sábado, 1 de dezembro de 2012

Aspectos messiânicos de José

Exposição de Gênesis 50.18-21
Josivaldo de França Pereira

No meio cristão prevalece o consenso de que José foi um tipo de Cristo. É na pessoa de José, no Egito, que nós encontramos o cumprimento da promessa de Deus a Abraão que, por sua vez, alcançaria seu clímax em Cristo: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12.3).
Entendemos que, pelo menos, dois aspectos messiânicos estão claros em Gênesis 50.18-21: 1) O aspecto real e 2) O aspecto redentivo. Encontramos esses dois aspectos (ora mais, ora menos enfatizados) em Gênesis 37-50.[1] Mas por questão de propósito e objetividade limitaremos o assunto a Gênesis 50.18-21.[2]
O aspecto real da pessoa de José (vv18,19)
No versículo 18 temos o reconhecimento da realeza de José por parte de seus irmãos. Como tipo de Cristo, José agora prefigurava não mais o estado de humilhação e serviço, mas de exaltação e poder do Messias.
Sem dúvida alguma, aqui em Gênesis 50.18 os súditos (irmãos de José) tiveram uma compreensão mais elevada de "servidão" do que a de Gênesis 44.9,33. Isso ficou claro pela prontidão imediata: "Eis-nos aqui por teus escravos" (v18). A maioria das versões em português traduzem o substantivo abadim por "servos". Contudo, não é a melhor tradução. A idéia de escravidão do verso 18 tem a mesma força de Gênesis 44.9: "Aquele dos teus servos, com quem for achado (um copo de prata), morra; e nós ainda seremos escravos do meu senhor". A única diferença nesses dois textos (Gn 44.9 e 50.18) é que no primeiro trata-se de uma hipótese. Os irmãos de José estavam certos que não furtaram nada dele (Gn 44.8). No segundo texto (Gn 50.18) trata-se de uma realidade. Eles se ofereceram como escravos do “rei” José e não se acharam dignos de serem comprados (ou vendidos) nem mesmo por vinte siclos de prata.
Agora seus irmãos reconheciam a verdadeira realeza de José. Antes que José se desse a conhecer a eles não o reverenciaram dentro de uma perspectiva teológica (Gn 42.6), como José via os acontecimentos (Gn 42.9). Mas agora se lembravam dos sonhos de José (Gn 37.7,9) e que a resposta às perguntas que outrora fizeram a José: "Reinarás, com efeito, sobre nós? E sobre nós dominarás realmente?" (Gn 37.8), era afirmativa.[3] Lembraram-se também da túnica real e, principalmente, do mal que lhe fizeram quando procuraram tirar-lhe a realeza com a destruição da túnica (Gn 37.31)[4] e vendendo-o como escravo (Gn 37.28).
Apesar de sua realeza José reconhece que é um mortal e os adverte: "Não temais (a mim) porque porventura estou eu em lugar de Deus?" (v19). Quer dizer, "porventura eu tenho direito de julgá-los?".[5] Lembremos que essa é uma característica tipicamente messiânica (cf. Jo 8.50; Fp 2.6,7; 1Pe 2.23). José deixa com Deus todo acerto do erro dos irmãos, antecipando, desse modo, o ensino do Novo Testamento (cf. Rm 12.19; 1Ts 5.15; 1Pe 4.19). Da mesma maneira que Jesus Cristo, José estava plenamente ciente de que era submisso. Não a Faraó, mas a Deus.
O aspecto redentivo da pessoa de José (vv20,21)
Este segundo aspecto está subordinado ao primeiro. Nos versículos 20 e 21 de Gênesis 50 encontramos a mais bela declaração do entendimento que José tinha da posição em que Deus o colocara. José via além do alcance, por assim dizer. E porque José “viu” o propósito divino em meio à maldade de seus irmãos, ele os perdoou. Não os isentou da culpa ("Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim..." [v20a]), contudo, vê o bem de Deus mais digno de crédito do que a maldade deles, reafirmando o que já havia dito aos seus irmãos: “... porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (v20b, cf. Gn 45.5,7,8).
O aspecto redentivo de José tipificou a missão de Jesus no mundo. Conservar "muita gente em vida" (v20) também foi o objetivo da obra redentora de Cristo (cf. Mt 1.21; 26.28; Jo 11.49-52). Não sabemos exatamente quando José tomou ciência do propósito divino em usá-lo como redentor. É possível que a ascensão como primeiro ministro ou grão-vizir de Faraó fosse o ponto de partida, pois o nome egípcio Zafnate-Panéa significa "o salvador do mundo" (cf. Jo 4.42). "E todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras" (Gn 41.57 - ARC). O importante é que, em certo sentido, José foi "o pão da vida" do mundo de então.
No verso 21 temos o que podemos chamar de "uma atitude verdadeiramente cristã". José não somente paga o mal com o bem quando fala com seus irmãos. Ele dá uma demonstração prática de perdão e afeto. Se por um lado seus irmãos não precisavam temê-lo porque todos, inclusive José, estavam sob o senhorio de Deus (v19), por outro lado não deveriam temer porque todo mundo estava sob a verdadeira proteção e cuidado de Zafnate-Panéa, o salvador do mundo. E José promete: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos", enfatiza o texto hebraico.[6] José repete e confirma a eles neste versículo (21) a promessa que fez originalmente quando os convidou a virem ao Egito (Gn 45.11,18,19).
A palavra "sustentarei" (v21) não significa que a fome ainda prevalecia. Quando Jacó chegou ao Egito faltavam cinco anos para a fome acabar (Gn 45.11). O patriarca estava com 130 anos de idade (Gn 47.9) e morreu com 147 anos (Gn 47.28); portanto, a fome não mais existia havia 12 anos. E aqui (v21) temos um detalhe importante do aspecto redentivo da pessoa de José, que aponta diretamente para Jesus: Cristo não só nos salvou, mas nos mantém e nos sustenta dia-a-dia com a sua benévola providência. Ele está conosco sempre (Mt 28.2) e intercede por nós (Hb 7.25).
A expressão: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos" sugere que, como estrangeiros no Egito, os filhos de Israel poderiam dispor de uma pessoa influente como José para guardar seus interesses e representá-los diante de Faraó. Jesus Cristo, sendo um dos nossos, por assim dizer, também é o nosso excelentíssimo representante diante de Deus (1Tm 2.5; 1Jo 2.1).
As palavras "não temais" é a expressão do refrigério que acalma os corações atribulados. Jesus a usou várias vezes para tranquilizar seus discípulos e outras pessoas (Veja, por exemplo, Mt 10.28; 14.27; Mc 5.36; Lc 12.32).
"Assim os consolou, e falou segundo o coração deles" (v21).
Conclusão:
 Van Groningen resume muito bem os dois aspectos messiânicos da pessoa de José (realeza e redenção) quando diz:
José foi um verdadeiro tipo messiânico. Ele foi considerado real, recebeu uma posição real e cumpriu uma tarefa real. Como uma pessoa régia, ele livrou, protegeu e enriqueceu a semente de Abraão e Isaque. Ele funcionou, portanto, como um redentor e provedor físico, social, moral e espiritual. (...). Deus preparou José, e por meio de José o soberano Senhor realizou atos salvíficos dentro do contexto da história do mundo. E ao preparar José e realizar atos de salvação por meio de José, o Senhor falou profeticamente enquanto preparava a cena para a salvação mais plena, mais completa que Jesus Cristo traria. Essa salvação trazida pelo Cristo real foi também o que em última instância validou a obra redentiva de José, cumprida por uma pessoa real, tomada de entre a semente para funcionar em favor da semente.[7]

