domingo, 21 de dezembro de 2014

“Esta Pedra”: Interpretações de Mateus 16.18

Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18).

Josivaldo de França Pereira

O que Jesus quis dizer por “esta pedra” em Mateus 16.18? A pedra sobre a qual Jesus edificaria a sua igreja tem sido compreendida de maneira distinta pelos estudiosos. São três as principais interpretações.
A confissão de Pedro
A primeira delas sustenta que o Senhor Jesus está se referindo à confissão de Pedro. O Mestre seguia com seus discípulos para as bandas de Cesareia de Filipe quando lhes perguntou: “Quem diz o povo ser o Filho do homem?”. Numa tentativa de agradar e impressionar a Jesus, a resposta dos discípulos é criteriosa e seletiva: “Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas”. Sem se deixar levar por nenhuma dessas comparações meramente humanas, pois todas elas estavam bem longe da autêntica definição de quem é o Filho do homem, Jesus insiste com eles: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?”.
Então Pedro, em nome do colégio apostólico, confessa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A confissão de Pedro como sendo “esta pedra” é a interpretação mais popular no meio evangélico.  Praticamente todas as versões da Bíblia em português (e também estrangeiras) trazem como título editorial “A confissão de Pedro” na perícope de Mateus 16.13-20. Além disso, aqui no Brasil gerações de líderes e igrejas foram influenciadas com a mensagem do livreto A Confissão de Pedro, um estudo exegético de autoria do Rev. Herculano de Gouvêa Jr (1891-1964), publicado pela Casa Editora Presbiteriana em décadas passadas.
Segundo Gouvêa, do ponto de vista gramatical, o termo ambíguo de Mateus 16.18 é pedra e a sua significação pode ser determinada do seguinte modo: Lendo o versículo anterior, 17, defrontamos com uma questão semelhante porque no grego o objeto do verbo revelar não se acha expresso, e assim deve ser traduzido: “Bem-aventurado és tu Simão Barjonas, porque não foi a carne e sangue quem te revelou, mas meu Pai que está nos céus”. Quem te revelou o quê?
Não há quem negue, de acordo com Gouvêa, que o objeto oculto é a verdade que Pedro acabara de confessar. Ora, quando Cristo declara: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, a palavra pedra designa o assunto acerca do qual Cristo fala com Pedro; e essa pedra precisa ser e de fato é equivalente ao objeto oculto do verbo revelar, no verso anterior. E conclui: Logo, a pedra é a confissão de Pedro.
Pedro
A segunda interpretação diz que “esta pedra” é o próprio Pedro. Essa tem sido a posição oficial da igreja católica romana como justificativa para o papado petrino. Nem seria preciso salientar que não existe nada no texto de Mateus 16.18 que faça menção a um pontificado de Pedro, ao papado romano ou a alguma sucessão apostólica. No entanto, a afirmativa de que Pedro é a pedra mencionada por Cristo em Mateus não se restringe ao catolicismo romano. Desconsiderando, evidentemente, qualquer alusão a Pedro como o primeiro papa, eruditos do Novo Testamento, como William Hendriksen, por exemplo, são enfáticos em afirmar que a pedra sobre a qual Cristo edificaria a sua igreja é Pedro.
Hendriksen, em seu comentário in loco de Mateus, faz uma exposição detalhada e bastante convincente de Pedro como sendo “esta pedra”. Através dos versículos 17-19 Jesus se dirige a alguém a quem indica com o uso da segunda pessoa do singular. A palavra “te” (em grego: soí) aparece uma vez em cada um desses três versículos, em harmonia com o pronome “tu” (sí) no verso 18 (“tu és Pedro”), e com o uso da forma da segunda pessoa do singular dos verbos nas declarações: “Bem-aventurado és” (v17), “tu és Pedro” (v18), “ligares... desligares” (v19). Segundo o verso 17 essa pessoa é “Simão Barjonas”; segundo o verso 18, “Pedro”. Ou seja, em Mateus 16.17-19 Jesus se dirige a Pedro do início ao fim do diálogo.
Em grego temos Pétros e pétra. Portanto, alguém poderia objetar: Se ambos os termos se referem a Pedro, por que não se usou um só vocábulo? Hendriksen explica: Pelo simples fato de que sendo feminina a palavra pétra, a palavra comum para pedra ou rocha, devia ser trocada para uma forma masculina – por isso Pétros – para indicar uma pessoa do sexo masculino, Pedro.
