quinta-feira, 19 de julho de 2012

Cessacionismo e a Soberania de Deus

Josivaldo de França Pereira


No sistema presbiteriano a soberania de Deus é a ideia ou verdade fundamental do nosso calvinismo. Em torno dela giram todas as outras. A soberania é um atributo comunicável de Deus, ou seja, ele concedeu a dádiva dessa graça também aos seres humanos; no entanto, somente Deus é soberano na essência do seu Ser.
A soberania de Deus pode ser definida como o exercício de sua supremacia. Sendo Deus infinitamente elevado acima da mais elevada criatura, ele é o Altíssimo, o Senhor dos céus e da terra. Não sujeito a ninguém, não influenciado por nada, absolutamente independente. Deus age como lhe apraz, somente como lhe apraz, sempre como lhe apraz. Ninguém consegue frustrá-lo nem impedi-lo.[1] Um dos melhores livros sobre o tema da soberania de Deus, em língua portuguesa, é “Deus é Soberano” de Arthur Pink. Nesse livro, uma das teses do autor é a necessidade de se proclamar vigorosamente que Deus continua vivo, que Deus continua observando, que Deus continua reinando.[2]
Será que o cessacionismo teológico, à luz da soberania de Deus, subsiste?
Os cessacionistas, como o próprio nome diz, afirmam que os dons espirituais descritos por Paulo – especialmente os de 1Coríntios 12 e 14 – terminaram, ficando restritos à era apostólica. Esse posicionamento é, geralmente, defendido pelas chamadas igrejas históricas. Contudo, ele não encontra guarida em todos os seus líderes. O próprio Ashbel Green Simonton, pai do presbiterianismo no Brasil, disse em seu Diário: “Mais do que qualquer coisa, preciso do batismo do Espírito Santo”.[3]
Algumas questões relevantes são destacadas, como por exemplo: Se Deus é soberano – conforme dizem corretamente as igrejas históricas de origem reformada e calvinista – como podemos afirmar categoricamente que dons cessaram? Considerando que os dons espirituais foram necessários para a realização da obra evangelística e missionária da igreja apostólica, não estaríamos nós em defasagem, de acordo com o entendimento cessacionista? Se o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo e também dos nossos dias, como posso eu afirmar, em sã consciência, que Deus não fará mais hoje o que fez no passado? Se Deus é o mesmo de sempre no tratamento do pecado, por que não o seria na edificação de sua igreja com os dons que “cessaram”?
Estou ciente que as pragas do Egito não se repetirão; que o Mar Vermelho não se abrirá novamente; que as águas do Jordão não se dividirão outra vez, etc. Mas eu creio num Deus de milagres para hoje sim. Creio piamente que a frieza espiritual que assola as nossas igrejas só vai acabar com uma ação poderosa e sobrenatural do Espírito Santo em nossas vidas, em nome de Jesus! 
Alguns cessacionistas se autodenominam “calvinistas consistentes”, enquanto que os demais são rotulados de “calvinistas pontuais”, por não concordarem com João Calvino nesta matéria. O mais interessante é que eles são “consistentes” somente na questão dos dons espirituais. “Calvinista consistente” é uma expressão presunçosa e arrogante, pois os mesmos não são consistentes com Calvino em relação à doutrina da predestinação, ao modo de batismo, etc.
Nós, presbiterianos, rebatizamos quem vem da igreja católica, Calvino achava o rebatismo, mesmo de quem viesse da igreja romana, inadmissível.  Ele entendia que o batismo feito em nome do Pai, Filho e Espírito Santo é válido, independente de quem o ministrou.[4] Nós batizamos somente por aspersão. Para Calvino a forma ou modo de batismo é indiferente.[5] Na doutrina da predestinação Calvino era supralapsariano, nós somos infralapsarianos.[6]
Por ser Deus soberano ele não pode estar confinado a ideias e conceitos, sistemas doutrinários e teológicos, e nem mesmo à Bíblia. O que a Bíblia nos diz sobre Deus é um resumo de sua grandeza de maneira que nos seja compreensível. Não estou dizendo que a Bíblia seja limitada ou insuficiente. Não! O que Deus nos quis revelar e nos revela, a Bíblia ensina. Na verdade, é a própria Palavra de Deus que nos afirma que há coisas da soberania de Deus que estão além do nosso entendimento. Deuteronômio 29.29 fala de coisas encobertas que “pertencem ao SENHOR”. O Senhor Jesus disse a Nicodemos: “Se, tratando de cousas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo 3.12). Paulo faz menção do que “em espírito fala mistérios” (1Co 14.2).
É verdade que em 1Coríntios 13.8 o apóstolo declara, por exemplo, que as profecias, línguas e ciência desaparecerão, mas ele não revela quando isso acontecerá.[7] Calvinistas mais radicais dizem que Paulo se refere ao fechamento do cânon sagrado, tendo como parâmetro 1Coríntios 13.10, porém, esse pensamento é frágil, posto que não há fundamento bíblico para tal afirmação.
Penso que, com base na doutrina da soberania de Deus, os cessacionistas deviam rever seus conceitos, segundo a Bíblia, segundo os relatos da História.





