terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Na Presença de Deus

“Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e disse: Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?”
(1Cr 17.16)

Josivaldo de França Pereira

A expressão perante ele (o Senhor) que aparece apenas uma vez em 1Crônicas 17 (cf. 2Sm 7), ocorre muitas vezes no Antigo Testamento. Somente no livro de Levítico a expressão perante o Senhor acontece cerca de sessenta vezes. Contudo, sua única aparição no texto citado é suficiente para determinar todo o conteúdo da oração do salmista. Antes de orar Davi ficou perante o Senhor. O que isso quer dizer? O que significa estar diante do Senhor? Em que consiste a presença de Deus?
A presença de Deus
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento existem, pelo menos, três sentidos básicos e essenciais onde os substantivos hebraico (panim) e grego (prósopon) [rosto, face, semblante] e as preposições liphenei e enópion [perante, diante de, em face de] são, respectivamente, utilizados para indicar a presença de Deus na Bíblia. Em primeiro lugar, temos a presença geral e inescapável de Deus, como aquela que é descrita no Salmo 139.7-12: Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá. Se eu digo: As trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma cousa”.
Um segundo sentido da presença de Deus na Bíblia é o que podemos chamar de presença celestial de Deus. Em Eclesiastes 5.2 lemos: “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras”. "Céus" aqui é o lugar da habitação de Deus, às vezes denominado "alturas", "alturas dos céus" ou "céus dos céus" (Sl 113.5; Jó 22.12; 1Rs 8.27). É o lugar onde habita a glória de Deus, embora o termo "alturas", por exemplo, não seja designativo de lugar porque Deus habita a eternidade. Ele já estava lá antes que houvesse céus e terra.
A Bíblia relata que os anjos de Deus estão diante de sua presença celestial (Mt 18.10; Lc 1.19). Os ímpios, por sua vez, serão banidos por toda a eternidade da presença abençoadora do Senhor (2Ts 1.9), visto que diante de Deus não pode haver nenhuma jactância de justiça própria (1Co 1.29). Mas os crentes serão apresentados imaculados perante o Senhor pela obra que Cristo realizou em favor deles (Jd 24), para desfrutarem da plenitude de alegria na presença de Deus (cf. Sl 16.11).
O terceiro sentido da presença do Senhor na Bíblia refere-se àquela presença especial de Deus com o seu povo para abençoá-lo. A expressão maior dessa presença foi revelada no Emanuel, o Deus conosco, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Sobre a presença especial de Deus, Bromiley observa: "Pode-se notar que a ênfase da Bíblia não recai na presença divina como uma imanência geral, daí a naturalidade com que se pode dizer que Jonas procurou fugir da presença de Deus (Jn 1.3), ou que os adoradores comparecem diante da presença de Deus (Sl 95.2)".[1] E ainda: "Somos recebidos na presença eterna de Deus somente se tivermos recebido primeiramente a presença de Deus conosco na Pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.12)".[2]
O cristão na presença de Deus
Existe uma diferença marcante entre a presença de Deus, propriamente dita, e o estar na presença dele. Que Deus está no meio do seu povo para abençoá-lo é indiscutível. Vimos algumas passagens bíblicas que comprovam essa verdade. Temos hinos bíblicos, teológicos e doutrinários que dizem acertadamente que Deus está aqui. A presença de Deus conosco é uma realidade que devemos crer e cantar de todo o nosso coração (cf. Sl 23.4; 46.1; 96.12,13). Jesus disse: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).[3]
Entretanto, estar na presença de Deus é outra coisa. Eu posso afirmar com sinceridade e inteireza de coração que "Deus está aqui", mas isso não significa que, necessariamente, eu esteja na presença dele. Como pode ser isso? Talvez você esteja pensando: "Ora, se Deus está aqui, é evidente que estamos na presença dele". Repito: Que Deus está aqui é fato, porém, isto não significa que, necessariamente, estamos na presença dele.
Estar na presença de Deus significa se aproximar com a fé e a segurança de que verdadeiramente estamos perante o Senhor. Permita-me esclarecer essa afirmação com um comentário precioso de R. A. Torrey. Ele fez a seguinte observação a respeito da expressão "a Deus" de Atos 12.5, que é perfeitamente aplicável em 1Crônicas 17.16:
A primeira coisa a ser notada neste versículo [de Atos 12.5] é a breve expressão "a Deus". A oração que tem poder é aquela oferecida a Deus.
Alguns dirão porém, "Mas toda oração não é feita a Deus?"
Não. Grande parte da chamada oração, tanto pública quanto particular, não é feita a Deus. Para que a oração possa ser realmente dirigida a Deus, é preciso primeiro uma aproximação definida e consciente de Deus quando oramos; devemos ter uma compreensão definida e nítida de que Deus está se inclinando e ouvindo quando oramos. Nossa mente está ocupada com a ideia daquilo que precisamos e não com o Pai poderoso e cheio de amor a quem pedimos. Frequentemente não estamos ocupados nem com a necessidade nem com Aquele a quem estamos orando, mas nossos pensamentos estão vagando aqui e ali, pelo mundo afora.[4]
Quem de nós nunca cometeu os pecados descritos por Torrey, da desconcentração e do esquecimento de Deus na oração? E por que vez ou outra acontece assim conosco? Exatamente porque perdemos a perspectiva da presença de Deus antes de orarmos.
Antes de orar é preciso fazer como o salmista, ficar perante o Senhor. Quando estamos na presença de Deus, e nos encontramos face a face com ele no lugar em que oramos, nossa oração não se perde no ar e nem falamos coisa com coisa. Se queremos orar corretamente, precisamos, antes de tudo, conseguir, por assim dizer, uma audiência com Deus. É preciso entrar em sua presença.
Antes de orar é preciso se aproximar de Deus com sinceridade e fé, pureza e humildade de coração (Hb 10.22; Tg 4.10). Agora, o mesmo princípio da oração deve ser aplicável ao louvor e adoração do crente e em sua vida diária com Deus. Lembremos que Jesus ensinou que Deus não aceita honra sem coração (Mt 15.7,8; Mc 7.6; cf. Is 29.13), mas que os verdadeiros adoradores são aqueles que o Pai procura para adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4.23). Isso quer dizer que Deus deseja que os seus adoradores estejam verdadeiramente em sua presença. 
O autor aos Hebreus descreve o mesmo ensinamento de Jesus do seguinte modo: “Tendo, pois irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.19-25). A edição da Bíblia Almeida Revista e Atualizada dá a essa passagem bíblica o sugestivo título: “O privilégio de acesso dos crentes à presença de Deus”.
Dentre tantas coisas boas que o autor aos Hebreus nos fala, fica evidente que para uma aproximação correta de Deus é preciso a sinceridade de um coração humilde e agradecido diante do Senhor, além da pureza de espírito e fé. "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam" (Hb 11.6). Estar na presença de Deus dia após dia deve ser o ideal cristão. O próprio Deus havia ordenado a Abraão: "Anda na minha presença e sê perfeito" (Gn 17.1). E acerca de Enoque é dito: "Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si" (Gn 5.24; cf. Sl 116.9).
Concluindo:
Meu dileto irmão, minha distinta irmã, estar perante o Senhor é tão imprescindível que nenhuma oração, louvor, ou qualquer atitude cristã que possa ser definida como digna do agrado de Deus pode subsistir quando não se compreende o que verdadeiramente significa estar na presença dele. 
Antes de abrir a boca para falar com o Senhor, Davi ficou perante ele. E você, já se preparou para estar na presença do seu Deus?
Estar na presença de Deus é muito mais que uma convicção gerada por nossos falíveis sentimentos. É o coração humano tocando o coração de Deus.



