quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Quem Aceita Quem?

Josivaldo de França Pereira


Aceitar é consentir em receber (coisa oferecida ou dada); estar de acordo com; concordar com; anuir; admitir.
Frequentemente ouve-se nas rádios e programas televisivos um ou outro evangelista dizendo: “Aceite a Jesus”, quando na verdade o certo é: “Você precisa ser aceito por Jesus”.
Ao invés de indagar: “Você gostaria de aceitar a Jesus?”, o correto seria perguntar: “Você gostaria de ser aceito por Jesus?”.
Enfim, a questão principal não é aceitar a Jesus, mas ser aceito por ele.
O ser humano é por natureza soberbo, presunçoso e arrogante, e algumas correntes teológicas, como por exemplo o arminianismo, infelizmente favorecem ainda mais essas atitudes.
Seria muita pretensão do indivíduo se ele, um pecador, pudesse aceitar a Jesus e um enorme equivoco pensar que ele, o pecador, de fato pudesse fazê-lo.
É o homem que precisa ser aceito por Deus; do contrário, não haverá salvação para ele, pois tudo aquilo que é bom e maravilhoso a nossa vida vem de Deus, é dado por Deus (cf. Tg 1.17).
As pessoas não podem por si mesmas resolver a questão do pecado e de sua salvação. A Bíblia relata: “Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma cousa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus” (2Co 3.5); e ainda: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
É verdade que Jesus disse: “... arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Mas isso é porque somos moralmente responsáveis pelos nossos atos e, além disso, Deus não pode se arrepender e crer em nosso lugar.
Por outro lado, sabemos que tanto o arrependimento quanto a fé são dons de Deus (cf. At 11.18; Fp 2.29; 2Tm 2.25), visto que não é do ser humano buscar por si mesmo as coisas referentes ao Senhor (cf. 1Co 2.14; Ef 2.1-10).
Esta forma de entendimento segue na mesma linha do que Jesus disse a seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (Jo 15.16).[1]
Mas alguém poderia asseverar: “Colossenses 2.6 (Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor...) não ensina justamente o contrário, ou seja, que podemos de fato aceitar a Jesus?”.
O verbo parelábete (de paralambáno = receber), é usado em Colossenses 2.6 em sentido técnico: receber de outro por transmissão (cf. 1Co 11.23; 15.1,3; Gl 1.9,12; Fm 49; 1Ts 2.13; 4.1; 2Ts 3.6), estendendo-se a linha de transmissão de Deus a Paulo (direta e indiretamente), deste a Epafras, até chegar aos colossenses.[2]
Em outras palavras, em Colossenses 2.6 o apóstolo Paulo está falando do “evangelho dado por Deus, tal como foi ensinado por Cristo e seus apóstolos, chamado às vezes de ‘tradição apostólica’”.[3]

Fui aceito porque Deus me amou primeiro
Cristo veio morrer por mim
Hoje tenho vida
Com Deus agora vivo porque Jesus ressuscitou
Grandioso amor
Como é possível o meu Rei morrer por mim?
Grandioso amor 
Sei que é real

(Grandioso Amor [Versão de Amazing Love – Chris Tomlin])





[1] Consulte o excelente livro de John Blanchard, Aceptado por Dios. Carlisle: El Estandarte de la Verdad, 1989, em especial as páginas 31-48.
[2] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Colosenses/Filemon. Grand Rapids: SLC, 1982, p. 126.
[3] Ibidem, nota 79. Russel Norman Champlin, apesar de notoriamente conhecido como teólogo arminiano, faz o seguinte comentário do verbo receber de Colossenses 2.6: “Não fala isso, diretamente, sobre a ‘aceitação de Cristo como Salvador e Senhor’, como se vê nas confissões evangélicas, mas a alusão é ao recebimento do conhecimento do Cristo pregado por Epafras (ver Cl 1.7) e através das palavras, das epístolas e do exemplo dados por Paulo”. (Cf. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 114).

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O vaso do oleiro e a botija quebrada

(Jeremias 18 e 19)

Josivaldo de França Pereira


Um antigo cântico diz:
Eu quero ser, Senhor amado,
Como um vaso nas mãos do oleiro.
Quebra a minha vida e faze-a de novo.
Eu quero ser, eu quero ser, um vaso novo.

