sábado, 1 de dezembro de 2012

Razão e Fé

Josivaldo de França Pereira

 
“Razão” em filosofia é a nossa consciência intelectual e moral. Em matéria de fé os filósofos geralmente são racionalistas. Mesmos os empiristas. Para o racionalismo, a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando por si mesma, sem o auxílio da experiência sensível e controlando a própria experiência sensível.
René Descartes (1596-1650), matemático, pai da filosofia moderna e reconhecido como o mais importante pensador francês, era racionalista. O lema de Descartes era “nunca aceitar qualquer coisa como verdadeira a não ser que a conhecesse claramente como tal”. E assim, ele estabeleceu a consciência individual como o critério final da verdade. Segundo Descartes, pensar é a única certeza de que existimos. Cogito ergo sun, (Penso, logo existo), era a afirmação que sintetizava sua filosofia.
Para o empirismo, a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiência sensível, responsável pelas ideias da razão e controlando o trabalho da própria razão. Um dos principias representantes da filosofia empírica foi o inglês John Locke (1632-1704). Em sua obra Ensaio acerca do entendimento humano, Locke combateu duramente a doutrina que afirmava que o homem possui ideias inatas. Ao contrário de Descartes, defendeu que nossa mente, no instante do nascimento, é como uma tábula rasa, um papel em branco, sem nenhuma ideia previamente escrita. É de Locke a seguinte proposição: “Quem não quiser se equivocar deve construir sua hipótese derivada da experiência sensível sobre um fato, e não supor um fato devido a essa hipótese”.
O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) era racionalista e empirista. Em linhas gerais, ele entendia que a fonte do conhecimento pode vir tanto da razão para a experiência como da experiência para a razão. Segundo Kant, a razão pode conhecer como funciona o mundo físico e moral, mas ela não pode conhecer como foi a origem do mundo, se Deus existe ou se a alma é imortal. Para ele, tais ideias e conceitos também não podem ser compreendidos de modo empírico ou cientificamente. Isso quer dizer que Kant negava a existência de Deus? Não. Ele entendia que a moralidade do ser humano e uma causa não-causada postulam a existência de um Deus.
David Hume (1711-1776), filósofo e historiador escocês considerado ateu por alguns, e cético por outros, era empirista. Todavia, no entendimento dele, o conhecimento científico que ostentava a bandeira da mais pura racionalidade também está ancorado em bases não-racionais, como a crença e o hábito intelectual. Isso significa que, desconfiado das posições arraigadas pelo hábito, o cientista deve apresentar suas teses como probabilidades e não como certezas irrefutáveis.   
A filosofia separa a fé da razão, considerando cada uma delas destinada a conhecimentos diferentes e sem relação entre si. No entanto, o filósofo francês e inventor da calculadora, Blaise Pascal (1623-1662), parece ter conseguido aproximar uma da outra. Na obra Pensamentos, em vez de mostrar a mesma confiança na razão que caracterizou o século XVII, Pascal diria que o homem não pode conhecer o princípio e o fim das realidades que busca compreender. Estaria limitado apenas às aparências, já que, em suas palavras, “só o Autor dessas maravilhas as compreende; ninguém mais pode fazê-lo”.
Pascal afirmava que a razão humana seria impotente para provar a existência de Deus. Dependeria da fé a crença em um Deus, cuja existência jamais poderá ser provada. De acordo com seu pensamento, “o supremo passo da razão está em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam”. Dessa forma ele dirá: “O coração – e não a razão – é que sente Deus. E isto é a fé: Deus sensível ao coração e não à razão”. É de Pascal a célebre frase: “O coração tem razões que a razão desconhece”.
Pascal polemizou contra “o Deus dos filósofos e dos sábios”, um deus transformado em engenheiro do mundo, que, uma vez criado, seguiria seu rumo em cego mecanismo. Nessa polêmica, o seu alvo era Descartes e sua concepção de um “Deus das verdades geométricas”. O que Pascal busca recuperar é o “Deus de amor e consolação, é um Deus que faz cada qual sentir interiormente a sua própria miséria e a misericórdia infinita de Deus”.
De fato, não há prova científica da existência de Deus. Entretanto, isso não significa que não haja evidências científicas que apontem para a existência de um Criador. Evidências históricas, argumentos filosóficos e teológicos mostram ser mais razoável admitir a existência de Deus do que negá-la. Isso significa que, de alguma maneira, Deus pode ser conhecido.
A Bíblia diz que devemos prestar a Deus um culto racional e ao mesmo tempo com fé (Rm 12.1; Hb 11.6). Afirma que Deus pode ser conhecido (Os 6.3,6; Jo 4.22); que Deus pode ser conhecido mediante a fé e, de certo modo, racionalmente (Rm 1.20,21). A Bíblia faz uma descrição da fé: “Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1). Evidencia ainda que crer na existência de Deus, na origem do mundo e na imortalidade da alma é matéria de fé (Hb 9.27; 11. 3,6)
Biblicamente, a fé é aliada da razão. Razão e fé não se contrapõem na Bíblia. Sendo assim, a fé não é irracional, porém, aonde a razão não pode ir, a fé vai e segue adiante por ela.

Bibliografia selecionada
BROWN, Colin. Filosofia e fé cristã. 2ª ed. revisada. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007.
CHAUI, Marilena. Filosofia. Série Novo Ensino Médio. Volume Único. São Paulo: Editora Ática, 2005.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Editora Saraiva, 2006.
SPROUL, R. C. Razão para crer. 2ª ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1991.
STOTT, John R. W. Crer é também pensar. São Paulo: ABU Editora, 1997.  

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