sábado, 13 de outubro de 2012

Decepção: Suas causas e cura


Josivaldo de França Pereira


O vocábulo “decepção” deriva-se do latim decepcione. Aurélio o define como 1. Malogro de uma esperança; desilusão, desengano, desapontamento. 2. Surpresa desagradável; desapontamento. 3. Contrariedade, desgosto.
A palavra “decepção” não aparece na Bíblia. No entanto, sua ideia está presente em toda Escritura.[1] O texto de 2Timóteo 4.16-18 é um dos exemplos que passamos a considerar. Paulo diz: “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta! Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças, para que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém” (2Tm 4.16-18).
Por que nos decepcionamos tanto com as pessoas?
Basicamente porque o ser humano não é totalmente confiável. Por isso você se decepciona com os outros; os outros se decepcionam com você e você às vezes se decepciona consigo mesmo. Mas não é só. A decepção acontece também porque somos carentes da atenção alheia. Somos seres sociáveis por natureza. Não existimos para viver numa redoma ou ilha deserta, isolados de todos e de tudo.
Ainda precisamos um do outro. E aí nos decepcionamos porque esperamos das pessoas mais do que elas podem nos oferecer.
A decepção é um fato. Uma realidade da qual não podemos fugir; porém, não precisamos conviver com ela.
O apóstolo Paulo era ser humano como qualquer um de nós. Tinha sentimentos e por isso também se frustrava. Paulo disse: “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram”. Paulo estava triste; muito triste. Sua experiência de abandono lembra um pouco a história de Galileu.
O filósofo Bertrand Russell disse que se Isaac Newton tivesse enfrentado um centésimo das dificuldades de Galileu, provavelmente não teria escrito uma única linha. Galileu foi muito mais fustigado que Newton por causa de sua coragem ao desafiar 1600 anos de crenças em falsas teorias. O preço foi enfrentar sozinho a oposição dos seus contemporâneos e uma pena de prisão domiciliar pelos tribunais eclesiásticos.[2]
Contudo, o que Paulo passou em sua vida supera em muito as lutas de Galileu (Cf. 2Co 11.23-33). E o que Jesus passou? Não há palavras que possam descrever com justiça os sofrimentos de nosso Senhor...
Como podemos vencer a decepção?
Ouso dizer que o único antídoto contra a decepção é o perdão. “Quem não perdoa se mantém preso ao que o decepcionou”, disse alguém.
O ressentimento é um mal que mata aos poucos. Paulo sabia disso e por isso tratou de se livrar da decepção que teve com seus amigos, dizendo: “Que isto não lhes seja posto em conta!”. Para mim essa é uma das declarações mais fantásticas da Bíblia. Quê revolução incomensurável aconteceria em nossa vida se estivéssemos dispostos a fazer o mesmo! Se não fôssemos tão arrogantes; tão cheios de si e duros de coração, nós não nos decepcionaríamos com tanta frequência porque nos apressaríamos logo em resolver nossos relacionamentos interpessoais malfadados.
“Que isto não lhes seja posto em conta!”. Ah! se fizéssemos como Paulo!
Geralmente os homens de coragem ficam sozinhos na defesa de suas convicções. São deixados para trás quando mais precisam de apoio. Ficam decepcionados porque contavam com aqueles que pareciam amigos de verdade. Mas o que seria da humanidade se não fossem os homens e mulheres que, desafiando o senso comum vigente, deram a cara à tapa por um ideal, ainda que sozinhos?
Assim como Paulo, os discípulos de Jesus o abandonaram quando ele mais precisou deles, a começar no Getsêmani. Não oraram com ele, não o acompanharam de perto em seu julgamento e, salvo João, deixaram-no sozinho na cruz. Ainda assim, ele os perdoou. Paulo sabia perdoar porque aprendeu com o Mestre. E você?
Deus jamais decepciona
“Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças... e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém”. É possível perceber a euforia e entusiasmo do apóstolo nessa declaração. E não é só. A declaração anterior, pedindo que Deus não leve em conta o abandono de seus amigos, é entendida melhor agora, à luz dessa declaração. 
Paulo sabia que podia contar com Deus. Todos abandonaram o apóstolo, menos o Senhor. Todos decepcionaram o servo do Senhor, porém, Deus esteve ao lado dele, fazendo-o sentir sua presença de uma maneira notável. Além disso, quando se compreende a direção de Deus na adversidade, temos muito mais facilidade em perdoar. Foi assim com José do Egito, Paulo, Jesus e tantos outros exemplos na Bíblia e fora dela.
Finalmente, o apóstolo tinha tanta confiança em Deus a ponto de afirmar que não somente em sua primeira defesa, mas o que viesse daí por diante estaria também sob os cuidados do Senhor. Do modo como Deus o fortaleceu, Paulo se fortalece no Senhor para o presente e o futuro. Reafirma no Senhor a certeza de que “nenhum ataque dos seus inimigos subverterá sua fé ou sua coragem, ou leva-lo-á a cair em pecado desastroso.”[3]
Só se decepciona com Deus quem não conhece verdadeiramente a Deus.







