segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O último apóstolo

Josivaldo de França Pereira

O termo “apóstolo” é usado cerca de dezessete vezes para se referir a Paulo, quer por Lucas no livro de Atos, quer pelo próprio apóstolo em suas cartas. De acordo com James Dunn, apóstolo é um título que Paulo prezava acima de todos os outros e no qual insistia como sua autodesignação mais regular ao apresentar-se aos destinatários das suas cartas.[1] Essa afirmação é correta, pois Paulo se identifica como apóstolo em onze de suas treze epístolas.[2]
No Novo Testamento, um apóstolo (no sentido técnico do termo) era alguém que viu o Senhor Jesus ressuscitado, sendo diretamente chamado e designado por Cristo para o apostolado, e capaz de afirmar e fundamentar sua vocação (At 1.22; 26.16-18; 1Co 9.1; Gl 1.1). Por conseguinte, uma nota constantemente repetida nas epístolas de Paulo é: “chamado para ser apóstolo” (Rm 1.1; cf. 1Co 1.1; 2Co 1.1; Gl 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; 1Tm 1.1; 2Tm 1.1). “O apostolado é o ofício máximo da igreja, e Paulo é apóstolo no sentido mais completo”.[3]
Desse modo, para Paulo a vocação e comissão ao apostolado não eram através dos homens, "mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai" (Gl 1.1; cf. Rm 1.5; 1Co 1.1; 2Co 1.1). Tal comissão veio através de um encontro com o Senhor ressurreto (1Co 15.8), que pessoalmente entregou a ele a mensagem do evangelho (1Co 11.23; 15.3; Gl 1.12). O apóstolo Paulo proclamou as boas novas de salvação a homens e mulheres como "embaixador" de Cristo (2Co 5.20), não por capacidade inata do seu ser (2Co 3.5), mas pelo favor livre e imerecido de Deus (1Co 15.9,10; Ef 3.8).
Os aspectos diferenciados do apostolado de Paulo foram a nomeação direta dele por Cristo (GI 1.1) e a designação feita a ele do mundo gentio como sua esfera de trabalho (At 26.17,18; Rm 1.5; Gl 1.16; 2.8). Um apóstolo tinha a função básica de ser um delegado (aquele que recebeu delegação) do Cristo ressurreto, indo a todos os lugares como seu representante e em sua autoridade. Paulo fora separado desde o ventre materno para ser o apóstolo dos gentios (Gl 1.15-17; cf. At 9.15,16; 22.14,15; 26.16-18; Rm 11.13; Ef 3.8; 1Tm 2.7). Muito embora o testemunho aos judeus apareça nos relatos, era primeiramente aos gentios que ele haveria de testemunhar.[4]
Em 1Coríntios 15.8, Paulo declara que seu chamado apostólico foi incomum e excepcional, pois o Cristo vivo, afinal, depois de todos, foi visto também por ele como a um abortivo, uma espécie de nascimento ectópico, ou seja, “como por um nascido fora de tempo” (1Co 15.8). No caminho de Damasco (At 9.3-7), Paulo não teve uma visão de Jesus; ele realmente viu o Senhor Jesus Cristo. E foi o último homem a quem o Mestre apareceu (cf. At 23.11). Por conta disso, dizia ser o menor dos apóstolos e não se achava digno de ser chamado apóstolo por ter perseguido a igreja de Deus (1Co 15.9). Paulo considerava seu apostolado uma demonstração da graça divina, bem como uma chamada à labuta sacrificial, ao invés de uma oportunidade para se vangloriar (1Co 15.10; 2Co 12.11; Ef 3.8).
De acordo com Martyn Lloyd-Jones, há pelo menos cinco coisas essenciais nas Escrituras do Novo Testamento com relação ao ofício de apóstolo. De forma resumida, apóstolo era, segundo ele, um homem (1) que tenha visto a Cristo ressurreto (cf. 1Co 9.1; 15.8); (2) que tenha sido chamado e comissionado para realizar a sua obra pelo próprio Senhor, em pessoa (cf. At 26.16; Gl 1.1); (3) a quem tinha sido feita uma revelação sobrenatural da verdade (cf. Gl 1.10-12; Ef 3.2,3); (4) a quem foi dado poder para falar não só com autoridade, como também infalivelmente (cf. 1Co 4.16; Fp 3.17); (5) que tinha o poder de realizar milagres (cf. Rm 15.19; 2Co 12.12; Hb 2.4).[5]
Augustus Nicodemus Lopes acrescenta uma sexta marca ao ofício de apóstolo: a necessidade de sofrer pelo nome de Jesus. E conclui: “Muitos, hoje, que se consideram apóstolos como aqueles do Novo Testamento, não parecem apreciar o sofrimento como parte de seu apostolado. Apóstolos modernos pregam a teologia da prosperidade e não a teologia da cruz e do sofrimento por Cristo”.[6]
Só o primeiro destes requisitos (ver Cristo ressuscitado) é suficiente para Wayne Grudem afirmar com toda segurança: “já que ninguém hoje pode preencher o requisito de ter visto o Cristo ressurreto com os próprios olhos, não há apóstolos hoje”.[7] Portanto, o único sentido em que o termo “apóstolo” poderia ser usado hoje é aquele de missionário pioneiro e desbravador de novos campos, que levam o evangelho a povos e nações. É assim que o título foi usado algumas vezes na história da igreja cristã, como por exemplo, Bonifácio, o apóstolo dos germanos; Sadhu Sundar Singh, o apóstolo dos pés sangrentos e Miguel Gonçalves Torres, o apóstolo de Caldas.





