domingo, 2 de dezembro de 2012

A Genealogia de Jesus em Mateus e Lucas

Josivaldo de França Pereira


As diferenças e semelhanças entre a genealogia de Jesus em Mateus e a de Lucas são bem evidentes.
Semelhanças. Os primeiros catorze nomes de Mateus (Abraão a Davi) aparecem também em Lucas. Os nomes de Salatiel, Zorobabel e Matã também se encontram em ambas as listas.
Diferenças. As diferenças entre as duas listagens são bem maiores que as semelhanças. Mateus dá a linha ancestral de Jesus Cristo, começando por Abraão, por Davi, por Salomão, e pelos reis, em ordem, até Jeconias, o último rei de Judá. Depois alista os nomes dos herdeiros ao trono, até Jesus. Lucas, na sua genealogia, começa com Jesus, traçando a linha ancestral por meio de Natã (irmão de Salomão) até Davi; e de Davi, mediante Abraão, até Adão.
A grande maioria dos nomes que está numa lista não aparece na outra. A lista de Mateus – (Abraão a Jesus) – é muito mais breve que a de Lucas (Jesus a Adão, filho de Deus). Mateus omite mais gerações que Lucas. Entre Davi e Salatiel a genealogia de Mateus contém 16 nomes diferentes da de Lucas que tem 22. Entre Salatiel e Jesus, Mateus menciona 13 nomes e Lucas novamente 22. Mateus apresenta uma genealogia descendente (de pai a filho); Lucas, uma ascendente (de filho a pai). Em Mateus, Jacó aparece como pai de José. Em Lucas, Heli é o pai de José.
Entendendo as diferenças. Como se sabe, Mateus escreveu principalmente para os judeus, o que explica o fato dele começar a genealogia de Jesus por Abraão e não a estende até Adão como Lucas o faz. Lucas é mais global indo até Adão porque tinha em mente os gentios. Quanto aos nomes, ambos os autores omitiram alguns deles sem fazer qualquer tentativa para apresentar listas completas. Eles apresentam tão-somente uma espécie de sumário da ascendência de Jesus.
Alguns estudiosos dizem que temos em Mateus a genealogia de José e em Lucas a de Maria.[1] Estou com aqueles que defendem as duas genealogias como sendo de José. Aos que sustentam uma genealogia mariana em Lucas, com base numa suposta referência talmúdica, Bruce responde: “Nenhuma ajuda nos pode ser prestada pela referência talmúdica (TJ Haghïghâ 77d) a certa Miriã, filha de Eli (cf. Heli, Lc 3.23), pois essa Miriã nenhuma conexão tem com a mãe de Jesus”.[2] E conclui: “Seja como for, é estranho que, se a lista de Lucas tencionava traçar a genealogia de Jesus por meio de Maria, que isso não tivesse sido claramente expresso”.[3]
Contudo, uma vez que ambas as genealogias são de José, por que elas são distintas em várias partes? De acordo com Champlin, “Aqueles que aceitam duas linhagens diferentes, uma real (de Mateus), e a outra simples e humana (ou sacerdotal, segundo alguns comentadores, de Lucas), parecem ter boas razões, porquanto os nomes contidos nas duas genealogias são bastante diferentes. Todavia, tudo isso são meras tentativas para explicar as diferenças, o que parece preferível a dizer que uma delas é a genealogia de José e que a outra é a genealogia de Maria, embora alguns eruditos continuem defendendo essa opinião”.[4]
O objetivo de Mateus e Lucas é mostrar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, descendente legítimo de Abraão e Davi, ficando assim consubstanciadas as reivindicações messiânicas de nosso Senhor.

Bibliografia:
BRUCE, F. F. Genealogia de Jesus Cristo. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003.
CHAMPLIN, Russel N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Mateus/Marcos. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002.
__________________. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Lucas/João. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2002.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Mateus. Vol. 1. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
___________________.Comentário do Novo Testamento: Lucas. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.




