terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Deus Soberano Surpreende

Josivaldo de França Pereira

A soberania de Deus pode ser definida como o exercício de sua supremacia. Também pode ser descrita como a doutrina do não enquadramento de Yahwéh às convenções e conveniências humanas. “Deus age como lhe apraz, somente como lhe apraz, sempre como lhe apraz. Ninguém consegue frustrá-lo nem impedi-lo” (A. W. Pink). 
Talvez uma das palavras que melhor expresse a soberania de Deus, e consequentemente o exercício de sua supremacia, seja o termo surpresa. O nosso Deus é um Deus que surpreende quando, onde e como quer, tanto na Bíblia como fora dela.
Os heróis e heroínas da fé foram todos surpreendidos por Deus em algum momento da história deles. Foi assim com Abraão, Isaque e Jacó; José do Egito, Moisés, Ana, Jó, Habacuque; Maria, Pedro, Paulo, etc., e hoje não é diferente conosco.
Muitas vezes ficamos surpresos com Deus quando ele não ouve as nossas orações e, então, sem entender os desígnios dele passamos a duvidar do caráter santo do Senhor, da sua justiça e bondade. Poucos agem como Jó que, após perder seus filhos, no meio da aflição humilhou-se perante Deus, “lançou-se em terra e adorou; e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.20,21). 
E também somos novamente surpreendidos quando o Senhor Deus atende as nossas orações de modo inesperado e nunca imaginado por nós. Um exemplo clássico é o de Atos 12. “Pedro, pois, estava guardado no cárcere, mas havia oração incessante a Deus por parte da Igreja a favor dele” (At 12.5). Contudo, a mesma Igreja que orou pela libertação de Pedro chamou a criada Rode de louca quando ela disse que Pedro estava junto do portão e, ao verem-no, ficaram atônitos (At 12.13-16).
Paulo tinha em mente o Deus que surpreende ao escrever para os efésios: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef 3.20,21). 
“Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos. Deus não pode ser domesticado. Ele é soberano e não segue a agenda que tentamos traçar para ele. Ele faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Hernandes Dias Lopes).
E você, está preparado para as surpresas de Deus?

Da justiça de Deus

 Josivaldo de França Pereira

Tanto a justiça quanto o amor de Deus estão abundantemente presentes no Antigo e Novo Testamentos. Uma concordância ou chave bíblica deixa isso claro de modo exaustivo. Israel foi, ou deveria ter sido, o juiz de Deus na punição de povos que atingiram a quota de seus pecados. Deus disse a Abraão acerca de seus descendentes: “Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus” (Gn 15.16). Mas Israel não cumpriu plenamente a justiça de Deus. O povo do Senhor fez aliança com nações que devia destruir; as mulheres poupadas tiveram novos filhos e as crianças que não foram mortas cresceram e vingaram seus pais.
Por que a mensagem do Novo Testamento é essencialmente a do amor? Porque quando os judeus quiseram fazer justiça, essa já não era mais a justiça de Deus. “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3).
A justiça de Deus em Cristo não é a da imprecação e perseguição contra o inimigo. Tiago diz que “a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20). Jesus veio ser e cumprir toda justiça de Deus (Mt 3.15; 1Co 1.30), isto é, a justiça que se revela no evangelho (cf. Rm 1.17; 3.22) e nos torna justiça e retidão de Deus (2Co 5.21; Ef 4.24; 1Pe 2.24). A “reta justiça” (Jo 7.24); a “justiça da fé” (Rm 4.13; Fp 3.9; Hb 11.7), o “dom da justiça” (Rm 5.17) e a “graça pela justiça” (Rm 5.21) nos foram oferecidos em Cristo Jesus. “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4).
Das nove bem-aventuranças do Sermão do Monte, duas falam sobre a justiça de Deus: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mt 5.6); “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.10). Jesus disse aos seus discípulos: “... se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20). E ainda: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste” (Mt 6.1).
O Mestre disse também que devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33). Aos escribas e fariseus ele declarou: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23).
A justiça de Deus, no Novo Testamento, se cumpre em amor – personificado na pessoa de Cristo – e não pelo ódio e perseguição aos inimigos, ou supostos inimigos, como estava ocorrendo. Eis a razão porque Jesus disse: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.43,44).
Paulo disse aos atenienses que Deus “estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (At 17.31). E mais: “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida” (Rm 5.18). E também: “Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação” (Rm 6.19; cf. 6.13).
Justiça no Novo Testamento não é ódio e vingança, é amor.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tentações

