terça-feira, 29 de novembro de 2016

A pessoa que Deus justifica

Lucas 18.9-14

Josivaldo de França Pereira

Jesus propôs uma parábola (história do dia-a-dia que ilustrava realidades espirituais) a alguns (provavelmente uma plateia de fariseus) que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros.
Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar. Um era fariseu (partido religioso da época) e o outro publicano (cobrador de impostos). Tanto um quanto o outro eram judeus. Os fariseus odiavam os publicanos porque estes trabalhavam para o governo romano, portanto, eram tidos como traidores pela maioria dos judeus.
Ambos foram ao templo orar. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, dizendo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”.
As realizações externas deste fariseu eram dignas de admiração e imitação. O problema é que aos seus olhos ele se achava melhor que as outras pessoas. O fariseu (como aqueles a quem Jesus se dirigia) confiava em si mesmo, por se considerar justo, e desprezava os outros acreditando que era mais íntegro do que eles. Preconceituosamente, ele via como roubadores, injustos e adúlteros qualquer um que não fosse fariseu como ele (cf. Mt 5.46,47; 23.23). Isso não lembra alguns religiosos dos nossos dias que pensam que somente eles devem ir para o céu?
Contudo, o fariseu foi longe demais em seu preconceito ao se voltar para o publicano, afirmando que não era como o coletor de impostos, visto que jejuava duas vezes por semana e dava o dízimo de tudo quanto ganhava. Como dissemos, as ações deste fariseu eram boas por si só. O problema, como já dissemos também, era a arrogância dele. De acordo com a Bíblia, o ego exaltado é a primeira das seis coisas que Deus aborrece (Pv 6.16-19).
O fariseu pensou que estivesse realmente orando a Deus, mas Jesus observa que esse homem orava de si para si mesmo. A oração que não é proveniente de um coração contrito e sincero não é feita a Deus. Bem diferente foi a atitude do publicano. Estando em pé, ao longe, ele não ousava nem ainda levantar os olhos para o céu, porém, batia no peito, dizendo: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”.
Jesus finaliza a parábola destacando que o publicano voltou para casa justificado por Deus, pois sua oração foi ouvida, e não o arrogante e impiedoso fariseu; porque todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado.
Conta-se, em uma antiga ilustração, que um jovem pregador subiu ao púlpito cheio de confiança. Todavia, ele pregou mal, e voltou para o seu lugar bastante constrangido. Logo depois, o zelador da igreja, vendo-o abatido, comentou: “Meu jovem, se você tivesse subido ao púlpito como desceu, certamente você teria descido como subiu”. De fato, todo aquele que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.

sábado, 26 de novembro de 2016

Morre Russell Shedd

Morreu, na madrugada deste sábado (26/11/2016), o Dr. Russell P. Shedd.
O planeta perde um grande homem de Deus. 
Tive o privilégio de ter dois livros prefaciados por ele (Personagens Esquecidos da Bíblia e Paulo). 
Em julho deste ano, quando falei com o Dr. Shedd se prefaciaria o livro Paulo, ele aceitou de bom grado, apesar de estar bastante gripado. 
Meu livro, publicado em agosto deste ano, foi a última obra prefaciada por ele. Descanse em paz grande guerreiro!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Deus é Fiel