[1] Trato desta questão em detalhes na postagem “Por que José, o marido de Maria, é filho de Jacó em Mateus 1.16 e de Heli em Lucas 3.23?”.
[2] F. F. Bruce, Genealogia de Jesus Cristo. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 659.
[3] Ibidem.
[4] R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Lucas/João. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 44.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Razão e Fé

Josivaldo de França Pereira

 
“Razão” em filosofia é a nossa consciência intelectual e moral. Em matéria de fé os filósofos geralmente são racionalistas. Mesmos os empiristas. Para o racionalismo, a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando por si mesma, sem o auxílio da experiência sensível e controlando a própria experiência sensível.
René Descartes (1596-1650), matemático, pai da filosofia moderna e reconhecido como o mais importante pensador francês, era racionalista. O lema de Descartes era “nunca aceitar qualquer coisa como verdadeira a não ser que a conhecesse claramente como tal”. E assim, ele estabeleceu a consciência individual como o critério final da verdade. Segundo Descartes, pensar é a única certeza de que existimos. Cogito ergo sun, (Penso, logo existo), era a afirmação que sintetizava sua filosofia.
Para o empirismo, a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiência sensível, responsável pelas ideias da razão e controlando o trabalho da própria razão. Um dos principias representantes da filosofia empírica foi o inglês John Locke (1632-1704). Em sua obra Ensaio acerca do entendimento humano, Locke combateu duramente a doutrina que afirmava que o homem possui ideias inatas. Ao contrário de Descartes, defendeu que nossa mente, no instante do nascimento, é como uma tábula rasa, um papel em branco, sem nenhuma ideia previamente escrita. É de Locke a seguinte proposição: “Quem não quiser se equivocar deve construir sua hipótese derivada da experiência sensível sobre um fato, e não supor um fato devido a essa hipótese”.
O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) era racionalista e empirista. Em linhas gerais, ele entendia que a fonte do conhecimento pode vir tanto da razão para a experiência como da experiência para a razão. Segundo Kant, a razão pode conhecer como funciona o mundo físico e moral, mas ela não pode conhecer como foi a origem do mundo, se Deus existe ou se a alma é imortal. Para ele, tais ideias e conceitos também não podem ser compreendidos de modo empírico ou cientificamente. Isso quer dizer que Kant negava a existência de Deus? Não. Ele entendia que a moralidade do ser humano e uma causa não-causada postulam a existência de um Deus.
David Hume (1711-1776), filósofo e historiador escocês considerado ateu por alguns, e cético por outros, era empirista. Todavia, no entendimento dele, o conhecimento científico que ostentava a bandeira da mais pura racionalidade também está ancorado em bases não-racionais, como a crença e o hábito intelectual. Isso significa que, desconfiado das posições arraigadas pelo hábito, o cientista deve apresentar suas teses como probabilidades e não como certezas irrefutáveis.   
A filosofia separa a fé da razão, considerando cada uma delas destinada a conhecimentos diferentes e sem relação entre si. No entanto, o filósofo francês e inventor da calculadora, Blaise Pascal (1623-1662), parece ter conseguido aproximar uma da outra. Na obra Pensamentos, em vez de mostrar a mesma confiança na razão que caracterizou o século XVII, Pascal diria que o homem não pode conhecer o princípio e o fim das realidades que busca compreender. Estaria limitado apenas às aparências, já que, em suas palavras, “só o Autor dessas maravilhas as compreende; ninguém mais pode fazê-lo”.
Pascal afirmava que a razão humana seria impotente para provar a existência de Deus. Dependeria da fé a crença em um Deus, cuja existência jamais poderá ser provada. De acordo com seu pensamento, “o supremo passo da razão está em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam”. Dessa forma ele dirá: “O coração – e não a razão – é que sente Deus. E isto é a fé: Deus sensível ao coração e não à razão”. É de Pascal a célebre frase: “O coração tem razões que a razão desconhece”.
Pascal polemizou contra “o Deus dos filósofos e dos sábios”, um deus transformado em engenheiro do mundo, que, uma vez criado, seguiria seu rumo em cego mecanismo. Nessa polêmica, o seu alvo era Descartes e sua concepção de um “Deus das verdades geométricas”. O que Pascal busca recuperar é o “Deus de amor e consolação, é um Deus que faz cada qual sentir interiormente a sua própria miséria e a misericórdia infinita de Deus”.
De fato, não há prova científica da existência de Deus. Entretanto, isso não significa que não haja evidências científicas que apontem para a existência de um Criador. Evidências históricas, argumentos filosóficos e teológicos mostram ser mais razoável admitir a existência de Deus do que negá-la. Isso significa que, de alguma maneira, Deus pode ser conhecido.
A Bíblia diz que devemos prestar a Deus um culto racional e ao mesmo tempo com fé (Rm 12.1; Hb 11.6). Afirma que Deus pode ser conhecido (Os 6.3,6; Jo 4.22); que Deus pode ser conhecido mediante a fé e, de certo modo, racionalmente (Rm 1.20,21). A Bíblia faz uma descrição da fé: “Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1). Evidencia ainda que crer na existência de Deus, na origem do mundo e na imortalidade da alma é matéria de fé (Hb 9.27; 11. 3,6)
Biblicamente, a fé é aliada da razão. Razão e fé não se contrapõem na Bíblia. Sendo assim, a fé não é irracional, porém, aonde a razão não pode ir, a fé vai e segue adiante por ela.

