domingo, 11 de novembro de 2012

A origem das espécies

Josivaldo de França Pereira

 
A verdadeira origem das espécies não é aquela proposta pelo evolucionismo e protagonizada por Charles Darwin no livro A Origem das Espécies, publicado em 1859.  A verdadeira origem das espécies está na Bíblia, em Gênesis 1 e 2. “Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim fez. E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom” (Gn 1.24,25).
O homem e a mulher não foram criados segundo a espécie de nenhum animal, mas à imagem e semelhança de Deus: “Também disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança... Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.26,27). “Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). “Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe” (Gn 2.21,22).
Na época de Darwin, um problema cuja explicação dividia pesquisadores e filósofos era: “Seriam imutáveis as espécies vivas como conhecidas sobre a Terra, ou teriam elas sofrido com o tempo uma lenta, mas progressiva transformação?”. A teoria da evolução de Darwin já havia sido anteriormente esboçada por seu avô, Erasmus Darwin, e cientista como Lamarck, e por seu contemporâneo, o também naturalista inglês Alfred Russel Wallace. A tese darwiniana da evolução resume-se na seguinte ideia: “As espécies animais derivam umas das outras graças a uma seleção natural”. Darwin chegou a essa conclusão após uma viagem de quase cinco anos ao redor do mundo, e principalmente por suas observações nas ilhas Galápagos.[1]
Segundo Darwin, esses animais apresentavam definidas modificações de caracteres externos que variavam até de ilha para ilha. Tais modificações – por exemplo, o tamanho do bico de uma determinada espécie de pássaros – estariam relacionadas com a diversidade dos ambientes que habitavam.
Teoricamente, Darwin admitia a existência de Deus, contudo, na prática, negava a imutabilidade das espécies. Ora, seria absurdo afirmar que o Deus Criador, grandioso em poder e criatividade, não seria capaz de criar espécies distintas para lugares diferentes? O criacionista não crê apenas que Deus criou todas as espécies existentes na face da terra, mas também que ele formou todas as espécies imutáveis. O mimetismo, por exemplo, não é uma característica evolutiva para certas espécies – como o camaleão, algumas borboletas, aves e peixes – mas uma adaptação dada pelo próprio Deus a elas. O criacionista também não vê problema em afirmar que na luta pela sobrevivência apenas os mais aptos vencem e se reproduzem. De fato, são mais aptos os seres que dispõem de bons recursos adaptativos dados pelo Criador.
No que concerne à origem do ser humano, é preciso destacar que ele não pode ser classificado como “animal” em sentido algum. Parece que o primeiro a chamar o homem de animal foi o filósofo grego Aristóteles (384 a. C – 322 a. C.) em sua obra Política. Para Aristóteles, a organização social adequada à natureza do homem é a polis: “a cidade (polis) encontra-se entre as realidades que existem naturalmente, e o homem é por natureza um animal político”. Com o advento do evolucionismo nos séculos XVIII e XIX, passou-se a denominar o homem como “animal racional”.
À luz da Bíblia o homem é político e racional, porém, jamais animal. A Bíblia relata que Deus criou os animais segundo a espécie deles (Gn 1.20-25); no entanto, ao criar o homem do pó da terra Deus o fez de acordo com a sua imagem e semelhança (Gn 1.26-28).[2]



[1] As ilhas Galápagos ficam no oceano Pacífico, a cerca de 1000 km do litoral do Equador, país a que pertencem.
[2] Veja a postagem “Imagem e Semelhança”.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Imagem e Semelhança

