sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Que é Crítica?

Josivaldo de França Pereira


Crítica de verdade é apontar o erro e propor a solução. Criticar não é simplesmente falar mal de alguma coisa ou pessoa. Falar mal de alguém, por exemplo, é difamar, fofocar, mexericar, etc. Criticar é ajudar com propostas e soluções inteligentes.
Criticar por criticar é, como disse alguém, ser cri-cri. Ser cri-cri é fácil, pois, para isso, nem é preciso pensar. “Para ser um crítico mordaz, não há necessidade de inteligência nem de educação” (Paul E. Holdcraft).
Perguntaram a um artista muito talentoso do nosso país porque ele nunca quis ser crítico literário, de cinema, etc. Sua resposta foi: “Criticar é fácil”. Criticar por criticar, ou seja, ser cri-cri é fácil mesmo, o difícil é fazer. Ser cri-cri é a arte dos desocupados; da crítica desalmada, sem respaldo.
A verdadeira crítica é construtiva, ou, pelo menos, deveria ser. Quando alguém destrói o outro com palavras não está sendo crítico no verdadeiro sentido do termo. Conheci uma pessoa que depois de arrasar uma outra com suas palavras dizia: “Desculpe, mas eu sou sincera”. Sinceridade que demole e arruína não é sinceridade. A sinceridade desprovida de amor não é sinceridade. Essa é, na verdade, o que caracteriza o super-sincero. A super-sinceridade é devastadora porque ela não é uma expressão de amor ao próximo.
Por outro lado, o que torna uma pessoa vencedora ao longo da vida não são os elogios que ela recebe, mas as críticas que golpeiam sua alma e que a fazem crescer. Quem vive numa busca frenética por elogios não suporta a crítica que por mais leve e cuidadosa seja feita. Santo Agostinho disse: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”. E Elon Foster complementou: “O elogio produz diferentes efeitos consoante à pessoa a quem é dirigido. Torna o sábio, modesto, mas faz do néscio um arrogante”.
A conclusão deste pequeno texto são as palavras de Oliver W. Holmes e Norman Vincent Peale, respectivamente: “Não se importe com a crítica. Se ela não é verdadeira, deixe-a de lado; se ela é injusta, não se irrite; se ela é ignorante, sorria; se ela é justa, aprenda dela”. “O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”.

Choque Cultural

Josivaldo de França Pereira


Choque Cultural é um estado de isolamento social, ansiedade e depressão que acontece devido à dificuldade da pessoa em se adaptar a uma nova e diferente realidade cultural que ocorre quando muda de uma cultura para outra.
O termo descreve o estresse experimentado ao tomar contato com uma cultura diferente, ou ao reencontrar a própria cultura após uma prolongada ausência. Imediatamente após o contato com a cultura diferente a pessoa pode experimentar um estresse pequeno e, durante algum tempo, até desfrutar de certos aspectos da nova cultura.
Com a manutenção da situação por mais tempo pode haver um agravamento do estresse psicológico. Os sintomas e sinais associados com esse estresse variam de uma pessoa para outra, mas costumam ser representados por ansiedade, alterações do humor e/ou do comportamento.
Este estado de choque cultural costuma se resolver em alguns meses ou, no máximo, em dois anos. Algumas vezes pode evoluir para um transtorno psiquiátrico mais sério e com severo prejuízo do processo de ajustamento cultural.
A expressão "luto cultural" pode significar uma condição, na qual a pessoa que sofre não sofre apenas devido ao esforço de se ajustar às circunstâncias de uma nova cultura, mas, sobretudo, ao se dar conta da perda da cultura anterior.
O que causa esse desconforto psicológico quando entramos em uma nova cultura? Como poderíamos suspeitar, não é o cenário de pobreza e sujeira. Nem é o medo de doenças, embora quem esteja passando pelo choque cultural se preocupe muito com a limpeza e a saúde. O choque cultural é a desorientação que vivemos quando todos os mapas e diretrizes culturais que aprendemos quando crianças não funcionam mais. Despidos de nossa maneira normal de lidar com a vida, ficamos confusos, amedrontados e zangados. Raramente sabemos o que aconteceu de errado, muito menos o que fazer a respeito.
O choque cultural atinge a maioria das pessoas que vai fundo em novas culturas. Não aflige apenas os ocidentais que vão para fora. Os africanos o experimentam quando se mudam para os Estados Unidos tanto quanto os coreanos ao se mudarem para a Indonésia. Alguns apresentam sérios quadros, outros, leves ataques. A gravidade depende da extensão das diferenças entre as culturas, da personalidade do indivíduo e dos métodos utilizados para lidar com situações novas.