O sentido de Mateus 16.18 aceito por Hendriksen é: Tu és Pedro, isto é, Pedra, e sobre esta pedra, ou seja, sobre ti, Pedro, edificarei a minha igreja. Então, Jesus está prometendo a Pedro que vai edificar sua igreja sobre ele! Para o representante dessa opinião, a história da igreja primitiva relatada nos primeiros doze capítulos do livro de Atos demonstra abundantemente que a profecia de Cristo acerca de Pedro se cumpriu. Ou, para expressá-lo de outra maneira, confirma a interpretação dada.[1]
Jesus Cristo
A terceira interpretação afirma que “esta pedra” é Jesus Cristo. Esse ponto de vista tem a seu favor o fato de ser Jesus, com toda certeza, a pedra angular (Sl 118.22; Is 28.16; Zc 10.4; Mt 21.42; Mc 12.10; Lc 20.17; At 4.11; Ef 2.20; 1Pe 2.6,7). Há também aquela declaração muito importante de Paulo aos coríntios: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). E ainda, referindo-se aos judeus, o apóstolo diz: “e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo” (1Co 10.4). Inquestionavelmente, Cristo é o principal fundamento da igreja! A igreja é dele e ele mesmo a edifica.
O problema dos que interpretam Mateus 16.18 como sendo Jesus a pedra, é que os argumentos usados por eles para rebater a primeira e a segunda opiniões (vistas acima) não são muito convincentes, e mesmo deixam a desejar quando tentam provar o ponto de vista deles na passagem em questão. Por exemplo, dizem eles que o fundamento da igreja “não é o homem, com as suas fraquezas e pecados, nem a sua vacilante confissão de fé; mas sim o próprio Cristo como rocha eterna e inabalável”.
Em Mateus 16.17-19 Jesus não falava do homem com suas fraquezas e pecados, porém, daquele que seria alcançado pela graça transformadora de Deus – Simão Pedro. Sabemos que, por natureza, Pedro era fraco e instável (cf. Mt 14.29-31); todavia, pela graça divina ele se tornou uma testemunha poderosa e intrépida de Jesus Cristo. E apesar de Simão ter sido um homem vacilante como discípulo de Jesus, sua confissão de fé não foi vacilante, pois como o próprio Cristo ressaltou: “... não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17).
Representantes da presente posição, como Henry M. Woods, entendem que no grego pétros é comumente usado para indicar pedra pequena, fragmento de rocha, simples pedregulho; e que pétra significa pedra grande, rocha, rocha maciça, ou seja, Jesus Cristo em Mateus 16.18. No entanto, “comumente” não significa “sempre” ou “toda vez”. Nem sempre pétra e pétros diferem em significado, conforme Léxico do Novo Testamento Grego de Arndt e Gingrich. De modo que até aquela ilustração, muito apreciada pelos defensores deste ponto de vista, dizendo que Jesus aponta para o apóstolo ao dizer “tu és Pedro” e para si mesmo quando declara “e sobre esta pedra”, parece um tanto forçada. Hendriksen observa que a palavra esta faz que a referência a qualquer outra coisa que preceda imediatamente a pétros seja mui pouco natural.
Contudo, a afirmação de que a pedra é Cristo, com base em outros textos mencionados, faz desta interpretação uma das mais recomendadas.
Concluindo
Talvez não existam no Novo Testamento duas palavras que tenham motivado tanta discussão como “esta pedra” de Mateus 16.18. Estaria a posição que diz ser esta pedra a confissão de Pedro equivocada? Se fosse meramente a confissão de Pedro, sim; porém, Jesus diz que as palavras de Pedro foram reveladas pelo Pai. Poderíamos descartar Pedro como sendo esta pedra? Se pensarmos em Pedro à parte da graça de Deus, atuando por conta própria, com primazia sobre os demais apóstolos e sendo o fundamento principal da igreja do Senhor, sim. Poderíamos, porventura, descartar Jesus Cristo? No sentido primário ou básico da expressão há somente um fundamento, e esse fundamento não é Pedro, mas unicamente Jesus Cristo.
A tese defendida por mim é que a expressão “esta pedra” pode englobar as três principais interpretações. Alguém poderia rebater dizendo que, nesse caso, Cristo teria dito “estas pedras”, no plural. Não necessariamente porque a resposta de Jesus se baseia em uma única afirmação. A confissão de Pedro foi revelada pelo Pai, portanto, não deve ser descartada. O apóstolo Paulo, escrevendo aos efésios, diz: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.20; cf. Ap 21.14). Seguindo o raciocínio de Paulo, Pedro também não poderia ser descartado como fundamento (secundário) da igreja, ou seja, como instrumento do Senhor para o estabelecimento da igreja de Jesus em sua manifestação neotestamentária e isto como um dos doze; e, obviamente, muito menos Jesus Cristo poderia ficar de fora, pois ele é a pedra angular, o fundamento básico, primário e principal de sua igreja.