[1] G. W. Bromiley, Presença divina. In: EHTIC. Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 179.
[2] Ibidem.
[3]Para uma boa compreensão da presença especial de Deus com os seus, recomendo a leitura do artigo de David Wilkerson, The Power of the Lord’s Presence!, disponível na Internet.
[4] R. A. Torrey, Como orar. 5ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1987, p. 19, 20. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

O que faz a Terra girar?

Por Josivaldo de França Pereira

 
Desde muito cedo ouvi dizer que a Terra gira em torno de si mesma e do Sol, e que foram Copérnico e Galileu os primeiros a provarem isso. Contudo, não me lembro de ter ouvido nenhuma resposta plausível à pergunta: O que faz a Terra girar?
Se saíssemos às ruas entrevistando as pessoas com a indagação “o que faz a Terra girar?”, certamente ouviríamos respostas como: “Não faço a menor ideia”, “Deus fez assim”, etc. Creio piamente que o Criador fez o Universo como ele é, todavia, para coisas físicas existem explicações matemáticas, físicas e precisas. Podemos até não conseguir muitas respostas para nossas inquietações intelectuais, como ainda não as temos em relação a diversas coisas do Universo, mas as respostas estão lá. As leis que regem o Universo estão em toda parte. Só precisam ser descobertas.
O que faz a Terra girar em torno de si mesma sem atraso ou adiantamento? O que a faz dar uma volta completa em torno do Sol durante um ano com exatidão? Por que o globo terrestre se movimenta? Einstein respondeu parcialmente essas questões quando disse que a gravitação não se deve mais a uma força de atração, como pensava Newton, mas a uma deformação do espaço na vizinhança das massas. Em outras palavras, as coisas não caem porque são puxadas para baixo, e sim, porque são empurradas pelo espaço deformado pela Terra. Não existe a chamada força da gravidade. A Terra curvou o espaço em minha volta e está me empurrando para baixo.
Espaço e tempo estão intimamente relacionados. Na verdade eles são uma coisa só. Um tecido flexível chamado espaço-tempo. A Bíblia afirma que “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento não possuem palavra correspondente a “universo”, e para expressar a ideia faz-se uso frequente de “céus e terra”. Note que a Escritura Sagrada não diz que Deus criou a terra e depois os céus. A palavra “céus” vem antes de “terra”. “Céus” aqui é o espaço sideral, criado primeiro para receber a Terra, o Sol, a Lua, etc. A Terra, por exemplo, ocupou o espaço do Espaço, sendo “pressionada” por este.
Entretanto, se a Terra é pressionada em seus quatro cantos, por assim dizer, por que então ela não fica parada, estagnada no Universo? Antes de Copérnico e Galileu achava-se que a Terra realmente ficava imóvel, e o Sol se movia. Esse pensamento não estava baseado numa suposição científica equivocada. De fato, não estava fundamentado em nenhum conceito científico. Era apenas uma suposição religiosa errada. O que Copérnico e Galileu provaram cientificamente foi o contrário: o Sol é fixo e a Terra se move. Eppur si muove (porém ela se move), teria Galileu murmurado aos juizes da Inquisição.
Muita gente diria que o Sol puxa a Terra para ele em um círculo. Errado! A Terra gira em torno de si mesma (movimento de rotação) e do Sol (movimento de translação) porque o Sol distorceu o espaço em volta da Terra e o espaço empurra a Terra para o Sol, fazendo com que ela gire sempre do mesmo lado, em ambos os movimentos, numa velocidade contínua.