Bibliografia selecionada
BROWN, Colin. Filosofia e fé cristã. 2ª ed. revisada. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007.
CHAUI, Marilena. Filosofia. Série Novo Ensino Médio. Volume Único. São Paulo: Editora Ática, 2005.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Editora Saraiva, 2006.
SPROUL, R. C. Razão para crer. 2ª ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1991.
STOTT, John R. W. Crer é também pensar. São Paulo: ABU Editora, 1997.  

Kant curioso

Josivaldo de França Pereira

 
 Kant (1724-1804), um dos filósofos mais perspicazes de todos os tempos, nasceu, viveu e morreu em Königsberg, antiga capital da Prússia Oriental (atual Kaliningrado, província da Rússia). Teve uma vida longa e tranquila, dedicada ao ensino e à investigação filosófica.
Nascido numa família protestante de origem luterana recebeu educação austera em uma escola pietista. Passou grande parte da juventude como estudante sólido, mas não espetacular. Antes dos 59 anos nada fez que merecesse a atenção da humanidade.
Kant foi na sua vida intelectual um homem tão metódico e rigoroso como na vida prática. O padrão da sua vida era rigorosamente regulado. Conta-se que ele se levantava diariamente, mesmo no inverno mais gelado, às cinco da manhã e se deitava às dez da noite, sem contar que todos os dias fazia o mesmo itinerário entre sua casa e a universidade onde lecionava.
O passeio que ele fazia às 15h30, todas as tardes, era tão pontual que as mulheres domésticas da redondeza podiam acertar os relógios por ele. Além dele somente João Wesley (1703-1791), o pai da igreja metodista, entrou também para a história como um homem metódico.
Kant tinha uma convicção curiosa de que alguém só podia ter uma direção firme na vida quando chegasse aos 39 anos de idade. Sua vida particular apresenta um quadro curioso e paradoxal. Gostava do convívio com outras pessoas, mas nunca se casou e não teve filhos, dedicando toda sua existência especialmente ao estudo da filosofia. Gostava de livros sobre viagens, mas nunca viajou muito longe.
Kant é considerado o maior filósofo do iluminismo, pois, nele, a era do iluminismo alcançou seu ápice. O iluminismo foi um movimento cultural de âmbito internacional, ocorrido entre o final do século XVII e parte do século XVIII, cujo pensamento consistia em dar maior credibilidade e ênfase à racionalidade humana.
Acredita-se que o verdadeiro inaugurador da filosofia moderna é Kant, e não Descartes (1596-1650), e que a filosofia, de fato, divide-se em antes e depois de Kant, e não em antes e depois de Sócrates (469-399 a.C). É a partir de Kant que a filosofia passa a ser estudada academicamente nas universidades.
Uma das frases mais famosas desse pensador é: “Confesso que David Hume me despertou, pela primeira vez, do meu sono dogmático”. Dizia que a coragem era a solução para a preguiça e covardia que mantinham o ser humano em sua minoridade intelectual. Portanto, Sapere Aude (Ousai Saber), dizia ele. Para Kant, a filosofia deveria responder a quatro questões fundamentais: O que posso saber? Como devo agir? O que posso esperar? E, por fim, o que é o ser humano? Esta última indagação engloba as três anteriores. Invertendo a questão tradicional do conhecimento, Kant comparou seu papel na filosofia à revolução de Copérnico na Astronomia.
Immanuel Kant escreveu várias obras, entre as quais se destacam suas três críticas: A Crítica da Razão Pura, A Crítica da Razão Prática e A Crítica do Juízo (ou Julgamento). Essas obras abordam, respectivamente, sobre o conhecimento humano, a ética e a estética. Também tratou da ética em Fundamentos da Metafísica dos Costumes, e expôs seu conceito iluminista da religião em A Religião Dentro dos Limites da Simples Razão.
Kant foi professor e diretor de escola. Influenciou (e influencia até hoje) direta e indiretamente a filosofia, a teologia, a política, o direito e a educação. Na filosofia ele influenciou especialmente Arthur Schopenhauer (1788-1860), John Rawls (1921-2002) e Jurgen Habermas (1929-), considerado o último herdeiro vivo de Kant; no direito influenciou Hans Kelsen (1881-1973) e, na educação, Jean Piaget (1896-1980) em seu construtivismo pedagógico.
Kant trabalhou durante quarenta anos na Universidade de Königsberg, deixando o magistério apenas por motivos de saúde. Morreu aos 80 anos de idade (incompletos) sem nunca ter se afastado mais de 40 km de sua cidade natal, sem jamais ficar longe de casa por mais de um dia.