                                                                                                                              




[1] Durante esse primeiro período (antes que Paulo aparecesse poderosamente no primeiro plano, em Atos 13-28) Pedro foi o instrumento mais poderoso e o elo humano mais efetivo entre Jesus e sua igreja, o meio mais influente para o crescimento interior e exterior desta. Foi Pedro quem pregou o sermão no Pentecostes, resultando na conversão de quase três mil pessoas (At 2.41). Foi novamente pelo testemunho de Pedro e João (At 3.11; 4.1), principalmente de Pedro (At 3.12), que logo foram acrescentados à membresia da igreja mais de duas mil pessoas (At 4.4). Outros acontecimentos nos quais Pedro teve participação ativa como líder foram: a eleição de Matias para ocupar o lugar de Judas Iscariotes (At 1.15-22), a cura do mendigo coxo (At 3.4-6), e a heróica proclamação de Jesus perante o Sinédrio (At 4.8-12,29; cf. At 5.15; 8.20; 9 e 10). Além disso, em todas as listas dos doze, o nome de Pedro aparece em primeiro lugar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Rev. José Manoel da Conceição: O Número 1 do Brasil

Josivaldo de França Pereira

No dia 17 de dezembro de 1865 era ordenado, pelo recém-instalado Presbitério do Rio de Janeiro, o primeiro pastor presbiteriano brasileiro, o paulista filho de portugueses Rev. José Manoel da Conceição (1822-1873). Conhecido como o padre protestante, ele não foi apenas o primeiro pastor presbiteriano brasileiro, mas o primeiro pastor brasileiro. Lamentamos que as igrejas evangélicas brasileiras não façam desta data o dia nacional do pastor brasileiro. A maioria das igrejas do Brasil prefere comemorar o dia do primeiro pastor brasileiro de suas denominações.
Conceição era sacerdote católico romano quando se converteu ao evangelho. Contudo, não foi por isso que ele era chamado pelos seus contemporâneos e entrou para a história como o Padre Protestante. É que, mesmo antes de deixar a batina, ele já aborrecia os bispos católicos ao estimular seus párocos a lerem a Bíblia. Quando o Rev. Alexander Blackford (cunhado de Simonton) trabalhava em Brotas, no interior de São Paulo, ouviu falar de certo padre católico romano que lia a Bíblia e manifestava interesse por seus ensinamentos. Blackford fez uma visita de cordialidade ao jovem sacerdote. Essa visita veio a ser o ponto marcante de mudança na vida de Conceição. Convencido de que a igreja romana não era a verdadeira igreja de Jesus Cristo, partiu para o Rio de Janeiro, a fim de se instruir com Simonton, Blackford e Chamberlain. No dia 23 de outubro de 1864, o ex-padre José Manoel da Conceição professava sua fé em Jesus Cristo como seu Redentor e Senhor, tornando-se membro da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Essas notícias espalharam-se rapidamente e atingiram lugares distantes.
Figura fundamental na expansão do evangelho no território nacional, o Rev. José Manoel da Conceição, além de realizar frequentes cruzadas no Rio e em São Paulo, fazia questão de visitar a população do interior, não passando por nenhuma fazenda ou casa pobre sem orar e ler a Bíblia com os moradores. Através da influência do ex-padre, as antigas paróquias católicas interioranas acabaram se transformando em igrejas evangélicas. Conceição era homem de grande erudição, emotivo e dotado de influência considerável. Pregava com muito zelo e grandes multidões vinham ver e escutar o ex-padre. Faleceu no dia 25 de dezembro de 1873, aos 51 anos de idade, no Rio de Janeiro. Seu túmulo também se encontra no Cemitério dos Protestantes em São Paulo, ao lado do de Simonton.
O padre protestante foi fruto do trabalho dos primeiros missionários presbiterianos norte-americanos que aqui chegaram, a saber, Simonton e seus colaboradores. A conversão de José Manoel da Conceição incentivou o pequeno grupo de missionários a sair por toda parte pregando o evangelho.
Por causa da data de ordenação do Rev. José Manoel da Conceição, no dia 17 de dezembro comemora-se o dia do pastor presbiteriano.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Quem Aceita Quem?