Bibliografia:
HIEBERT, Paul G. O evangelho e a diversidade das culturas: um guia de antropologia missionária. São Paulo: Vida Nova, 2001.
NIDA, E. A. Costumes e culturas: uma introdução à antropologia missionária. São Paulo: Vida Nova, 1996.

Cultura: uma perspectiva antropológica

Adaptado por J. F. Pereira


Todos os seres humanos foram criados por Deus e adquirem traços culturais que são vitais para a sobrevivência da raça humana em todo e qualquer contexto. Ainda que não notemos, cada um de nós carrega uma enorme bagagem cultural adquirida no lar, escola, no trabalho, na igreja.
Em escala maior nós somos herdeiros de uma cultura mais abrangente que é a cultura do nosso país, do nosso povo. Nós falamos assim, nós gesticulamos daquela maneira, nós somos emotivos, nós somos relacionais. Nossos funerais têm estas características, nossas cerimônias de casamento são feitas assim. Não nos apercebemos, mas todos os nossos traços culturais mostram que nós somos brasileiros.
É neste contexto cultural que o evangelho é implantado e tentará germinar. Influenciará e será influenciado pela cultura. Modificará a cultura e será modificado pela cultura. Segundo os antropólogos, a diferença fundamental entre o ser humano e os animais é que os humanos criam e possuem cultura.
O conceito "cultura" é chave para a compreensão do contexto em que se prega o evangelho. O que se entende quando se fala em cultura? Podemos referir-nos ao conceito cultura através de dois enfoques: um, no sentido tradicional, e outro, no sentido mais amplo e moderno e mais antropológico.
De acordo com o enfoque restrito e tradicional, ter cultura significa, por exemplo, tocar piano, ler Cervantes, escutar música clássica, etc. Implica também ser muito educado, ter uma formação acadêmica ou ser profissional e/ou letrado, ou seja, uma "pessoa culta".
Este conceito limitado de cultura exclui as grandes populações do mundo que não têm acesso aos sistemas educativos formais do Ocidente. Segundo esta visão, será que as comunidades nativas e rurais teriam cultura? Esta visão elitista de "cultura" às vezes traz consigo desprezo para com aqueles que não tiveram acesso a essa educação formal.
A Antropologia Sociocultural, uma disciplina relativamente nova, tem resgatado o termo "cultura", passando a aplicá-lo e utilizá-lo num sentido muito mais amplo. Os antropólogos, quando falam de cultura ou culturas, estão se referindo às diversas formas e estilos de vida peculiares aos diferentes povos da terra.
Este conceito se refere a coisas muito concretas, como a forma de dormir, levantar-se, comer, beber, trabalhar, brincar, lutar, expressar amor, apaixonar-se, casar-se, criar e educar os filhos, adoecer, morrer, etc. Existem, por exemplo, várias maneiras de se dormir. Nem todos dormem do mesmo jeito, usando cama, colchão e lençóis. Em muitas comunidades do interior dorme-se no chão ou numa plataforma de barro com pelegos de carneiro; e na selva, como também em várias regiões do continente, usam-se redes e estrados de madeira. Não seria demais dizer que cada povo da terra tem sua própria maneira de realizar suas tarefas cotidianas e de encarar a vida.
O conceito de cultura tem a ver também com coisas um tanto abstratas, como a forma de se comunicar (oral ou simbolicamente), a maneira de pensar (como se vê o mundo, o universo e não somente o mundo e os universos físicos, mas também a realidade espiritual e sobrenatural: qual deve ser o comportamento correto com relação a outras pessoas, a Deus ou aos deuses?). Por exemplo, as culturas ocidentais geralmente fazem uma separação entre o sagrado e o secular; muitas vezes, nestas sociedades, uma pessoa pode, no âmbito social, conversar sobre tudo, menos sobre suas crenças religiosas, pois isto pertence ao mundo privado e religioso. Por outro lado, nas culturas não-ocidentais, nas comunidades rurais e nativas, ocorre uma integração entre o secular e o religioso: ambos se afetam e influenciam mutuamente. As enfermidades, por exemplo, têm uma explicação não somente empírica, mas têm muitas vezes um sentido essencialmente religioso, e seu tratamento não é apenas "secular", mas sim religioso.
Como podemos observar, o conceito “cultura”, embora pareça um tanto abstrato, é, na realidade, bastante dinâmico, específico e concreto. Refere-se àquilo que constitui o humano, o cotidiano, aquilo que se faz, crê e pensa no dia-a-dia de uma comunidade, povo ou nação. Sendo assim, a cultura tem uma importância fundamental para a comunicação e expressão do evangelho.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Maior Sinal