[1] James D. G. Dunn, A Teologia do Apóstolo Paulo. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2008, p. 7.
[2] Exceção para Filipenses e Filemom.
[3] Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 167.
[4] Cf. Augustus Nicodemus Lopes, Apóstolos: Verdade bíblica sobre o apostolado. São José dos Campos: Fiel, 2015, p. 73.
[5] D. M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã: Exposição sobre Efésios 4.1-16. São Paulo: PES, 1994, p.p. 159-161.  
[6] Nicodemus, Apóstolos, p. 72.
[7] W. Grudem, Teologia Sistemática. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 764. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A sombra de Pedro e os lenços de Paulo

 Josivaldo de França Pereira

Há um paralelo interessante em Atos. Depois do derramamento do Espírito Santo no Pentecostes, Deus realizou milagres extraordinários por meio de seus apóstolos (At 2.43). Antes de o Espírito Santo vir sobre os samaritanos, Deus operou sinais milagrosos por meio de Filipe (At 8.6,13). Quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos de João em Éfeso, Deus tornou seu poder conhecido por meio dos milagres efetuados por Paulo (At 19.6,11,12).
Pouco tempo depois do Pentecostes de Atos 2, Lucas relara: ”Muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos...” (At 5.12).  E ainda: “E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor, a ponto de levarem os enfermos até pelas ruas e os colocarem sobre leitos e macas, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra se projetasse nalguns deles” (At 5.14,15).
Alguns fundamentalistas sustentam que esperar que a sombra de Pedro curasse os enfermos era uma crença supersticiosa daquelas pessoas, herdada do paganismo. Mas tal afirmação não procede. Lucas diz que quem levava os enfermos pelas ruas sobre leitos e macas, esperando que Pedro os curasse com a sombra dele, eram os “agregados ao Senhor”, ou seja, crentes iguais àqueles que foram salvos e acrescentados à igreja pelo Senhor em Atos 2.47. Certamente, eles acreditavam de verdade que era Deus quem usava Pedro e os demais apóstolos para fazerem muitos sinais e prodígios (cf. At 5.14; At 19.11).  
Outros feitos tremendos ocorreram no ministério de Paulo. Em Éfeso, por ocasião de sua terceira viagem missionária, o apóstolo foi usado poderosamente por Deus para fazer milagres. Lucas, que a tudo presenciou, declara: “E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam” (At 19.11,12).
Lucas deixa claro que não era Paulo, mas Deus quem fazia milagres extraordinários pelas mãos (instrumentalidade) do apóstolo. Deus é a fonte do poder. Paulo era apenas um canal usado de forma poderosa por Deus, a ponto de lenços e aventais de uso pessoal do apóstolo serem levados aos enfermos e endemoninhados, que eram curados e libertos de espíritos malignos. Diferente do que vemos hoje em dia, onde falsos apóstolos vendem lenços e outras tranqueiras como amuletos, Paulo não explorava a fé de ninguém com essas coisas (veja At 20.35).  
Mas o que eram os lenços e aventais do uso pessoal de Paulo? A palavra grega “soudária” (lenços), originada do vocábulo latino “sudor”, que significa “suor”, refere-se a uma pequena peça de pano, usada para enxugar o rosto, ou para qualquer outro uso pessoal. Tais panos eram com frequência utilizados pelos viajantes, ou mesmo na vida diária para enxugar a testa, não muito diferente do emprego que tantas pessoas fazem de um lenço moderno. A referência, no caso de Paulo, é aos lenços que ele amarrava ao redor da cabeça, ou usados por ele para enxugar a transpiração de seu rosto.