Josivaldo de França Pereira


Aceitar é consentir em receber (coisa oferecida ou dada); estar de acordo com; concordar com; anuir; admitir.
Frequentemente ouve-se nas rádios e programas televisivos um ou outro evangelista dizendo: “Aceite a Jesus”, quando na verdade o certo é: “Você precisa ser aceito por Jesus”.
Ao invés de indagar: “Você gostaria de aceitar a Jesus?”, o correto seria perguntar: “Você gostaria de ser aceito por Jesus?”.
Enfim, a questão principal não é aceitar a Jesus, mas ser aceito por ele.
O ser humano é por natureza soberbo, presunçoso e arrogante, e algumas correntes teológicas, como por exemplo o arminianismo, infelizmente favorecem ainda mais essas atitudes.
Seria muita pretensão do indivíduo se ele, um pecador, pudesse aceitar a Jesus e um enorme equivoco pensar que ele, o pecador, de fato pudesse fazê-lo.
É o homem que precisa ser aceito por Deus; do contrário, não haverá salvação para ele, pois tudo aquilo que é bom e maravilhoso a nossa vida vem de Deus, é dado por Deus (cf. Tg 1.17).
As pessoas não podem por si mesmas resolver a questão do pecado e de sua salvação. A Bíblia relata: “Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma cousa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus” (2Co 3.5); e ainda: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
É verdade que Jesus disse: “... arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Mas isso é porque somos moralmente responsáveis pelos nossos atos e, além disso, Deus não pode se arrepender e crer em nosso lugar.
Por outro lado, sabemos que tanto o arrependimento quanto a fé são dons de Deus (cf. At 11.18; Fp 2.29; 2Tm 2.25), visto que não é do ser humano buscar por si mesmo as coisas referentes ao Senhor (cf. 1Co 2.14; Ef 2.1-10).
Esta forma de entendimento segue na mesma linha do que Jesus disse a seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (Jo 15.16).[1]
Mas alguém poderia asseverar: “Colossenses 2.6 (Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor...) não ensina justamente o contrário, ou seja, que podemos de fato aceitar a Jesus?”.
O verbo parelábete (de paralambáno = receber), é usado em Colossenses 2.6 em sentido técnico: receber de outro por transmissão (cf. 1Co 11.23; 15.1,3; Gl 1.9,12; Fm 49; 1Ts 2.13; 4.1; 2Ts 3.6), estendendo-se a linha de transmissão de Deus a Paulo (direta e indiretamente), deste a Epafras, até chegar aos colossenses.[2]
Em outras palavras, em Colossenses 2.6 o apóstolo Paulo está falando do “evangelho dado por Deus, tal como foi ensinado por Cristo e seus apóstolos, chamado às vezes de ‘tradição apostólica’”.[3]

Fui aceito porque Deus me amou primeiro
Cristo veio morrer por mim
Hoje tenho vida
Com Deus agora vivo porque Jesus ressuscitou
Grandioso amor
Como é possível o meu Rei morrer por mim?
Grandioso amor 
Sei que é real

(Grandioso Amor [Versão de Amazing Love – Chris Tomlin])





[1] Consulte o excelente livro de John Blanchard, Aceptado por Dios. Carlisle: El Estandarte de la Verdad, 1989, em especial as páginas 31-48.
[2] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Colosenses/Filemon. Grand Rapids: SLC, 1982, p. 126.
[3] Ibidem, nota 79. Russel Norman Champlin, apesar de notoriamente conhecido como teólogo arminiano, faz o seguinte comentário do verbo receber de Colossenses 2.6: “Não fala isso, diretamente, sobre a ‘aceitação de Cristo como Salvador e Senhor’, como se vê nas confissões evangélicas, mas a alusão é ao recebimento do conhecimento do Cristo pregado por Epafras (ver Cl 1.7) e através das palavras, das epístolas e do exemplo dados por Paulo”. (Cf. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 114).

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O vaso do oleiro e a botija quebrada

(Jeremias 18 e 19)

Josivaldo de França Pereira


Um antigo cântico diz:
Eu quero ser, Senhor amado,
Como um vaso nas mãos do oleiro.
Quebra a minha vida e faze-a de novo.
Eu quero ser, eu quero ser, um vaso novo.

Conquanto a intenção do poeta tenha sido o desejo salutar de uma vida mais próxima de Deus, bíblica e teologicamente a letra está incorreta quando enfoca: “Quebra a minha vida e faze-a de novo”.
À luz de Jeremias 18 e 19 aprendemos que vaso quebrado é vaso condenado, e o vaso novo é vaso moldado; aperfeiçoado, melhorado. A massa mole pode ser remodelada, todavia, depois de endurecida no forno, tornando-se um vaso propriamente, quando quebrado, não serve para mais nada, exceto para ser jogado fora. Um vaso quebrado se transforma em cacos destinados ao lixo.
Em Jeremias 18.1-17 Deus ordena o profeta a descer até a casa do oleiro e vê-lo trabalhar, para ilustração da mensagem divina ao povo de Judá e aos moradores de Jerusalém. Chegando lá, Jeremias observa atentamente o oleiro entregue à sua obra. Entretanto, “Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu” (Jr 18.4).

Então, veio a mim a palavra do SENHOR: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o SENHOR; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel (Jr 18.5,6).