[1] Cf. A. W. Pink, Os Atributos de Deus. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1990, p. 31,32.
[2] Pink, Deus é Soberano. 3ª ed. São José dos campos: Fiel, 1990 (o livro todo).
[3] Ashbel G. Simonton. Diário: 1852-1867. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982, p. 167,68.
[4] Institutas. IV. xv. 16.
[5] Institutas. IV. xv.19.
[6] Cf. Louis Berkhof, Teologia Sistemática. 7ª ed. espanhola. Grand Rapids: T.E.L.L., 1987, p. 139.
[7] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 652.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

As Boas Vindas Mais Gloriosas Do Universo

De qual lado você estará?

Josivaldo de França Pereira


Quando o Senhor Jesus retornar em sua esplendorosa parousia, e todos os anjos com ele, assim que se assentar no trono de sua glória e todas as etnias forem reunidas em sua presença, ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas, pondo estas à sua direita e aqueles à sua esquerda (Mt 25.31-33).
Mateus é quem registra as boas vindas mais gloriosas que as ovelhas de Jesus ouvirão dos lábios dele: “Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). Não é possível imaginar uma bênção maior que essa. Não é possível dimensionar a grandeza de um convite como este: ser recebido para uma comunhão estreita e permanente com o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
As ovelhas de Jesus consistem de todos os salvos nele; por isso eles agradam a Deus com seus atos caridosos de compaixão. Eles fazem o bem de forma despretensiosa e achando, muitas vezes, que nem é para o Senhor que o fazem, simplesmente aos seus semelhantes necessitados (cf. Mt 25.35-40).
A salvação em Cristo não é pelas obras. Ela é tão somente pela graça mediante a fé – não por obras (cf. At 15.11; Ef 2.8,9). No entanto, a nossa salvação se evidencia pela prática de obras segundo Deus (cf. Is 26.12; Ef 2.10).
Deus ama a boa ação, aos que praticam a boa ação e aqueles que necessitam da boa ação. Atos de amor e compaixão é o que o nosso Deus deseja e espera de suas ovelhas sempre. Portanto, a todos os que fazem o bem, como expressão de um coração crente no Senhor Jesus, a notícia não poderia ser menos que maravilhosa: O Rei está voltando para buscar os seus. Aleluia! Glória a Deus!

domingo, 15 de julho de 2012

“Como a si mesmo”