[1] Cf. Ralph E. Powell, Deception. In: Wycliffe Dictionary of Christian Ethics, p. 167; R. K. Harrison (ed.), Deception. In: Encyclopedia of biblical and christian ethics, p 102, 3.
[2] Galileu Galilei, um dos criadores da Ciência Moderna, foi prisioneiro da Inquisição devido a sua opinião de que a Terra girava em torno do Sol.
[3] J. N. D. Kelly, I e II Timóteo: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1983, p. 201.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Os anjos eleitos

Josivaldo de França Pereira


Anjos são seres espirituais e incorpóreos, racionais, incorruptíveis e imortais. A Bíblia não fala somente de anjos maus (Mc 8.38; Lc 9.26) e de anjos malvados que não guardaram seu primeiro estado (2Pe 2.4; Jd 6), mas também faz menção explícita de anjos eleitos. A expressão “anjos eleitos” (ἐκλεκτῶν  ἀγγέλων) aparece uma única vez na Escritura Sagrada.  Escrevendo a Timóteo, o apóstolo Paulo dirige a seguinte invocação: “Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade” (1Tm 5.21). Quem são os anjos eleitos citados por Paulo em 1Timóteo 5.21? Em que sentido um anjo é eleito? A eleição dos anjos é diferente da predestinação dos homens?
Segundo Hodge, “Quanto ao estado dos anjos, claramente se ensina que eram todos originalmente santos. Também se deve inferir simplesmente, com base nas declarações da Bíblia, que eles foram submetidos a um período de prova, e que alguns guardaram seu primeiro estado, e outros não. Os que mantiveram sua integridade são descritos como confirmados em um estado de santidade e glória”.[1] Todos os anjos foram criados bons, inclusive Satanás. Contudo, o diabo e seus anjos se rebelaram contra a glória de Deus em Cristo Jesus.
A eleição dos anjos é diferente da eleição divina em relação aos seres humanos quanto à sua natureza. Tanto anjos quanto homens são eleitos por Deus, porém, enquanto Deus escolheu pecadores para a salvação, ele elegeu anjos para não caírem. Como assim? Se Deus não tivesse escolhido os seus anjos a fim de permanecerem firmes no estado de retidão em que foram criados, o número dos que caíram, isto é, dos que foram para o caminho do mal junto com Satanás, seria muito maior, para não dizer que todos seguiriam o lado das trevas.
Deus decretou por razões suficientes a ele dar a alguns anjos – além da graça com que todos os anjos foram dotados na criação e que incluía um amplo poder de permanecer santos – uma graça especial de perseverança por meio da qual foram confirmados em sua posição.
Se a graça de Deus não fizesse presença no reino espiritual, toda a criação estaria definitivamente comprometida. Entretanto, Deus é Deus gracioso e soberano, esteve e sempre estará na direção de todas as coisas.