Da mesma forma como um oleiro pode remodelar um vaso mal formado, o Deus soberano poderia remodelar a casa de Israel ou qualquer outra nação para o bem, mas também para o mal, caso não houvesse arrependimento de suas maldades (cf. Jr 18.6-11). Porém, em Jeremias 19 temos outra realidade.
A botija que o profeta Jeremias quebraria representa o juízo definitivo do Senhor contra Judá e os moradores de Jerusalém. Deus manda Jeremias comprar uma botija de oleiro e levar consigo alguns dos anciãos do povo e dos anciãos dos sacerdotes. No vale do filho de Hinom, à entrada da Porta do Oleiro, o profeta apregoaria as palavras que o Senhor lhe dissesse.

Então, quebrarás a botija à vista dos homens que foram contigo e lhes dirás: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Deste modo quebrarei eu este povo e esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se, e os enterrarão em Tofete, porque não haverá outro lugar para os enterrar (Jr 19.10,11).

Jeremias não saberia fazer um vaso, contudo, podia perfeitamente quebrar um. O oleiro, por sua vez, mesmo que pudesse, não quebrava um vaso pronto depois de saído do forno, apenas o refazia, com a massa ainda amolecida. A Bíblia de Estudo de Genebra sintetiza bem o pensamento de Jeremias 19: “Judá, endurecido pelo pecado, não mais pode ser remodelado, mas somente destruído”.[1]
Portanto, com base em Jeremias 18 e 19, devemos pedir ao nosso Deus que nos remodele para sua honra, que nos melhore por sua longanimidade, aperfeiçoando-nos mais e mais em santidade de vida. Não peçamos a ele que nos “quebre” porque seria a mesma coisa de pedir ao Senhor que nos destrua, ou seja, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se.




[1] Bíblia de Estudo de Genebra, p. 882.

domingo, 9 de novembro de 2014

Os Querubins

Josivaldo de França Pereira

Os querubins (seres viventes em hebraico) formam a primeira ordem ou classe distinta de anjos mencionada na Bíblia. São citados pela primeira vez em Gênesis 3.24, quando Adão e Eva foram expulsos por Deus do Paraíso: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24). Waltke e Fredericks comentam: “Como o querubim angélico em Ezequiel 28.14, cuja tarefa possivelmente fosse bloquear a ascensão de alguém ao cimo do trono (cf. Is 14.13), esses seres chamejantes exercem o papel admoestatório de impedir que os pecadores se assenhoreiem da imortalidade”.[1]
Justiça e graça aparecem lado a lado em Gênesis 3.24.  Por causa do pecado o homem foi expulso do jardim de Deus, mas, por sua graça, a espada flamejante e os querubins impediram o retorno dele, a fim de que não comesse da árvore da vida e vivesse eternamente sob maldição. Além disso, como bem observa Champlin numa referência ao Antigo Testamento, “Devemos lembrar que, na narrativa do livro de Gênesis, os querubins foram postados à entrada do jardim do Éden, impedindo que o homem pecaminoso entrasse. Parece que, no A. T., representam a vindicação e proteção da santidade de Deus e de suas santas instituições. E ao sombrearem o propiciatório, continuavam representando tal proteção”.[2]
As imagens de dois querubins estavam sobre o propiciatório da arca da aliança. O propiciatório era a tampa que ficava em cima da arca. Sobre o propiciatório os dois querubins estendiam suas asas, formando um arco, conforme prescreveu o Senhor a Moisés:

Farás também um propiciatório de ouro puro; de dois côvados e meio será o seu comprimento, e a largura, de um côvado e meio. Farás dois querubins de ouro; de ouro batido o farás, nas duas extremidades do propiciatório; um querubim, na extremidade de uma parte, e o outro, na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório fareis os querubins nas duas extremidades dele. Os querubins estenderão as asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; estarão eles de faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório. Porás o propiciatório em cima da arca; e dentro delas porás o Testemunho, que eu te darei. Ali, virei a ti e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel (Êx 25.17-22).[3]

Vê-se, então, que nas diferentes classes de anjos os querubins estão, por assim dizer, mais próximos da glória de Deus. O autor aos Hebreus se refere aos anjos da tampa da arca como “querubins de glória” (Hb 9.5). Segundo Guthrie, “A expressão os querubins de glória é interessante, porque faz mais do que descrever os querubins como sendo gloriosos. A glória (doxa) simboliza a presença de Deus. Os querubins, portanto, faziam lembrar a Deus. Sua posição, assim descrita: com a sua sombra, cobriam o propiciatório revela que são guardas da majestade de Deus”.[4] No entanto, seus rostos não estão virados para cima, como contemplando diretamente a glória do Senhor. Eles ficavam com as faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório.[5]
Um dos melhores comentários que encontrei sobre os dois querubins da arca da aliança é o de Alan Cole. Diz ele:

Estes [os dois querubins] eram, mais provavelmente, esfinges aladas com rostos humanos, a julgar pelas visões de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, bem como pelo uso do termo no Egito (embora os querubins sejam mencionados em Gn 3.24, não são descritos). Na Assíria, o karubu (mesma raiz semítica) tem a função de guarda de templo. Em Israel, os querubins simbolizavam os espíritos que ministravam como servos e mensageiros de Deus (Sl 104.3,4) e por isso suas imagens não eram uma violação de [Êx] 20.4, já que ninguém os adorava. Figuras de querubins, bordadas em cores vivas, eram encontradas em toda volta da cortina interior do Tabernáculo (36.35), de modo que sua presença sobre a arca não era uma ocorrência isolada. O Templo de Salomão possuía dois enormes querubins de oliveira, cobertos de ouro, de cinco metros de altura, os quais pairavam sobre a arca (2Cr 3.10).[6]

Em suma, os querubins receberam a incumbência de guardar a entrada do jardim do Éden (Gn 3.14), o próprio Deus está entronizado acima dos querubins (1Sm 4.4; 2Sm 6.2; 2Rs 19.15; 1Cr 13.6; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16), cavalga um querubim e voa sobre ele (2Sm 22.11; Sl 18.10; Ez 10). No tabernáculo e no Templo, em cima da arca da aliança havia uma tampa (o propiciatório) com duas imagens de querubins feitas de ouro. Suas asas estavam estendidas sobre a arca e do meio deles o Senhor proferia sua palavra (Êx 25.18-22; Nm 7.89); ou seja, os querubins protegem a santidade de Deus e revelam o poder, a majestade e a glória do Senhor. 





[1] Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Comentários do Antigo Testamento: Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 114.
[2] Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 578.
[3] Cf. Êx 37.6-9.
[4] Donald Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1984, p. 171. Veja também Champlin, op. cit., p. 578.
[5] Para um estudo muito proveitoso do significado da propiciação (palavra originária do termo propiciatório), consulte J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 163-82.
[6] R. Alan Cole, Êxodo: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 185. Para um estudo detalhado sobre a natureza dos querubins, consulte R. Laird Harris, Querubim. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 746-48; Herman Bavink, Dogmática Reformada: Deus e a Criação. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 459.

sábado, 9 de agosto de 2014

Nadabe, Abiú e o fogo estranho

Josivaldo de França Pereira

 
Nadabe e Abiú são os nomes dos dois filhos mais velhos de Arão (cf. Nm 3.2). Ambos estiveram presentes, juntamente com a comitiva de setenta anciãos que subiram ao Senhor, no monte Sinai, e “viram” Deus em sua glória (Êx 24.1,9). Posteriormente foram ordenados sacerdotes (Êx 28.1) e, apesar de contemplarem o Senhor no Sinai, ainda assim transgrediram contra a lei ritual de Deus (cf. Êx 30.9) quando ofereceram fogo estranho perante a face do Senhor, razão pela qual foram mortos pelo fogo santo de Deus (Lv 10.1-8; cf. Nm 26.61).
Segundo T. H. Jones, fogo estranho “pode significar ou fogo ou incenso aceso noutro lugar que não sobre o altar (Lv 16.12), ou então incenso oferecido em ocasião errada (‘o que não lhes ordenara’)”.[1] Jones sugere ainda que Levítico 10.8,9 indique a possibilidade de que a bebedeira tenha sido um elemento nesse pecado.[2] Davis complementa: “Tendo sido vedado a Arão o uso de vinho, quando entrasse no tabernáculo, presume-se que Nadabe e Abiú tivessem violado este preceito, e entrassem à presença de Deus sob a ação do álcool, sofrendo a morte”.[3]
Harrison sumariza bem a história de Nadabe e Abiú quando diz:
Mal tinham terminado as cerimônias da consagração, e os sacerdotes entrado nas suas funções sagradas, e um ato de sacrilégio foi perpetrado pelos filhos mais velhos de Arão, Nadabe e Abiú. O capítulo 9 (de Levítico) mostra a maneira segundo a qual o povo devia aproximar-se de Deus na adoração, e as bênçãos e os benefícios que resultariam. O capítulo 10 torna claro quão rapidamente a retribuição divina veio sobre aqueles que se recusaram a seguir a orientação, e que insistiram, ao invés disto, em seguir um curso independente. O que tão recentemente tinha sido um tempo de felicidade e esplendor para a nação é estragado por uma tragédia desnecessária. A situação ficou sendo ainda mais lastimável por causa da posição privilegiada que estes dois homens tinham desfrutado quando, juntamente com Moisés, com o pai deles, Arão, e setenta dos anciãos de Israel, tiveram licença de ver uma manifestação do Deus de Israel no Monte Sinai (Êx 24.1,10). Os abusos que se permitiram foram de natureza muito séria, visto que foram induzidos pela desobediência.[4]

