domingo, 8 de abril de 2012

A conversão do carcereiro de Filipos

Josivaldo de França Pereira


Outro exemplo fabuloso do extraordinário alcance do evangelho em Filipos foi a conversão do carcereiro. "O carcereiro despertou do sono e, vendo abertas as portas do cárcere, puxando da espada, ia suicidar-se, supondo que os presos tivessem fugido" (At 16.27). Aquele terremoto, as portas do cárcere abertas e principalmente a "ausência" dos presos levaram o carcereiro ao desespero. Ele ia se suicidar. Com certeza pretendia antecipar a injusta condenação romana (a morte por decapitação) que certamente cairia sobre ele.
"Mas Paulo bradou em alta voz: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos!" (v28). E nesse episódio todo, o que realmente importa é uma pergunta e uma resposta. O carcereiro se aproximou e perguntou a Paulo e Silas: "Senhores, que devo fazer para que seja salvo?" (v30). No grego o termo sotho é o aoristo passivo subjuntivo de sozo (salvar). "O aoristo indica a totalidade da salvação do carcereiro, o passivo implica que Deus é o agente, e o subjuntivo denota o pedido cortês do carcereiro".[1]
 Os contextos anterior e posterior da pergunta do carcereiro mostram que seu desejo de ser salvo era tão somente por salvação eterna. A resposta de Paulo e Silas implica que eles dois entenderam o tipo de salvação que o carcereiro buscava. "Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa" (v31). Se o carcereiro verdadeiramente direcionasse a sua fé para o Senhor Jesus, conforme sugere a preposição epi do texto original, a salvação dele e de sua família estaria definitivamente garantida, pois a expressão grega sothese su kai ho oikos sou é regida por um verbo no futuro (sothese). Na língua grega o futuro é definido.
A dádiva oferecida ao carcereiro também seria concedida à totalidade da sua casa (kai ho oikos sou). Diz Marshall:
O Novo Testamento leva a sério a união da família, e quando a salvação se oferece ao chefe de um lar, torna-se logicamente disponível ao restante do grupo familiar (inclusive dependentes e servos) também (cf. 16.15). A oferta, porém, segue as mesmas condições: devem ouvir a Palavra também (16.32), crer e ser batizados; a fé do próprio carcereiro não dá cobertura a todos eles.[2]
As conversões relatadas no capítulo 16 de Atos são alguns exemplos de que a obra missionária só é bem sucedida quando o Espírito Santo vocaciona, capacita e envia seus obreiros, além é claro, de preparar o caminho para eles. Assim acontece dentro do livro de Atos e não pode ser diferente fora dele.




[1] Simon J. Kistemaker, New Testament Commentary: Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 601.
[2] I. Howard Marshall, Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985, p. 258.

A libertação de uma jovem adivinhadora e a salvação dos presos em Filipos

Josivaldo de França Pereira


Quando no outro dia Paulo e seus amigos seguiam para o lugar de oração, eis que saiu ao encontro deles "uma jovem possessa de espírito adivinhador" (At 16.16). Era uma escrava de Satanás e de seus senhores. Após perturbar por muitos dias os missionários do Senhor, Paulo, já indignado, expulsou o espírito maligno que nela havia. Isso bastou para que os senhores daquela jovem se juntassem e os lançassem no cárcere, mas não sem antes os levarem diante das autoridades e insuflarem o povo contra eles para que fossem açoitados.
Entretanto, se Satanás pensou que estivesse frustrando o plano de Deus naquela cidade, ele se enganou profundamente, pois jamais imaginaria que a obra de Deus naquele lugar estava apenas começando. É na prisão de Filipos que encontramos uma das mais belas cenas do testemunho cristão. "Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros de prisão escutavam" (At 16.25).
Paulo e Silas não somente glorificavam a Deus e se edificavam e fortaleciam a si mesmos orando e cantando, mas também davam bom testemunho, servindo como fonte de encorajamento para os presos que ouviam suas orações e hinos. O verbo grego epekroonto (3ª p. pl. imperf. médio de akouo [ouvir]) indica que enquanto os missionários oravam e cantavam hinos de louvores a Deus, por um período indefinido de tempo, os outros prisioneiros ouviam atenta e prazerosamente.
A atitude incomum de Paulo e Silas de orarem e cantarem louvores a Deus na prisão, estando acorrentados e machucados, e o terremoto súbito que abriu as portas do cárcere soltando as cadeias de todos, foram os meios utilizados pelo Espírito Santo para salvar aqueles prisioneiros. A prova de que eles realmente foram salvos está no fato de não terem fugido após o terremoto (At 16.28).