Josivaldo de França Pereira

É comum ver a expressão “Deus é fiel” em vidro de automóvel, parachoque de caminhão, porta de residência, etc. Contudo, no que as pessoas estão realmente pensando quando se deparam com essas palavras? A expressão “Deus é fiel” em si mesma está correta, porque Deus é fiel de verdade! O problema é o entendimento equivocado que se tem dela.
 Para a maioria das pessoas (muitas das quais influenciadas pela teologia da prosperidade), a fidelidade de Deus não passa de um conceito mal empregado para atender seus desejos materialistas imediatos. Ou seja, Deus é fiel sim, mas para nos dar carro, casa, dinheiro, etc.
Na Bíblia, a fidelidade de Deus é um dos atributos ou qualidades mais nobres do seu Ser. "Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel..." (Dt 7.9). Essa qualidade é essencial ao seu Ser; sem ela ele não seria Deus. Pois, ser Deus infiel seria agir contrariamente à sua natureza, o que é impossível. "Se formos infiéis, ele permanece fiel: não pode negar-se a si mesmo" (2Tm 2.15). A fidelidade é uma das gloriosas perfeições do seu Ser, é como se ele estivesse vestido com esta perfeição. “Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é forte como tu, Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ti?!" (Sl 89.8).
Fidelidade pressupõe aliança e suas promessas; um pacto ou acordo entre as partes. Por conseguinte, toda aliança tem suas condições. No caso da aliança entre Deus e o ser humano há bênçãos para os que a cumprem e consequências terríveis para quem a deixam. Desse modo, a fidelidade de Deus tanto nos ajuda quanto nos afeta.
Se obedecemos a Palavra do Senhor somos abençoados pelo Deus fiel, porém, se a desobedecemos sofremos as consequências do mesmo Deus fiel. “Sua Palavra não contém somente numerosas ilustrações de sua fidelidade no cumprimento de suas promessas, mas também registra numerosos exemplos de sua fidelidade em fazer valer as suas ameaças” (A. W. Pink).
Deus é fiel não somente quando afasta as aflições, mas também é fiel quando as envia. “A mente dos servos de Deus se tranquilizaria bastante se eles se lembrassem de que a aliança de Deus o obriga a lhes aplicar correção oportuna” (Pink).
O Eterno não deve ser imaginado por ninguém como se fosse uma fada madrinha, ou como um produto à disposição na prateleira de um supermercado, a fim de satisfazer nossos mesquinhos interesses consumistas. Ele é Deus. Senhor soberano que deve ser servido, temido e reverenciado por nós.
Se todos soubessem o que significa de fato a expressão “Deus é fiel”, veriam quão longe estão da natureza e caráter do Deus fiel.  O nosso Deus é fiel a ele próprio, à sua Palavra e promessas. Bendito seja o Deus fiel!

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Zacarias, filho de Baraquias ou de Joiada?

