sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Imagem e Semelhança

Josivaldo de França Pereira


Para criar os vegetais e animais o Senhor Deus simplesmente ordenou a terra e às águas e estas produziram tanto uns quanto outros em abundância (Gn 1.11,12,20,21). Contudo, no momento de criar o homem houve uma mudança de método. Disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” (Gn 1.26). De início percebemos que na palavra “façamos” a Trindade se reúne para criar o homem. E isso, segundo Calvino, é a mais alta honra com que Deus nos tem dignificado.[1]
Observemos, também, a equivalência dos termos “imagem” e “semelhança”. Essas palavras não se referem a duas coisas distintas. São sinônimas, traduzem a mesma realidade. Trata-se do fenômeno de paralelismo ou correspondência, tão frequente na poesia hebraica. É por isso que podemos encontrar em diferentes trechos das Escrituras o intercâmbio dessas palavras, ou a presença de ambas, expressando a mesma realidade.
Em Gênesis 1.26 são usadas as duas palavras (imagem e semelhança), mas no verso 27 apenas a palavra “imagem”. Em Gênesis 5.1 aparece apenas o termo “semelhança”, enquanto que no versículo 3 encontram-se os dois termos. Gênesis 9.6 contém somente a palavra “imagem”, como expressão completa da ideia. Em Colossenses 3.10 e Tiago 3.9 “imagem” e “semelhança” se alternam, ensinando a mesma verdade. Segundo Berkhof, a opinião usual é que “semelhança” foi adicionada à “imagem” para expressar a ideia de que era, na verdade, uma “imagem perfeita”.
“Imagem” ou “semelhança” nunca se refere ao aspecto físico porque Deus é espírito e não tem corpo como os homens.[2] Desse modo, em que consiste a imagem de Deus no homem? Não sendo física a imagem ou semelhança de Deus, conclui-se que em outras características peculiares ao homem ela deve ser o reflexo de Deus:
(a) Em seu sentimento moral. Adão tinha, antes de pecar, uma disposição moral para o bem. Essa disposição pode ser identificada na retidão original e na santidade com que o homem foi criado, pois Deus é santo. Somente no ser humano se encontra o sentimento moral, reflexo, ainda que tênue, de sua retidão e santidade originais, deturpado pelo pecado (Ec 7.29). A salvação concedida por Cristo restaura no homem a grandeza desse aspecto da imagem de Deus (Ef 4.22-24).
(b) Em sua expressão racional. É com essa capacidade que o homem evolui nas artes, nas letras, nas ciências e em todos os demais aspectos da vida. Entre os animais também existem fatos de surpreendente beleza e sabedoria. Veja, por exemplo, a engenharia das abelhas. Elas constroem favos, excelente obra de arte, onde armazenam o mel. No entanto, é somente isto que elas fazem e sempre do mesmo jeito durante milhares de anos. De igual forma, todos os outros animais em suas respectivas atividades. O ser humano é diferente. Sua inteligência o leva a criar novas condições de vida, a aperfeiçoar seus métodos e evoluir em seus inventos. Lembre-s e que Adão teve inteligência para por nomes em todos os animais do campo e em todas as aves de céu (Gn 2.19,20), como também em dominá-los com sabedoria e respeito à natureza.
(c) Em sua liberdade. Deus, como ser livre, projetou no homem esse traço do seu caráter divino. A liberdade é uma das grandes virtudes da vida e Deus presenteou o homem e a mulher com ela. Deus dotou a vontade de Adão e Eva com tão grande liberdade que eles não foram forçados a fazer o bem ou o mal; tinham a liberdade de querer e fazer aquilo que era bom e agradável a Deus, embora mudavelmente. Para infelicidade deles e nossa, pecaram, e a liberdade que o homem natural possui nunca se refere à busca do bem espiritual (1Co 2.14).
(d) Em sua imortalidade. A alma humana, a essência do próprio indivíduo, é eterna, como Deus é eterno. A morte física é consequência do pecado; entretanto, mesmo após a morte do corpo, o espírito continua vivendo (Ec 12.7; Lc 16.22-24; 2Co 5.1-8).
(e) Em seu domínio e governo. A imagem de Deus imputada na pessoa, a de reinar ou dominar, que é constatada em Gênesis 1.26, é elaborada logo depois nos versículos 27 e 28. O versículo 27 esclarece que essa tarefa pertence ao homem e à mulher. Juntos, homem e mulher tornam-se o mais completo reflexo da imagem de Deus. O verso 28 elabora a imagem de Deus no ser humano em três áreas de responsabilidade e administração: a sua experiência social e familiar; a sua responsabilidade econômica e ecológica, e o governo.
A criação do homem e da mulher foi um dos maiores acontecimentos sobre a face da terra. Somos parte do programa eterno de Deus e testemunhas de seu poder e amor insondáveis. Que a consciência dessas verdades nos torne mais agradecidos e devotados ao Deus Criador, que tanto tem feito por nós.



[1] Outros teólogos preferem chamar o verbo “façamos” de Gênesis 1.26 de “plural majestático”.
[2] Querer identificar aspectos físicos na expressão “imagem e semelhança”, com o argumento de que temos o corpo que Cristo teria, não é bíblico. A Bíblia é clara ao dizer que foi Cristo quem assumiu a forma do nosso corpo. 

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