[1] Charles Hodge, Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 475.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Neemias, um homem de oração

Josivaldo de França Pereira


Muito se tem escrito sobre Neemias como um homem de liderança e empreendedorismo. Conquanto não seja errado pensar assim - posto que foi ele quem conduziu a grande reconstrução dos muros de Jerusalém, destruídos por ordem de Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 587/86 a.C. - não podemos perder de vista que Neemias, antes de tudo, era um homem de oração. É interessante que quando se fala de Neemias como homem de oração, o que se tem em mente, muitas vezes, é aquela oração relâmpago que ele fez ao ser indagado pelo rei Artaxerxes: “Disse-me o rei: Que me pedes agora? Então, orei ao Deus dos céus e disse ao rei...” (Ne 2.4,5).
Não são poucos os que se baseiam nesta oração de Neemias para justificar suas súplicas apressadas e preguiçosas, dizendo que não é pelo muito falar que seremos ouvidos por Deus. O resultado lamentável disso é que um número considerável de nós, cristãos, não gasta mais que cinco minutos em oração por dia. À luz do capítulo 1 do livro de Neemias aprendemos que só temos o direito de fazer uma oração pequena a Deus se as circunstâncias de fato assim exigirem e se costumeiramente oramos ao Senhor de forma relativamente prolongada.
É verdade que Jesus ensinou: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo muito falar serão ouvidos” (Mt 6.7), mas, conforme o próprio texto deixa claro, ele se referia às vãs repetições dos pagãos. De modo semelhante nosso Senhor criticou os escribas e fariseus, não por suas longas orações propriamente, mas pela hipocrisia deles (cf. Mt 23.14; Mc 12.40; Lc 20.47). O próprio Cristo passava horas e horas orando.
O salmista Davi dizia: “Na tua presença há plenitude de alegria” (Sl 16.11). A oração deve ser uma coisa prazerosa, e nunca um fardo e enfado. Quando há plenitude de alegria diante de Deus, certamente não haverá pressa em se deixar a presença dele. O capítulo 1 de Neemias mostra o quanto seu autor se dedicou à oração ao saber da grande miséria e desprezo do restante dos judeus que não foram levados para o cativeiro, e da destruição dos muros e portas de Jerusalém. “Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus” (Ne 1.4). Os versículos 5 a 11 do capítulo primeiro são apenas uma parte da oração de Neemias, visto que por alguns dias ele esteve assentado, chorando, lamentando, jejuando e orando ao Deus dos céus.
Todas as orações de Neemias contêm o verbo “lembrar”. Vejamos: “Lembra-te da palavra que ordenaste a Moisés, teu servo, dizendo: Se transgredirdes, eu vos espalharei entre os povos” (Ne 1.8); “Lembra-te de mim para o meu bem, ó meu Deus, e de tudo quanto fiz a este povo” (Ne 5.19); “Lembra-te, meu Deus, de Tobias e de Sambalá, no tocante a estas suas obras, e também da profetisa Noadia e dos mais profetas que procuraram atemorizar-me” (Ne 6.14); “Por isto, Deus meu, lembra-te de mim e não apagues as beneficências que eu fiz à casa de meu Deus e para o seu serviço” (Ne 13.14); “Também mandei aos levitas que se purificassem e viessem guardar as portas, para santificar o dia de sábado. Também nisto, Deus meu, lembra-te de mim; e perdoa-me segundo a abundância da tua misericórdia” (Ne 13.22); “Lembra-te deles, Deus meu, pois contaminaram o sacerdócio, como também a aliança sacerdotal e levítica” (Ne 13.29); “... Lembra-te de mim, Deus meu, para o meu bem” (Ne 13.31).
O que as orações de Neemias nos ensinam? Elas nos ensinam que o mesmo Deus que nunca se esquece da gente também quer ser “lembrado” por nós de suas promessas e de seus atributos em nosso favor.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

