segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ezequias, um exemplo de confiança em Deus

Josivaldo de França Pereira


O que a Bíblia diz a respeito de Ezequias não é dito acerca de nenhum outro rei: “Confiou no SENHOR, Deus de Israel, de maneira que depois dele não houve seu semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele. Porque se apegou ao SENHOR, não deixou de segui-lo e guardou os mandamentos que o SENHOR ordenara a Moisés” (2Rs 18.5,6).
Nem mesmo Davi – que foi um referencial de retidão para todos os reis de Judá, e um homem segundo o coração de Deus (cf. At 13.22) – superou Ezequias. A Bíblia declara: “Porquanto Davi fez o que era reto perante o SENHOR e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara, em todos os dias da sua vida, senão no caso de Urias, o heteu” (1Rs 15.5).  O caso de Urias, o heteu encontra-se registrado em 2Samuel 11, isto é, o adultério com Bate-Seba e assassinato do marido dela.
As únicas manchas no currículo do rei Ezequias, por assim dizer, acontecem quando ele, ingenuamente, abre as portas do palácio real aos visitantes da embaixada da Babilônia, mostrando-lhes toda a casa do seu tesouro, sendo em seguida repreendido pelo profeta Isaías (2Rs 20.12-19; 2Cr 32.31; Is 39), e por um breve momento em que “o seu coração se exaltou” (2Cr 32.25), mas logo “se humilhou por ter exaltado o seu coração” (2Cr 32.26). Ou seja, nada que se compare aos erros dos reis que foram antes e depois dele.
No sexto ano do reinado de Ezequias (722 a. C.), o Reino do Norte (Israel) foi levado cativo para a Assíria (2Rs 18.9-11). Oito anos depois a mesma ameaça de cativeiro bateria às portas de Judá, o Reino do Sul (2Rs 18.13-37; 2Cr 32.1-20; Is 36). A confiança de Ezequias em Deus foi severamente desafiada por Rabsaqué, comandante do exército de Senaqueribe, rei da Assíria. Eis alguns trechos da afronta de Rabsaqué a Ezequias e ao Senhor, dita perante os representantes do rei e o povo:
Rabsaqué lhes disse: Dizei a Ezequias: Assim diz o sumo rei, o rei da Assíria: Que confiança é essa em que te estribas? Bem posso dizer-te que teu conselho e poder para guerra não passam de vãs palavras; em quem, pois, agora, confias, para que te rebeles contra mim? Confias no Egito, esse bordão de cana esmagada, o qual, se alguém nele apoiar-se, lhe entrará pela mão e a traspassará; assim é Faraó, rei do Egito, para com todos os que nele confiam. Mas, se me dizes: Confiamos no SENHOR, nosso Deus, não é esse aquele cujos altos e altares Ezequias removeu, dizendo a Judá e a Jerusalém: Perante este altar adorais em Jerusalém? (2Rs 18.19-22; cf. 2Cr 32.9-12).
Assim diz o rei: Não vos engane Ezequias; porque não vos poderá livrar da sua mão; nem tampouco vos faça Ezequias confiar no SENHOR, dizendo: O SENHOR, certamente, nos livrará, e esta cidade não será entregue nas mãos do rei da Assíria (2Rs 18.29,30; cf. 2Cr 32.15).
Mais adiante o rei da Assíria enviaria mensageiros a Ezequias com uma carta dizendo: Assim falareis a Ezequias, rei de Judá: Não te engane o teu Deus, em quem confias, dizendo: Jerusalém não será entregue nas mãos do rei da Assíria. Já tens ouvido o que fizeram os reis da Assíria a todas as terras, como as destruíram totalmente; e crês tu que te livrarias? (2Rs 19.10,11).
O que temos na sequência é uma das mais belas orações da Bíblia: Tendo Ezequias recebido a carta das mãos dos mensageiros, leu-a; então, subiu à Casa do SENHOR, estendeu-a perante o SENHOR e orou perante o SENHOR, dizendo: Ó SENHOR, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinos da terra, tu fizeste os céus e a terra. Inclina, ó SENHOR, o teu ouvido e ouve; abre, SENHOR, os teus olhos e vê; ouve todas as palavras de Senaqueribe, as quais ele enviou para afrontar o Deus vivo. Verdade é, SENHOR, que os reis da Assíria assolaram todas as nações e suas terras e lançaram no fogo os deuses deles, porque deuses não eram, senão obra de mãos de homens, madeira e pedra; por isso os destruíram. Agora, pois, ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinos da terra saibam que só tu és o SENHOR Deus (2Rs 19.14-19; cf. Is 37.14-20).
A resposta à oração de Ezequias veio através do profeta Isaías com a promessa da destruição do exército assírio pelo próprio Deus, como de fato ocorreu (2Rs 19.20-37; 2Cr 32.21-23; Is 37.21-25). Tempos depois o rei Ezequias adoeceu duma enfermidade mortal. O profeta Isaías foi até ele, dizendo: “... Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás. Então, virou Ezequias o rosto para a parede e orou ao SENHOR, dizendo: Lembra-te, SENHOR, peço-te, de que andei diante de ti com fidelidade, com inteireza de coração, e fiz o que era reto aos teus olhos, e chorou muitíssimo” (2Rs 20.1-3).
A soberania divina não vê inadequação na oração pela cura, pois tanto a oração quanto a resposta de Deus são parte de seu plano (cf. 1Rs 21.29; Ez 33.13-16; Tg 5.15,16). O Senhor Deus ouviu a oração de Ezequias, viu suas lágrimas e o curou. Acrescentou-lhe mais quinze anos de vida, e ainda prometeu livrá-lo definitivamente dos assírios (2Rs 20.4-7). Tudo isso porque Ezequias, do começo ao fim de seu reinado, confiou no Senhor seu Deus.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Joás, ascensão e queda de um jovem rei