             Gênesis 50.18-21 encerra uma das mais profundas lições tipicamente messiânicas do Antigo Testamento. Os aspectos messiânicos de realeza e redenção de José prefiguram Jesus Cristo que, como Rei dos reis e Senhor dos senhores (1Tm 6.15), é o Salvador do mundo (Jo 4.42). A realeza é a base da redenção de povos e reinos. E José, como pessoa real, salvou a povos e reinos inteiros do colapso da fome e da miséria. José foi o "pão da vida" do mundo antigo; Jesus Cristo é o nosso "pão da vida" (Jo 6.48) e de todo aquele que nele crê. José os alimentou materialmente; Jesus nos alimenta espiritualmente e também nos sustenta com o pão nosso de cada dia. José, cujo nome significa “aquele que faz aumentar” foi, na verdade, o instrumento de Deus para preservar e aumentar o seu povo. Jesus, cujo nome significa Salvador, "salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21).
De tudo que podemos aprender de José, o que ficam são suas lições práticas para a vida cristã. Considerando que José viveu cerca de 1600 anos antes de Cristo, ele antecipou para nós o verdadeiro sentido do adjetivo que qualifica alguém como “cristão” ou semelhante a Cristo. José, em uma atitude verdadeiramente cristã, soube deixar com Deus a ofensa de seus irmãos (v19) porque aprendeu a ver o propósito divino na maldade dos mesmos (v20) e, por isso mesmo, fez bem a eles apesar do mal que lhe fizeram (v21). Em outras palavras, José praticara o que o Senhor Jesus e os apóstolos ensinariam futuramente: perdoou de coração, do íntimo a seus irmãos, ou seja, pagou o mal com o bem, com demonstração prática de perdão. Eis aí um típico cristão no Antigo Testamento, com o qual o cristão do novo milênio deveria aprender e também imitar.