Josivaldo de França Pereira


Para criar os vegetais e animais o Senhor Deus simplesmente ordenou a terra e às águas e estas produziram tanto uns quanto outros em abundância (Gn 1.11,12,20,21). Contudo, no momento de criar o homem houve uma mudança de método. Disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” (Gn 1.26). De início percebemos que na palavra “façamos” a Trindade se reúne para criar o homem. E isso, segundo Calvino, é a mais alta honra com que Deus nos tem dignificado.[1]
Observemos, também, a equivalência dos termos “imagem” e “semelhança”. Essas palavras não se referem a duas coisas distintas. São sinônimas, traduzem a mesma realidade. Trata-se do fenômeno de paralelismo ou correspondência, tão frequente na poesia hebraica. É por isso que podemos encontrar em diferentes trechos das Escrituras o intercâmbio dessas palavras, ou a presença de ambas, expressando a mesma realidade.
Em Gênesis 1.26 são usadas as duas palavras (imagem e semelhança), mas no verso 27 apenas a palavra “imagem”. Em Gênesis 5.1 aparece apenas o termo “semelhança”, enquanto que no versículo 3 encontram-se os dois termos. Gênesis 9.6 contém somente a palavra “imagem”, como expressão completa da ideia. Em Colossenses 3.10 e Tiago 3.9 “imagem” e “semelhança” se alternam, ensinando a mesma verdade. Segundo Berkhof, a opinião usual é que “semelhança” foi adicionada à “imagem” para expressar a ideia de que era, na verdade, uma “imagem perfeita”.
“Imagem” ou “semelhança” nunca se refere ao aspecto físico porque Deus é espírito e não tem corpo como os homens.[2] Desse modo, em que consiste a imagem de Deus no homem? Não sendo física a imagem ou semelhança de Deus, conclui-se que em outras características peculiares ao homem ela deve ser o reflexo de Deus:
(a) Em seu sentimento moral. Adão tinha, antes de pecar, uma disposição moral para o bem. Essa disposição pode ser identificada na retidão original e na santidade com que o homem foi criado, pois Deus é santo. Somente no ser humano se encontra o sentimento moral, reflexo, ainda que tênue, de sua retidão e santidade originais, deturpado pelo pecado (Ec 7.29). A salvação concedida por Cristo restaura no homem a grandeza desse aspecto da imagem de Deus (Ef 4.22-24).
(b) Em sua expressão racional. É com essa capacidade que o homem evolui nas artes, nas letras, nas ciências e em todos os demais aspectos da vida. Entre os animais também existem fatos de surpreendente beleza e sabedoria. Veja, por exemplo, a engenharia das abelhas. Elas constroem favos, excelente obra de arte, onde armazenam o mel. No entanto, é somente isto que elas fazem e sempre do mesmo jeito durante milhares de anos. De igual forma, todos os outros animais em suas respectivas atividades. O ser humano é diferente. Sua inteligência o leva a criar novas condições de vida, a aperfeiçoar seus métodos e evoluir em seus inventos. Lembre-s e que Adão teve inteligência para por nomes em todos os animais do campo e em todas as aves de céu (Gn 2.19,20), como também em dominá-los com sabedoria e respeito à natureza.
(c) Em sua liberdade. Deus, como ser livre, projetou no homem esse traço do seu caráter divino. A liberdade é uma das grandes virtudes da vida e Deus presenteou o homem e a mulher com ela. Deus dotou a vontade de Adão e Eva com tão grande liberdade que eles não foram forçados a fazer o bem ou o mal; tinham a liberdade de querer e fazer aquilo que era bom e agradável a Deus, embora mudavelmente. Para infelicidade deles e nossa, pecaram, e a liberdade que o homem natural possui nunca se refere à busca do bem espiritual (1Co 2.14).
(d) Em sua imortalidade. A alma humana, a essência do próprio indivíduo, é eterna, como Deus é eterno. A morte física é consequência do pecado; entretanto, mesmo após a morte do corpo, o espírito continua vivendo (Ec 12.7; Lc 16.22-24; 2Co 5.1-8).
(e) Em seu domínio e governo. A imagem de Deus imputada na pessoa, a de reinar ou dominar, que é constatada em Gênesis 1.26, é elaborada logo depois nos versículos 27 e 28. O versículo 27 esclarece que essa tarefa pertence ao homem e à mulher. Juntos, homem e mulher tornam-se o mais completo reflexo da imagem de Deus. O verso 28 elabora a imagem de Deus no ser humano em três áreas de responsabilidade e administração: a sua experiência social e familiar; a sua responsabilidade econômica e ecológica, e o governo.
A criação do homem e da mulher foi um dos maiores acontecimentos sobre a face da terra. Somos parte do programa eterno de Deus e testemunhas de seu poder e amor insondáveis. Que a consciência dessas verdades nos torne mais agradecidos e devotados ao Deus Criador, que tanto tem feito por nós.



[1] Outros teólogos preferem chamar o verbo “façamos” de Gênesis 1.26 de “plural majestático”.
[2] Querer identificar aspectos físicos na expressão “imagem e semelhança”, com o argumento de que temos o corpo que Cristo teria, não é bíblico. A Bíblia é clara ao dizer que foi Cristo quem assumiu a forma do nosso corpo. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Que é Ciência?