Aspectos messiânicos de José

Exposição de Gênesis 50.18-21
Josivaldo de França Pereira

No meio cristão prevalece o consenso de que José foi um tipo de Cristo. É na pessoa de José, no Egito, que nós encontramos o cumprimento da promessa de Deus a Abraão que, por sua vez, alcançaria seu clímax em Cristo: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12.3).
Entendemos que, pelo menos, dois aspectos messiânicos estão claros em Gênesis 50.18-21: 1) O aspecto real e 2) O aspecto redentivo. Encontramos esses dois aspectos (ora mais, ora menos enfatizados) em Gênesis 37-50.[1] Mas por questão de propósito e objetividade limitaremos o assunto a Gênesis 50.18-21.[2]
O aspecto real da pessoa de José (vv18,19)
No versículo 18 temos o reconhecimento da realeza de José por parte de seus irmãos. Como tipo de Cristo, José agora prefigurava não mais o estado de humilhação e serviço, mas de exaltação e poder do Messias.
Sem dúvida alguma, aqui em Gênesis 50.18 os súditos (irmãos de José) tiveram uma compreensão mais elevada de "servidão" do que a de Gênesis 44.9,33. Isso ficou claro pela prontidão imediata: "Eis-nos aqui por teus escravos" (v18). A maioria das versões em português traduzem o substantivo abadim por "servos". Contudo, não é a melhor tradução. A idéia de escravidão do verso 18 tem a mesma força de Gênesis 44.9: "Aquele dos teus servos, com quem for achado (um copo de prata), morra; e nós ainda seremos escravos do meu senhor". A única diferença nesses dois textos (Gn 44.9 e 50.18) é que no primeiro trata-se de uma hipótese. Os irmãos de José estavam certos que não furtaram nada dele (Gn 44.8). No segundo texto (Gn 50.18) trata-se de uma realidade. Eles se ofereceram como escravos do “rei” José e não se acharam dignos de serem comprados (ou vendidos) nem mesmo por vinte siclos de prata.
Agora seus irmãos reconheciam a verdadeira realeza de José. Antes que José se desse a conhecer a eles não o reverenciaram dentro de uma perspectiva teológica (Gn 42.6), como José via os acontecimentos (Gn 42.9). Mas agora se lembravam dos sonhos de José (Gn 37.7,9) e que a resposta às perguntas que outrora fizeram a José: "Reinarás, com efeito, sobre nós? E sobre nós dominarás realmente?" (Gn 37.8), era afirmativa.[3] Lembraram-se também da túnica real e, principalmente, do mal que lhe fizeram quando procuraram tirar-lhe a realeza com a destruição da túnica (Gn 37.31)[4] e vendendo-o como escravo (Gn 37.28).
Apesar de sua realeza José reconhece que é um mortal e os adverte: "Não temais (a mim) porque porventura estou eu em lugar de Deus?" (v19). Quer dizer, "porventura eu tenho direito de julgá-los?".[5] Lembremos que essa é uma característica tipicamente messiânica (cf. Jo 8.50; Fp 2.6,7; 1Pe 2.23). José deixa com Deus todo acerto do erro dos irmãos, antecipando, desse modo, o ensino do Novo Testamento (cf. Rm 12.19; 1Ts 5.15; 1Pe 4.19). Da mesma maneira que Jesus Cristo, José estava plenamente ciente de que era submisso. Não a Faraó, mas a Deus.
O aspecto redentivo da pessoa de José (vv20,21)
Este segundo aspecto está subordinado ao primeiro. Nos versículos 20 e 21 de Gênesis 50 encontramos a mais bela declaração do entendimento que José tinha da posição em que Deus o colocara. José via além do alcance, por assim dizer. E porque José “viu” o propósito divino em meio à maldade de seus irmãos, ele os perdoou. Não os isentou da culpa ("Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim..." [v20a]), contudo, vê o bem de Deus mais digno de crédito do que a maldade deles, reafirmando o que já havia dito aos seus irmãos: “... porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (v20b, cf. Gn 45.5,7,8).