Josivaldo de França Pereira


A gente deve amar um ao outro “como a si mesmo”, conforme entendeu corretamente o intérprete da lei em Marcos 12.33. Jesus disse que devemos amar ao próximo, ainda que seja nosso inimigo (Mt 5.43-48; Lc 6.32-36). Um comentário estendido de Levítico 19.18: “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR” (cf. Lv 19.34).
Paulo complementa: “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira[1]; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).
Amar ao próximo envolve uma atitude positiva de coração e mente. O ódio é uma resposta emotiva que somente tem de ser empregado contra os nossos próprios pecados, e nunca contra alguém (Lm 3.39).
Jesus não disse que devemos nos anular em relação ao próximo, por isso, aquilo que somos e temos de bom pela graça e misericórdia de Deus deve ser, igualmente, nosso anseio para com o outro. O Mestre ensinou: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Lc 6.31).
Adam Smith (1723-1790), o pai da economia moderna, afirmava que em uma competição a ambição individual serve ao bem comum. Cento e cinquenta anos depois, o matemático e prêmio Nobel, John Nash (1928-), discordaria de Smith, argumentando que o melhor resultado é obtido quando cada um faz o que é melhor para si e para o grupo. Não é cada um por si e Deus por todos. É um pelos outros e Deus por cada um.
O ponto de referência em relação ao próximo somos nós mesmos. Não sou eu fazendo para o próximo o que depois farei a mim. O que farei ao próximo é o bem que faço a mim. O amor que devo ao próximo é o mesmo amor que tenho por mim. Amar ao próximo é uma dívida sem decurso de prazo, como sem fim é o amor que temos para conosco (Rm 13.8-10). Nele, no amor, devemos crescer e nos aperfeiçoar (Cl 3.14; 1Ts 3.12).
Por que é importante servir ao outro em amor? É importante porque tira de nós todo egoísmo e mesquinhez tão prejudicáveis ao ser humano. Além disso, o amor cobre multidão de pecados (1Pe 4.8), seja dos quem amam; seja dos quem são amados.
Como devemos amar ao próximo? Do mesmo modo como amamos a nós mesmos, isto é, uma vez que queremos o melhor para nós, devemos almejar a mesma coisa para o nosso semelhante. O apóstolo Paulo diz (num outro contexto, mas perfeitamente aplicável aqui), que “ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida” (Ef 5.29). E mais (agora em seu devido contexto): “... se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber...” (Rm 12.20).
Quer fazer um enorme bem a você? Ame ao próximo como a si mesmo.

 

[1] Ira; de Deus, subentendido.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Do temor a Deus

Josivaldo de França Pereira

O temor do Senhor geralmente é definido como respeito e reverência a Deus. Conquanto não seja errado pensar assim, temos nessa definição apenas uma parte da verdade, o lado positivo, por assim dizer. O outro lado, o negativo, está relacionado ao medo de se pecar contra Deus e das consequências desse mesmo pecado. O temor do Senhor é “Uma profunda reverência e respeito para com Deus, que é temperada pelo medo” (P. G. Chappell). Os textos bíblicos de Gálatas 6.7 e Hebreus 10.31; 12.29 são alguns exemplos de que o aspecto negativo do temor a Deus também deve ser observado com seriedade.
Uma das mais belas declarações na Bíblia acerca do temor a Deus é a que proferiu José do Egito a seus irmãos: “Ao terceiro dia, disse-lhes José: Fazei o seguinte e vivereis, pois temo a Deus” (Gn 42.18). Talvez em nenhum outro lugar da Escritura Sagrada a expressão “temo a Deus” seja tão bem aplicada.
Você se lembra como José foi vilipendiado e humilhado por seus irmãos, não é mesmo? De como foi escarnecido por eles, arremessado num poço, vendido aos ismaelitas, levado para o Egito e lançado no cárcere por Potifar? Acrescente-se a tudo isso a dor que seus irmãos causaram ao velho Jacó com a falsa notícia de que ele, José, fora morto por um animal selvagem (Gn 37.31-35).
Foi o temor de José a Deus que o impediu de exagerar nos testes e estratagemas para com seus irmãos e, pior de tudo, voltar-se contra eles numa fúria cega, matando a todos eles. Quem teme a Deus não é vingativo. Foi o temor de José a Deus que o fez perceber todo o desígnio do Senhor para com ele e sua família. Perdoar está diretamente associado ao temor do Senhor. Quem teme a Deus sabe que Deus perdoa a quem perdoa e que o juízo do Senhor é sem misericórdia para quem não usou de misericórdia (Mt 6.12,14,15; Tg 2.13).
Certa vez uma irmã muito querida me perguntou: “Pastor, por que será que há tantos crentes levando uma vida cristã medíocre, dando mau testemunho, cheios de ressentimento, faltosos no amor e pouco perdoadores?”. E ela mesma respondeu logo em seguida: “É falta de temor a Deus, pastor. É falta de temor a Deus”. Concordei planamente com ela. Ademais, tenho visto colegas que são excelentes na oratória do amor e perdão, mas bastante deficientes na prática da justiça e compaixão. Se temêssemos verdadeiramente a Deus pecaríamos menos, muito menos!
O segredo do sucesso de José do Egito estava no temor que ele tinha a Deus. Por temer a Deus, José preferiu ser preso injustamente a ceder ao convite adúltero da mulher de Potifar e pecar contra o Senhor: “... como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gn 39.9).
O resultado do temor a Deus é ser aprovado pelo Senhor em todas as coisas. Deus abençoou José e toda casa de Potifar. O Senhor o abençoou no cárcere e no governo do Egito. Deus honrou a fidelidade de José. E, como ele mesmo diria a seus irmãos, “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20).
Mesmo temendo a Deus podemos passar por adversidades que, momentaneamente, estão além da nossa compreensão. Lá na frente descobriremos que Deus usou tudo isso para nos abençoar e fazer de nós vasos de bênçãos para outras pessoas também.
Quem teme verdadeiramente ao Senhor nunca fica sem recompensa.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