Josivaldo de França Pereira

 

Ciência é o conjunto metódico de conhecimentos obtidos mediante a observação e a experiência.  
A Ciência como disciplina é relativamente nova, surgiu apenas no século XVI, com Galileu Galilei. O termo “ciência” origina-se da palavra latina scientia, significando conhecimento.
A Ciência procura saber quando, como e por que as coisas acontecem. Entretanto, quando se trata da origem das espécies, do ser humano e do Universo, o que se ensina nas escolas é que existem dois pontos de vista: o Criacionista e o Evolucionista. Que o Criacionismo se baseia na Religião e o Evolucionismo na Ciência. E deixa-se para lá o Criacionismo.
Via de regra, de acordo com a Ciência, aquilo que não pode ser comprovado com evidências e prova cientifica deve ser naturalmente descartado. Contudo, nem tudo que é aceito pela Ciência como “científico” é de fato Ciência. Por exemplo, a paleontologia, ciência que estuda a evolução das espécies através dos fósseis. Para proceder a uma experimentação com animais é preciso estudá-los vivos. Mas como fazer experiências com espécies que já se extinguiram?
Ademais, para a Ciência, uma teoria é uma hipótese definitivamente comprovada. Todavia, isso não é sempre assim. Conquanto possamos dizer que a teoria da relatividade de Einstein seja uma teoria definitivamente comprovada, o mesmo não se pode dizer em relação à teoria da evolução.
No entanto, nossas crianças são ensinadas como se a teoria fosse Ciência e, a elas, não é dado o direito de conhecer o outro lado, ou seja, o ponto de vista Criacionista.
Os professores evolucionistas simplesmente desdenham do Criacionismo porque, em geral, estão cheios de preconceitos em relação a Deus, à Fé e à Religião. Eles não conhecem o Criacionismo e se conhecessem o Evolucionismo de verdade não o ensinariam como se fosse Ciência.
Você sabia que Charles Darwin não era ateu e o que ele ensinou em “A Origem das Espécies” está longe da distorção que seus seguidores fizeram de seus ensinamentos? Darwin era evolucionista sim, porém, ele nunca disse que o homem veio do macaco.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Da Existência de Deus

Josivaldo de França Pereira

 
Deus existe por definição, sem que, no entanto, possamos tomar a sua definição como prova lógica ou científica da existência dele. Deus é o que é (Êx 3.14). Não há prova científica da existência de Deus. Entretanto, isso não significa que não haja evidências científicas que apontem para a existência de um Criador. Evidências históricas, argumentos filosóficos e teológicos mostram ser mais razoável admitir a existência de Deus do que negá-la (Karl Heinz).
Embora a teologia reformada considere a existência de Deus como uma pressuposição completamente razoável, ela não pretende ser capaz de demonstrá-la por meio da argumentação lógica (Louis Berkhof). A intenção de provar a existência de Deus pode resultar inútil ou desnecessária. Inútil, se o investigador crê que Deus é galardoador dos que o buscam. E desnecessária se tentar forçar uma pessoa que não tem esta fé chegar, por meio de argumentos, ao convencimento em sentido lógico (Abraham Kuyper).
O cristão aceita pela fé a verdade da existência de Deus. Mas não por uma fé cega; porém, por uma fé que se baseia na evidência, e a evidência se fundamenta, antes de tudo, na Escritura como Palavra inspirada por Deus e, consequentemente, na revelação de Deus na natureza. A prova bíblica da existência de Deus não nos vem na forma de uma explícita declaração, e muito menos em forma de argumento lógico (L. Berkhof). Veja, por exemplo, Gênesis 1.1; Oséias 6.3; João 7.17; Romanos 1.20,21; 1Coríntios 1.20,21; Hb 11.6.
Crendo ou não na existência de Deus ninguém vive de fato sem ele. Conforme disse o apóstolo Paulo em Atenas, numa citação aos poetas gregos: “nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28). O ser humano tem sido descrito como “incuravelmente religioso”. Isso é apenas outra maneira de dizer que a religião é um fenômeno universal. Os missionários testemunham a presença da religião, de uma maneira ou de outra, entre todas as nações e tribos da terra. A religião é um dos fenômenos mais notáveis da vida humana.
Em Eclesiastes 3.11 Salomão afirma que Deus pôs a eternidade no coração do ser humano. Por que será que Deus colocou a aspiração do infinito na alma humana? Naturalmente para que o ser humano não se degrade, levado por instintos que podem prendê-lo apenas à materialidade das coisas que passam (Miguel Rizzo).
A verdade é que ninguém nasce ateu. O ateísmo resulta, em última análise, do estado de perversão moral do ser humano e do seu desejo de se esconder de Deus. Quanto ao nosso Deus, ele é o ser absolutamente necessário (causa de si), absolutamente criador (causa de tudo), absolutamente absoluto (não depende de nada, tudo depende dele): é o Ser dos seres, e o fundamento de todos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Paulo, homem