Josivaldo de França Pereira

 
A história de Joás é uma das mais dramáticas da Bíblia. Ele foi milagrosamente salvo da morte quando tinha apenas um ano de vida, graças a intervenção de uma tia. A rainha Atalia destruiu toda a descendência real da casa de Judá quando a princesa Jeosabeate escondeu por seis anos o sobrinho, junto com a ama dele, num quarto anexo ao templo de Jerusalém (2Cr 22.10-12). Deus usou Jeosabeate para preservar a descendência de Davi até Cristo, protegendo o único remanescente da linhagem real e messiânica.
Joás foi proclamado rei de Judá por volta do ano 835 a. C., pouco antes de Atalia ser morta pelos guardas do templo (2Rs 11.13-16; 2Cr 23.12-15). Ele é o mais novo rei a assumir o trono – sete anos de idade. Depois dele só Josias, com oito anos. Joás governou a nação de Judá por quarenta anos (2Cr 24.1). Seu tutor e conselheiro era o sacerdote Joiada, homem de Deus e esposo de Jeosabeate.
Joiada viveu até os cento e trinta anos de idade (2Cr 24.16), e durante toda sua vida o rei Joás se manteve reto nos caminhos do Senhor (2Rs 12.1-16; 2Cr 24.1-14), porém, logo após a morte do sacerdote, o rei foi procurado pelos príncipes de Judá (2Cr 24.17). A Bíblia não diz mas tudo indica que pediram “liberdade de culto” para o povo. As consequências foram desastrosas para Judá e o rei, conforme o relato de 2Crônicas 24.18-27.
Os profetas enviados por Deus para reconduzir o povo não foram ouvidos. O Senhor enviou o próprio filho de Joiada, Zacarias, no entanto, os judeus o apedrejaram e o mataram no pátio da Casa do Senhor, a mando de Joás (2Cr 24.19-21). “Assim, o rei Joás não se lembrou da benevolência que Joiada, pai de Zacarias, lhe fizera, porém matou-lhe o filho; este, ao expirar, disse: O SENHOR o verá e o retribuirá” (2Cr 24.22). Jesus faz alusão a esse episódio em Mateus 23.35. Joás é um dos três reis omitidos na genealogia de Jesus Cristo.
Em menos de um ano do ocorrido com Zacarias, Deus enviou o exército dos siros contra Joás, causando grande estrago na vida do povo e do rei (2Rs 12.17,18; 2Cr 24.23). “Ainda que o exército dos siros viera com poucos homens, contudo, o SENHOR lhes permitiu vencer um exército mui numeroso dos judeus, porque estes deixaram o SENHOR, Deus de seus pais. Assim, executaram os siros os juízos de Deus contra Joás” (2Cr 24.24).
O golpe de misericórdia contra Joás, por assim dizer, foi dado pelos próprios servos do rei: “Quando os siros se retiraram dele, deixando-o gravemente enfermo, conspiraram contra ele os seus servos, por causa do sangue dos filhos do sacerdote Joiada, e o feriram no seu leito, e morreu” (2Cr 24.25; cf. 2Rs 12.20,21).
Enquanto o sacerdote Joiada foi sepultado junto com os reis porque tinha feito bem em Israel e para com Deus e a sua casa (2Cr 24.16), o rei Joás, por ter desonrado o nome de Joiada e se apartado do caminho de Deus, foi sepultado na Cidade de Davi, mas não nos sepulcros dos reis (2Cr 24.26). 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Joiada, um sacerdote entre reis