A FÉ EM JESUS

Josivaldo de França Pereira

Para que alguém seja salvo de seus pecados é necessário que se arrependa e creia no Senhor Jesus. O que significa crer em Jesus Cristo? Em que consiste a fé salvadora? Embora resumidamente, esperamos responder a contento essas indagações.

A FÉ EM JESUS É DOM DE DEUS
Agostinho costumava dizer que nada é nosso, exceto o pecado. Portanto, a fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora de Deus para a nossa vida. Isto é o mesmo que dizer: A fé é um dom de Deus.
Não podemos ter dúvida quanto a isso. Que a fé é um dom de Deus está claro em passagens bíblicas como Atos 13.48 (creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna), Efésios 2.8 (pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus), Filipenses 1.29 (Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo, e não somente [a graça] de credes nele), 2Tessalonicenses 3.2 (a fé não é de todos) e Tito 1.1 (a fé que é dos eleitos de Deus). Além de ser um dom de Deus, a fé aparece também em algumas das passagens acima como fruto da eleição divina. Eleição que também é pela graça e dom de Deus (cf. Rm 11.5,6).
Mas alguém poderia perguntar: "Se a fé em Jesus Cristo é dom de Deus, por que em vários lugares da Bíblia é ordenado ao homem crer em Jesus?". A soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade. Todos nós somos moralmente responsáveis diante de Deus e, como tais, responderemos pelos nossos atos. O ser humano precisa se arrepender de seus pecados e confiar somente em Jesus para a vida eterna, pois Deus não pode se arrepender e crer em seu lugar. Por outro lado, como bem salientou James Packer, "Se nós mesmos temos fé, isso se deve apenas ao fato que Deus em sua misericórdia abriu os nossos olhos". A conversão de Lídia é um ótimo exemplo. Lucas relata: "Quando foi sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para ali tinham concorrido. Certa mulher chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às cousas que Paulo dizia" (At 16.13,14). Aqui temos o que biblicamente denominamos de novo nascimento ou conversão de Lídia. Uma obra do Espírito de Deus. O verbo grego dih/noicen (abriu) está no aoristo e significa que ali houve uma ação completa e definitiva do Espírito Santo. Durante a pregação de Paulo Lídia "escutava" e o seu coração foi "aberto" para que atendesse. É necessário que a intervenção divina, que torna o homem natural receptivo para com a Palavra de Deus, anteceda o ouvir com proveito a pregação do evangelho. "Deus concedeu a Lídia um coração receptivo para compreender coisas espirituais. Ele deu a ela o dom da fé e a iluminação do Espírito Santo" (Simon J. Kistemaker).
O autor aos Hebreus (12.2) nos lembra ainda que Jesus Cristo é o autor e o consumador de nossa fé. O princípio e o fim da fé salvadora. E o que isso quer dizer? Quer dizer que como Autor Jesus "preparou o caminho da fé com triunfo diante de nós, abrindo assim um caminho para os que o seguem". Como Consumador da fé ele é "o completador e aperfeiçoador; no sentido de levar uma obra até o fim, não por decurso de prazo".
A teologia arminiana afirma que Deus não concede o dom da fé em Jesus a ninguém porque, segundo ela, "nem mesmo existe tal dom". Diz ainda que a fé é própria do ser humano e que, por conseguinte, toda pessoa pode crer em Cristo. Por último, salienta que embora o ser humano esteja debilitado pela queda do pecado, não está incapaz de exercer fé em Cristo, receber o evangelho e tomar posse da salvação para si mesmo.
A teologia arminiana está equivocada. A Bíblia é clara em dizer que o homem natural está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). Não diz que ele está doente ou com força suficiente para fazer alguma coisa por si só. Ele está morto! A palavra “morto” já diz tudo. Além disso, a teologia arminiana contraria explicitamente aquelas passagens bíblicas que afirmam ser a fé um dom de Deus.
Embora sejamos responsabilizados a crer em Jesus (porque Deus não crê em nosso lugar), a fé, do começo ao fim, é dom de Deus.