OS OLHOS DE MOISÉS

Josivaldo de França Pereira
  
 
O que a Bíblia diz acerca da saúde de Moisés na ocasião de sua morte é impressionante: “Tinha Moisés a idade de cento e vinte anos quando morreu; não se lhe escureceram os olhos, nem se lhe abateu o vigor” (Dt 34.7).  Algo semelhante só encontramos na declaração de Calebe, quando ele exige de Josué a posse da terra que o Senhor lhe prometeu, após espiá-la durante quarenta dias (cf. Nm 13.25; 14.24): “Eis, agora, o SENHOR me conservou em vida, como prometeu; quarenta e cinco anos há que o SENHOR falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e, já agora, sou de oitenta e cinco anos. Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para voltar” (Js 14.10,11).
A diferença entre Calebe e Moisés é que este chegou aos cento e vinte anos sem que seus olhos se escurecessem, e em pleno vigor físico. Moisés é o único homem na Bíblia do qual é dito que chegou aos cento e vinte anos com a visão perfeita e sua força física inalterada.  Contudo, uma observação se faz necessária. É que em outro lugar Moisés declara: “... Sou, hoje, da idade de cento e vinte anos. Já não posso sair e entrar...” (Dt 31.2).
Observe que há uma aparente contradição em Deuteronômio 31.2 e 34.7. No primeiro texto Moisés diz que por causa da velhice ele já não podia sair e entrar. O segundo texto diz que não se lhe escureceram os olhos, nem se lhe abateu o vigor. Isso pode ser facilmente resolvido quando entendemos que, para um homem de sua idade, Moisés reteve sua capacidade física de maneira admirável, ainda que já não fosse capaz de sair e entrar como antes. Mesmo na velhice Moisés era um homem de grande vigor. Mesmo na velhice Moisés enfrentou a morte triunfantemente e em plena posse de suas faculdades.
Chamo sua atenção para a parte do texto de Deuteronômio 34.7 que diz: ”não se lhe escureceram os olhos”. Os oftalmologistas dizem que após os quarenta anos é praticamente impossível não perdermos um pouco da visão e, consequentemente, a utilização necessária de óculos. Se na época de Moisés existissem óculos, ele não precisaria usá-los com 120 anos de idade! Mas por que os olhos de Moisés não se escureceram?
A Bíblia fala constantemente de pessoas que na velhice tiveram a visão debilitada. Acerca de Isaque a Escritura relata: “Tendo-se envelhecido Isaque e já não podendo ver, porque os olhos se lhe enfraqueciam...” (Gn 27.1). A respeito do sacerdote Eli é dito: “Era Eli da idade de noventa e oito anos; os seus olhos tinham cegado, e já não podia ver” (1Sm 4.15). E Paulo já não era tão jovem quando escreveu aos gálatas: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11).  
Moisés é o único personagem bíblico a ter sua boa visão destacada. “... não se lhe escureceram os olhos...”. E esse destaque não foi feito por acaso.  Em Deuteronômio 34.1-4 está escrito: “Então, subiu Moisés das campinas de Moabe ao monte Nebo, ao cume de Pisga, que está defronte de Jericó; e o SENHOR lhe mostrou toda a terra de Gileade até Dã; e todo o Naftali, e a terra de Efraim, e Manassés; e toda a terra de Judá até ao mar ocidental; e o Neguebe e a campina do vale de Jericó, a cidade das Palmeiras, até Zoar. Disse-lhe o SENHOR: Esta é a terra que, sob juramento, prometi a Abraão, a Isaque e a Jacó, dizendo: à tua descendência a darei; eu te faço vê-la com os próprios olhos; porém não irás para lá” (cf. Nm 27.12-14; Dt 3.23-28; 32.48-52).
Notemos que o Senhor mostrou a Moisés, do cume de Pisga, toda a terra de Canaã. E acrescentou: “eu te faço vê-la com os próprios olhos”. A razão pela qual Deus preservou a visão de Moisés foi para que ele, mesmo de longe, pudesse contemplar a Terra Prometida.
Sabemos que Moisés e Arão não entraram na Terra Prometida porque pecaram contra Deus, conforme o registro de Números 20.2-13. Contudo, Deus permitiu que Moisés visse a terra de Canaã, não com o intuito de atormentá-lo e esmagá-lo de tristeza, como se quisesse dizer: “Está vendo o que você perdeu? Quem mandou pecar contra mim?”. Muito pelo contrário. O que temos aqui é o Deus misericordioso concedendo ao seu servo a graça de, pelo menos, avistar a nova terra, enchendo seu coração com paz e alegria na hora da morte.
Contemplar Canaã de longe e enxergá-la com nitidez foi o grande presente de Deus a Moisés antes de morrer.









segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Soberba de Uzias

Josivaldo de França Pereira


Uzias, também chamado de Azarias, teve o segundo mais longo reinado de Israel, 52 anos (2Rs 15.1; 2Cr 26.3). Depois dele só Manassés, com 55 anos de governo (2Rs 21.1; 2Cr 33.1). Se Uzias tivesse subido ao trono com a mesma idade de Manassés (12 anos invés de 16), seria dele o mais extenso reinado.
Poucos reis de Judá foram tão empreendedores quanto Uzias. Acerca de Ezequias, por exemplo, a Bíblia diz que ele “fez o açude e o aqueduto, e trouxe água para dentro da cidade [de Jerusalém]” (2Rs 20.20). Contudo, nada comparado às realizações do rei Uzias. Ele foi um grande estrategista militar com muitas vitórias sobre os principais inimigos de Israel – os assírios, filisteus, arábios e meunitas (2Cr 26.2,6,7) – construindo cidades mesmo em território inimigo (2Cr 26.2,6). “Os amonitas deram presentes a Uzias, cujo renome se espalhara até a entrada do Egito, porque se tinha tornado em extremo forte” (2Cr 26.8). Fez de Jerusalém uma fortaleza com torres edificadas em pontos estratégicos das muralhas (cf. 2Cr 26.9).
Também edificou torres no deserto e cavou muitas cisternas, porque tinha muito gado, tanto nos vales como nas campinas; tinha lavradores e vinhateiros, nos montes e nos campos férteis, porque era amigo da agricultura (2Cr 26.10).
Debaixo das suas ordens, havia um exército guerreiro de trezentos e sete mil e quinhentos homens, que faziam a guerra com grande poder, para ajudar o rei contra os inimigos. Preparou-lhes Uzias, para todo o exército, escudos, lanças, capacetes, couraças e arcos e até fundas para atirar pedras (2Cr 26.13,14).
Fabricou em Jerusalém máquinas, de invenção de homens peritos, destinadas para as torres e cantos das muralhas, para atirarem flechas e grandes pedras; divulgou-se a sua fama até mesmo longe, porque foi maravilhosamente ajudado, até que se tornou forte (2Cr 26.15).
No entanto, nenhum homem que atribua a si mesmo o sucesso de seus feitos é verdadeiramente forte. O rei Uzias “se tinha tornado em extremo forte” (2Cr 26.8), “se tornou forte” (2Cr 26.15) porque Deus o fez prosperar em todo tempo em que ele, Uzias, fez o que era reto perante o Senhor e se propôs a buscá-lo com inteireza de coração (2Rs 15.3; 2Cr 26.4,5). Tristemente, no final dos seus cinquenta e poucos anos de reinado a soberba tomou conta do coração do rei. A Bíblia relata: Mas, havendo-se já fortalecido, exaltou-se o seu coração para a sua própria ruína, e cometeu transgressões contra o SENHOR, seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso (2Cr 26.16). Quando o ser humano se envaidece a tendência é cometer loucuras.
Uzias se achou no direito de entrar no templo de Deus a fim de supostamente queimar incenso ao Senhor. Digo “supostamente” porque o que o rei desejava de fato era se aparecer. Qualquer semelhança não é mera coincidência com os dias de hoje. Quantos vivem dizendo que fazem isso e aquilo para a glória do Senhor quando, na verdade, desejam é mesmo o louvor que pertence a Deus?! E olha que estou falando de gente bem menor que Uzias.