                                                                                        Josivaldo de França Pereira
 

O maior sinal da Segunda Vinda de Cristo é a evangelização do mundo. Disse Jesus: “E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24.14).
Mateus 24.14 é uma promessa? Na verdade há nessa passagem bíblica muito mais que promessa. As promessas normalmente vêm acompanhadas da condicional "se". Por exemplo: As promessas das bênçãos decorrentes da obediência e dos castigos da desobediência de Israel em Levítico 26 estão todas condicionadas. Disse Deus: "Se andares nos meus estatutos, guardardes os meus mandamentos e os cumprirdes, então, eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua messe, e árvore do campo, o seu fruto" (vv3,4). "Mas, se não ouvirdes e não cumprirdes todos estes mandamentos", etc. (v14). "Mas, se confessarem a sua iniqüidade e a iniqüidade de seus pais, na infidelidade que cometeram contra mim, como também confessarem que andaram contrariamente para comigo", etc. (v40). Bem mais adiante Deus diria a Salomão: "Se andares nos meus caminhos e guardares os meus estatutos e os meus mandamentos, como andou Davi, teu pai, prolongarei os teus dias" (1Rs 3.14).
O que temos em Mateus 24.14 é uma profecia preditiva. Jesus profetizou que o seu evangelho será pregado por todo o mundo. E ele disse isso quando tinha apenas doze frágeis discípulos. Ele sabia que um deles iria trai-lo, que outro iria negá-lo e que no Getsêmani todos fugiriam de medo. Como era possível Jesus fazer uma predição dessa natureza diante de tais circunstâncias? É porque ele é o Deus da verdade e tem poder para cumprir todas as coisas (cf. Jo 14.6; Mt 28.18).
A profecia de Mateus 24.14 não está condicionada à vontade humana. Sendo assim, não tem sentido a pergunta que às vezes se faz: "Então, se não pregarmos o evangelho Cristo não voltará?". A vinda de Cristo não está condicionada a nossa boa ou má vontade em se pregar o evangelho. Cristo virá depois que o evangelho for pregado a todas as nações porque ele disse que assim será. Ele não virá independente do evangelho ser pregado primeiro (cf. Mc 13.10). O evangelho será pregado no mundo todo para testemunho a todas as nações, e então virá o fim.[1]
Com frequência pregadores bem intencionados usam Mateus 24.14 para apelos do tipo "você pode estar retardando a vinda de Cristo por não pregar o evangelho ao seu vizinho, aos seus amigos, a uma tribo não-alcançada", etc. Desse modo, acabam descambando para a chantagem emocional, além de semearem mais confusão teológica do que motivações evangelística e missionária. É verdade que em 2Pe 3.11,12 está escrito: "Visto que todas essas cousas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus..."; mas qual o significado da expressão "apressando a vinda do Dia de Deus" nessa passagem? Naturalmente que por "Dia de Deus" Pedro se refere ao Dia do Senhor; a parousia de Cristo (cf. 2Pe 3.10).
Quanto ao termo "apressando", o comentário que Russell Champlin faz desse texto parece ser bastante esclarecedor. Diz ele que (1) Alguns eruditos assumem a ideia de que podemos "literalmente apressar" a vinda do citado dia, mediante o evangelismo. Dificilmente esse é o sentido dessa palavra, embora, isoladamente, ela pudesse ter tal significado.[2] (2) Outros pensam que a ideia aqui é a de "desejar anelantemente". Esse é um significado legítimo do vocábulo grego, mui provavelmente o sentido tencionado pelo autor sagrado.[3] A tradução do texto grego de Champlin de 2Pe 3.12 é: "desejando ardentemente a vinda do dia de Deus".
Segundo Carlos Osvaldo Pinto, a questão principal não é se eu impeço ou não a volta de Cristo, mas se ele vai me achar envolvido com a tarefa missionária quando ele voltar para recolher os seus. Não é o orgulho de ser indispensável para o plano de Deus, mas a percepção humilhante de que Deus tem outros instrumentos disponíveis, mas escolheu me dar a oportunidade de ser útil em sua seara.