Josivaldo de França Pereira


O sacerdote era o representante do povo diante de Deus, por isso, sua vida devia ser ilibada em todos os aspectos e níveis sociais (Lv 21; Nm 18). Arão foi o primeiro sumo-sacerdote constituído diretamente por Deus, todavia, não entrou na Terra Prometida porque, juntamente com seu irmão Moisés, pecou contra o Senhor (Nm 20.12). Eli e Samuel foram grandes sacerdotes, mas deixaram a desejar na educação de seus filhos (1Sm 3.12-14; 1Sm 8.1-3).
Joiada, cujo nome em hebraico significa Yahwéh conhece, foi um homem reto e íntegro em todo seu proceder perante o Senhor, tanto em relação ao povo de Judá quanto em relação a sua família. Joiada foi um verdadeiro sacerdote de Deus. Bem diferente de Eliasibe, o sacerdote contemporâneo de Neemias que se aparentou com o perverso Tobias, a ponto de fazer-lhe um quarto espaçoso nos pátios da Casa de Deus (Ne 13.4,5,7).
A única repreensão registrada na Bíblia a Joiada é quando o rei Joás, no auge de sua espiritualidade religiosa, adverte o sacerdote pelo atraso no recolhimento dos impostos para a restauração da Casa de Deus, arruinada pela perversa Atalia e seus filhos (2Rs 12.6,7; 2Cr 24.5-7). Joiada, numa disposição contrária a dos demais sacerdotes (2Rs 12.8), imediatamente improvisou um gazofilácio na entrada do templo e arrecadou o dinheiro necessário para a obra (2Rs 12.9-16).
Quando Atalia reinava em Judá, exterminando toda realeza do Reino do Sul, foi a esposa de Joiada, a princesa Jeosabeate (ou Jeoseba), quem escondeu o infante Joás, seu sobrinho, de apenas um ano de idade, da terrível assassina (2Rs 11.1-3; 2Cr 22.10-12). Por sinal, Joiada é o único sacerdote na Bíblia casado com uma princesa.
Seis anos depois Joiada lidera uma das maiores revoluções política e religiosa de Judá – a ascensão de Joás ao trono, com apenas sete anos de idade (cf. 2Cr 24.1). O sacerdote sabiamente reorganizou a junta militar de Judá em favor do novo rei, em detrimento da usurpadora Atalia que culminou na morte dela (2Rs 11.4-16; 2Cr 23.1-15).
Joiada congregou os levitas de todas as cidades de Judá e os cabeças das famílias de Israel, e fizeram aliança com o rei (2Cr 23.1-11). “Joiada fez aliança entre o SENHOR, e o rei, e o povo, para serem eles o povo do SENHOR; como também entre o rei e o povo” (2Rs 11.17; cf. 2Cr 23.16). A liderança de Joiada indica que ele era um principal sacerdote, ou sumo-sacerdote, como sugerem alguns. Pelo menos, em 2Crônicas 24.6, ele é chamado de “o chefe”. E, como deixa claro 2Crônicas 23.18, ele não era centralizador e detentor de poder.
Durante toda sua vida Joiada serviu como conselheiro do rei Joás. Enquanto Atalia foi a conselheira do rei Acazias, seu filho, para o mal (2Cr 22.3), Joiada orientou Joás no caminho do Senhor por quase os quarenta anos de seu reinado. Ele tinha o jovem rei como seu filho. O ambiente familiar era bom e sadio, visto que os filhos legítimos de Joiada apoiaram Joás na conquista e subida ao trono, ungindo-o e gritando: “Viva o rei!” (2Cr 23.11).
Joiada viveu até os 130 anos de idade (2Cr 24.15). E por ter sido um homem de Deus em tudo, foi sepultado junto com os reis de Judá, na Cidade de Davi. “Sepultaram-no na Cidade de Davi com os reis; porque tinha feito bem em Israel e para com Deus e a sua casa” (2Cr 24.16). Ele é o único sacerdote na Bíblia sepultado junto com os reis.
Infelizmente, após a morte do grande sacerdote, Joás se afastou tanto dos caminhos de Deus que se tornou irreconhecível. Os conselhos do bom sacerdote foram esquecidos completamente pelo rei. E aquele que um dia advertiu Joiada por causa do atraso do dinheiro para a reforma do templo de Jerusalém, agora era um idólatra, totalmente desviado de Deus (2Cr 24.17,18).
Quando Zacarias, filho do sacerdote Joiada, se pôs em pé perante o povo e o advertiu por ter se afastado do Senhor, “Conspiraram contra ele e o apedrejaram, por mandado do rei, no pátio da Casa do SENHOR” (2Cr 24.21). Algo tão marcante que foi até mencionado por Jesus em Mateus 23.35.
Joás não se lembrou da benevolência que Joiada, pai de Zacarias, lhe fizera, antes, matou-lhe o filho (2Cr 24.22). O Senhor levantou os siros que executaram “os juízos de Deus contra Joás” (2Cr 24.24). Pouco tempo depois Joás seria brutalmente assassinado por seus próprios servos (2Rs 12.20,21; 2Cr 24.25). Por causa de todo mal que praticara Joás não foi sepultado junto com os reis, como foi Joiada, seu tutor (2Cr 24.26).


