseverança dos santos” é bíblica. No livro do Apocalipse está escrito: ”... Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos” (Ap 13.10). E ainda: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14.12).
Alguns estudiosos sugerem que a “perseverança dos santos” deva ser entendida como “perseverança de Deus”, pois, segundo eles, esta exprime melhor o sentido da doutrina, visto que não é o ser humano, mas Deus quem persevera. Contudo, falar da perseverança dos santos como sendo perseverança de Deus é um tanto excessivo porque, assim como Deus não crê e nem se arrepende no lugar do pecador, ele também não persevera no lugar dos crentes. São os crentes que perseveram, porém, com a graça de Deus.  Esse modo de pensar está de acordo com o que disse o apóstolo Paulo aos coríntios: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10).
A doutrina da perseverança dos santos é, por excelência, a doutrina da preservação e segurança dos crentes. No entanto, Steele e Thomas observam corretamente: “A doutrina da perseverança dos santos não mantém que todos que professam a fé cristã estão garantidos para o céu. São os santos - os que são separados pelo Espírito - os que perseveram até o fim. São os crentes - aqueles que recebem a verdadeira e viva fé em Cristo - os que estão seguros e salvos nele. Muitos que professam a fé cristã caem, mas eles não caem da graça, pois nunca estiveram na graça. Os crentes verdadeiros caem em tentações e cometem graves pecados, às vezes, mas esses pecados não os levam a perder a salvação ou a separá-los de Cristo”.[1]
Este entendimento expressa o pensamento da Confissão de Fé de Westminster (CFW), que diz: "Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, eficazmente chamados e santificados pelo seu Espírito, não podem cair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim, e estarão eternamente salvos" (XVII, 1).
A base bíblica da doutrina da perseverança dos santos é vasta. Eis alguns exemplos: “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jr 32.40); “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24); “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37). “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28,29); “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).
Alguém poderia indagar: “Quer dizer que um crente pode, então, pecar à vontade que nunca perderá a salvação?” Aquele que é verdadeiramente salvo em Cristo é salvo para sempre, ou, de acordo com o título de um antigo livro do teólogo batista William C. Taylor, “A salvação do crente é eterna”. Quem é de Deus peca, mas jamais viverá na prática do pecado (cf. 1Jo 3.9). Seu desejo é a santidade de vida e a glória de Deus, porém, ele está sujeito a tentações e queda e, mesmo que decaia do estado de graça, será parcial e temporariamente, pois, com toda certeza, ele perseverará até o fim com e pela graça de Deus (cf. CFW, XVII, 1 e 3).



[1] David N. Steele e Curtis C. Thomas, Os Cinco Pontos do Calvinismo. Disponível na Internet em  www.ipcb.org.br. Acesso em 07/10/2012. 

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