O aspecto redentivo de José tipificou a missão de Jesus no mundo. Conservar "muita gente em vida" (v20) também foi o objetivo da obra redentora de Cristo (cf. Mt 1.21; 26.28; Jo 11.49-52). Não sabemos exatamente quando José tomou ciência do propósito divino em usá-lo como redentor. É possível que a ascensão como primeiro ministro ou grão-vizir de Faraó fosse o ponto de partida, pois o nome egípcio Zafnate-Panéa significa "o salvador do mundo" (cf. Jo 4.42). "E todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras" (Gn 41.57 - ARC). O importante é que, em certo sentido, José foi "o pão da vida" do mundo de então.
No verso 21 temos o que podemos chamar de "uma atitude verdadeiramente cristã". José não somente paga o mal com o bem quando fala com seus irmãos. Ele dá uma demonstração prática de perdão e afeto. Se por um lado seus irmãos não precisavam temê-lo porque todos, inclusive José, estavam sob o senhorio de Deus (v19), por outro lado não deveriam temer porque todo mundo estava sob a verdadeira proteção e cuidado de Zafnate-Panéa, o salvador do mundo. E José promete: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos", enfatiza o texto hebraico.[6] José repete e confirma a eles neste versículo (21) a promessa que fez originalmente quando os convidou a virem ao Egito (Gn 45.11,18,19).
A palavra "sustentarei" (v21) não significa que a fome ainda prevalecia. Quando Jacó chegou ao Egito faltavam cinco anos para a fome acabar (Gn 45.11). O patriarca estava com 130 anos de idade (Gn 47.9) e morreu com 147 anos (Gn 47.28); portanto, a fome não mais existia havia 12 anos. E aqui (v21) temos um detalhe importante do aspecto redentivo da pessoa de José, que aponta diretamente para Jesus: Cristo não só nos salvou, mas nos mantém e nos sustenta dia-a-dia com a sua benévola providência. Ele está conosco sempre (Mt 28.2) e intercede por nós (Hb 7.25).
A expressão: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos" sugere que, como estrangeiros no Egito, os filhos de Israel poderiam dispor de uma pessoa influente como José para guardar seus interesses e representá-los diante de Faraó. Jesus Cristo, sendo um dos nossos, por assim dizer, também é o nosso excelentíssimo representante diante de Deus (1Tm 2.5; 1Jo 2.1).
As palavras "não temais" é a expressão do refrigério que acalma os corações atribulados. Jesus a usou várias vezes para tranquilizar seus discípulos e outras pessoas (Veja, por exemplo, Mt 10.28; 14.27; Mc 5.36; Lc 12.32).
"Assim os consolou, e falou segundo o coração deles" (v21).
Conclusão:
 Van Groningen resume muito bem os dois aspectos messiânicos da pessoa de José (realeza e redenção) quando diz:
José foi um verdadeiro tipo messiânico. Ele foi considerado real, recebeu uma posição real e cumpriu uma tarefa real. Como uma pessoa régia, ele livrou, protegeu e enriqueceu a semente de Abraão e Isaque. Ele funcionou, portanto, como um redentor e provedor físico, social, moral e espiritual. (...). Deus preparou José, e por meio de José o soberano Senhor realizou atos salvíficos dentro do contexto da história do mundo. E ao preparar José e realizar atos de salvação por meio de José, o Senhor falou profeticamente enquanto preparava a cena para a salvação mais plena, mais completa que Jesus Cristo traria. Essa salvação trazida pelo Cristo real foi também o que em última instância validou a obra redentiva de José, cumprida por uma pessoa real, tomada de entre a semente para funcionar em favor da semente.[7]

