sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Dádiva da Alegria

Alegria é a qualidade ou estado de quem tem prazer de viver, de quem denota jovialidade; contentamento, satisfação. A alegria é uma dádiva do Deus triúno aos seres humanos de modo geral, e em especial para aqueles que o amam com sinceridade de coração. A bênção da verdadeira alegria pertence aos filhos de Deus. Deus é a fonte da alegria. A Bíblia nos ensina que a alegria é parte integrante da essência de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
Em Neemias 8.10 lemos que a alegria do Senhor é a nossa força. E o Senhor Jesus, por sua vez, declara: “Tenho-vos dito estas cousas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo” (Jo 15.11; cf. 17.13). Na carta de Paulo aos Romanos aprendemos, ainda, que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). A alegria é o segundo gomo, por assim dizer, do fruto do Espírito (cf. Gl 5.22).
No relacionamento trinitário a felicidade norteia a vida de cada uma das pessoas de Deus. É por isso que a Bíblia nos recomenda a estarmos prontos e dispostos para vivermos a alegria de Deus em nossa vida pessoal, familiar e social. Sendo assim, precisamos expressar, em todos os nossos relacionamentos, a maravilhosa graça da alegria de Deus em nosso viver, em demonstrações práticas para com Deus e o próximo.
Deus deve ser o motivo de nosso louvor, expressão maior de nossa alegria (cf. Tg 5.13). A Bíblia relata que o carcereiro de Filipos, “com todos os seus, manifestava grande alegria, por terem crido em Deus” (At 16.34). Por isso, Paulo insiste: “Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez digo, alegrai-vos” (Fp 4.4). As Escrituras, portanto, ensinam-nos que a verdadeira felicidade está em um contentamento em Deus.
Na declaração paulina de Filipenses 4.4, percebemos também que a alegria cristã deve ser, entre outras coisas, constante e transcircunstancial (cf. At 16.23-25; Fp 4.10-13). E Pedro não é menos enfático quando fala a respeito de Jesus: “A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). O próprio Cristo, por causa da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz (Hb 12.2).[1]
Meu irmão, minha irmã, você tem verdadeiramente se apropriado dessa bênção chamada ALEGRIA? Você não veio ao mundo para naufragar no mar da infelicidade. Fomos todos chamados em Cristo para sermos pessoas felizes. Assim, queridos, levantemos a cabeça e aprendamos a superar a dor e a angústia, a tristeza e o desânimo através da sublimidade de uma alegria celestial e além das circunstâncias. Não permita jamais que os embates desta vida o derrotem, pelo contrário, aprendamos a viver contente em toda e qualquer situação (cf. Fp 4.11), superando todas as dificuldades em Cristo Jesus.
A igreja do Novo Testamento era formada por crentes que sabiam sofrer. Portanto, não se entregue, não se renda. Viva feliz com Jesus![2]



[1] De acordo com a melhor tradução da preposição grega antí em Hebreus 12.2.
[2] Literatura sugerida: John Piper, Teologia da alegria: A plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd, 2001; Martyn Lloyd-Jones, A vida de alegria: Exposições sobre filipenses. 2 vols. São Paulo: PES; Jeremiah Burroughs, Aprendendo a estar contente. São Paulo: PES, 1990. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Habacuque, o profeta-filósofo

Josivaldo de França Pereira


Habacuque viveu por volta dos séculos VII e VI a. C., sendo contemporâneo da invasão e cerco dos caldeus a Jerusalém e deportação do povo para a Babilônia. A única informação que temos de Habacuque encontra-se apenas no livro que leva seu nome. Nada sabemos sobre sua tribo ou cidade natal, seus pais, irmãos ou algum parente dele. Fora do seu livro é conhecida a famosa expressão divina “o justo viverá pela fé” (Hb 2.4), citada duas vezes por Paulo e uma pelo autor aos Hebreus (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38).
O nome Habaqquq é raro, e seu significado incerto; possivelmente significasse “abraço efusivo”, do hebraico hãbaq, “abraçar”. Outros sugerem que fosse derivado de uma planta de jardim que os assírios denominavam hambaququ, mas que também não pôde ser identificada.[1]
Habacuque se diferencia de qualquer outro profeta do Antigo Testamento por seu espírito questionador. Enquanto os demais profetas falam ao povo da parte de Deus, Habacuque (como que invertendo a ordem) fala a Deus da parte do povo, confrontando não a nação de Judá, mas ao Senhor. Segundo Archer Jr.,
A profecia de Habacuque tem vários aspectos sui generis. É especialmente digna de nota pelo seu estilo de abordar os assuntos. Ao invés de se dirigir diretamente à nação como porta-voz do Senhor, Habacuque entregou a mensagem divina ao revelar ao povo como ela chegara a ele, respondendo às perguntas que estavam surgindo dentro da sua alma. Com a possível exceção de Daniel, não há qualquer autor bíblico que empregue esta técnica.[2] 