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Jeú, um homem 'quase' segundo o coração de Deus

Josivaldo de França Pereira

 
Jeú foi o único rei de Israel (Reino do Norte) ungido por ordem de Deus. Nem mesmo Jeroboão, o primeiro rei após a divisão entre Judá e Israel, foi ungido. O profeta Aias simplesmente rasgou em doze pedaços uma capa nova que trazia sobre si “e disse a Jeroboão: Toma dez pedaços, porque assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Eis que rasgarei o reino da mão de Salomão, e a ti darei dez tribos” (1Rs 11.31). E desde Jeroboão, nunca houve no Reino do Norte um só rei que permanecesse nos caminhos do Senhor. Todos eles praticaram o que era mau aos olhos de Deus. Quem mais aparentemente prometia ser um bom rei era Jeú, que "exterminou de Israel a Baal" (2Rs 10.28), mas ele também não se firmou por muito tempo, como veremos mais adiante.
Assim como o Senhor Deus levantou um grande homem para ungir Davi (1Sm 16.12,13), o profeta Elias foi comissionado pelo Senhor para a unção de Jeú (1Rs 19.16). Por razões desconhecidas Elias não realizou essa tarefa, designada pelo próprio Deus, e nem se sabe por que o Senhor o arrebatou (cf. 2Rs 2.11) antes que o profeta houvesse realizado tal missão. Coube a Eliseu executá-la, o qual, por sua vez, incumbiu um dos discípulos dos profetas para cumprir o mandado do Senhor (2Rs 9.1-6). Jeú era capitão do exército do rei Jorão, filho de Acabe, quando foi ungido rei de Israel (2Rs 9.5).
Jeú foi ungido rei por volta do ano 850 a. C., com o propósito de exterminar a casa de Acabe (2Rs 9.7-10), mandato que ele cumpriu à risca (2Rs 10.1-14,30). Contudo, a Bíblia relata: “Porém não se apartou Jeú de seguir os pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel, a saber, dos bezerros de ouro que estavam em Betel e em Dã” (2Rs 10.29). E ainda: “Mas Jeú não teve cuidado de andar de todo o seu coração na lei do SENHOR, Deus de Israel, nem se apartou dos pecados que Jeroboão fez pecar a Israel” (2Rs 10.31). Bem diferente do que é dito a respeito de Davi: “Porquanto Davi fez o que era reto perante o SENHOR e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara, em todos os dias da sua vida, senão no caso de Urias, o heteu” (1Rs 15.5).
Jeú teria sido um rei perfeito, por assim dizer, se não seguisse os passos dos reis de Israel. Por conseguinte, também seria um homem segundo o coração de Deus, como Davi (cf. At 13.22), se não se desviasse dos caminhos do Senhor. Davi também errou (2Sm 11), porém, ele se arrependeu profundamente de seus pecados, buscando com sinceridade a face do Pai (2Sm 12.13; Sl 32.1-5; 51); enquanto Jeú, que tinha tudo para ser um Davi do Reino do Norte, morreu em seus próprios delitos (2Rs 10.31).
Mas Deus, que é justo e misericordioso, reconhecendo o bom trabalho de Jeú, lhe fez promessas: “Pelo que disse o SENHOR a Jeú: Porquanto bem executaste o que é reto perante mim e fizeste à casa de Acabe segundo tudo quanto era do meu propósito, teus filhos até a quarta geração se assentarão no trono de Israel” (2Rs 10.30). O Senhor Deus fez do nome de Jeú a quarta dinastia mais duradoura do Reino do Norte. Jeú reinou vinte e oito anos em Israel (2Rs 10.36) e seus sucessores (do filho ao tataraneto) foram Jeoacaz, Jeoás, Jeroboão II e Zacarias (2Rs 13.1,10; 14.23; 15.8), conforme a promessa do Senhor. 