[1] "É preciso que se note que esta profecia não proclama a aceitação universal da mensagem de Cristo, mas tão-somente que a mensagem será largamente divulgada" (Champlin).
[2] A ARC (Almeida Revista e Corrigida) tenta resolver o problema com a seguinte tradução: "apressando-vos para a vinda do dia de Deus", contudo, ela parece ir além do que o original grego realmente pretende dizer.
[3] Em grego o verbo spéudo pode ser traduzido como "apressar" ou "desejar ardentemente", dependendo do contexto.

Um Vaso de Bênção

Josivaldo de França Pereira


Uma das mais belas canções de nossa hinódia sacra é esta:

Quero ser um vaso de bênção, 
Sim, um vaso escolhido de Deus, 
Para as novas levar aos perdidos, 
Boas-novas que vêm lá dos céus. 

Faze-me vaso de Bênção, Senhor, 
Vaso que leve a mensagem de amor! 
Eis-me submisso, e ao teu serviço 
Eu me consagro, bendito Senhor! 

Quero ser um vaso de bênção, 
Para todos os dias fazer 
Os culpados, que vivem nas trevas, 
O perdão de Jesus conhecer. 

Quero ser um vaso de bênção, 
Sim, um vaso de bênção sem par, 
Anunciando que os crentes em Cristo 
Jubilosos nos céus hão de entrar. 

Para ser um vaso de bênção 
É mister uma vida real, 
Uma vida de fé e pureza, 
Revestida de amor divinal. Amém.
(H. G. Smith – Wm. E. Entzminger).

E assim como tantos outros hinos de nossa antologia, este também é uma versão inglesa: Make Me a Channel of Blessing. Curioso é que a palavra “channel”, que literalmente significa “canal”, foi traduzida por “vaso”. O problema é que na maioria das vezes quando se canta este hino a imagem que se deslumbra na mente é a de um vaso, como de flor, que recebe sua bênção (no caso a água) sempre em função de si mesma.
Na verdade, o tradutor queria que entendêssemos “vaso” como um tubo, um condutor, uma passagem para líquidos. O hino é extremamente missionário, do começo ao fim, ou seja, ele nos convida a passarmos adiante a bênção gloriosa que recebemos de Deus. O vaso, como um recipiente constantemente encharcado, mata a planta pelo excesso de água. Semelhantemente, o crente que só quer receber bênção para si terá sérias complicações em sua vida espiritual.
Tem crente que está espiritualmente gordo; obeso de tanto comer as bênçãos de Deus. Por mais jocoso e paradoxal que pareça ser, o crente espiritualmente volumoso não cresce e nem amadurece na vida cristã. Ele geralmente não gosta de missões porque missões significam entrega, doação, serviço em prol do outro. O ensino bíblico é: Quanto mais compartilharmos o que recebemos de Deus, mais seremos abençoados por ele. Nada que o Senhor nos dá tem em nós um fim em si mesmo.
Uma antiga ilustração diz o seguinte: Existem dois mares na Palestina. O mar da Galileia e o mar Morto. O mar Morto, como o próprio nome diz, não tem vida. Ele é tão salgado que nem os peixes conseguem sobrevir em suas águas. Suas margens são ressecadas e desérticas. Tudo isso porque o mar Morto represa para si mesmo as águas que vêm do rio Jordão. O mar da Galileia, por outro lado, é cheio de vida. Tem muitos peixes, suas margens são verdes e fartas. É que o mar da Galileia transfere para o rio Jordão a água que vem do monte Hermom.
Ser um canal/vaso de bênção é isto: passar adiante o que de mais maravilhoso temos recebido de Deus, isto é, o presente da vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Portanto, sejamos vasos de bênção, no verdadeiro sentido da expressão!