Qual a mensagem central da história de Nadabe e Abiú? O que aprendemos com o ato profano deles? O apóstolo Paulo, em sua carta aos romanos, diz que tudo quanto outrora foi escrito para o nosso ensino foi escrito (Rm 15.4), significando tanto as experiências positivas quanto as negativas dos homens e mulheres da Bíblia. O mau exemplo de Nadabe e Abiú não pode ser seguido por nós, posto que Deus exige a adoração aceitável com reverência e santo temor (Hb 12.29). Deus não quer ser adorado segundo a nossa imaginação, mas de acordo com os princípios que ele mesmo estabeleceu em sua Palavra. Um verdadeiro adorador é aquele que é buscado por Deus para adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4. 23,24), ou seja, como o Senhor quer.
No século XVII a Assembleia de Westminster sintetizou com precisão o que é um culto segundo Deus:
A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas, o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão limitado pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.[5]

Deus é o autor do culto. No Antigo Testamento ele atuou diretamente na criação e organização do culto arquétipo (figura ou modelo do que se realiza no Novo Testamento) de maneira final e efetiva: escolheu, projetou e determinou a construção da arca e do templo, inclusive a indicação do material a ser usado; elegeu sacerdotes oficiantes; prescreveu as vestimentas sacerdotais (até a roupa debaixo deles!); selecionou os animais do sacrifício; marcou o lugar e determinou a localização do templo; o tempo para as celebrações; o modo de celebrar; a posição das pessoas no local sagrado.
No Novo Testamento (e até os nossos dias), Deus escolheu o culto pelo qual o ser humano se achega liturgicamente a ele pela mediação de Cristo, o realizador do pacto, o revelador do Pai, o autor da vida eterna, o doador do Espírito Santo, o mediador do culto.[6]





[1] T. H. J., Nadabe. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 1092. A Bíblia de Estudo de Genebra sugere que talvez Nadabe e Abiú tenham usado brasas de outro lugar que não o altar (Lv16.12; cf. Êx 30.1-9).
[2] Ibidem.
[3] John D. Davis, Dicionário da Bíblia. 10a ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1984, p. 411.
[4] R. K. Harrison, Levítico: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1989, p. 99. Veja também o comentário interessante que Harrison faz de Levítico 10.1,2 na referida obra.
[5] Confissão de Fé de Westminster, XXI, i. Veja também Russel P. Shedd, Adoração Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 7-15.
[6] Cf. Onézio Figueiredo, Culto. São Paulo, 1990, p. 2. Obra não publicada. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Voto Facultativo: Expressão da Verdadeira Democracia

Josivaldo de França Pereira


Fala-se por aí que o Brasil é um país democrático; no entanto, um país onde o povo ainda é obrigado a votar pode ser considerado, de fato, democrático? É claro que não! Nós temos no Brasil menos uma democracia do que aquilo que se poderia chamar de poliarquia, sistema no qual um grupo governa e a maioria da população se limita a escolher entre representantes de elites políticas rivais.
Nestes 500 e poucos anos de descobrimento tivemos – além de séculos de escravidão – mais governos autoritários ou ditatoriais do que instituições realmente democráticas que permitissem o amadurecimento e o fortalecimento de uma consciência política e social. O direito do povo brasileiro de receber informações objetivas e de se expressar livremente através dos meios de cultura e comunicação ainda é uma conquista recente, assim como o direito de votar e de ser votado.
Com relação ao voto, é importante registrar que nas principais democracias representativas o voto é, sempre, facultativo. Constata-se, de fato, uma correlação entre o voto obrigatório e o autoritarismo político. O voto facultativo é, sem dúvida, mais democrático e aufere melhor a vontade do eleitor. Temos convicção de que o voto deve ser encarado como um direito e não como uma obrigação ou dever passível de punição. Em resumo, pode-se dizer que:
a)     O voto é um direito e não um dever;
b)     O voto facultativo é adotado pela maioria dos países desenvolvidos e de tradição democrática;
c)      O voto facultativo melhora a qualidade do pleito eleitoral pela participação de eleitores conscientes e motivados em sua maioria;
d)     A participação eleitoral da maioria decorrente do voto obrigatório é um mito;
e)     É ilusão acreditar que o voto obrigatório possa gerar cidadãos politicamente evoluídos.

Portanto, concluímos que o voto obrigatório é um assalto à verdadeira democracia!  