A Conversão de Lídia

Josivaldo de França Pereira


O pouco que sabemos de Lídia está em Atos 16.14. Sua cidade natal era Tiatira.  Uma próspera cidade da província romana da Ásia, a oeste do que atualmente se conhece como Turquia Asiática. Foi colonizada por Seleuco Nicátor, rei da Síria, em 280 a.C. No ano 133 a.C. passou para o domínio romano.
Tiatira era um ponto importante do sistema de estradas do império, pois ficava na estrada que vinda de Pérgamo, a capital da província, se estendia até às províncias orientais. Tiatira foi, nos tempos do Novo Testamento, um importante centro manufatureiro. Tinturaria, tecidos e vestimentas, cerâmica e trabalhos em bronze figuravam entre os artigos da região. Hoje, no mesmo local, existe uma grande cidade chamada Akhisar.
Profissionalmente Lídia era uma vendedora bem sucedida. Ela trabalhava no próspero comércio de tecidos de púrpura[1] e/ou na venda da tinta de mesmo nome quando se mudou para Filipos. Quanto à sua religiosidade, Lídia era "temente a Deus" (At 16.14; cf. At 10.1,2).
A expressão "temente a Deus" de Atos 16.14 significa mais do que afirmar apenas que Lídia cria em Deus ou algo parecido, e sim, que ela fazia parte de uma classe de gentios simpatizantes do judaísmo.
Em quase toda sinagoga judaica existiam, além de judeus é claro, dois grupos distintos de gentios. O primeiro grupo era formado pelos denominados "prosélitos", isto é, gentios convertidos ao judaísmo. Os homens eram circuncidados, concordavam em obedecer a lei e guardar o sábado; faziam peregrinações a Jerusalém, e daí em diante não eram mais gentios, e sim judeus. "O historiador romano Tacitus criticou estes prosélitos por abandonarem sua pátria e família para viver entre um povo estrangeiro".[2]
O segundo grupo de gentios que normalmente frequentava a sinagoga era formado pelos "tementes a Deus". Eram apreciadores da lei e do ensinamento judaicos, mas por uma série de razões pessoais achavam por bem não se desvincular de suas raízes gentílicas, como os prosélitos, para se tornarem judeus.
Lucas relata: “Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio,[3] onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para lá tinham concorrido. Certa mulher chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às cousas que Paulo dizia” (At 16.13,14).
Aqui temos o que biblicamente denominamos de novo nascimento ou conversão de Lídia. Uma obra do Espírito de Deus. O verbo grego dienoixen (abriu) está no aoristo e significa que ali houve uma ação completa e definitiva do Espírito Santo. Durante a pregação de Paulo Lídia "escutava" e o seu coração foi "aberto" para que atendesse. É necessário que a intervenção divina, que torna o homem natural receptivo para com a Palavra de Deus, anteceda o ouvir com proveito a pregação do evangelho. "Deus concedeu a Lídia um coração receptivo para compreender coisas espirituais. Ele deu a ela o dom da fé e a iluminação do Espírito Santo".[4] E como resultado desta conversão o Senhor Deus salvou, pela instrumentalidade de Lídia, e principalmente de Paulo, toda a família dela (At 16.15).



[1] Para o significado e emprego da púrpura nos tempos bíblicos, veja R. A. Cole, Cores. In: O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 324,325.
[2] J. H. Bavinck, An introduction to the science of missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1960, p. 27.
[3] Paul E. Pierson (Atos que contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 146,147) comenta: "Paulo normalmente ia primeiro à sinagoga quando estava em uma nova cidade, a fim de compartilhar o evangelho com os judeus e os tementes a Deus. No entanto, eram necessários 10 homens adultos para formar uma sinagoga. Aparentemente nesta cidade, onde havia um sentimento anti-judeu, não havia o suficiente para isto. Em uma situação como esta, era comum haver um lugar de oração, normalmente perto de um rio. Ali, os judeus do lugar, ao lado dos tementes a Deus, se encontravam no Sábado. Encontrando o lugar pelo rio, Paulo e seus companheiros se juntaram a eles para orarem e adorarem, e então lhes anunciaram as Boas Novas de Jesus.”
[4] Cf. Simon J. Kistemaker, New Testament Commentary: Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 591.

A Missão em Filipos

Josivaldo de França Pereira


Do início ao fim do livro de Atos não é difícil perceber que o Espírito Santo é quem prepara o campo para receber a boa semente do evangelho. Somente pela atuação direta do Espírito é que a Palavra de Deus germina, cresce e frutifica. E é ele, o Espírito, que além de vocacionar, capacitar e enviar seus obreiros ao campo missionário, sai na frente e prepara com antecedência o coração daqueles que haverão de ouvir a pregação da Palavra. Um bom exemplo disso é o capítulo 16 de Atos.
O campo que o Espírito preparou para aquela ocasião não seria, por enquanto,[1] a província da Ásia e Bitínia que, a princípio, Paulo e seus companheiros tanto queriam ir. O objetivo do Espírito Santo era a Europa (At 16.9,10). E naquele momento, em especial, "Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito, e colônia" (At 16.12).
O nome da cidade de Filipos é originário de Filipe, rei da Macedônia, que a conquistou dos tásios por volta do ano 356 a.C. Essa cidade tinha visto Alexandre, o Grande, filho de Filipe, marchar pelo seu caminho de conquistas bem sucedidas em 335 a.C. Passou para o controle de Roma em 167 a.C. Uma batalha na planície de Drama, na região da Macedônia, em 42 a.C., mudou a natureza do Império Romano quando Otávio e Antônio derrotaram Brutus e Cassius, os assassinos do imperador Júlio César. Otávio, que ficou conhecido como Augusto, derrotou mais tarde Antônio e Cleópatra, passando a assumir o controle absoluto do império. Veteranos dessa batalha, estabelecendo-se em Filipos, deram a ela o orgulho de uma colônia romana. Desfrutou de um governo próprio, da isenção do tributo ao imperador e seus cidadãos possuíam os mesmos direitos daqueles que viviam na capital do império. Os filipenses se vestiam como romanos, usavam a linguagem romana e seguiam a lei romana.
 Em Filipos, por ocasião da segunda viagem missionária por volta do ano 50 A.D., Paulo teria uma das experiências mais frutíferas de seu ministério. Ali nasceria uma igreja abençoada, sua "alegria e coroa", como ele mesmo diria mais tarde em sua epístola aos Filipenses (Fp 4.1).
A igreja de Filipos começa a partir de pessoas-chave no contexto da cidade, ou seja, a vendedora Lídia, a jovem possessa e o carcereiro.