A FÉ EM JESUS É SALVADORA
A fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora (cf. Ef 2.8). A fé salvadora não é um mero assentimento intelectual ou mera fé temporal.
Muitas pessoas crêem em Jesus Cristo do modo como crêem em Pedro Álvares Cabral ou em D. Pedro I. Acreditam que Jesus realmente viveu, morreu e ressuscitou, isto é, crêem que Ele era de fato uma pessoa da história. Essas pessoas supõem que isso seja fé na verdadeira concepção do termo, isto é, a fé salvadora. Mas não é, porque elas não estão confiando em Jesus para qualquer coisa agora, muito menos para a vida eterna. Essas pessoas possuem meramente a fé intelectual para fatos históricos, da mesma forma que acreditam em Pedro Álvares Cabral, mas hoje não confiam nele para nada. Um exemplo da fé como mero assentimento intelectual pode ser encontrado em Tiago 2.19: "Crês tu que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem". Tiago está ironizando aqueles que diziam ter fé na unicidade de Deus, porém, não evidenciavam tal fé através das obras. Os demônios crêem e tremem, mas nem por isso são salvos.
Outro exemplo do que não é fé salvadora é a fé temporal. Você deve ter orado a Deus muitas vezes, não é verdade? Confia nele para certas coisas, não é mesmo? Quando você confia no Senhor a respeito de suas finanças, podemos dizer que você tem fé financeira. Quando você confia no Senhor para cuidar de sua família, você pode chamar isso de fé familiar. Em viagens você tem fé viajante. Há um elemento comum em todas essas coisas. São temporais. Todas elas são cosias desta vida, coisas deste mundo que irão passar. Muitas vezes confiamos em Jesus para todas essas coisas temporais, que não é errado, contudo, essa ainda não é a verdadeira fé salvadora.
Fé salvadora é receber a Jesus e confiar somente nele para a vida eterna. Quem é Jesus? A maioria das pessoas sabe que Jesus Cristo é o filho de Deus, mas esta mesma maioria não sabe que Jesus também é o Deus Filho, o infinito Deus-homem que morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos, para pagar a pena dos nossos pecados e comprar um lugar nos céus para nós, o qual nos oferece gratuitamente.
A fé em Jesus envolve tanto confiança nele como a entrega da vida a ele. Estas coisas fazem parte da fé que conduz à vida eterna. E se a nossa convicção é de que realmente temos a vida eterna porque temos a fé salvadora, então, vamos nos firmar cada vez mais e mais nesta certeza, pois o próprio Senhor Jesus garantiu aos que nele crêem que será assim. "Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê (em mim), tem a vida eterna" (Jo 6.47).
Concluindo:
Lembremos que a Escritura Sagrada dá testemunho de Jesus (cf. Jo 5.39) e é através dela que, iluminados pelo Espírito Santo, somos habilitados a crer em Jesus para a salvação (1Co 1.21-24). Por isso mesmo, precisamos pregar a Palavra. O Espírito Santo usa a mensagem bíblica para conceder a fé (Rm 10.17), mas isso não o impede de usar a você e a mim (Rm 10.13-15), pelo contrário, por ele somos capacitados a evangelizar quando ouvimos a sua voz e obedecemos ao seu chamado.