Josivaldo de França Pereira


A Bíblia apresenta vários exemplos de homens e mulheres de Deus que passaram por momentos de fraqueza e abalo emocional. Numa época em que muitos se apresentam como supercrentes e falsas teologias enganam tanta gente, que tal aprendermos algo mais com um deles?
A tristeza de Paulo. Em sua epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo descreve como se sentia em relação à incredulidade de seus compatriotas judeus: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: tenho grande tristeza e incessante dor no coração; porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne” (Rm 9.1-3).[1] Aos coríntios ele diz que não se apresentaria a eles como da primeira vez, ou seja: “Isto deliberei por mim mesmo: não voltar a encontrar-me convosco em tristeza” (2Co 2.1). No entanto, é provável que a mais impressionante passagem bíblica sobre tristeza de Paulo tenha sido em prol de Epafrodito, seu colaborador na igreja de Filipos: “Com efeito, adoeceu mortalmente; Deus, porém, se compadeceu dele e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Por isso, tanto mais me apresso em mandá-lo, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu tenha menos tristeza” (Fp 2.27,28). “(...) os crentes filipenses e o próprio apóstolo sentiriam profundamente a perda daquele fiel servo de Deus. (...). Vemos, pois, que Deus respeita os sentimentos humanos corretos, o que não é uma bênção pequena”.[2]
O medo de Paulo. O apóstolo Paulo já vinha sofrendo várias ameaças e perseguições em sua obra missionária. Foi assim em Damasco, Jerusalém, Antioquia da Síria, Icônio, Listra, Filipos, Tessalônica, Beréia, como em tantos outros lugares que ele ainda passaria. Contudo, é em Corinto que o medo do apóstolo fica evidente, a ponto de Lucas relatar: “Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade. E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18.9-11). Algo semelhante foi dito por Deus ao jovem Jeremias: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o SENHOR” (Jr 1.8; cf. 1.19). Em sua primeira epístola aos Coríntios Paulo declara: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós” (1Co 2.1-3). “Os termos temor e tremor estão relacionados às inúmeras ameaças políticas e sociais que Paulo teve de enfrentar”.[3]
O desencorajamento de Paulo. Não é o mesmo que covardia, mas abatimento da alma. O desencorajamento deste gigante da fé aparece após ele ser preso em Jerusalém e fazer sua defesa perante o povo e o Sinédrio. “Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele, disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (At 23.11). Estava Paulo deprimido, desanimado e apreensivo com que o aguardava pela frente? A palavra de ordem “Coragem!” sugere tudo isso. “Jesus usou esse termo [coragem] muitas vezes durante seu ministério terreno. Por exemplo, quando andou sobre as ondas do lago da Galiléia e os discípulos ficaram cheios de medo, ele lhes disse que tivessem coragem (Mt 14.27; Mc 6.50). Aqui em Jerusalém, Jesus encoraja Paulo a ser destemido”.[4] Uma experiência de abatimento semelhante a de Paulo foi vivida por Josué, o sucessor de Moisés. O Senhor falou a Josué e o animou (Js 1.1-9). David Livingstone, após sofrer um ataque de leão numa de suas jornadas na África, disse que sua motivação em continuar na obra missionária era a promessa de Jesus: “... E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).[5]
O desespero de Paulo. Em sua segunda epístola aos Coríntios o apóstolo diz: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida” (2Co 1.8). Paulo nunca escondia suas fraquezas, pelo contrário, ele não queria que os irmãos ignorassem a natureza das tribulações que vieram sobre ele e aos demais missionários na Ásia. Bem diferente dos “apóstolos” defensores da Confissão Positiva que afirmam que se um crente sofre e se desespera é porque não tem fé em Deus ou está em pecado. Muitos desses modernos fariseus quando ficam doentes inventam mentiras somente para não aparecer debilitados em público e, assim, contradizer a falsa doutrina que eles defendem. “O risco que Paulo correu foi tão grande que ele o descreve como um fardo extremamente pesado que ele não era capaz de suportar fisicamente. Mais do que isso, espiritualmente lhe faltava a força necessária e ele entrou num estado de desespero (contrastar com 4.8). Ele já esperava o fim de sua vida terrena a não ser que o próprio Deus interviesse e, por assim dizer, o trouxesse de volta dos mortos”.[6] Deus não nos promete um caminho suave, mas garante nossa chegada segura.