O rei Uzias cometeu transgressões contra o Senhor, praticando sacrilégio e profanando a Casa de Deus, ignorando completamente o que a Lei dizia. Adentrar no santuário para queimar incenso era competência do sumo sacerdote, conforme prescreveu o próprio Deus a Moisés (Êx 30.7,8; Nm 3.10). Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, com oitenta sacerdotes do SENHOR, homens da maior firmeza; e resistiram ao rei Uzias e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o SENHOR, mas aos sacerdotes filhos de Arão, que são consagrados para este mister; sai do santuário, porque transgrediste; nem será isso para honra tua da parte do SENHOR Deus (2Cr 26.17,18).
Há de se destacar a postura de Azarias e dos oitenta sacerdotes do Senhor diante do rei. O escritor sagrado do livro das Crônicas observa que esses sacerdotes eram “homens da maior firmeza”, ou seja, firmes na doutrina e prática da Lei do Senhor, e na maneira como resistiram ao rei Uzias. Por sua transgressão Uzias perdeu o direito de ser chamado de rei pelos sacerdotes. Simplesmente o chamam de Uzias: “A ti, Uzias...”.
Os sacerdotes ainda procuraram trazê-lo à razão lembrando-lhe a quem pertencia tal ofício. Expulsaram o rei com um enfático: “sai do santuário, porque transgrediste...”. Então, Uzias se indignou; tinha o incensário na mão para queimar incenso; indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu na testa perante os sacerdotes, na Casa do SENHOR, junto ao altar do incenso. Então, o sumo sacerdote Azarias e todos os sacerdotes voltaram-se para ele, e eis que estava leproso na testa, e apressadamente o lançaram fora; até ele mesmo se deu pressa em sair, visto que o SENHOR o ferira (2Cr 26.19,20). Duas coisas chamam nossa atenção aqui: (1) Apesar da seriedade do que Uzias tinha feito, Deus não age antes que o rei fique “indignado”. A justa ira de Deus só irrompe contra a ira rebelde humana. (2) Deus não fica indiferente quando sua santidade é manipulada.
Os profetas Amós e Zacarias (o mesmo que é citado em 2Cr 26.5), falam de um grande terremoto ocorrido na época do rei Uzias (Am 1.1; Zc 14.5). Segundo o historiador Josefo, esse terremoto coincidiu com o ato de sacrilégio cometido por Uzias (Antiguidades IX,10.4).
Uzias, o rei que não deu glória a Deus por tudo de bom que o Senhor fez a ele e através dele, acabou sendo vítima de si mesmo. Ele ficou leproso até o dia de sua morte, numa casa separada, porque foi excluído da Casa do Senhor (2Rs 15.5; 2Cr 26.21). Além disso, a doença de Uzias em vida comprometeu o seu lugar de descanso na morte, pois foi sepultado não no sepulcro dos reis, e sim, no campo dos sepulcros que era dos reis, porque disseram: “Ele é leproso” (2Cr 26.23).
No ano da morte do rei Uzias o profeta Isaías viu o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono (Is 6.1). Eis ali, num alto e sublime trono, o Verdadeiro, o Maior de todos os reis.
Há um provérbio de Salomão que diz: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). O apóstolo Paulo nos dá a receita de como nos livrar da soberba quando Deus nos faz prosperar: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10).