 Josivaldo de França Pereira


A palavra “tentação” geralmente é definida como ato ou efeito de provocação. Embora não seja equivocado pensar assim, esse conceito expressa apenas um aspecto da tentação. A tentação pode ser classificada em duas categorias. Vamos chamá-las de tentação ativa e tentação passiva.
Tentação ativa, como o próprio nome diz, é aquela que deliberadamente provoca ou procura provocar a queda de quem é tentado. A Bíblia nos dá vários exemplos de tentação ativa. Lembremos da esposa de Potifar que todos os dias buscava seduzir José para se deitar com ele (Gn 39.7-12), das investidas de Satanás no deserto contra Jesus (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13) e do modo como o procônsul Sérgio Paulo era provocado pelo falso profeta Barjesus, o qual procurava desviar a atenção daquele quando Saulo pregava o evangelho (At 13.4-12). Em todos esses exemplos nem é preciso dizer que a vitória sobre a tentação foi certeira.
Enquanto a tentação ativa está impregnada de pecados, insinuações e provocações, a tentação passiva é isenta de tudo isso. Imagine, por exemplo, uma carteira de dinheiro esquecida em cima de um balcão, sem ninguém por perto. Quem a esqueceu não teve intenção de tentar ninguém e a própria carteira não tem nada a ver com isso. O honesto não será seduzido por ela; enquanto outra pessoa.... Há um ditado popular que diz: “A ocasião faz o ladrão”. Machado de Assis, no romance Esaú e Jacó, corrige esse adágio dizendo: “Não é a ocasião que faz o ladrão. A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”. É que as mesmas coisas nem sempre são tentação para todas as pessoas.
Dois exemplos bíblicos de tentação passiva são os de Acã que cobiçou uma capa babilônica, ouro e prata de Jericó (Js 7.20,21) e de Judas Iscariotes que traiu nosso Senhor por trinta moedas de prata (Mt 26.14-16; Mc 14.10,11; Lc 22.3-6). Considerando, ainda, a tentação passiva, alguém poderia cobiçar a mulher do próximo sem que esta deliberadamente o provocasse nisso. Um homem casado se apaixona por outra mulher sem que esta saiba ou nem mesmo o tenha visto. A tentação passiva, por assim dizer, é do bem, visto que em si mesma não há nada de errado. O erro está no cobiçoso. Enquanto na tentação ativa o cobiçoso é levado; na passiva ele se leva. Quem se leva na tentação passiva o faz sem motivação aparente do objeto desejado. É na categoria de tentação passiva que podemos incluir as exigências e proibições do décimo mandamento: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem cousa alguma que pertença ao teu próximo” (Êx 20.17; cf. Dt 5.21). Todavia, nenhuma tentação, ativa ou passiva, chega a ser pecado para o tentado, a menos que seja bem vinda e aceita por ele.
Tiago tinha em mente as tentações ativa e passiva quando disse aos seus destinatários: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.13-15). Quando Tiago diz que Deus não pode ser tentado pelo mal, ele se refere basicamente à tentação ativa. E quando fala que cada um é tentado pela sua própria cobiça, ele aponta basicamente para a tentação passiva. Por “basicamente” quero dizer que não podemos ser taxativos como se as tentações passiva e ativa não estivessem presentes em ambos os casos, na mente de Tiago. A linha divisória é tênue e sutil. Contudo, está claro que algumas tentações estão impregnadas de provocações enquanto outras não. Caímos tanto em uma quanto em outra por causa de nossa natureza humana pecaminosa.
De qualquer maneira, sendo a tentação ativa ou passiva, precisamos nos recordar sempre do que Jesus ensinou: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a cerne é fraca” (Mt 26.41). E ainda: “... E não nos deixes cair em tentação” (Lc 11.4).[1]  



[1] Leia mais na postagem “Tentação e Queda”.

