domingo, 9 de novembro de 2014

Os Querubins

Josivaldo de França Pereira

Os querubins (seres viventes em hebraico) formam a primeira ordem ou classe distinta de anjos mencionada na Bíblia. São citados pela primeira vez em Gênesis 3.24, quando Adão e Eva foram expulsos por Deus do Paraíso: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24). Waltke e Fredericks comentam: “Como o querubim angélico em Ezequiel 28.14, cuja tarefa possivelmente fosse bloquear a ascensão de alguém ao cimo do trono (cf. Is 14.13), esses seres chamejantes exercem o papel admoestatório de impedir que os pecadores se assenhoreiem da imortalidade”.[1]
Justiça e graça aparecem lado a lado em Gênesis 3.24.  Por causa do pecado o homem foi expulso do jardim de Deus, mas, por sua graça, a espada flamejante e os querubins impediram o retorno dele, a fim de que não comesse da árvore da vida e vivesse eternamente sob maldição. Além disso, como bem observa Champlin numa referência ao Antigo Testamento, “Devemos lembrar que, na narrativa do livro de Gênesis, os querubins foram postados à entrada do jardim do Éden, impedindo que o homem pecaminoso entrasse. Parece que, no A. T., representam a vindicação e proteção da santidade de Deus e de suas santas instituições. E ao sombrearem o propiciatório, continuavam representando tal proteção”.[2]
As imagens de dois querubins estavam sobre o propiciatório da arca da aliança. O propiciatório era a tampa que ficava em cima da arca. Sobre o propiciatório os dois querubins estendiam suas asas, formando um arco, conforme prescreveu o Senhor a Moisés:

Farás também um propiciatório de ouro puro; de dois côvados e meio será o seu comprimento, e a largura, de um côvado e meio. Farás dois querubins de ouro; de ouro batido o farás, nas duas extremidades do propiciatório; um querubim, na extremidade de uma parte, e o outro, na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório fareis os querubins nas duas extremidades dele. Os querubins estenderão as asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; estarão eles de faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório. Porás o propiciatório em cima da arca; e dentro delas porás o Testemunho, que eu te darei. Ali, virei a ti e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel (Êx 25.17-22).[3]

Vê-se, então, que nas diferentes classes de anjos os querubins estão, por assim dizer, mais próximos da glória de Deus. O autor aos Hebreus se refere aos anjos da tampa da arca como “querubins de glória” (Hb 9.5). Segundo Guthrie, “A expressão os querubins de glória é interessante, porque faz mais do que descrever os querubins como sendo gloriosos. A glória (doxa) simboliza a presença de Deus. Os querubins, portanto, faziam lembrar a Deus. Sua posição, assim descrita: com a sua sombra, cobriam o propiciatório revela que são guardas da majestade de Deus”.[4] No entanto, seus rostos não estão virados para cima, como contemplando diretamente a glória do Senhor. Eles ficavam com as faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório.[5]
Um dos melhores comentários que encontrei sobre os dois querubins da arca da aliança é o de Alan Cole. Diz ele:

Estes [os dois querubins] eram, mais provavelmente, esfinges aladas com rostos humanos, a julgar pelas visões de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, bem como pelo uso do termo no Egito (embora os querubins sejam mencionados em Gn 3.24, não são descritos). Na Assíria, o karubu (mesma raiz semítica) tem a função de guarda de templo. Em Israel, os querubins simbolizavam os espíritos que ministravam como servos e mensageiros de Deus (Sl 104.3,4) e por isso suas imagens não eram uma violação de [Êx] 20.4, já que ninguém os adorava. Figuras de querubins, bordadas em cores vivas, eram encontradas em toda volta da cortina interior do Tabernáculo (36.35), de modo que sua presença sobre a arca não era uma ocorrência isolada. O Templo de Salomão possuía dois enormes querubins de oliveira, cobertos de ouro, de cinco metros de altura, os quais pairavam sobre a arca (2Cr 3.10).[6]

Em suma, os querubins receberam a incumbência de guardar a entrada do jardim do Éden (Gn 3.14), o próprio Deus está entronizado acima dos querubins (1Sm 4.4; 2Sm 6.2; 2Rs 19.15; 1Cr 13.6; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16), cavalga um querubim e voa sobre ele (2Sm 22.11; Sl 18.10; Ez 10). No tabernáculo e no Templo, em cima da arca da aliança havia uma tampa (o propiciatório) com duas imagens de querubins feitas de ouro. Suas asas estavam estendidas sobre a arca e do meio deles o Senhor proferia sua palavra (Êx 25.18-22; Nm 7.89); ou seja, os querubins protegem a santidade de Deus e revelam o poder, a majestade e a glória do Senhor. 





[1] Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Comentários do Antigo Testamento: Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 114.
[2] Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 578.
[3] Cf. Êx 37.6-9.
[4] Donald Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1984, p. 171. Veja também Champlin, op. cit., p. 578.
[5] Para um estudo muito proveitoso do significado da propiciação (palavra originária do termo propiciatório), consulte J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 163-82.
[6] R. Alan Cole, Êxodo: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 185. Para um estudo detalhado sobre a natureza dos querubins, consulte R. Laird Harris, Querubim. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 746-48; Herman Bavink, Dogmática Reformada: Deus e a Criação. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 459.

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