A princesa compassiva

Por Josivaldo de França Pereira


O caráter da princesa Jeosabeate de Judá contrasta radicalmente com o de Atalia, a rainha-mãe de Israel. Atalia era filha do ímpio Acabe e, segundo alguns, também da maligna Jezabel (1Rs 16.29-33). O profeta Elias predisse a morte de Acabe e Jezabel, bem como a extinção de toda sua família (1Rs 21.17-29; cf. 1Rs 22.29-40; 2Rs 9.30-37). Jeú foi o instrumento de Deus para exterminar a casa de Acabe (2Rs 9.1-13; 10.1-14). O reino de Judá teve seus altos e baixos com reis bons e maus. No reino de Israel todos os reis foram maus.[1]
Jeú matou Acazias, filho de Atalia. Com o desejo da vingança somado à sede de poder, “Vendo Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá” (2Cr 22.10; cf. 2Rs 11.1). A Bíblia relata que, além de mãe, Atalia era conselheira de Acazias: “... Ele também andou nos caminhos da casa de Acabe; porque sua mãe era quem o aconselhava a proceder iniquamente” (2Cr 22.3).
Atalia foi o único governante em Judá que não era da linhagem de Davi. “O governo de Atalia é tratado como uma usurpação ou interrupção, de modo que a introdução costumeira para um reinado convencional de Judá é omitida”.[2] Como, sendo ela filha de Acabe, rei de Israel, do Reino do Norte, usurpou o trono de Judá, o Reino do Sul? É simples: (1) Jeorão, o rei que não deixou saudades (cf. 2Cr 21.20)[3], fez uma aliança macabra e assassina com Acabe, pois “Andou nos caminhos dos reis de Israel, como também fizeram os da casa de Acabe, porque a filha deste [Atalia] era sua mulher; e fez o que era mau perante o SENHOR” (2Cr 21.6; cf. 2Rs 8.18). Atalia foi esposa e mãe de dois reis de Judá (Jeorão e Acazias). (2) Após o golpe de Jeú no norte, Atalia procurou salvar alguma coisa para a família de Acabe ao tentar exterminar a dinastia de Davi, em Judá.
A atitude de Atalia em destruir a descendência real não é nova. Jeorão, seu esposo, fez o mesmo com seus irmãos (2Cr 21.4). Atalia conseguiu ser ainda mais perversa porque “levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá”.
O príncipe Joás era tão pequeno – tinha apenas um ano de idade quando Atalia decretou a matança da realeza judaica – que, humanamente falando, não havia esperança de salvação nem para ele. “Mas Jeosabeate, filha do rei, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei, aos quais matavam, e o pôs e à sua ama numa câmara interior; assim, Jeosabeate, a filha do rei Jeorão, mulher do sacerdote Joiada e irmã de Acazias, o escondeu de Atalia, e não foi morto. Joás esteve com eles seis anos na Casa de Deus, e Atalia reinou no país” (2Cr 22.11,12; cf. 2Rs 11.2,3).[4]
Jeosabeate resgatou o infante Joás do massacre da linhagem real impetrado por Atalia. Era ela filha de Jeorão, irmã de Acazias e tia de Joás[5], todos eles foram reis de Judá. Por seis anos Joás e sua ama ficaram escondidos numa câmara interior (um quarto contíguo ao templo) pertencente aos sacerdotes. “As dependências privadas dos sacerdotes não podiam ser violadas por visitas profanas, nem mesmo pela rainha, pelo que Joás esteve seguro ali durante todos aqueles anos”.[6]
Jeosabeate era esposa do sacerdote Joiada, homem de Deus. Ela é a única princesa na Bíblia casada com um sacerdote. Durante o tempo que Joiada esteve vivo, Joás prosperou no reinado de Judá. Joás tinha apenas sete anos de idade quando subiu ao trono (2Cr 24.1), graças à misericórdia de uma tia. Na Bíblia nenhum monarca governou com menos idade. Atalia foi morta (2Cr 23.12-15; cf. 2Rs 11.13-16), durante quarenta anos Joás reinou em Jerusalém e Joiada foi seu conselheiro enquanto viveu (2Cr 24.2). Ele é o único sacerdote na Bíblia sepultado junto com os reis de Judá, na Cidade de Davi (2Cr 24.16).