Sola Gratia
Soli Deo Gloria
Somente pela graça para a glória de Deus




Manassés: seus pecados, castigo e conversão

(2Rs 21.1-9,17,18; 2Cr 33.1-20)

Josivaldo de França Pereira


Manassés era o filho mais velho do piedoso Ezequias. Ele subiu ao trono aos doze anos de idade e cinquenta e cinco anos reinou em Jerusalém, mas não seguiu os bons exemplos deixados por seu pai. Manassés fez o que era mau perante o Senhor mais do que qualquer rei de Judá e Israel, e até pior que as nações que o Senhor Deus expulsou de suas possessões diante dos filhos de Israel.
Seus pecados. Manassés tornou a edificar os altos que seu pai Ezequias tinha derribado, levantou altares aos baalins, fez postes-ídolos e se prostrou diante de todo o exército dos céus e os serviu. Edificou altares na Casa de Deus, da qual o Senhor tinha dito: “Em Jerusalém porei o meu nome para sempre”. Também edificou altares a todo exército dos céus nos átrios da Casa do Senhor. E como se isso não bastasse, queimou em sacrifício seus filhos como oferta no vale do filho de Hinom. Esse vale se transformaria, mais tarde, no aterro sanitário de Jerusalém.
Manassés se tornou agoureiro, pois adivinhava pelas nuvens, praticava feitiçarias, tratava com necromantes (os espíritas da época) e feiticeiros. A Bíblia diz que ele prosseguiu em fazer o que era mau perante o Senhor para provocá-lo à ira. E mais:
Também pôs a imagem de escultura do ídolo que tinha feito na Casa de Deus, de que Deus dissera a Davi e a Salomão, seu filho: Nesta casa e em Jerusalém, que escolhi de todas as tribos de Israel, porei o meu nome para sempre e não removerei mais o pé de Israel da terra que destinei a seus pais, contanto que tenham cuidado de fazer tudo o que lhes tenho mandado, toda a lei, os estatutos e os juízos dados por intermédio de Moisés. Manassés fez errar a Judá e os moradores de Jerusalém, de maneira que fizeram pior do que as nações que o SENHOR tinha destruído de diante dos filhos de Israel.
Além disso, Manassés derramou muitíssimo sangue inocente, até encher Jerusalém de um ao outro extremo, afora o seu pecado, com que fez pecar a Judá, praticando o que era mau perante o SENHOR.
Seu castigo. O castigo de Deus sobre Manassés e Jerusalém não veio sem que antes o Senhor enviasse seus profetas a fim de que o rei e seu povo se arrependessem de seus pecados. Deus não castiga sem que primeiro dê várias oportunidades para mudança de mente e atitudes. Contudo, Manassés e o povo não deram ouvidos ao Senhor. Algo semelhante encontramos no último capítulo das Crônicas (2Cr 36.15,16) e no livro do profeta Jeremias: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei. Mas não me destes ouvidos, nem me atendestes; endurecestes a cerviz e fizestes pior do que vossos pais” (Jr 7.25,26).
Consequentemente, o Senhor trouxe contra eles o exército da Assíria. Manassés foi preso com ganchos, amarrado com cadeias e levado à Babilônia. O fato de o rei ser levado à Babilônia e não para a Assíria, como era de se esperar, é porque naqueles dias a terra dos caldeus estava sob o domínio de Esaradom, rei da Assíria.
O cativeiro de Manassés foi uma prévia do que aguardava o povo caso ele não se arrependesse de seus pecados. Na verdade, a primeira referência de que Judá seria levado para o cativeiro babilônico é feita no governo de Manassés (cf. 2Rs 21.10-15). No livro do profeta Jeremias está escrito: “Entregá-los-ei para que sejam um espetáculo horrendo para todos os reinos da terra; por causa de Manassés, filho de Ezequias, rei de Judá, por tudo quanto fez em Jerusalém” (Jr 15.4).
Sua conversão. A mudança de vida de Manassés aparece somente no livro das Crônicas. Por uma questão de propósito e objetivo ela é omitida no livro dos Reis. Manassés ilustra um dos temas centrais de Crônicas, de que Deus pode cumprir sua promessa de restauração ao arrependido (cf. 2Cr 7.12-16), mesmo nas circunstâncias mais extremas. A oração de Manassés é uma das mais tremendas da Bíblia. Ele, angustiado, suplicou deveras ao SENHOR, seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais; fez-lhe oração, e Deus se tornou favorável para com ele, atendeu-lhe a súplica e o fez voltar para Jerusalém, ao seu reino; então, reconheceu Manassés que o SENHOR era Deus.
Se comparada com Joás, Amazias e Uzias, a vida de Manassés muda de direção não para pior mas para melhor. Somente Manassés se converte de seus pecados. O modelo alternante de infidelidade e obediência, também seguido por seus antecessores, é rompido com seu arrependimento. Os resultados da conversão de Manassés foram extraordinários. Depois disto, edificou o muro de fora da Cidade de Davi, ao ocidente de Giom, no vale, e à entrada da Porta do Peixe, abrangendo Ofel, e o levantou mui alto; também pôs chefes militares em todas as cidades fortificadas de Judá. Tirou da casa do SENHOR os deuses estranhos e o ídolo, como também todos os altares que edificara no monte da Casa do SENHOR e em Jerusalém, e os lançou fora da cidade. Restaurou o altar do SENHOR, sacrificou sobre ele ofertas pacíficas e de ações de graças e ordenou a Judá que servisse ao SENHOR, Deus de Israel. Contudo, o povo ainda sacrificava nos altos, mas somente ao SENHOR, seu Deus. Uma mudança radical que lembra as conversões de Paulo no caminho de Damasco (At 9.1-9) e dos tessalonicenses em 1Ts 1.
A mudança de coração de Manassés representa uma oportunidade para um fim prematuro ou mesmo uma reversão do Juízo de Deus, se tão somente a geração final de Judá tivesse se humilhado (cf. 2Cr 36.12-16).


















