Josivaldo de França Pereira

Somente Mateus e Lucas relatam a seguinte declaração de Jesus: “para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt 23.35; cf. Lc 11.50,51a).
O contexto da referida passagem bíblica são os vários ais ditos por Jesus contra os escribas e fariseus hipócritas (Mt 23.13-36; “interpretes da lei” em Lc 11.46-52). Em Mateus 23.34 (cf. Lc 11.49) o Mestre diz: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade”. O versículo 35 (cf. Lc 11.50,51a) é, portanto, a sentença específica para o verso anterior (cf. Lc 11.49) e o versículo 36 a sentença geral de toda perícope: “Em verdade vos digo que todas estas cousas hão de vir sobre a presente geração” (cf. Lc 11.51b).
A história de Zacarias e sua trágica morte entre o santuário e o altar encontram-se registradas em 2Crônicas 24.20,21. O rei Joás, depois que o pai de Zacarias morreu, desviou-se severamente dos caminhos do Senhor, juntamente com todo povo, servindo a idolatria. Deus se irou muito contra Judá e Jerusalém, porém, enviou profetas para reconduzi-los a si. Mas o povo não deu ouvido (cf. 2Cr 24.17-19).
O Espírito de Deus se apoderou de Zacarias, filho do sacerdote que cuidou de Joás até o fim, o qual advertiu o povo em nome do Senhor (cf. 2Cr 24.20). Contudo, “Conspiraram contra ele e o apedrejaram, por mandado do rei, no pátio da Casa do SENHOR” (2Cr 24.21). Pouco antes de morrer, Zacarias disse: “O SENHOR o verá e o retribuirá” (2Cr 24.22). Cerca de 600 anos depois o Deus que tudo vê retribuía à rebelde geração dos judeus a profecia de Zacarias na pessoa de Cristo (cf. Mt 23.29-36; Lc 11.47-51). “... Jesus na verdade cita esse incidente ao pronunciar o mesmo juízo sobre seus contemporâneos (cf. Mt 23.33-36; Lc 11.47-51)”.[1] E como fariam igual com os profetas e apóstolos, sábios e escribas que o Senhor enviaria (cf. Mt 23.34; Lc 11.49), no ano 70 d. C. Jerusalém cai em meio a indescritíveis horrores.
Por que nosso Senhor disse que seria requerido todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias? Sabemos que a história do justo Abel se encontra no primeiro livro da Bíblia, o Gênesis (Gn 4.1-7). A de Zacarias, como vimos, acha-se no segundo livro das Crônicas. Pois bem, Jesus está citando a Bíblia hebraica que começa em Gênesis e termina em Crônicas. Na Bíblia moderna o Antigo Testamento termina em Malaquias. Ela segue o conteúdo da Bíblia hebraica, mas a ordem e disposição dos livros, como conhecemos hoje, são as da Septuaginta e da Vulgata Latina, com exceção dos livros apócrifos, no caso da Bíblia protestante. Na passagem de Mateus 23.35 e Lucas 11.50,51, Jesus está dizendo, portanto, que todos os justos de Deus mortos por pessoas que se rebelaram contra o próprio Deus, desde o primeiro livro da Bíblia (Gênesis) até o último (Crônicas, o último livro da Bíblia até então), seriam vingados.
Entretanto, o texto de Mateus 23.35 afirma que Zacarias é filho de Baraquias[2], enquanto que em 2Crônicas 24.20,22 ele é filho de Joiada. Na verdade, o Zacarias filho de Baraquias (ou Berequias) é o profeta-autor do penúltimo livro do Antigo Testamento (Zc 1.1).
As três principais soluções existentes para este conflito são: (a) O pai do Zacarias assassinado tinha dois nomes: Joiada e Baraquias (Lutero). (b) Como ocorre com frequência nas Escrituras, “pai” pode significar “avô” (Grosheide). (c) Numa das primeiras cópias do Evangelho de Mateus, um copista que tinha em mente o nome do pai do profeta menor inseriu erroneamente, e sem nenhum fundamento, a expressão “filho de Baraquias” (Ridderbos). Jesus jamais cometeria esse equívoco por sua perfeição (cf. 1Pe 2.22), e nem mesmo Mateus por sua inspiração (cf. Jo 14.26).
Concluo fazendo minhas as palavras do Dr. Hendriksen: “Qualquer das três [soluções] poderia ser correta. Contudo, com Ridderbos creio que c é a solução mais simples”.[3]






[1] Martin J. Selman, 1 e 2Crônicas: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 366.
[2] O Evangelho de Lucas omite a filiação de Zacarias (cf. Lc 11.51).
[3] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 880. Para outras sugestões, consulte Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 551-53. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Dádiva da Alegria