O termo “aventais” deriva-se da palavra latina “simicinctium”, que em todo o Novo Testamento ocorre só aqui em Atos 19.12. Eram os aventais utilizados pelos artesãos quando trabalhavam em seus diversos ofícios. O vocábulo latino indica algo posto em torno da cintura, cobrindo parte dela. Não parece haver dúvidas de que tais aventais eram usados por Paulo quando fazia suas tendas, que estavam possivelmente sujos de terra e manchados do uso diário na oficina.
Contudo, eruditos fundamentalistas pensam que, no caso descrito nesta passagem de Atos 19.12, a superstição tinha algum lugar, ainda que, segundo eles, Deus a tenha honrado, de certa maneira. A. T. Robertson (citado por Champlin como um desses fundamentalistas) diz que “Se perguntarmos admirados como Deus poderia honrar uma fé tão supersticiosa, devemo-nos lembrar que não há qualquer poder na superstição ou na mágica, mas tão-somente em Deus”. Surpreendentemente, Robertson classifica tal seção neotestamentária dentro da mesma categoria das superstições populares sobre o número 13, a lua ou pé de coelho. E dá a entender que a mulher com fluxo de sangue que tocou na orla da veste de Cristo, e recebeu a cura, também foi impulsionada por uma superstição semelhante.
Howard Marshall, outro fundamentalista, afirma ser surpreendente que Lucas, que tanto critica a magia, possa concordar que crenças mágicas semelhantes, numa forma cristianizada, fossem eficazes no ministério apostólico. E conclui: “Talvez pudéssemos sugerir que Deus é capaz da condescendência ao nível dos homens que ainda pensam de modo tão imaturos, assim como fez com a mulher com a hemorragia que precisou, no entanto, ser levada a um encontro pessoal com Jesus (Lc 8.43-48)”.
Algumas vezes, os crentes fundamentalistas se mostram tão culpados quanto os elementos de tendências liberais, quando, através da ignorância, negam algumas formas de realidade espiritual. Jesus nunca ensinou que bastava tocar nas vestes dele para alguém ser curado, todavia, a mulher com fluxo de sangue creu que isso podia acontecer. Então, o Mestre a curou, e disse: “Filha, a tua fé te salvou: vai-te em paz” (Lc 8.48).
Lucas não fornece qualquer indicação de que o povo tenha adorado Paulo ou que idolatrava seus lenços e aventais. João Calvino corretamente chama a atenção para as coisas sem valor que foram escolhidas para evitar que o povo caísse em superstição e idolatria. Se porventura Paulo tivesse visto em tais práticas qualquer coisa errada, certamente não teria permitido que elas se repetissem, e nem o próprio Lucas teria registrado todos esses sinais e maravilhas, chamando-os de “milagres extraordinários”.
John Stott observa que a atitude mais sábia perante os milagres dos lenços não é a dos céticos, que os declaram espúrios; nem a dos imitadores, que tentam copiá-los, como aqueles televangelistas que oferecem aos doentes lenços “abençoados” por eles, mas sim a dos estudiosos da Bíblia que lembram que Paulo via seus milagres como credenciais apostólicas (cf. Rm 15.19; 2Co 12.12) e que Jesus mesmo foi condescendente com a fé tímida de uma mulher, curando-a quando ela tocou a orla de sua roupa.[1]




[1] Bibliografia consultada:
BRUCE, F. F. Commentary of the Book of Acts: The English Text with Introduction, Exposition and Notes. In: The New London Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1954.
CALVIN, John. Commentary on the Acts of the Apostles. Vol. 2. Grand Rapids: Eerdmans, 1966.
CHAMPLIM, Russell N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2002.
KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Atos. Vols. 1 e 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
MARSHALL, Howard. Atos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2014.
STOTT, John. A Mensagem de Atos. 2ª ed. São Paulo: ABU Editora, 2015.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O significado das manifestações sonoro-visuais do Espírito Santo no Pentecostes de Atos 2