O Batismo no Breve Catecismo de Westminster

Josivaldo de França Pereira


Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
De acordo com o Breve Catecismo, como podemos definir o batismo cristão e qual o modo correto de aplicá-lo? Qual é a única fórmula aceitável de batismo e o que ele significa?

Quanto à definição do batismo

Segundo o Breve Catecismo, "Batismo é um sacramento no qual o lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa e sela a nossa união com Cristo, a participação das bênçãos do pacto da graça, e a promessa de pertencermos ao Senhor" (Resposta 94; cf. Mt 28.19; Jo 3.5; Rm 6.1-11; Gl 3.27).

Quanto ao modo do batismo

A forma ou modo de batismo indicado pelo Breve Catecismo é "o lavar com água". O que significa a expressão “lavar com a água” no Breve Catecismo de Westminster? O uso da preposição "com" ao invés de "em" indica que por "lavar" o Breve Catecismo não quer dizer necessariamente "banhar-se" ou "imergir" em água. Em outras palavras, "Não é necessário imergir o candidato na água, mas o batismo é corretamente administrado derramando ou aspergindo água sobre a pessoa". [1].

Quanto à fórmula do batismo

O batismo deve ser feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Resposta 94; cf. Mt 28.19). Em Mateus 28.19 a preposição grega eis (na expressão eis to onoma = em nome), indica finalidade e pode ser interpretada como "em relação a", ou "na profissão de fé em alguém e na sincera obediência a alguém". A palavra onoma (nome) é usada no mesmo sentido do hebraico shem como indicativo de todas as qualidades por meio das quais Deus se dá a conhecer, e que constitui a soma total de tudo o que ele é para quem o adora. A fórmula batismal indica que mediante o batismo (isto é, mediante tudo o que o batismo significa) aquele que o recebe encontra-se em uma relação especial com Deus. [2].

Quanto ao significado do batismo

Quanto ao seu significado, o batismo é um sacramento do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo (Mt 28.19; Mc 16.16) não só para admitir na igreja visível a pessoa batizada (1Co 12.13; Gl 3.27,28), mas também para que seja para ela um sinal e selo do pacto da graça (Rm 4.11; Cl 2.11,12), de sua união com Cristo (Rm 6.5; Gl 3.27), de sua regeneração (Tt 3.5), da remissão de seus pecados (Mc 1.4; At 2.38; 22.16) e de sua submissão a Deus por meio de Jesus Cristo para andar em novidade de vida (Rm 6.3,4). [3]. O batismo deve representar a morte completa como de uma pessoa que foi sepultada; mas, também, deve representar uma vida inteiramente nova, como de alguém que venha da ressurreição.
Convém salientar que tanto em Romanos 6.4 quanto em Colossenses 2.12, Paulo não trata de um batismo com água (como parece entender a maioria dos imersionistas), mas de um batismo espiritual representado desta maneira, isto é, representa, como já foi mencionado, o novo nascimento sob a figura de sermos sepultados (morrer para o pecado) e ressuscitados (viver para Cristo).

NOTAS
[1] Confissão de Fé de Westminster (CFW), XXVIII,3.
[2] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p. 746-47; Charles Hodge, Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 1419-20.
[3] Cf. CFW, XXVIII,1.