domingo, 21 de dezembro de 2014

“Esta Pedra”: Interpretações de Mateus 16.18

Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18).

Josivaldo de França Pereira

O que Jesus quis dizer por “esta pedra” em Mateus 16.18? A pedra sobre a qual Jesus edificaria a sua igreja tem sido compreendida de maneira distinta pelos estudiosos. São três as principais interpretações.
A confissão de Pedro
A primeira delas sustenta que o Senhor Jesus está se referindo à confissão de Pedro. O Mestre seguia com seus discípulos para as bandas de Cesareia de Filipe quando lhes perguntou: “Quem diz o povo ser o Filho do homem?”. Numa tentativa de agradar e impressionar a Jesus, a resposta dos discípulos é criteriosa e seletiva: “Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas”. Sem se deixar levar por nenhuma dessas comparações meramente humanas, pois todas elas estavam bem longe da autêntica definição de quem é o Filho do homem, Jesus insiste com eles: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?”.
Então Pedro, em nome do colégio apostólico, confessa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A confissão de Pedro como sendo “esta pedra” é a interpretação mais popular no meio evangélico.  Praticamente todas as versões da Bíblia em português (e também estrangeiras) trazem como título editorial “A confissão de Pedro” na perícope de Mateus 16.13-20. Além disso, aqui no Brasil gerações de líderes e igrejas foram influenciadas com a mensagem do livreto A Confissão de Pedro, um estudo exegético de autoria do Rev. Herculano de Gouvêa Jr (1891-1964), publicado pela Casa Editora Presbiteriana em décadas passadas.
Segundo Gouvêa, do ponto de vista gramatical, o termo ambíguo de Mateus 16.18 é pedra e a sua significação pode ser determinada do seguinte modo: Lendo o versículo anterior, 17, defrontamos com uma questão semelhante porque no grego o objeto do verbo revelar não se acha expresso, e assim deve ser traduzido: “Bem-aventurado és tu Simão Barjonas, porque não foi a carne e sangue quem te revelou, mas meu Pai que está nos céus”. Quem te revelou o quê?
Não há quem negue, de acordo com Gouvêa, que o objeto oculto é a verdade que Pedro acabara de confessar. Ora, quando Cristo declara: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, a palavra pedra designa o assunto acerca do qual Cristo fala com Pedro; e essa pedra precisa ser e de fato é equivalente ao objeto oculto do verbo revelar, no verso anterior. E conclui: Logo, a pedra é a confissão de Pedro.
Pedro
A segunda interpretação diz que “esta pedra” é o próprio Pedro. Essa tem sido a posição oficial da igreja católica romana como justificativa para o papado petrino. Nem seria preciso salientar que não existe nada no texto de Mateus 16.18 que faça menção a um pontificado de Pedro, ao papado romano ou a alguma sucessão apostólica. No entanto, a afirmativa de que Pedro é a pedra mencionada por Cristo em Mateus não se restringe ao catolicismo romano. Desconsiderando, evidentemente, qualquer alusão a Pedro como o primeiro papa, eruditos do Novo Testamento, como William Hendriksen, por exemplo, são enfáticos em afirmar que a pedra sobre a qual Cristo edificaria a sua igreja é Pedro.
Hendriksen, em seu comentário in loco de Mateus, faz uma exposição detalhada e bastante convincente de Pedro como sendo “esta pedra”. Através dos versículos 17-19 Jesus se dirige a alguém a quem indica com o uso da segunda pessoa do singular. A palavra “te” (em grego: soí) aparece uma vez em cada um desses três versículos, em harmonia com o pronome “tu” (sí) no verso 18 (“tu és Pedro”), e com o uso da forma da segunda pessoa do singular dos verbos nas declarações: “Bem-aventurado és” (v17), “tu és Pedro” (v18), “ligares... desligares” (v19). Segundo o verso 17 essa pessoa é “Simão Barjonas”; segundo o verso 18, “Pedro”. Ou seja, em Mateus 16.17-19 Jesus se dirige a Pedro do início ao fim do diálogo.
Em grego temos Pétros e pétra. Portanto, alguém poderia objetar: Se ambos os termos se referem a Pedro, por que não se usou um só vocábulo? Hendriksen explica: Pelo simples fato de que sendo feminina a palavra pétra, a palavra comum para pedra ou rocha, devia ser trocada para uma forma masculina – por isso Pétros – para indicar uma pessoa do sexo masculino, Pedro.
O sentido de Mateus 16.18 aceito por Hendriksen é: Tu és Pedro, isto é, Pedra, e sobre esta pedra, ou seja, sobre ti, Pedro, edificarei a minha igreja. Então, Jesus está prometendo a Pedro que vai edificar sua igreja sobre ele! Para o representante dessa opinião, a história da igreja primitiva relatada nos primeiros doze capítulos do livro de Atos demonstra abundantemente que a profecia de Cristo acerca de Pedro se cumpriu. Ou, para expressá-lo de outra maneira, confirma a interpretação dada.[1]
Jesus Cristo