[1] Destacar os aspectos messiânicos de José não significa negar ou mesmo desconsiderar os outros conceitos e temas de Gênesis 37-50. Por exemplo: Gênesis 37-50 é essencialmente a continuação da história de Jacó e sua família, da preservação da semente escolhida e da designação por Jacó daquele que seria o portador da semente futura. Outros temas, como o do manto, foram empregados para indicar que José era o filho favorito (37.3), o servo favorito na casa de Potifar (39.2,4), o prisioneiro favorito (39.22) e o oficial favorito na corte real egípcia (41.14,41-45). Considerem-se também os sonhos de José concernentes à sua própria família (37.5-11) e mais tarde os sonhos referentes a dois oficiais egípcios (40.12-19), a Faraó (41.37-45) e outros. Consulte Donald Sybold, Paradox and symmetry in the Joseph narrative. In: Literary Interpretations of Biblical Narratives. Nashville: Abingdon, 1974, p. 59-73.
[2] Para um estudo mais amplo sobre o conceito messiânico de José em Gênesis 37-50, consulte Gerard Van Groningen, Messianic Revelation in the Old Testament. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 150-153, 165-167.
[3] Segundo Van Groningen (op. cit., p. 151, nota 17), “O infinitivo e imperfeito de mãlak (ser rei, reinar) e de mãsal (dominar) são usados para indicar uma compreensão plena dos irmãos de José sobre o significado do sonho em relação a eles”.
[4] Certamente a túnica foi despedaçada (cf. Gn 37.33).
[5] Para outras possíveis interpretações, veja J. F. Exell, The Pulpit Commentary: Genesis. Vol. I. Grand Rapids: Eerdmans, 1980, p. 539.
[6] Derek Kidner (Gênesis: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1988, p. 207) observa corretamente que “José promete algo mais pessoal do que filantropia”.
[7] Van Groningen, op. cit., p. 166,67.

Um comentário:

  1. Post muito bom e oportuno. Percebo também mais alguma semelhança entre eles. Ambos foram vendidos, humilhados e em um segundo momento exaltados. Seus irmãos pela descendência de Abrão, quanto a José não o reconheceram de imediato pois o mesmo se encontrava com outras vestes e função. O segundo, Cristo, é mais difícil ainda o reconhecimento por seus irmãos judeus depois que foi levado para Roma. Adulteraram os mandamentos, criaram festas das quais ele nunca participou, e ainda em seu nome perseguiram e mataram seus irmãos, nas cruzadas e na inquisição. Este segundo reconhecimento ficou mais difícil por conta da história. Mas espero que um dia Cristo também venha retirar as suas vestes e revelar sua verdadeira identidade aos seus irmãos judeus como aconteceu com José.

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