David Baker comenta:
Uma das funções do profeta era servir de intermediário entre o Deus de Israel e o seu povo. Era ele quem devia indicar quando as pessoas se afastavam da aliança que voluntariamente haviam firmado, e instar com elas para que a retomassem. Habacuque assume a tarefa de ir na outra direção, chamando Deus para prestar contas das ações que não pareciam corresponder às prescritas na aliança. A situação de um profeta já era suficientemente precária quando confrontava seu povo; imagine-se, então, quão raro seria o indivíduo que arriscasse a confrontar o seu Deus. Habacuque era um desses.[3]

O profeta Habacuque vive um dilema entre o problema da impiedade sem punição e o da punição excessiva. No livro dele há cerca de dez perguntas objetivas feitas pelo profeta ao Senhor, podendo ser sumarizadas em duas questões principais: (1) Como um Deus santo pode permitir e tolerar a maldade do seu próprio povo? (2) Deus se utilizaria de ímpios para castigar os infiéis de Judá, ainda que os ofensores entre o povo de Deus – sem importar quão culpados fossem – eram melhores que os brutais idólatras da Babilônia?[4]
Por seus constantes questionamentos em querer entender o alargamento do mal, a aparente indiferença de Deus para com a maldade e utilização de pecadores perversos na punição de Judá, Habacuque tem sido denominado profeta-filósofo. Van Groningen ressalta que Habacuque é “chamado o profeta-filósofo porque sua profecia expressa a preocupação a respeito do problema da maldade amplamente espalhada em Jerusalém e Judá, bem como com a aparente falta de preocupação de Yahwéh. Quando, porém, ele é informado do plano de Yahwéh de usar os babilônios, mais ímpios ainda, como vara de julgamento para Judá, seus problemas se intensificam”.[5]
Contudo, Deus trataria soberana e sabiamente de Judá primeiro, e depois com os caldeus. Babilônia seria totalmente destruída diante das forças conjuntas dos persas e medos indo-arianos, sob o comando de Ciro, em 539 a. C.[6]
Concluindo: Embora o profeta Habacuque tenha estado cheio de dúvidas acerca da aparente discrepância entre os fatos da história e da revelação divina, ele resolveu, finalmente, toda sua crise existencial quando passou a acreditar nos desígnios e perfeição de Deus.

ESBOÇO DE HABACUQUE

I.         Os problemas da fé, 1.1 – 2.20.
A.    Como é que um Deus santo pode permitir a existência da iniquidade? 1.1-12.
1.      Opressão em Judá, sem castigo, 1.2-5.
2.      Os caldeus são o castigo divino, 1.6-12.
B.     Como é que Deus permite a uma nação ímpia triunfar sobre seu povo? 1.13 – 2.20.
1.      Crueldade sem compaixão, idolatria grosseira dos caldeus, 1.13-17.
2.      O que crê deve esperar humildemente, confiante na resposta divina, 2.1-4.
3.      O julgamento que atingirá os caldeus por causa dos cinco pecados que praticam, 2.5-9.
4.      Deus continua sendo soberano da sua terra, 2.20.
II.       Solução de todas as dúvidas: a oração da fé e a confiança inabalável, 3.1-19.
A.    Oração pelo reavivamento, 3.1,2.
B.    Os julgamentos do Senhor no passado são sinal claro do futuro, 3.3-16.
C.    O que crê regozija-se somente em Deus, tendo segurança da vindicação da santidade de Deus, 3.17-19.[7]



[1] Cf. Gleason L. Archer, Jr., Merece confiança o Antigo Testamento? 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 294.
[2] Idem, p. 297.
[3] David W. Baker, et al., Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: Introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 323.
[4] Cf. Samuel J. Schultz, A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 389.
[5] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 616. Para uma excelente introdução ao livro de Habacuque, consulte Baker, p. 323-28. Destaque para “A Mensagem”, p. 327-8.
[6] Cf. Baker, p. 325.
[7] Cf. Archer Jr., p. 294-5. Amplie sua compreensão do livro de Habacuque com as seguintes leituras contemporâneas: D. Martyn Lloyd-Jones, Do temor à fé: Regozijando-se no Senhor em tempos turbulentos. São Paulo: PES, 2008; Hernandes Dias Lopes, Habacuque: Como transformar o desespero em cântico de vitória. São Paulo: Hagnos, 2007; Isaltino Gomes Coelho Filho, Habacuque nosso contemporâneo. Rio de Janeiro: Juerp, 1990; Heber Carlos de Campos Jr., Triunfo da fé: Um estudo em Habacuque. São José dos Campos: Fiel, 2012.