[1] Que estas regiões (a província da Ásia e Bitínia) não seriam definitivamente preteridas pelo Espírito Santo, conclui-se de passagens como Atos 19.10 e 1Pedro 1.1.

domingo, 1 de abril de 2012

As muitas provas incontestáveis do Cristo vivo segundo Lucas

Josivaldo de França Pereira

Lucas declara que Jesus, “depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis...” (At 1.3). “O termo grego aqui traduzido por ‘provas incontestáveis’ expressa um uso técnico que indica certas evidências convincentes e formais, em prova cabal favorável a algum caso”.[1]
As “muitas provas incontestáveis” são todas aquelas apresentadas pelo Cristo ressurreto, e em suas aparições, durante os seus quarenta dias aqui na terra. “Segundo o relato dos quatro Evangelhos, Atos e a Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, Jesus apareceu dez vezes no período entre a Páscoa e a Ascensão”.[2] Ele apareceu a: Mulheres no túmulo; Maria Madalena; dois homens de Emaús; Pedro em Jerusalém; dez discípulos; onze discípulos; sete discípulos pescando no mar da Galileia; onze discípulos na Galileia; quinhentas pessoas (presumivelmente na Galileia); Tiago, o irmão do Senhor.[3]
Algumas das “muitas provas incontestáveis” do Cristo vivo são relatadas pelo próprio Lucas em seu Evangelho; a saber: o túmulo vazio e os lençóis de linho vistos por Pedro; as marcas dos cravos nas mãos e pés de nosso Senhor e o comer na presença dos discípulos (Lc 24.1-12,36-43). Mateus acrescentaria, ainda, “um grande terremoto; porque um anjo do Senhor desceu do céu, chegou-se, removeu a pedra e assentou-se sobre ela” (Mt 28.2). No entanto, nenhuma dessas evidências se compara à maior de todas as provas incontestáveis do Cristo ressurreto: o testemunho das Escrituras.
Isto fica claro quando lemos o último capítulo do Evangelho de Lucas. O anjo disse às mulheres que foram ao túmulo de Jesus: “Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como vos preveniu, estando ainda na Galileia, quando disse: Importa que o Filho do homem seja entregue nas mãos de pecadores, e seja crucificado, e ressuscite no terceiro dia” (Lc 24.6,7). Logo após o relato da ressurreição, Lucas descreve o diálogo de Jesus com dois homens no caminho de Emaús. Os dois estavam preocupados, entristecidos e incrédulos a respeito da ressurreição do Senhor. “Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.25-27). Mais adiante eles diriam um ao outro: “... Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (Lc 24.32).
Em seguida, o Mestre apareceu aos discípulos, mostrando suas mãos e pés e comeu na presença deles (Lc 24.36-43). “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.[4] Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia” (Lc 24.44-46; cf. 18.31-33).[5] João, após estar com Pedro no sepulcro de Jesus, faz como que uma mea-culpa ao declarar: “Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos” (Jo 20.9; cf. Lc 18.34).
O apóstolo Paulo (que foi acompanhado por Lucas em diversas ocasiões), ao fazer uma listagem para os coríntios das principais testemunhas do Cristo ressurreto, coloca as Escrituras como a mais importante delas – no topo da lista. Diz ele: “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3,4). E só depois o apóstolo menciona Cefas (Pedro), o líder da Igreja primitiva e, por último, “o menor dos apóstolos”, como o próprio Paulo se denomina (1Co 15.5-9).
As primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus foram as Escrituras. As principais provas incontestáveis do Cristo ressurreto foram aquelas apresentadas pela própria Palavra de Deus!



[1] R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 23.
[2] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 73.
[3] Idem, p. 74.
[4] “Na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Jesus está citando a tríplice divisão da Bíblia Hebraica, ou seja, toda Escritura antes do Novo Testamento.
[5] As palavras de Jesus em Lucas 24 (especialmente os versos 27 e 44) inspiraram Gerard Van Groningen a escrever uma obra monumental intitulada Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas: LPC, 1995, Prefácio, p. 9). O livro todo é excelente.