sábado, 5 de outubro de 2013

Scriptura Scripturae interpres

Josivaldo de França Pereira

Um dos princípios defendidos pelos reformadores do século XVI é que a Scriptura Scripturae interpres, isto é, a Palavra de Deus é um todo orgânico, no qual as partes se relacionam e todas se subordinam à revelação de Deus e que, em última análise, a Escritura é a intérprete da Escritura. Esse é um princípio correto e bíblico. Por exemplo: Quando Davi diz acerca de Amasa: “Não és tu meu osso e minha carne?” (2Sm 19.13), descobrimos com a leitura de 1Crônicas 2.13-17 que Amasa era sobrinho de Davi, filho de sua irmã Abigail. E quando Paulo afirma em 2Tessalonicenses 3.2 que “a fé não é de todos”, e quase inevitavelmente perguntamos: “Por que não?”, a resposta está em Tito 1.1.
Pouco mais de um século depois da Reforma Protestante, esse princípio foi apreciado e defendido pela Assembleia de Westminster:

A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.[1]

Os reformadores sustentavam, ainda, que a Bíblia é a inspirada Palavra de Deus (cf. 2Tm 3.16,17; 2Pe 1.20,21). Por “inspiração” entendiam que a influência sobrenatural do Espírito Santo sobre os escritores sagrados, em virtude da qual seus escritos obtiveram veracidade divina, constitui-se suficiente e infalível regra de fé e prática. Consideravam a Bíblia a mais alta autoridade e a corte final de apelação em todas as questões teológicas, sendo o Espírito Santo o Juiz Supremo falando na Escritura.
João Calvino – o exegeta da Reforma e teólogo do Espírito Santo, que comentou quase todos os livros da Bíblia, e até hoje é reconhecido seu valor - entendia como “primeiro dever de um intérprete, permitir que o autor diga o que realmente diz, ao invés de lhe atribuir o que pensamos que devia dizer”.[2] Além disso, “Calvino resgatou alguns aspectos da doutrina do Espírito Santo que estavam soterrados debaixo da teologia medieval da igreja católica romana, como por exemplo, a relação entre a Palavra e o Espírito”.[3] Para ele nenhuma pessoa poderia interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito Santo através da própria Palavra. “O ponto central de Calvino era que o Espírito fala pelas Escrituras”.[4] Hoje, esse mesmo pensamento é ratificado por aqueles que, verdadeiramente, creem que as Escrituras Sagradas são a Palavra de Deus e a única regra de fé e prática dada por Deus à sua Igreja.
Pode-se dizer, sem exagero algum, que a interpretação da Bíblia divide-se em antes e depois de Calvino. Segundo Hughes, a exposição bíblica de Calvino representa uma surpreendente e completa ruptura com o método alegórico retorcido e complicado de exposição dos eruditos escolásticos.[5] Calvino interpretou a Escritura de acordo com sua ideia principal, direta e de sentido natural.[6]
Conquanto os reformadores preferissem uma leitura literal das Escrituras, eles estavam perfeitamente conscientes de que determinados textos seriam mais bem interpretados como sendo figurados e simbólicos. Um exemplo são os textos referentes à ceia do Senhor. Os reformadores rejeitaram a interpretação literal da expressão “isto é o meu corpo; isto é o meu sangue”.[7] Do mesmo modo, várias passagens do livro de Apocalipse requerem uma interpretação figurada e simbólica do texto bíblico.[8]


Bibliografia selecionada

ALMEIDA, Antonio. Manual de hermenêutica sagrada. 2ª ed. São Paulo: CEP, 1985.
BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1985.
CARSON, D. A. Os perigos da interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2005.
FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês?. São Paulo: Vida Nova, 1984.
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes. Cultura Cristã, 2004.




[1] Confissão de Fé de Westminster, I, 9.
[2] Citado por Berkhof, Princípios de interpretação bíblica, 3ª ed. Rio de janeiro: Juerp, 1985, p. 30.
[3] Agustus Nicodemus Lopes, Calvino, o teólogo do Espírito Santo. São Paulo: PES, S/d, p. 5.
[4] Idem, p. 13. (Itálico do autor).
[5] Philip E. Hughes, La pluma del profeta. In: Juan Calvino, profeta contemporáneo. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 94.
[6] Na exposição de 2Coríntios 3.6, Calvino explica porque rejeitou o método alegórico de interpretação em favor da ênfase no sentido literal, gramático-histórico do texto. Veja também Berkhof, op. cit., p. 28-31; Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e seus intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 159-167.
[7] Cf. Lopes, op. cit., p. 166,67.
[8] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 24-31.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Bíblia, Ciência e Religião