[1] Cf. William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 407-09; F. F. Bruce, Romanos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 4ª ed. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 148.
[2] Cf. R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 41. 
[3] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 112. Para um ponto de vista diferente, consulte Leon Morris, 1Coríntios: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 41.
[4] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 426.
[5] Veja esta mesma certeza de Livingstone expressa em uma de suas cartas em W. Garden Blaike, The personal life of David Livingstone. New York, Chicago And Toronto: Fleming H. Revell Company, 1880, p. 497,98.
[6] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 2Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 74. Consulte também Colin Kruse, 2Coríntios: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1994, p. 70.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Que É Talento?

Josivaldo de França Pereira

 
Talento é a habilidade nata que diferencia um indivíduo da maioria das outras pessoas. É uma dádiva divina a cada um de nós, sem exceção; portanto, não existe ser humano sem talento. Existe sim o desconhecimento momentâneo, o descobrimento precoce ou tardio do talento.
É o talento que faz uma pessoa aprender com facilidade uma língua, tocar com precisão um instrumento musical ou escrever bem, por exemplo.   
Há quem tente durante a vida inteira falar um idioma, tocar um instrumento sem, contudo, conseguir dominar essas habilidades. Essa falta de domínio, por acaso, seria ausência de empenho e dedicação? Não necessariamente. Muitos até se esforçam bastante, porém, o que falta é o talento específico para o sucesso em tais atividades.
Evidentemente, quem tem aquele talento aprende com mais naturalidade aquilo para o qual ele nasceu, entretanto, ninguém recebe seu dom como se fosse um pacote fechado, perfeito para ser usado. O talento dado por Deus a cada um é como uma pedra bruta a ser lapidada por nós.
Além disso, o talentoso aprende com seus próprios erros. Isso quer dizer que ele não vai acertar sempre ou ficar toda hora satisfeito com sua tarefa. A perfeição no que a gente realiza e aprecia é resultado de trabalho árduo e esforço diário. O aprendiz de línguas estudará bastante, o musicista se dedicará ao seu instrumento e o escritor lutará com o texto até que ele fique “perfeito”, ainda que cada um, com seu talento, tenha mais facilidade em suas respectivas áreas em relação aos demais mortais. 
O que diferencia, basicamente, alguém que tem o dom naquilo em que trabalha dos demais que não têm o mesmo talento é que o primeiro não desiste e gosta do que faz.
Quantos talentos uma só pessoa poderia ter? Quantos Deus achar necessários. Todos os dons podem ser desempenhados com a mesma habilidade por uma única pessoa? Sim, mas não necessariamente. Muitas vezes os talentos se completam num auxílio mútuo e entrosado de uns com os outros e, às vezes, um até sobressai, ora mais, ora menos, em relação aos demais.
Concluindo: Na parábola dos talentos Jesus ensina que Deus requererá de nós os frutos daquilo para o qual ele nos capacitou. Se o seu talento é o de instrumentista, por exemplo, você não será cobrado por não ser um escritor. O talento que você e eu recebemos de Deus é para juntos fazermos do mundo um lugar melhor, pois, certamente, ninguém tem todos os dons. 