Alegria é a qualidade ou estado de quem tem prazer de viver, de quem denota jovialidade; contentamento, satisfação. A alegria é uma dádiva do Deus triúno aos seres humanos de modo geral, e em especial para aqueles que o amam com sinceridade de coração. A bênção da verdadeira alegria pertence aos filhos de Deus. Deus é a fonte da alegria. A Bíblia nos ensina que a alegria é parte integrante da essência de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
Em Neemias 8.10 lemos que a alegria do Senhor é a nossa força. E o Senhor Jesus, por sua vez, declara: “Tenho-vos dito estas cousas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo” (Jo 15.11; cf. 17.13). Na carta de Paulo aos Romanos aprendemos, ainda, que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). A alegria é o segundo gomo, por assim dizer, do fruto do Espírito (cf. Gl 5.22).
No relacionamento trinitário a felicidade norteia a vida de cada uma das pessoas de Deus. É por isso que a Bíblia nos recomenda a estarmos prontos e dispostos para vivermos a alegria de Deus em nossa vida pessoal, familiar e social. Sendo assim, precisamos expressar, em todos os nossos relacionamentos, a maravilhosa graça da alegria de Deus em nosso viver, em demonstrações práticas para com Deus e o próximo.
Deus deve ser o motivo de nosso louvor, expressão maior de nossa alegria (cf. Tg 5.13). A Bíblia relata que o carcereiro de Filipos, “com todos os seus, manifestava grande alegria, por terem crido em Deus” (At 16.34). Por isso, Paulo insiste: “Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez digo, alegrai-vos” (Fp 4.4). As Escrituras, portanto, ensinam-nos que a verdadeira felicidade está em um contentamento em Deus.
Na declaração paulina de Filipenses 4.4, percebemos também que a alegria cristã deve ser, entre outras coisas, constante e transcircunstancial (cf. At 16.23-25; Fp 4.10-13). E Pedro não é menos enfático quando fala a respeito de Jesus: “A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). O próprio Cristo, por causa da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz (Hb 12.2).[1]
Meu irmão, minha irmã, você tem verdadeiramente se apropriado dessa bênção chamada ALEGRIA? Você não veio ao mundo para naufragar no mar da infelicidade. Fomos todos chamados em Cristo para sermos pessoas felizes. Assim, queridos, levantemos a cabeça e aprendamos a superar a dor e a angústia, a tristeza e o desânimo através da sublimidade de uma alegria celestial e além das circunstâncias. Não permita jamais que os embates desta vida o derrotem, pelo contrário, aprendamos a viver contente em toda e qualquer situação (cf. Fp 4.11), superando todas as dificuldades em Cristo Jesus.
A igreja do Novo Testamento era formada por crentes que sabiam sofrer. Portanto, não se entregue, não se renda. Viva feliz com Jesus![2]



[1] De acordo com a melhor tradução da preposição grega antí em Hebreus 12.2.
[2] Literatura sugerida: John Piper, Teologia da alegria: A plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd, 2001; Martyn Lloyd-Jones, A vida de alegria: Exposições sobre filipenses. 2 vols. São Paulo: PES; Jeremiah Burroughs, Aprendendo a estar contente. São Paulo: PES, 1990. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Habacuque, o profeta-filósofo

Josivaldo de França Pereira


Habacuque viveu por volta dos séculos VII e VI a. C., sendo contemporâneo da invasão e cerco dos caldeus a Jerusalém e deportação do povo para a Babilônia. A única informação que temos de Habacuque encontra-se apenas no livro que leva seu nome. Nada sabemos sobre sua tribo ou cidade natal, seus pais, irmãos ou algum parente dele. Fora do seu livro é conhecida a famosa expressão divina “o justo viverá pela fé” (Hb 2.4), citada duas vezes por Paulo e uma pelo autor aos Hebreus (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38).
O nome Habaqquq é raro, e seu significado incerto; possivelmente significasse “abraço efusivo”, do hebraico hãbaq, “abraçar”. Outros sugerem que fosse derivado de uma planta de jardim que os assírios denominavam hambaququ, mas que também não pôde ser identificada.[1]
Habacuque se diferencia de qualquer outro profeta do Antigo Testamento por seu espírito questionador. Enquanto os demais profetas falam ao povo da parte de Deus, Habacuque (como que invertendo a ordem) fala a Deus da parte do povo, confrontando não a nação de Judá, mas ao Senhor. Segundo Archer Jr.,
A profecia de Habacuque tem vários aspectos sui generis. É especialmente digna de nota pelo seu estilo de abordar os assuntos. Ao invés de se dirigir diretamente à nação como porta-voz do Senhor, Habacuque entregou a mensagem divina ao revelar ao povo como ela chegara a ele, respondendo às perguntas que estavam surgindo dentro da sua alma. Com a possível exceção de Daniel, não há qualquer autor bíblico que empregue esta técnica.[2] 

David Baker comenta:
Uma das funções do profeta era servir de intermediário entre o Deus de Israel e o seu povo. Era ele quem devia indicar quando as pessoas se afastavam da aliança que voluntariamente haviam firmado, e instar com elas para que a retomassem. Habacuque assume a tarefa de ir na outra direção, chamando Deus para prestar contas das ações que não pareciam corresponder às prescritas na aliança. A situação de um profeta já era suficientemente precária quando confrontava seu povo; imagine-se, então, quão raro seria o indivíduo que arriscasse a confrontar o seu Deus. Habacuque era um desses.[3]

