quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Habacuque, o profeta-filósofo

Josivaldo de França Pereira


Habacuque viveu por volta dos séculos VII e VI a. C., sendo contemporâneo da invasão e cerco dos caldeus a Jerusalém e deportação do povo para a Babilônia. A única informação que temos de Habacuque encontra-se apenas no livro que leva seu nome. Nada sabemos sobre sua tribo ou cidade natal, seus pais, irmãos ou algum parente dele. Fora do seu livro é conhecida a famosa expressão divina “o justo viverá pela fé” (Hb 2.4), citada duas vezes por Paulo e uma pelo autor aos Hebreus (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38).
O nome Habaqquq é raro, e seu significado incerto; possivelmente significasse “abraço efusivo”, do hebraico hãbaq, “abraçar”. Outros sugerem que fosse derivado de uma planta de jardim que os assírios denominavam hambaququ, mas que também não pôde ser identificada.[1]
Habacuque se diferencia de qualquer outro profeta do Antigo Testamento por seu espírito questionador. Enquanto os demais profetas falam ao povo da parte de Deus, Habacuque (como que invertendo a ordem) fala a Deus da parte do povo, confrontando não a nação de Judá, mas ao Senhor. Segundo Archer Jr.,
A profecia de Habacuque tem vários aspectos sui generis. É especialmente digna de nota pelo seu estilo de abordar os assuntos. Ao invés de se dirigir diretamente à nação como porta-voz do Senhor, Habacuque entregou a mensagem divina ao revelar ao povo como ela chegara a ele, respondendo às perguntas que estavam surgindo dentro da sua alma. Com a possível exceção de Daniel, não há qualquer autor bíblico que empregue esta técnica.[2] 

David Baker comenta:
Uma das funções do profeta era servir de intermediário entre o Deus de Israel e o seu povo. Era ele quem devia indicar quando as pessoas se afastavam da aliança que voluntariamente haviam firmado, e instar com elas para que a retomassem. Habacuque assume a tarefa de ir na outra direção, chamando Deus para prestar contas das ações que não pareciam corresponder às prescritas na aliança. A situação de um profeta já era suficientemente precária quando confrontava seu povo; imagine-se, então, quão raro seria o indivíduo que arriscasse a confrontar o seu Deus. Habacuque era um desses.[3]

O profeta Habacuque vive um dilema entre o problema da impiedade sem punição e o da punição excessiva. No livro dele há cerca de dez perguntas objetivas feitas pelo profeta ao Senhor, podendo ser sumarizadas em duas questões principais: (1) Como um Deus santo pode permitir e tolerar a maldade do seu próprio povo? (2) Deus se utilizaria de ímpios para castigar os infiéis de Judá, ainda que os ofensores entre o povo de Deus – sem importar quão culpados fossem – eram melhores que os brutais idólatras da Babilônia?[4]
Por seus constantes questionamentos em querer entender o alargamento do mal, a aparente indiferença de Deus para com a maldade e utilização de pecadores perversos na punição de Judá, Habacuque tem sido denominado profeta-filósofo. Van Groningen ressalta que Habacuque é “chamado o profeta-filósofo porque sua profecia expressa a preocupação a respeito do problema da maldade amplamente espalhada em Jerusalém e Judá, bem como com a aparente falta de preocupação de Yahwéh. Quando, porém, ele é informado do plano de Yahwéh de usar os babilônios, mais ímpios ainda, como vara de julgamento para Judá, seus problemas se intensificam”.[5]
Contudo, Deus trataria soberana e sabiamente de Judá primeiro, e depois com os caldeus. Babilônia seria totalmente destruída diante das forças conjuntas dos persas e medos indo-arianos, sob o comando de Ciro, em 539 a. C.[6]
Concluindo: Embora o profeta Habacuque tenha estado cheio de dúvidas acerca da aparente discrepância entre os fatos da história e da revelação divina, ele resolveu, finalmente, toda sua crise existencial quando passou a acreditar nos desígnios e perfeição de Deus.

ESBOÇO DE HABACUQUE

I.         Os problemas da fé, 1.1 – 2.20.
A.    Como é que um Deus santo pode permitir a existência da iniquidade? 1.1-12.
1.      Opressão em Judá, sem castigo, 1.2-5.
2.      Os caldeus são o castigo divino, 1.6-12.
B.     Como é que Deus permite a uma nação ímpia triunfar sobre seu povo? 1.13 – 2.20.
1.      Crueldade sem compaixão, idolatria grosseira dos caldeus, 1.13-17.
2.      O que crê deve esperar humildemente, confiante na resposta divina, 2.1-4.
3.      O julgamento que atingirá os caldeus por causa dos cinco pecados que praticam, 2.5-9.
4.      Deus continua sendo soberano da sua terra, 2.20.
II.       Solução de todas as dúvidas: a oração da fé e a confiança inabalável, 3.1-19.
A.    Oração pelo reavivamento, 3.1,2.
B.    Os julgamentos do Senhor no passado são sinal claro do futuro, 3.3-16.
C.    O que crê regozija-se somente em Deus, tendo segurança da vindicação da santidade de Deus, 3.17-19.[7]



[1] Cf. Gleason L. Archer, Jr., Merece confiança o Antigo Testamento? 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 294.
[2] Idem, p. 297.
[3] David W. Baker, et al., Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: Introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 323.
[4] Cf. Samuel J. Schultz, A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 389.
[5] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 616. Para uma excelente introdução ao livro de Habacuque, consulte Baker, p. 323-28. Destaque para “A Mensagem”, p. 327-8.
[6] Cf. Baker, p. 325.
[7] Cf. Archer Jr., p. 294-5. Amplie sua compreensão do livro de Habacuque com as seguintes leituras contemporâneas: D. Martyn Lloyd-Jones, Do temor à fé: Regozijando-se no Senhor em tempos turbulentos. São Paulo: PES, 2008; Hernandes Dias Lopes, Habacuque: Como transformar o desespero em cântico de vitória. São Paulo: Hagnos, 2007; Isaltino Gomes Coelho Filho, Habacuque nosso contemporâneo. Rio de Janeiro: Juerp, 1990; Heber Carlos de Campos Jr., Triunfo da fé: Um estudo em Habacuque. São José dos Campos: Fiel, 2012.

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