A Doutrina da Perseverança dos Santos na Confissão de Fé de Westminster

Josivaldo de França Pereira

 
Elaborada no século XVII pela famosa Assembleia de Westminster (Inglaterra), a Confissão de Fé (CFW) forma, juntamente com o Catecismo Maior e Breve de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
As igrejas de origem reformada praticamente são as únicas que sustentam a verdade bíblica do crente uma vez salvo, sempre salvo, isto é, aquele que está em Cristo nunca poderá decair definitivamente do estado de graça. Os católicos romanos, metodistas, luteranos e as igrejas arminianas em geral afirmam que um crente em Cristo Jesus pode cair em definitivo do estado de graça, não aceitando, portanto, tais igrejas, a doutrina da perseverança dos santos.
Como devemos entender a doutrina da perseverança dos santos? O que a Bíblia e a Confissão de Fé de Westminster dizem sobre ela?
Entendendo a doutrina da perseverança dos santos
O fato de os católicos, arminianos e luteranos negarem esta doutrina é porque ela pode ser facilmente mal entendida. Um estudo sério da Bíblia sobre a doutrina da perseverança dos santos tem feito com que alguns não-reformados mudem de atitude em relação a ela. Por exemplo: hoje em dia nem todos os arminianos afirmam que um cristão pode perder a salvação e ir para o inferno. Alguns deles asseveram que os crentes estão eternamente seguros em Cristo; que o pecador uma vez regenerado, nunca jamais perderá a sua salvação.
Muito do mal entendido da presente doutrina é porque a expressão “perseverança dos santos” sugere uma atividade contínua dos próprios crentes no caminho da salvação. Entretanto, esta perseverança não deve ser considerada, a priori, como uma atividade exclusiva do crente, mas antes, como uma obra em que ele coopera, mediante a graça de Deus (cf. 1Co 15.10; 2Co 3.5; Fp 2.13). Nenhum crente ficaria em pé se fosse deixado sozinho.
Resta-nos saber que a doutrina da perseverança dos santos não ensina que todos os que professam a fé cristã estão garantidos para o céu. São apenas os santos (os separados pelo Espírito) que perseveram até o fim; são os crentes que nasceram de Deus pela fé em Jesus Cristo. “Muitos que professam a fé cristã caem, mas eles não caem da graça, pois nunca estiveram na graça. Os crentes verdadeiros caem em tentações e cometem graves pecados, às vezes, mas esses pecados não os levam a perder a salvação ou a separá-los de Cristo” (Steele e Thomas; cf. CFW, XVII, 3). Portanto, “Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, eficazmente chamados e santificados pelo seu Espírito, não podem cair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim, e estarão eternamente salvos" (CFW, XVII, 1).
Prova bíblica da perseverança dos santos
A doutrina da perseverança dos santos pode ser provada pelas declarações diretas da Bíblia, tais como João 10.27-29: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar”; Romanos 11.29: “Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”; Filipenses 1.6: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus”; 2Tessalonicenses 3.3: “Todavia o Senhor é fiel; ele vos confirmará e guardará do maligno”; 2Timóteo 1.12: “E por isso estou sofrendo estas cousas, todavia não me envergonho; porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”; 2Timóteo 4.18: “O Senhor me livrará também de toda obra maligna, e me levará salvo para o seu reino celestial”; 1João 5.13: “Estas cousas vos escrevi a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus”.
A doutrina da perseverança também pode ser provada de maneira inferencial. Considere a doutrina da eleição divina. A eleição foi e sempre será a base de uma salvação absoluta, segura e eterna (Ef 1.4; 2Ts 2.13; 2Tm 2.10). Temos, além disso, a eficácia dos méritos e intercessão de Cristo. Aqueles por quem Cristo morreu nunca podem cair outra vez sob condenação (Rm 8.1). Sua intercessão constante a favor deles é sempre eficaz (Jo 11.42; Hb 7.25). E ainda, devemos pensar que a vida eterna que Cristo dá não é realmente eterna? (Veja Jo 3.36; 5.24; 6.47,54). A vida que o crente tem é uma garantia irreversível. E em consequência disso, segue-se o fato de que o crente pode e deve ter certeza de sua salvação (Hb 3.4; 6.11; 10.22; 2Pe 1.10).
A certeza da salvação seria impossível se os crentes pudessem perder a salvação a qualquer momento. Louvemos, pois, a Deus concessão da salvação sem fim.
Resposta às objeções à doutrina da perseverança dos santos
Segue abaixo as principais respostas às objeções que algumas pessoas fazem à doutrina da perseverança dos santos:
(1) A doutrina da perseverança dos santos conduz à falsa segurança e à indolência, à licenciosidade e à imoralidade.
Resposta: Isto não é verdade porque, ao mesmo tempo em que a Bíblia nos diz que somos guardados pela graça de Deus, também nos afirma que Deus não nos guarda sem a constante vigilância, diligência e oração de nossa parte. Uma doutrina que nos incentiva, do começo ao fim, a perseverarmos na santificação, nunca poderia nos conduzir ao pecado.
(2) A Bíblia adverte contra a apostasia, o que seria desnecessário se o crente não pudesse perder a salvação (cf. Mt 24.12; Cl 1.23; Hb 2.1; 3.14; 6.11; 1Jo 2.6).
Resposta: Estas passagens bíblicas apenas provam que o crente deve cooperar no processo de perseverança. Para uma ilustração desse ponto, compare Atos 27.22-25 com o versículo 31.
(3) Os crentes são exortados a continuar no caminho da santificação (Hb 12.14; 1Pe 1.13-21). Tais exortações seriam desnecessárias se não houvesse dúvida de sua continuação.
Resposta: Os textos citados provam simplesmente que Deus se utiliza de meios morais para alcançar seu objetivo.
(4) Há passagens que registram casos de real apostasia de crentes (1Tm 1.19,20; 2Tm 2.17,18; 4.10; 2Pe 2.1,2).
Resposta: Não há provas de que as pessoas mencionadas eram crentes de fato. Nem todos os que professam a fé são da fé (Rm 9.6; 1Jo 2.9,19; Ap 3.1).