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Discurso de formatura: 24 anos depois


DD. Senhores:
Presbítero Damocles Perrone Carvalho, representante do SC/IPB e da Junta Regional de Educação Teológica; Rev. Magnus Galeno Felga Fialho, representante do Conselho Diretor do Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição e demais membros; Rev. João Alves dos Santos, paraninfo da turma "Rev. Álvaro Reis"; Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, orador sacro da turma "Rev. Álvaro Reis"; professores do Seminário J. M. C.; amados irmãos, prezados amigos...
Esta noite será um marco inesquecível para nós, formandos. É alegria que queremos compartilhar com todos vós, pois chegamos ao término de alguns anos de estudo como candidatos ao sagrado ministério.
Quando ingressamos no seminário, sonhávamos com este momento. Não que achássemos o estudo que haveríamos de seguir um fardo (apesar de termos tido algumas matérias bem pesadas), mas para que, um pouco mais preparados, pudéssemos, então, servir a igreja de Cristo.
Antes de iniciarmos o curso achávamos até que sabíamos algo e contribuiríamos muito com os professores em classe. Não foi nada disso. Tivemos muito que aprender.
O seminário nos auxiliou grandemente, dando-nos o ensino de que necessitávamos; e como seria impossível em poucos anos ensinar tudo, nos conscientizou do dever de continuarmos aprendendo sempre. O ministério deverá ser, portanto, a extensão do seminário para nós e a lição que ainda não aprendemos em sala de aula.
Uma vez formados exerceremos, em breve, o nosso ministério; porém, para que seja fecundo e frutífero, é necessário que envolva, pelo menos, dois ofícios fundamentais: os ofícios do pastor e do mestre.
Como pastores, apascentaremos o rebanho que o Supremo Pastor, Cristo Jesus, nos confiará. Tomaremos como recomendações as palavras do pastor e apóstolo Pedro, de apascentar o rebanho de Deus, que estará entre nós, com cuidado, não por força, mas voluntariamente: nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de modelo ao rebanho (1Pe 5.2-4).
Como mestres, teremos o compromisso de trazer ao conhecimento da igreja o que ela precisa saber através da Palavra de Deus. E não seremos mestres se antes de tudo não assumirmos, nós mesmos, um compromisso sério com a Escritura Sagrada e com o próprio Deus, de trazermos à luz do entendimento cristão a verdade da qual Ele é o autor.
Ensinaremos a sã doutrina de acordo com a Palavra de Deus e com os princípios da Igreja Presbiteriana do Brasil; Igreja esta que tem as Escrituras Sagradas como única regra de fé e prática e os Símbolos de Westminster como normas confessionais.
Não queremos ensinar nada que venha de nós mesmos e, muito menos, ser inovacionistas na doutrina. O que queremos e faremos é transmitir o ensino observado pelos "pais" reformados. Queremos imitá-los porque foram estes que se voltaram para a Palavra de Deus em uma época quando a igreja havia se desviado da verdade. Temo-los como "pais" porque nos consideramos seus "filhos". E, como filhos, possuiremos a herança cristã que, como por um testamento, nos foi confiada. Somos os herdeiros da Reforma, e, como tais, desejamos transmitir às nossas igrejas o melhor do pastorado e ensino da Reforma.
Neste instante, restam-nos ligeiros agradecimentos, mas não sem valor. Agradecemos aos pais, irmãos, esposas, noivas, namoradas e demais familiares pela compreensão e incentivo que nos deram durante o tempo de estudo. Às igrejas, nas quais trabalhamos e das quais somos membros, pelas orações constantes em nosso favor. Finalmente, porém não em último lugar, ao Deus Pai, que nos escolheu antes da fundação do mundo para o ministério da Palavra. Ao Deus Filho, pela redenção imerecida. Ao Deus Espírito Santo, pela vivificação e restauração de nossas almas que outrora estavam mortas e perdidas.
De nossa parte compete a renúncia do próprio "eu" e, se necessário, a entrega da própria vida para cumprirmos a tarefa para a qual fomos chamados. As palavras do apóstolo Paulo aos anciãos da igreja de Éfeso, em Atos 20.24, serão a marca distintiva desta nossa missão: "Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus".
Paulo não considerava a sua própria vida uma possessão preciosa a ser conservada a qualquer custo. O que importava era chegar ao fim de sua carreira, mediante a realização fiel do serviço do qual o Senhor o encarregou na ocasião da sua conversão, a saber: pregar o evangelho da graça de Deus. O chamado para o ministério deverá ser, no seu cumprimento, o nosso mais alto ideal.
Reconhecemos, irmãos e amigos, que a salvação vem de Deus somente. Ele é soberano e nós, como ministros seus, nos colocamos em Suas mãos como nada sendo. A graça divina que nos vocacionou também nos capacitará para esta obra (1 Co 15.10). E por esta mesma graça pessoas serão conquistadas para o reino de Deus através de nossa pregação.
Quanto ao mais, oramos para que o Espírito Santo nos apresente perante Deus aprovados, como aquele obreiro que "não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2Tm 2.15).


Bacharelando Josivaldo de França Pereira - Orador da Turma "Rev. Álvaro Reis"

São Paulo, 07 de julho de 1990, auditório "Rui Barbosa" (Mackenzie).