sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Paulo, homem

Josivaldo de França Pereira


A Bíblia apresenta vários exemplos de homens e mulheres de Deus que passaram por momentos de fraqueza e abalo emocional. Numa época em que muitos se apresentam como supercrentes e falsas teologias enganam tanta gente, que tal aprendermos algo mais com um deles?
A tristeza de Paulo. Em sua epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo descreve como se sentia em relação à incredulidade de seus compatriotas judeus: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: tenho grande tristeza e incessante dor no coração; porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne” (Rm 9.1-3).[1] Aos coríntios ele diz que não se apresentaria a eles como da primeira vez, ou seja: “Isto deliberei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tristeza” (2Co 2.1). No entanto, é provável que a mais impressionante passagem bíblica sobre tristeza de Paulo tenha sido em prol de Epafrodito, seu colaborador na igreja de Filipos: “Com efeito, adoeceu mortalmente; Deus, porém, se compadeceu dele e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Por isso, tanto mais me apresso em mandá-lo, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu tenha menos tristeza” (Fp 2.27,28). “(...) os crentes filipenses e o próprio apóstolo sentiriam profundamente a perda daquele fiel servo de Deus. (...). Vemos, pois, que Deus respeita os sentimentos humanos corretos, o que não é uma bênção pequena”.[2]
O medo de Paulo. O apóstolo Paulo já vinha sofrendo várias ameaças e perseguições em sua obra missionária. Foi assim em Damasco, Jerusalém, Antioquia da Síria, Icônio, Listra, Filipos, Tessalônica, Beréia, como em tantos outros lugares que ele ainda passaria. Contudo, é em Corinto que o medo do apóstolo fica evidente, a ponto de Lucas relatar: “Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade. E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18.9-11). Algo semelhante foi dito por Deus ao jovem Jeremias: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o SENHOR” (Jr 1.8; cf. 1.19). Em sua primeira epístola aos Coríntios Paulo declara: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós” (1Co 2.1-3). “Os termos temor e tremor estão relacionados às inúmeras ameaças políticas e sociais que Paulo teve de enfrentar”.[3]
O desencorajamento de Paulo. Não é o mesmo que covardia, mas abatimento da alma. O desencorajamento deste gigante da fé aparece após ele ser preso em Jerusalém e fazer sua defesa perante o povo e o Sinédrio. “Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (At 23.11). Estava Paulo deprimido, desanimado e apreensivo com que o aguardava pela frente? A palavra de ordem “Coragem!” sugere tudo isso. “Jesus usou esse termo [coragem] muitas vezes durante seu ministério terreno. Por exemplo, quando andou sobre as ondas do lago da Galiléia e os discípulos ficaram cheios de medo, ele lhes disse que tivessem coragem (Mt 14.27; Mc 6.50). Aqui em Jerusalém, Jesus encoraja Paulo a ser destemido”.[4] Uma experiência de abatimento semelhante a de Paulo foi vivida por Josué, o sucessor de Moisés. O Senhor falou a Josué e o animou (Js 1.1-9). David Livingstone, após sofrer um ataque de leão numa de suas jornadas na África, disse que sua motivação em continuar na obra missionária era a promessa de Jesus: “... E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).[5]
O desespero de Paulo. Em sua segunda epístola aos Coríntios o apóstolo diz: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida” (2Co 1.8). Paulo nunca escondia suas fraquezas, pelo contrário, ele não queria que os irmãos ignorassem a natureza das tribulações que vieram sobre ele e aos demais missionários na Ásia. Bem diferente dos “apóstolos” defensores da Confissão Positiva que afirmam que se um crente sofre e se desespera é porque não tem fé em Deus ou está em pecado. Muitos desses modernos fariseus quando ficam doentes inventam mentiras somente para não aparecer debilitados em público e, assim, contradizer a falsa doutrina que eles defendem. “O risco que Paulo correu foi tão grande que ele o descreve como um fardo extremamente pesado que ele não era capaz de suportar fisicamente. Mais do que isso, espiritualmente lhe faltava a força necessária e ele entrou num estado de desespero (contrastar com 4.8). Ele já esperava o fim de sua vida terrena a não ser que o próprio Deus interviesse e, por assim dizer, o trouxesse de volta dos mortos”.[6] Deus não nos promete um caminho suave, mas garante nossa chegada segura.





[1] Cf. William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 407-09; F. F. Bruce, Romanos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 4ª ed. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 148.
[2] Cf. R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 41. 
[3] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 112. Para um ponto de vista diferente, consulte Leon Morris, 1Coríntios: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 41.
[4] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 426.
[5] Veja esta mesma certeza de Livingstone expressa em uma de suas cartas em W. Garden Blaike, The personal life of David Livingstone. New York, Chicago And Toronto: Fleming H. Revell Company, 1880, p. 497,98.
[6] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 2Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 74. Consulte também Colin Kruse, 2Coríntios: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1994, p. 70.

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