Jeosabeate, apesar de ter na família gente perversa, como Jeorão, Acazias e Atalia, casou-se com um homem que foi bênção na vida dela. O que a princesa fez por Joás era reflexo de um ambiente familiar sadio. No entanto, se Jeosabeate, de um lado, arriscou a própria vida para salvar o sobrinho da tirana Atalia, por outro lado, vemos a direção de Deus na condução dos fatos, cumprindo a promessa que fez a Davi de dar a ele, sempre, uma lâmpada e a seus filhos (cf. 1Rs 11.36; 2Rs 8.19; 2Cr 21.7), preservando a linhagem real até Jesus. Portanto, a importância de Jeosabeate na história bíblica não foi somente o de ter protegido Joás da perversa Atalia, mas principalmente em ter sido ela usada por Deus para preservar a linhagem messiânica. Para entendermos o que isso realmente significa precisamos voltar um pouco no tempo.
Em Gênesis 3.15 temos a promessa inicial de Deus de que a semente (o descendente) da mulher, que é Cristo, ferirá a cabeça da serpente, Satanás, e este lhe ferirá o calcanhar. Aqui em Gênesis 3 o confronto é anunciado. Daí por diante, o diabo vai sempre pelejar para destruir Jesus na pessoa de seus ascendentes. Nascem os filhos de Adão e Eva – Caim e Abel. Caim era do Maligno (cf. 1Jo 3.12) e assassinou seu irmão. A promessa não é interrompida porque de Adão nasce Sete. Satanás compreende que a família de Sete fora escolhida para gerar a semente prometida, o Messias? Sim, pois o diabo começa agora a fazer tudo o que pode para destruir os filhos de Sete, insinuando que eles deveriam se casar com as filhas de Caim. Uma tentativa para destruir as gerações de Sete a fim de anular a promessa acerca do Messias.
Aparentemente parece que Satanás alcançaria seu objetivo, todavia, dentre as famílias que descendem de Sete há uma que teme ao Senhor – a família de Noé. Deus salva essa única família enquanto o dilúvio destrói o resto. Dessa única família a promessa é levada adiante.
A promessa acerca do Messias é agora dada a Abraão e a Sara, sua esposa. Humanamente falando essa promessa nunca se cumpriria porque Abraão é velho e Sara estéril, mas o milagre acontece e nasce Isaque. A promessa é passada a Isaque, porém, Rebeca também é estéril. E outra vez o Deus da promessa realiza um milagre e Rebeca concebe, para continuar a promessa por meio da linhagem de Jacó. Por ter “roubado” do pai a promessa que lhe cabia, Esaú persegue Jacó para matá-lo, e não consegue. Mais uma vez a promessa é salva.
Contudo, Satanás não desiste. Ele ataca a descendência de Jacó – os judeus. O Senhor Deus tirou o povo do Egito com braço forte, entretanto, eles o rejeitam e estão dançando ao redor de um bezerro de ouro. “Disse mais o SENHOR a Moisés: Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma; e de ti farei uma grande nação” (Êx 32.9,10). Moisés intercede a Deus em favor do povo e de novo a promessa é salva.
Da tribo de Judá Deus escolhe uma família – a de Davi. O Messias prometido nascerá como a semente de Davi (2Sm 7.11-16; 1Rs 8.25; Sl 89.29,35,36; Jr 23.5; At 2.30). Um espírito maligno se apodera de Saul que, desesperadamente, tenta várias vezes matar Davi. Em todas as investidas de Satanás Davi sai ileso. Por fim, Satanás consegue chegar ao trono de Judá através de Atalia que, como vimos, tentou destruir toda descendência real. Parecia que a prometida linhagem do Messias fracassaria. Isso não aconteceu por causa de Jeosabeate, a mulher que Deus usou para cuidar do único remanescente da casa de Davi – Joás – e preservar a linhagem do Messias prometido.