Josivaldo de França Pereira

 
Não existe oposição alguma entre a Bíblia e a verdadeira ciência. “A Ciência precisamente estabelecida e a Bíblia corretamente interpretada nunca cairão em contradição” (Adauto Lourenço). Somente quando hipóteses e teorias não provadas cientificamente são apresentadas como se fossem Ciência e, principalmente, seguem na contramão do que a Palavra de Deus ensina, é preciso que elas sejam descartadas. Exemplos clássicos são as teorias da evolução de Charles Darwin e do Big Bang, difundida por Carl Sagan.
Vale ressaltar que a Bíblia não deve ser tomada como se fosse um tratado científico. Ela antecede a ciência moderna e, por isso, tem uma linguagem própria, comum, não-técnica. É o caso de Josué 10.12-14. Durante a batalha contra cinco reis dos amorreus, Deus deu a Israel o poder de vencer seus inimigos. Como os exércitos dos amorreus fugiam de Israel, Josué pediu ao Senhor que fizesse com que o sol e a lua parassem. Assim eles poderiam ter luz do dia suficiente para completar a destruição de seus inimigos. “E o sol se deteve, e a lua parou até que o povo se vingou de seus inimigos... O sol, pois, se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro” (Js 10.13).
Como o sol poderia ficar parado no céu quase um dia inteiro? Na verdade não foi o sol que parou. Isso é o que aparentou ser aos olhos de quem observava da terra. A intervenção divina foi no planeta terra, em seu movimento de rotação, isto é, o movimento giratório de 24h que a terra realiza ao redor do seu eixo. Norman Geisler e Thomas Howe destacam: “As Escrituras foram escritas em tempos antigos, com padrões antigos, e seria algo anacrônico impor sobre elas padrões científicos modernos. Contudo, não é menos científico falar que ‘o sol se deteve’ (Js 10.13) do que se referir ao ‘nascer do sol’ (Js 1.15). Ainda hoje os meteorologistas mencionam todo dia sobre a hora do ‘nascer’ e do ‘pôr-do-sol’”.
Pelo fato de não conhecer as Escrituras e nem o poder de Deus, o tribunal da Inquisição condenou Galileu Galilei no século XVI por defender a concepção heliocêntrica do sistema solar, em oposição ao geocentrismo ptolomaico – que considerava a terra o centro estático do universo, em volta da qual giravam planetas e estrelas – favorecido pela doutrina oficial da Igreja Católica.  Galileu, um dos criadores da Ciência moderna, tornou-se prisioneiro da Inquisição por ter dito que a terra girava em torno do sol. Essa tese era considerada contrária às Sagradas Escrituras, e o cientista foi condenado à prisão domiciliar perpétua.
Conquanto a Bíblia não seja um livro científico, ela tem dado contribuições significativas à Ciência. Por exemplo: Ptolomeu (séc. II A. D.) provou cientificamente que a terra é redonda, no entanto, cerca de 800 anos antes de Cristo o profeta Isaías disse: “Ele (Deus) é o que está assentado sobre a redondeza da terra...” (Is 40.22).[1] A descoberta da impressão digital no século XIX se deu com a leitura de Jó 37.7: “Ele sela as mãos de todo o homem...” (ARC).
A Ciência só será contrária à Bíblia se for uma falsa ciência. A Bíblia, por sua vez, jamais se oporá a um avanço científico que glorifique o nome de Deus.
Há quem pense, ainda, que Ciência e Religião são duas realidades totalmente incompatíveis. Elas não são incompatíveis nem mesmo parcialmente. “A Ciência e a Religião não são antagônicas, mas irmãs. Ambas procuram a verdade derradeira. A Ciência ajuda a revelar, de uma maneira mais acentuada, acerca do Criador, através de sua criação” (Gustave Le Bon).
Segundo Phillip Henry, “Quem pensa que pode haver um conflito entre Ciência e Religião deve ser muito incompetente em Ciência ou muito ignorante em Religião”.
Voltaire, um filósofo iluminista francês, afirmou: “Uma falsa ciência faz com que nos tornemos ateus; mas a verdadeira ciência prosta o ser humano diante da Divindade”. E Frances P. Cobbe complementou: “A Ciência é apenas um monte de fatos, não uma cadeia de verdades, se nos recusarmos a ligá-la ao trono de Deus”.
A Religião, na verdadeira concepção do termo, não é um conceito humano. Ela é essencialmente divina. A palavra “Religião” vem de uma contração latina (religare) que significa religar, ligar ou unir novamente, no caso o ser humano com sua origem divina perdida. A Religião é um dos fenômenos universais mais notáveis da vida humana, e a Ciência não tem como negar isso.
Comentando o texto de Eclesiastes 3.11, que afirma ter Deus colocado a eternidade no coração do homem, Miguel Rizzo destacou: “Por que será que colocou Deus a aspiração do infinito na alma humana? Naturalmente para que o homem não se degrade, levado por instintos que podem prendê-lo apenas à materialidade das coisas que passam”.
A necessidade de re-ligações com o divino é um dos fenômenos mais notáveis da vida humana. Os missionários testemunham a presença religiosa, de um modo ou de outro, entre todas as nações e tribos da terra. O ser humano tem sido descrito como “incuravelmente religioso”. Essa é apenas outra maneira de dizer que a espiritualidade é um fenômeno universal. Toda tentativa para extirpar a religiosidade do coração humano tem sido inútil. Até mesmo o filósofo e historiador escocês David Hume, famoso por seu ceticismo e oposição ao sobrenatural, disse certa vez: “Cuidado com as pessoas inteiramente vazias de Religião, e se de fato as achardes, ficai certos de que estão somente a alguns degraus afastadas dos brutos”.
Apesar da entrada do pecado no mundo, ainda existe muito de Deus no ser humano. O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança do Senhor. Essa imagem foi maculada pelo pecado, mas não anulada. Por isso, a alma do ser humano reclama pelo religare, a re-ligação humana com sua origem divina.
Quero concluir este capítulo com duas declarações de um dos maiores cientistas de todos os tempos – Albert Einstein. Disse ele: “Todas as especulações mais refinadas no campo da ciência provêm de um profundo sentimento religioso; sem esse sentimento, elas seriam infrutíferas”. E ainda: “Chegamos assim a uma concepção de relação entre Ciência e Religião muito diferente da usual... Sustento que o sentimento religioso cósmico é a mais forte motivação da pesquisa científica”.






[1] A ARC diz: “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra”.