             Gênesis 50.18-21 encerra uma das mais profundas lições tipicamente messiânicas do Antigo Testamento. Os aspectos messiânicos de realeza e redenção de José prefiguram Jesus Cristo que, como Rei dos reis e Senhor dos senhores (1Tm 6.15), é o Salvador do mundo (Jo 4.42). A realeza é a base da redenção de povos e reinos. E José, como pessoa real, salvou a povos e reinos inteiros do colapso da fome e da miséria. José foi o "pão da vida" do mundo antigo; Jesus Cristo é o nosso "pão da vida" (Jo 6.48) e de todo aquele que nele crê. José os alimentou materialmente; Jesus nos alimenta espiritualmente e também nos sustenta com o pão nosso de cada dia. José, cujo nome significa “aquele que faz aumentar” foi, na verdade, o instrumento de Deus para preservar e aumentar o seu povo. Jesus, cujo nome significa Salvador, "salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21).
De tudo que podemos aprender de José, o que ficam são suas lições práticas para a vida cristã. Considerando que José viveu cerca de 1600 anos antes de Cristo, ele antecipou para nós o verdadeiro sentido do adjetivo que qualifica alguém como “cristão” ou semelhante a Cristo. José, em uma atitude verdadeiramente cristã, soube deixar com Deus a ofensa de seus irmãos (v19) porque aprendeu a ver o propósito divino na maldade dos mesmos (v20) e, por isso mesmo, fez bem a eles apesar do mal que lhe fizeram (v21). Em outras palavras, José praticara o que o Senhor Jesus e os apóstolos ensinariam futuramente: perdoou de coração, do íntimo a seus irmãos, ou seja, pagou o mal com o bem, com demonstração prática de perdão. Eis aí um típico cristão no Antigo Testamento, com o qual o cristão do novo milênio deveria aprender e também imitar.






[1] Destacar os aspectos messiânicos de José não significa negar ou mesmo desconsiderar os outros conceitos e temas de Gênesis 37-50. Por exemplo: Gênesis 37-50 é essencialmente a continuação da história de Jacó e sua família, da preservação da semente escolhida e da designação por Jacó daquele que seria o portador da semente futura. Outros temas, como o do manto, foram empregados para indicar que José era o filho favorito (37.3), o servo favorito na casa de Potifar (39.2,4), o prisioneiro favorito (39.22) e o oficial favorito na corte real egípcia (41.14,41-45). Considerem-se também os sonhos de José concernentes à sua própria família (37.5-11) e mais tarde os sonhos referentes a dois oficiais egípcios (40.12-19), a Faraó (41.37-45) e outros. Consulte Donald Sybold, Paradox and symmetry in the Joseph narrative. In: Literary Interpretations of Biblical Narratives. Nashville: Abingdon, 1974, p. 59-73.
[2] Para um estudo mais amplo sobre o conceito messiânico de José em Gênesis 37-50, consulte Gerard Van Groningen, Messianic Revelation in the Old Testament. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 150-153, 165-167.
[3] Segundo Van Groningen (op. cit., p. 151, nota 17), “O infinitivo e imperfeito de mãlak (ser rei, reinar) e de mãsal (dominar) são usados para indicar uma compreensão plena dos irmãos de José sobre o significado do sonho em relação a eles”.
[4] Certamente a túnica foi despedaçada (cf. Gn 37.33).
[5] Para outras possíveis interpretações, veja J. F. Exell, The Pulpit Commentary: Genesis. Vol. I. Grand Rapids: Eerdmans, 1980, p. 539.
[6] Derek Kidner (Gênesis: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1988, p. 207) observa corretamente que “José promete algo mais pessoal do que filantropia”.
[7] Van Groningen, op. cit., p. 166,67.