Da perseverança dos santos

Josivaldo de França Pereira

 
A doutrina da perseverança dos santos é a última dos chamados cinco pontos do calvinismo, artigos elaborados no século XVII pelo Sínodo de Dort, na Holanda, para rebater a Remonstrance (O Protesto), documento referente aos cinco pontos do arminianismo.
A expressão “perseverança dos santos” é bíblica. No livro do Apocalipse está escrito: ”... Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos” (Ap 13.10). E ainda: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14.12).
Alguns estudiosos sugerem que a “perseverança dos santos” deva ser entendida como “perseverança de Deus”, pois, segundo eles, esta exprime melhor o sentido da doutrina, visto que não é o ser humano, mas Deus quem persevera. Contudo, falar da perseverança dos santos como sendo perseverança de Deus é um tanto excessivo porque, assim como Deus não crê e nem se arrepende no lugar do pecador, ele também não persevera no lugar dos crentes. São os crentes que perseveram, porém, com a graça de Deus.  Esse modo de pensar está de acordo com o que disse o apóstolo Paulo aos coríntios: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10).
A doutrina da perseverança dos santos é, por excelência, a doutrina da preservação e segurança dos crentes. No entanto, Steele e Thomas observam corretamente: “A doutrina da perseverança dos santos não mantém que todos que professam a fé cristã estão garantidos para o céu. São os santos - os que são separados pelo Espírito - os que perseveram até o fim. São os crentes - aqueles que recebem a verdadeira e viva fé em Cristo - os que estão seguros e salvos nele. Muitos que professam a fé cristã caem, mas eles não caem da graça, pois nunca estiveram na graça. Os crentes verdadeiros caem em tentações e cometem graves pecados, às vezes, mas esses pecados não os levam a perder a salvação ou a separá-los de Cristo”.[1]
Este entendimento expressa o pensamento da Confissão de Fé de Westminster (CFW), que diz: "Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, eficazmente chamados e santificados pelo seu Espírito, não podem cair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim, e estarão eternamente salvos" (XVII, 1).
A base bíblica da doutrina da perseverança dos santos é vasta. Eis alguns exemplos: “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jr 32.40); “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24); “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37). “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28,29); “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).
Alguém poderia indagar: “Quer dizer que um crente pode, então, pecar à vontade que nunca perderá a salvação?” Aquele que é verdadeiramente salvo em Cristo é salvo para sempre, ou, de acordo com o título de um antigo livro do teólogo batista William C. Taylor, “A salvação do crente é eterna”. Quem é de Deus peca, mas jamais viverá na prática do pecado (cf. 1Jo 3.9). Seu desejo é a santidade de vida e a glória de Deus, porém, ele está sujeito a tentações e queda e, mesmo que decaia do estado de graça, será parcial e temporariamente, pois, com toda certeza, ele perseverará até o fim com e pela graça de Deus (cf. CFW, XVII, 1 e 3).



[1] David N. Steele e Curtis C. Thomas, Os Cinco Pontos do Calvinismo. Disponível na Internet em  www.ipcb.org.br. Acesso em 07/10/2012.