Conquanto a intenção do poeta tenha sido o desejo salutar de uma vida mais próxima de Deus, bíblica e teologicamente a letra está incorreta quando enfoca: “Quebra a minha vida e faze-a de novo”.
À luz de Jeremias 18 e 19 aprendemos que vaso quebrado é vaso condenado, e o vaso novo é vaso moldado; aperfeiçoado, melhorado. A massa mole pode ser remodelada, todavia, depois de endurecida no forno, tornando-se um vaso propriamente, quando quebrado, não serve para mais nada, exceto para ser jogado fora. Um vaso quebrado se transforma em cacos destinados ao lixo.
Em Jeremias 18.1-17 Deus ordena o profeta a descer até a casa do oleiro e vê-lo trabalhar, para ilustração da mensagem divina ao povo de Judá e aos moradores de Jerusalém. Chegando lá, Jeremias observa atentamente o oleiro entregue à sua obra. Entretanto, “Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu” (Jr 18.4).

Então, veio a mim a palavra do SENHOR: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o SENHOR; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel (Jr 18.5,6).

Da mesma forma como um oleiro pode remodelar um vaso mal formado, o Deus soberano poderia remodelar a casa de Israel ou qualquer outra nação para o bem, mas também para o mal, caso não houvesse arrependimento de suas maldades (cf. Jr 18.6-11). Porém, em Jeremias 19 temos outra realidade.
A botija que o profeta Jeremias quebraria representa o juízo definitivo do Senhor contra Judá e os moradores de Jerusalém. Deus manda Jeremias comprar uma botija de oleiro e levar consigo alguns dos anciãos do povo e dos anciãos dos sacerdotes. No vale do filho de Hinom, à entrada da Porta do Oleiro, o profeta apregoaria as palavras que o Senhor lhe dissesse.

Então, quebrarás a botija à vista dos homens que foram contigo e lhes dirás: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Deste modo quebrarei eu este povo e esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se, e os enterrarão em Tofete, porque não haverá outro lugar para os enterrar (Jr 19.10,11).

Jeremias não saberia fazer um vaso, contudo, podia perfeitamente quebrar um. O oleiro, por sua vez, mesmo que pudesse, não quebrava um vaso pronto depois de saído do forno, apenas o refazia, com a massa ainda amolecida. A Bíblia de Estudo de Genebra sintetiza bem o pensamento de Jeremias 19: “Judá, endurecido pelo pecado, não mais pode ser remodelado, mas somente destruído”.[1]
Portanto, com base em Jeremias 18 e 19, devemos pedir ao nosso Deus que nos remodele para sua honra, que nos melhore por sua longanimidade, aperfeiçoando-nos mais e mais em santidade de vida. Não peçamos a ele que nos “quebre” porque seria a mesma coisa de pedir ao Senhor que nos destrua, ou seja, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se.




[1] Bíblia de Estudo de Genebra, p. 882.

domingo, 9 de novembro de 2014

Os Querubins

Josivaldo de França Pereira

Os querubins (seres viventes em hebraico) formam a primeira ordem ou classe distinta de anjos mencionada na Bíblia. São citados pela primeira vez em Gênesis 3.24, quando Adão e Eva foram expulsos por Deus do Paraíso: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24). Waltke e Fredericks comentam: “Como o querubim angélico em Ezequiel 28.14, cuja tarefa possivelmente fosse bloquear a ascensão de alguém ao cimo do trono (cf. Is 14.13), esses seres chamejantes exercem o papel admoestatório de impedir que os pecadores se assenhoreiem da imortalidade”.[1]
Justiça e graça aparecem lado a lado em Gênesis 3.24.  Por causa do pecado o homem foi expulso do jardim de Deus, mas, por sua graça, a espada flamejante e os querubins impediram o retorno dele, a fim de que não comesse da árvore da vida e vivesse eternamente sob maldição. Além disso, como bem observa Champlin numa referência ao Antigo Testamento, “Devemos lembrar que, na narrativa do livro de Gênesis, os querubins foram postados à entrada do jardim do Éden, impedindo que o homem pecaminoso entrasse. Parece que, no A. T., representam a vindicação e proteção da santidade de Deus e de suas santas instituições. E ao sombrearem o propiciatório, continuavam representando tal proteção”.[2]
As imagens de dois querubins estavam sobre o propiciatório da arca da aliança. O propiciatório era a tampa que ficava em cima da arca. Sobre o propiciatório os dois querubins estendiam suas asas, formando um arco, conforme prescreveu o Senhor a Moisés:

Farás também um propiciatório de ouro puro; de dois côvados e meio será o seu comprimento, e a largura, de um côvado e meio. Farás dois querubins de ouro; de ouro batido o farás, nas duas extremidades do propiciatório; um querubim, na extremidade de uma parte, e o outro, na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório fareis os querubins nas duas extremidades dele. Os querubins estenderão as asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; estarão eles de faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório. Porás o propiciatório em cima da arca; e dentro delas porás o Testemunho, que eu te darei. Ali, virei a ti e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel (Êx 25.17-22).[3]

Vê-se, então, que nas diferentes classes de anjos os querubins estão, por assim dizer, mais próximos da glória de Deus. O autor aos Hebreus se refere aos anjos da tampa da arca como “querubins de glória” (Hb 9.5). Segundo Guthrie, “A expressão os querubins de glória é interessante, porque faz mais do que descrever os querubins como sendo gloriosos. A glória (doxa) simboliza a presença de Deus. Os querubins, portanto, faziam lembrar a Deus. Sua posição, assim descrita: com a sua sombra, cobriam o propiciatório revela que são guardas da majestade de Deus”.[4] No entanto, seus rostos não estão virados para cima, como contemplando diretamente a glória do Senhor. Eles ficavam com as faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório.[5]
Um dos melhores comentários que encontrei sobre os dois querubins da arca da aliança é o de Alan Cole. Diz ele:

Estes [os dois querubins] eram, mais provavelmente, esfinges aladas com rostos humanos, a julgar pelas visões de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, bem como pelo uso do termo no Egito (embora os querubins sejam mencionados em Gn 3.24, não são descritos). Na Assíria, o karubu (mesma raiz semítica) tem a função de guarda de templo. Em Israel, os querubins simbolizavam os espíritos que ministravam como servos e mensageiros de Deus (Sl 104.3,4) e por isso suas imagens não eram uma violação de [Êx] 20.4, já que ninguém os adorava. Figuras de querubins, bordadas em cores vivas, eram encontradas em toda volta da cortina interior do Tabernáculo (36.35), de modo que sua presença sobre a arca não era uma ocorrência isolada. O Templo de Salomão possuía dois enormes querubins de oliveira, cobertos de ouro, de cinco metros de altura, os quais pairavam sobre a arca (2Cr 3.10).[6]

Em suma, os querubins receberam a incumbência de guardar a entrada do jardim do Éden (Gn 3.14), o próprio Deus está entronizado acima dos querubins (1Sm 4.4; 2Sm 6.2; 2Rs 19.15; 1Cr 13.6; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16), cavalga um querubim e voa sobre ele (2Sm 22.11; Sl 18.10; Ez 10). No tabernáculo e no Templo, em cima da arca da aliança havia uma tampa (o propiciatório) com duas imagens de querubins feitas de ouro. Suas asas estavam estendidas sobre a arca e do meio deles o Senhor proferia sua palavra (Êx 25.18-22; Nm 7.89); ou seja, os querubins protegem a santidade de Deus e revelam o poder, a majestade e a glória do Senhor. 





[1] Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Comentários do Antigo Testamento: Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 114.
[2] Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 578.
[3] Cf. Êx 37.6-9.
[4] Donald Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1984, p. 171. Veja também Champlin, op. cit., p. 578.
[5] Para um estudo muito proveitoso do significado da propiciação (palavra originária do termo propiciatório), consulte J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 163-82.
[6] R. Alan Cole, Êxodo: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 185. Para um estudo detalhado sobre a natureza dos querubins, consulte R. Laird Harris, Querubim. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 746-48; Herman Bavink, Dogmática Reformada: Deus e a Criação. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 459.