A terceira interpretação afirma que “esta pedra” é Jesus Cristo. Esse ponto de vista tem a seu favor o fato de ser Jesus, com toda certeza, a pedra angular (Sl 118.22; Is 28.16; Zc 10.4; Mt 21.42; Mc 12.10; Lc 20.17; At 4.11; Ef 2.20; 1Pe 2.6,7). Há também aquela declaração muito importante de Paulo aos coríntios: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). E ainda, referindo-se aos judeus, o apóstolo diz: “e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo” (1Co 10.4). Inquestionavelmente, Cristo é o principal fundamento da igreja! A igreja é dele e ele mesmo a edifica.
O problema dos que interpretam Mateus 16.18 como sendo Jesus a pedra, é que os argumentos usados por eles para rebater a primeira e a segunda opiniões (vistas acima) não são muito convincentes, e mesmo deixam a desejar quando tentam provar o ponto de vista deles na passagem em questão. Por exemplo, dizem eles que o fundamento da igreja “não é o homem, com as suas fraquezas e pecados, nem a sua vacilante confissão de fé; mas sim o próprio Cristo como rocha eterna e inabalável”.
Em Mateus 16.17-19 Jesus não falava do homem com suas fraquezas e pecados, porém, daquele que seria alcançado pela graça transformadora de Deus – Simão Pedro. Sabemos que, por natureza, Pedro era fraco e instável (cf. Mt 14.29-31); todavia, pela graça divina ele se tornou uma testemunha poderosa e intrépida de Jesus Cristo. E apesar de Simão ter sido um homem vacilante como discípulo de Jesus, sua confissão de fé não foi vacilante, pois como o próprio Cristo ressaltou: “... não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17).
Representantes da presente posição, como Henry M. Woods, entendem que no grego pétros é comumente usado para indicar pedra pequena, fragmento de rocha, simples pedregulho; e que pétra significa pedra grande, rocha, rocha maciça, ou seja, Jesus Cristo em Mateus 16.18. No entanto, “comumente” não significa “sempre” ou “toda vez”. Nem sempre pétra e pétros diferem em significado, conforme Léxico do Novo Testamento Grego de Arndt e Gingrich. De modo que até aquela ilustração, muito apreciada pelos defensores deste ponto de vista, dizendo que Jesus aponta para o apóstolo ao dizer “tu és Pedro” e para si mesmo quando declara “e sobre esta pedra”, parece um tanto forçada. Hendriksen observa que a palavra esta faz que a referência a qualquer outra coisa que preceda imediatamente a pétros seja mui pouco natural.
Contudo, a afirmação de que a pedra é Cristo, com base em outros textos mencionados, faz desta interpretação uma das mais recomendadas.
Concluindo
Talvez não existam no Novo Testamento duas palavras que tenham motivado tanta discussão como “esta pedra” de Mateus 16.18. Estaria a posição que diz ser esta pedra a confissão de Pedro equivocada? Se fosse meramente a confissão de Pedro, sim; porém, Jesus diz que as palavras de Pedro foram reveladas pelo Pai. Poderíamos descartar Pedro como sendo esta pedra? Se pensarmos em Pedro à parte da graça de Deus, atuando por conta própria, com primazia sobre os demais apóstolos e sendo o fundamento principal da igreja do Senhor, sim. Poderíamos, porventura, descartar Jesus Cristo? No sentido primário ou básico da expressão há somente um fundamento, e esse fundamento não é Pedro, mas unicamente Jesus Cristo.
A tese defendida por mim é que a expressão “esta pedra” pode englobar as três principais interpretações. Alguém poderia rebater dizendo que, nesse caso, Cristo teria dito “estas pedras”, no plural. Não necessariamente porque a resposta de Jesus se baseia em uma única afirmação. A confissão de Pedro foi revelada pelo Pai, portanto, não deve ser descartada. O apóstolo Paulo, escrevendo aos efésios, diz: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.20; cf. Ap 21.14). Seguindo o raciocínio de Paulo, Pedro também não poderia ser descartado como fundamento (secundário) da igreja, ou seja, como instrumento do Senhor para o estabelecimento da igreja de Jesus em sua manifestação neotestamentária e isto como um dos doze; e, obviamente, muito menos Jesus Cristo poderia ficar de fora, pois ele é a pedra angular, o fundamento básico, primário e principal de sua igreja.

                                                                                                                              




[1] Durante esse primeiro período (antes que Paulo aparecesse poderosamente no primeiro plano, em Atos 13-28) Pedro foi o instrumento mais poderoso e o elo humano mais efetivo entre Jesus e sua igreja, o meio mais influente para o crescimento interior e exterior desta. Foi Pedro quem pregou o sermão no Pentecostes, resultando na conversão de quase três mil pessoas (At 2.41). Foi novamente pelo testemunho de Pedro e João (At 3.11; 4.1), principalmente de Pedro (At 3.12), que logo foram acrescentados à membresia da igreja mais de duas mil pessoas (At 4.4). Outros acontecimentos nos quais Pedro teve participação ativa como líder foram: a eleição de Matias para ocupar o lugar de Judas Iscariotes (At 1.15-22), a cura do mendigo coxo (At 3.4-6), e a heróica proclamação de Jesus perante o Sinédrio (At 4.8-12,29; cf. At 5.15; 8.20; 9 e 10). Além disso, em todas as listas dos doze, o nome de Pedro aparece em primeiro lugar.

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