Encontro Inevitável

Josivaldo de França Pereira

 
O capítulo 32 do livro de Números relata que as tribos de Rúben e Gade, por terem gado em muitíssima quantidade, pediram permissão a Moisés para se estabelecerem na Transjordânia, região a leste do rio Jordão, que já havia sido conquistada.
Como todo Israel devia participar da conquista da Terra Prometida, e a ausência deles desencorajaria as outras tribos, Moisés os advertiu severamente contra o pecado da geração que saiu do Egito (cf. Nm 13, 14). Entretanto, Moisés consentiu (após a promessa das duas tribos em seguir adiante e ajudar seus irmãos), com a seguinte ressalva: “Porém, se não fizerdes assim, eis que pecastes contra o SENHOR; e sabei que o vosso pecado vos há de achar” (Nm 32.23).
A primeira coisa que se destaca em Números 32.23 é que o não cumprimento da promessa das duas tribos resultaria em pecado contra o Senhor. O pecado nunca é cometido contra o próprio pecado. Peca-se sempre contra Deus. “Pecado” é tudo aquilo que vai de encontro à vontade de Deus. Nas palavras do Catecismo Maior de Westminster, “Pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por ele dada como regra à criatura racional” (cf. Rm 3.23; Gl 3.10-12; Tg 4.17; 1Jo 3.4).
Contudo, chama nossa atenção a parte final do versículo que diz: “sabei que o vosso pecado vos há de achar”. Moisés sabia disso por experiência própria. Quando ele era príncipe no Egito viu certo egípcio espancando um hebreu e, percebendo que não havia ninguém por perto, matou o egípcio e o escondeu na areia. No dia seguinte viu dois hebreus brigando e perguntou ao culpado: “Por que espancas o teu próximo?”. “Pensas matar-me”, retrucou o homem, “como mataste ao egípcio?”. Moisés temeu e disse: “Com certeza o descobriram” (Ex 2.11-14). “Por mais que você tente esconder um pecado, não o conseguirá, pois ele se tornará cada vez mais evidente; somente o arrependimento pessoal e o perdão divino conseguirão apagá-lo” (Crisóstomo).
A expressão “sabei que o vosso pecado vos há de achar” nos remete diretamente ao ensino de Jesus: “Nada há oculto, que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado” (Lc 8.17). Ainda que alguém tente deter “a verdade pela injustiça” (Rm 1.18), um dia ela (a verdade) aparecerá. A mentira sempre vem à tona por mais soterrada que ela possa estar. No entanto, o que porventura “escapar” nesta vida, com certeza não logrará sucesso no juízo final. “O vosso pecado vos há de achar”.
Caim ficou muito indignado quando Deus aceitou a oferta de Abel e a dele não. “Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.6,7). Caim não ouviu o Senhor, pois abriu a porta para o pecado, deixou-se dominar por ele e, consequentemente, matou seu irmão.
O livro de Josué (caps. 1, 4, 22) registra que os gaditas e os rubenitas cumpriram a promessa, liderando a campanha de Canaã até que a principal oposição a Israel fosse subjugada e a terra distribuída entre as outras tribos; ou seja, diferentemente de Caim eles não se deixaram dominar pelo pecado.
Somos todos moralmente responsáveis por nossos atos. Se pecarmos, ainda que ocultamente, o nosso pecado nos há de achar; portanto, ao invés de darmos lugar ao pecado, cumpre a nós dominá-lo.



domingo, 12 de agosto de 2012

“Haja luz”: uma síntese teológica de Gênesis 1.3

Josivaldo de França Pereira


 
No princípio, quando a terra era sem forma e vazia, o primeiro mandamento de vida de Deus foi: “Haja luz”, chamado na Bíblia hebraica de ‘or, na Septuaginta grega de genetheto fos e na Vulgata latina de fiat lux. E houve luz, conforme o relato fidedigno e inerrante das Escrituras.
De acordo com Gênesis 1, nos primeiros três dias da criação Deus Elohim criou os reinos e só depois, nos três últimos dias, os reis; ou seja, no primeiro dia Deus criou a luz (reino) e no quarto os luzeiros – sol, lua, estrelas – (reis); no segundo dia formou céus e águas (reinos) e no quinto as aves e os peixes para desfrutarem deles (reis); no terceiro dia fez separação entre terra e mares (reinos) e no sexto dia formou o homem e a mulher para governarem sobre eles (reis). No sétimo dia, o Deus Criador que reina sobre tudo e todos, descansou.
A pergunta que se faz muitas vezes é: De onde veio a luz de Gênesis 1.3 se o rei sol foi criado somente no quarto dia? Norman Geisler e Thomas Howe, em seu Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia, dizem que é possível que o sol “já existisse desde o primeiro dia, tendo somente aparecido ou se feito visível (com a dissipação da neblina) no quarto dia”. E concluem: “Vemos luz num dia nublado, mesmo quando não nos é possível ver o sol”. É certo que vemos luz mesmo num dia nublado, todavia, a afirmação de que o sol pudesse existir desde o primeiro dia da criação não procede porque a Bíblia afirma que Deus criou os luzeiros, entre eles o sol, no quarto dia (Gn 1.14-19).
Ora, não seria nenhum absurdo supor que a luz do primeiro dia da criação emanou-se do próprio Deus, isto é, a manifestação da glória de Deus em forma de luz. Parece que João tinha isso em mente quando diz que “Deus é luz” (1Jo 1.5). E igualmente Tiago ao chamá-lo de “Pai das luzes” (Tg 1.17).  Em Apocalipse 22.5, a luz de Deus sobressai ao sol na nova Jerusalém: “Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz da candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos”.
Vale ressaltar que a origem do tempo (kronos) – o surgimento do dia e a noite – não se inicia com a criação dos luzeiros (sol, lua e estrelas), mas a partir da luz de Gênesis 1.3. Os luzeiros que foram criados no quarto dia seriam agentes propagadores da luz do primeiro dia. É como se disséssemos: Jesus (a Luz do mundo), veio a este mundo para salvar pecadores, porém, deixou na terra homens e mulheres (luzeiros) que o amam – seus agentes – para continuarem sua obra (cf. Mt 5.14-16; Jo 1.4; 8.12; 9.5; Fp 2.14,15).
Note, ainda, a simetria entre o primeiro e quarto dias da criação: “Disse Deus: Haja luz, e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gn 1.3-5, itálicos acrescentados). “Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos. E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas. E os colocou no firmamento dos céus para alumiarem a terra, para governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom. Houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gn 1.14-19, itálicos acrescentados).
Sabemos que toda a criação se deu de forma repentina e proveniente do nada. Ela não deriva de elementos criados já existentes, mas apenas de Deus. É o que os estudiosos cristãos chamam de creatio ex nihilo (criado do nada). Houve um tempo em que a luz não existia, porém, a partir de Gênesis 1.3 ela passou a existir. O mesmo se deu com todas as coisas criadas por Deus (Sl 33.6-9; Hb 11.3).
Aqueles que negam os seis dias literais da criação (ao contrário do que diz Êx 20.9-11) também deviam estar atentos ao fato de que Deus realmente não precisou de muito tempo para criar, tendo como exemplo, a própria luz. Não existe no universo fenômeno mais rápido que a luz. Sua velocidade é de 320.000 km/s, ou seja, uma única piscada de olho é suficiente para a luz dar sete voltas em torno da terra.


