sábado, 1 de dezembro de 2012

Kant curioso

Josivaldo de França Pereira

 
 Kant (1724-1804), um dos filósofos mais perspicazes de todos os tempos, nasceu, viveu e morreu em Königsberg, antiga capital da Prússia Oriental (atual Kaliningrado, província da Rússia). Teve uma vida longa e tranquila, dedicada ao ensino e à investigação filosófica.
Nascido numa família protestante de origem luterana recebeu educação austera em uma escola pietista. Passou grande parte da juventude como estudante sólido, mas não espetacular. Antes dos 59 anos nada fez que merecesse a atenção da humanidade.
Kant foi na sua vida intelectual um homem tão metódico e rigoroso como na vida prática. O padrão da sua vida era rigorosamente regulado. Conta-se que ele se levantava diariamente, mesmo no inverno mais gelado, às cinco da manhã e se deitava às dez da noite, sem contar que todos os dias fazia o mesmo itinerário entre sua casa e a universidade onde lecionava.
O passeio que ele fazia às 15h30, todas as tardes, era tão pontual que as mulheres domésticas da redondeza podiam acertar os relógios por ele. Além dele somente João Wesley (1703-1791), o pai da igreja metodista, entrou também para a história como um homem metódico.
Kant tinha uma convicção curiosa de que alguém só podia ter uma direção firme na vida quando chegasse aos 39 anos de idade. Sua vida particular apresenta um quadro curioso e paradoxal. Gostava do convívio com outras pessoas, mas nunca se casou e não teve filhos, dedicando toda sua existência especialmente ao estudo da filosofia. Gostava de livros sobre viagens, mas nunca viajou muito longe.
Kant é considerado o maior filósofo do iluminismo, pois, nele, a era do iluminismo alcançou seu ápice. O iluminismo foi um movimento cultural de âmbito internacional, ocorrido entre o final do século XVII e parte do século XVIII, cujo pensamento consistia em dar maior credibilidade e ênfase à racionalidade humana.
Acredita-se que o verdadeiro inaugurador da filosofia moderna é Kant, e não Descartes (1596-1650), e que a filosofia, de fato, divide-se em antes e depois de Kant, e não em antes e depois de Sócrates (469-399 a.C). É a partir de Kant que a filosofia passa a ser estudada academicamente nas universidades.
Uma das frases mais famosas desse pensador é: “Confesso que David Hume me despertou, pela primeira vez, do meu sono dogmático”. Dizia que a coragem era a solução para a preguiça e covardia que mantinham o ser humano em sua minoridade intelectual. Portanto, Sapere Aude (Ousai Saber), dizia ele. Para Kant, a filosofia deveria responder a quatro questões fundamentais: O que posso saber? Como devo agir? O que posso esperar? E, por fim, o que é o ser humano? Esta última indagação engloba as três anteriores. Invertendo a questão tradicional do conhecimento, Kant comparou seu papel na filosofia à revolução de Copérnico na Astronomia.
Immanuel Kant escreveu várias obras, entre as quais se destacam suas três críticas: A Crítica da Razão Pura, A Crítica da Razão Prática e A Crítica do Juízo (ou Julgamento). Essas obras abordam, respectivamente, sobre o conhecimento humano, a ética e a estética. Também tratou da ética em Fundamentos da Metafísica dos Costumes, e expôs seu conceito iluminista da religião em A Religião Dentro dos Limites da Simples Razão.
Kant foi professor e diretor de escola. Influenciou (e influencia até hoje) direta e indiretamente a filosofia, a teologia, a política, o direito e a educação. Na filosofia ele influenciou especialmente Arthur Schopenhauer (1788-1860), John Rawls (1921-2002) e Jurgen Habermas (1929-), considerado o último herdeiro vivo de Kant; no direito influenciou Hans Kelsen (1881-1973) e, na educação, Jean Piaget (1896-1980) em seu construtivismo pedagógico.
Kant trabalhou durante quarenta anos na Universidade de Königsberg, deixando o magistério apenas por motivos de saúde. Morreu aos 80 anos de idade (incompletos) sem nunca ter se afastado mais de 40 km de sua cidade natal, sem jamais ficar longe de casa por mais de um dia.

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