O profeta Habacuque vive um dilema entre o problema da impiedade sem punição e o da punição excessiva. No livro dele há cerca de dez perguntas objetivas feitas pelo profeta ao Senhor, podendo ser sumarizadas em duas questões principais: (1) Como um Deus santo pode permitir e tolerar a maldade do seu próprio povo? (2) Deus se utilizaria de ímpios para castigar os infiéis de Judá, ainda que os ofensores entre o povo de Deus – sem importar quão culpados fossem – eram melhores que os brutais idólatras da Babilônia?[4]
Por seus constantes questionamentos em querer entender o alargamento do mal, a aparente indiferença de Deus para com a maldade e utilização de pecadores perversos na punição de Judá, Habacuque tem sido denominado profeta-filósofo. Van Groningen ressalta que Habacuque é “chamado o profeta-filósofo porque sua profecia expressa a preocupação a respeito do problema da maldade amplamente espalhada em Jerusalém e Judá, bem como com a aparente falta de preocupação de Yahwéh. Quando, porém, ele é informado do plano de Yahwéh de usar os babilônios, mais ímpios ainda, como vara de julgamento para Judá, seus problemas se intensificam”.[5]
Contudo, Deus trataria soberana e sabiamente de Judá primeiro, e depois com os caldeus. Babilônia seria totalmente destruída diante das forças conjuntas dos persas e medos indo-arianos, sob o comando de Ciro, em 539 a. C.[6]
Concluindo: Embora o profeta Habacuque tenha estado cheio de dúvidas acerca da aparente discrepância entre os fatos da história e da revelação divina, ele resolveu, finalmente, toda sua crise existencial quando passou a acreditar nos desígnios e perfeição de Deus.

ESBOÇO DE HABACUQUE

I.         Os problemas da fé, 1.1 – 2.20.
A.    Como é que um Deus santo pode permitir a existência da iniquidade? 1.1-12.
1.      Opressão em Judá, sem castigo, 1.2-5.
2.      Os caldeus são o castigo divino, 1.6-12.
B.     Como é que Deus permite a uma nação ímpia triunfar sobre seu povo? 1.13 – 2.20.
1.      Crueldade sem compaixão, idolatria grosseira dos caldeus, 1.13-17.
2.      O que crê deve esperar humildemente, confiante na resposta divina, 2.1-4.
3.      O julgamento que atingirá os caldeus por causa dos cinco pecados que praticam, 2.5-9.
4.      Deus continua sendo soberano da sua terra, 2.20.
II.       Solução de todas as dúvidas: a oração da fé e a confiança inabalável, 3.1-19.
A.    Oração pelo reavivamento, 3.1,2.
B.    Os julgamentos do Senhor no passado são sinal claro do futuro, 3.3-16.
C.    O que crê regozija-se somente em Deus, tendo segurança da vindicação da santidade de Deus, 3.17-19.[7]



[1] Cf. Gleason L. Archer, Jr., Merece confiança o Antigo Testamento? 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 294.
[2] Idem, p. 297.
[3] David W. Baker, et al., Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: Introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 323.
[4] Cf. Samuel J. Schultz, A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 389.
[5] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 616. Para uma excelente introdução ao livro de Habacuque, consulte Baker, p. 323-28. Destaque para “A Mensagem”, p. 327-8.
[6] Cf. Baker, p. 325.
[7] Cf. Archer Jr., p. 294-5. Amplie sua compreensão do livro de Habacuque com as seguintes leituras contemporâneas: D. Martyn Lloyd-Jones, Do temor à fé: Regozijando-se no Senhor em tempos turbulentos. São Paulo: PES, 2008; Hernandes Dias Lopes, Habacuque: Como transformar o desespero em cântico de vitória. São Paulo: Hagnos, 2007; Isaltino Gomes Coelho Filho, Habacuque nosso contemporâneo. Rio de Janeiro: Juerp, 1990; Heber Carlos de Campos Jr., Triunfo da fé: Um estudo em Habacuque. São José dos Campos: Fiel, 2012.