Josivaldo de França Pereira

O tempo entre a ascensão de Jesus e a espera dos discípulos para o derramamento do Espírito Santo foi curto, de apenas dez dias.  Nas palavras do Mestre, o Pentecostes ocorreria "não muito depois destes dias" (At 1.5). O Pentecostes é o ponto alto da sequência de eventos relacionados à morte, ressurreição e ascensão de Jesus. É por isso que para Lucas o Pentecostes possui um sentido prático e dinâmico, traduzido em termos de nascimento e missão da igreja neotestamentária.[1]
Qual o significado das manifestações sonoro-visuais do Espírito Santo em Atos 2?
O som de vento e línguas como de fogo
Diferente do entendimento de muitos, em Atos 2.2,3 não houve vento nem fogo, ou seja, não houve nessa ocasião o sopro real de um pé de vento e nem uma fagulha de fogo sequer. O texto é nítido em afirmar que veio do céu um som como de um vento impetuoso (portanto, um som de vento) e línguas como de (parecido com) fogo. Qual o significado do som como de vento impetuoso e línguas como de fogo em Atos 2? Na Bíblia, o vento às vezes simboliza a presença de Deus e ação do Espírito Santo (cf. 1Rs 19.11; Ez 37.9; Jo 3.8; 20.22). Em Atos 2.2 o som de vento impetuoso denota poder celestial e seu aparecimento repentino revela a inauguração da Igreja de Cristo de forma extraordinária e sobrenatural.
O fogo, espiritualmente falando, era o cumprimento da descrição de João Batista do poder de Jesus: "Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11; Lc 3.16). No Antigo Testamento, o fogo é frequentemente um símbolo da presença de Deus para expressar santidade, juízo e graça (cf. Êx 3.2-5; 1Rs 18.38; 2Rs 2.11). Em Atos 2 apareceram, distribuídas entre os que estavam reunidos naquele lugar, línguas como de fogo, e pousou uma sobre cada um dos crentes que se encontravam na casa. Em decorrência disso, “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4).
Notemos que Lucas tem o cuidado de observar que não foram simplesmente o som de vento e línguas como de fogo que invadiram a residência, e sim, o próprio Espírito Santo quem adentrou o cenáculo com som de vento e línguas como de fogo, conforme o relato de Atos 2.4. Essa foi a maneira que o evangelista encontrou para dizer que o que aconteceu naquele dia não tinha nada a ver com fenômenos meramente naturais.
As línguas inteligíveis
Quanto à natureza das línguas faladas em Atos 2.4, não é preciso especular se eram dos homens ou dos anjos. Lucas deixa claro que os "galileus"[2] (no caso os apóstolos e outros que estavam na casa) de Atos 2.7 falavam as línguas das nações presentes naquela festa (At 2.5-11). São línguas conhecidas, faladas em regiões que vão desde a Pérsia, no Oriente, até Roma, no Ocidente. Segundo Marshall, "a história ensina que línguas humanas inteligíveis são significativas, não as línguas ininteligíveis como as frequentemente encontradas na glossolalia moderna ou como as que usualmente pensa-se ter sido faladas em Corinto".[3]
De acordo com Kistemaker, não podemos equiparar o acontecimento do Pentecostes com o falar em línguas de Corinto. Os crentes que falam em outras línguas no Pentecostes não o fazem para edificação da igreja (diferente da fala extática [1Co 14]). Enquanto na igreja dos coríntios a fala extática deve ser interpretada, no Pentecostes os ouvintes não necessitam de intérpretes porque podem ouvir e são capazes de compreender cada um sua própria língua.[4]
É provável que o conteúdo das línguas faladas em Atos 2 consistisse da mensagem profética da justiça e graça de Deus a todos os povos, línguas e nações, conforme sugere Pedro em sua pregação de Atos 2.14-41. Quanto ao propósito das línguas faladas em Atos 2, está evidente que elas focavam a obra missionária, e não especificamente a edificação particular da igreja ou dos seus membros individuais (cf. At 2.5,8).[5]
Enquanto em Babel (Gn 11.1-9) houve confusão e divisão, em Jerusalém foi proclamada uma só mensagem em muitas línguas. A mensagem da unidade e universalidade em Cristo Jesus. Moisés (Dt 28.49) e Isaías (Is 28.11) profetizaram as deportações de Israel e Judá por nações de língua estrangeira (o que aconteceu no ano 722 a.C. com o cativeiro assírio e em 587/6 a.C. com o cativeiro babilônico, respectivamente) por causa do pecado e desobediência do povo da Aliança. Entretanto, em Atos 2 as línguas foram sinais explícitos da bênção de Deus para todas as famílias da terra.[6]