Por que os judeus não se davam com os samaritanos?

(João 4.9)
Josivaldo de França Pereira

Os judeus e os samaritanos não se entendiam desde os tempos de Oséias, o último rei de Israel. Tudo começou quando Oséias conspirou contra Salmanasar, rei da Assíria. Samaria, a capital de Israel, foi sitiada pelas tropas assírias por três anos e, posteriormente, seus moradores foram transportados para a Assíria (2Rs 17.3-6). Isso aconteceu em 722 a.C. Logo, vieram também estrangeiros e se estabeleceram na região devastada. Diz o relato bíblico: "O rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Hamate e de Serfavaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel; tomaram posse de Samaria e habitaram nas suas cidades" (2Rs 17.24). Da mescla com a população que havia ficado, surgiu uma nova raça denominada de samaritanos (nome derivado de Samaria, a metrópole fundada por Onri, pai de Acabe, por volta de 880 a.C.).
No princípio, quando os estrangeiros passaram a habitar em Samaria, eles não temeram ao Senhor; pelo que o Senhor mandou leões invadirem suas terras, os quais mataram a alguns do povo. Com razão atribuíram essa praga à ira de Deus. Então, rogaram ao rei da Assíria que enviasse um sacerdote israelita para lhes ensinar "como servir o Deus da terra". E assim aconteceu que um judaísmo adulterado foi enxertado ao culto pagão.
Quando uma parte dos judeus voltou à terra de seus pais – principalmente, mas não exclusivamente, parte dos que haviam sido deportados para a Babilônia em 587 a.C. –, e se construiu um altar para o holocausto e pôs-se os fundamentos do templo, samaritanos zelosos e seus aliados interromperam as obras (Ed 3 e 4). Assim fizeram porque negaram a eles a permissão de cooperar na obra de reconstrução. Sua petição foi: "Deixa-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus, como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir para aqui". A resposta que receberam foi a seguinte: "Nada tendes conosco na edificação da casa do nosso Deus". Ao receberem essa dura resposta os samaritanos passaram a odiar os judeus. Imediatamente começaram a construir seu próprio templo no monte Gerizim; porém, João Hircano, um dos reis macabeus, destruiu o templo deles em 128 a.C. Os samaritanos, não obstante, continuaram adorando em cima da montanha, onde haviam erigido o templo sagrado.
A aversão dos judeus para com os samaritanos pode ser vista ainda em João 8.48 e no livro apócrifo de Eclesiástico 50.25,26. E a mesma atitude por parte dos samaritanos em Lucas 9.51-53.[1]




[1] O historiador judeu Flávio Josefo (37-100 A. D.) fala de muitas e várias revoltas ocorridas entre judeus e samaritanos nos tempos bíblicos. Consulte Las guerras de los judios. Barcelona: Editorial CLIE, 1990, I, xi; Antigüedades de los judios. Barcelona: Editorial CLIE, 1988, III, ii, 2; vi, 1-3.