[1] Até mesmo Jeú, que seria uma exceção entre os reis de Israel, apartou-se dos caminhos do Senhor (2Rs 10.29-31).
[2] Donald J. Wiseman, 1 e 2Reis: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 202.
[3] Veja mais sobre Jeorão em meu livro Personagens esquecidos da Bíblia, p. 62-66.
[4] No texto paralelo de 2Reis 11.2,3, o nome de Jeosabeate aparece na forma abreviada: Jeoseba.
[5] Em 2Reis 11.2 o nome do rei Jeorão também aparece na forma abreviada: Jorão. Não confundir com Jorão, filho de Acabe, rei de Israel. Alguns estudiosos acreditam que Jeosabeate era filha de Jeorão por meio de outra esposa, e não de Atalia. Ela provavelmente era uma meia-irmã de Acazias, e o infante Joás, seu sobrinho. (Cf. R. N. Champlin; J. M. Bentes, Jeosabeate/Jeoseba. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol.3. São Paulo: candeia, 1991, p. 447; Wiseman, p. 202).
[6] R. N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 3. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1510. 

Deus Alegre

Uma antífrase do poema “Deus Triste” de Carlos Drummond de Andrade

Josivaldo de França Pereira


Deus é alegre.

Domingo descobri que Deus é alegre
pela semana afora e além do tempo.

A companhia de Deus é incomparável.
Deus está diante de Deus.

Está sempre além de si mesmo e cobre tudo
alegrinfinitamente.
A alegria de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou alegre.
Outra fonte não tem a alegria do homem.

“A alegria do Senhor é a vossa força”
(Ne 8.10)