“Entristecidos, mas sempre alegres”

Josivaldo de França Pereira


Este é um dos sete conjuntos de contrastes alistados em 2Coríntios 6.8-10 (cf. 2Co 4.8,9) que retratam a abnegação ministerial de Paulo. Uma característica do cristão fiel, de um modo geral, e do pastor e líder em especial.
Por “entristecidos” o apóstolo se refere ao estado de espírito negativo causado por pessoas ou circunstâncias contra aqueles que militam na obra do Senhor. Segundo Champlin, “A tristeza tem derrotado totalmente a muitos crentes que antes viviam piedosamente; e quiçá porque a tristeza é destruidora da fé, pelo menos temporariamente”.[1] Contudo, as tristezas da vida não são suficientes para arrancar definitivamente a alegria que pulula o coração dos verdadeiros servos e servas de Jesus. Entristecidos sim, mas sempre alegres!
Parece que Paulo tem em mente as palavras de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.11,12).
O cristão não é um derrotado. Na verdade ele é mais que vencedor em Cristo Jesus (cf. Rm 8. 31-39). A tristeza não prevalece naqueles que são de Deus. O cristão é feliz.  Assim como Paulo, podemos ser entristecidos muitas vezes, porém, a alegria deve ser a característica marcante dos filhos e filhas de Deus. E assim como Paulo não ficava vencido pela tristeza, devemos nos encher de alegria, conforme ele escreveu feliz aos coríntios: “sempre alegres” e também aos filipenses: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos” (Fp 4.4).
A alegria cristã é transcircunstancial.


[1] R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 4. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 357.

Relatório de Observação Missionária

 Josivaldo de França Pereira

Há alguns anos visitei o bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, para elaborar um relatório de minhas observações e interpretações sobre a cultura japonesa naquela localidade, visando a melhor abordagem evangelística. Eis alguns apontamentos:
O bairro da Liberdade abriga a maior colônia oriental do Brasil. Foi fundado no final do século XIX.
Com a vinda de imigrantes para o Brasil, a partir de 1908, a população nipo-brasileira acabou formando a maior colônia do mundo de descendentes de japoneses.
Uma das primeiras coisas que notei em minha caminhada pelas principais vias da região – entre elas a Avenida Liberdade e a Rua Galvão Bueno – é que a colônia japonesa não é um gueto.
Não é um reduto somente para os japoneses e seus descendentes, como se vê em países como os Estados Unidos e Inglaterra.
Os brasileiros caminham livremente pelas ruas e são respeitados pela colônia.
Há turistas japoneses no local, daí a importância de se admitir recepcionistas que fale japonês, conforme se exigia num cartaz de uma das lojas.
O comércio é forte e bastante variado na Liberdade.
As cores preta e vermelha predominam nas lojas e restaurantes.
Vendem-se principalmente roupas, comidas típicas e objetos religiosos no bairro.
Nota-se que também existem artigos chineses vendidos nesses estabelecimentos japoneses.
Há também um pequeno comércio chinês e coreano no bairro da Liberdade.
Como abordar, em especial e evangelisticamente, os japoneses do bairro da Liberdade?
Os japoneses são desconfiados por natureza, por isso, um fator fundamental de aproximação é conquistar a confiança deles pela amizade. É o que abrirá a porta para a apresentação do evangelho. Vi que as Testemunhas de Jeová já estão lá, atuando diariamente, e com gente da própria cultura nipônica.
O bairro da Liberdade é um vasto, fértil e promissor campo missionário.