[1] De acordo com Donald GUTHRIE (In: Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 541), “A origem da Igreja Cristã deve ser traçada até o Pentecostes. Foi esse evento que iniciou a era da igreja, que também pode ser considerada como a era do Espírito”.
[2] Você achará uma boa análise do termo "galileus" de Atos 2.7 em C. S. MANN, Pentecost in Acts. In: MUNCK, Johannes (ed.). Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., 1967, p. 271-275.
[3] I. H. MARSHALL, The Significance of Pentecost. In: Torrance, T. F. & Reid J. K. S. (Eds.). Scottish Journal Theology. Scottish Academic Press, N0 4, 1977, p. 357. Para uma distinção interessante entre a experiência de línguas em Atos quando comparada com a de 1Coríntios, consulte Antony A. Hoekema, Holy Spirit Baptism. Grand Rapids: W. B. Eerdmans, 1973, p. 48,49.
[4] Simon KISTEMAKER, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 111.
[5] I. Howard MARSHALL, Atos: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 50. Veja também Paul E. PIERSON, Atos Que Contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179,180.
[6] Cf. Augustus NICODEMUS, O Pentecostes e o Crescimento da Igreja: A extraordinária ação do Espírito Santo em Atos 2. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 28.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O cego de Jericó nos evangelhos sinóticos

                                                                                                                     Josivaldo de França Pereira



A história do cego mendigo de Jericó encontra-se registrada em Mateus 20.29-34; Marcos 10.46-52 e Lucas 18.35-43. João não a menciona por uma questão de propósito e objetivo a nós desconhecida. Marcos narra a cura do cego “Bartimeu”; Lucas conta a história de “um cego”, sem citar o nome do pobre homem. Mateus fala de “dois cegos”. E enquanto Mateus e Marcos situam o acontecimento quando Jesus saía de Jericó, Lucas inverte a ordem, dizendo que o Mestre se aproximava da cidade. Qual o motivo para essas aparentes contradições? Por que Mateus diz que eram dois cegos e Marcos e Lucas apenas um? Por que Lucas relata que a cura do cego aconteceu quando Jesus se aproximava da cidade de Jericó, e Mateus e Marcos quando ele saía da cidade?
Existem muitas sugestões de respostas para estas perguntas, mas nenhuma delas é conclusiva. Alguns acreditam que a narrativa de Mateus apresenta dois homens curados porque ele deixou de lado a narrativa dada por Marcos em Mc 8.22-26, e que dessa maneira quis compensar pela omissão. Contudo, tal explicação não tem base bíblica. Outros entendem que houve dois homens (conforme declara Mateus), porém, um deles foi muito mais vociferador (Bartimeu), sendo o principal a chamar a atenção para si, mencionado por Marcos e Lucas, enquanto seu companheiro foi deixado omisso, ou que então se tornou um discípulo de Jesus bem conhecido dos leitores originais. Não temos como confirmar ou negar essas sugestões. Porém, parecem melhores do que as que afirmam tratar de duas ou três narrativas sobre milagres separados, isto é, que as narrativas de Marcos e Lucas estão separadas da de Mateus. É óbvio que as três narrativas abordam um único incidente.
Não existe contradição alguma entre os três relatos bíblicos. Nós é que não dispomos de todos os mecanismos para visualizar a história como um todo. Portanto, a contradição entre os três evangelhos não é real, mas aparente, visto que nem Marcos nem Lucas dizem que Jesus restaurou a visão somente de um cego. Quanto ao mais, devemos admitir que não temos a resposta: não sabemos porque Marcos escreveu sobre Bartimeu, Lucas não registra o nome do cego e ambos não mencionam o outro homem.
Outros ainda têm apelado para a teoria das duas narrativas a fim de explicar porque Lucas afirma que a ocorrência se deu quando Jesus entrava em Jericó, ao passo que os demais (Mateus e Marcos) asseveram que o episódio ocorreu quando Jesus saía da cidade. Muitos creem que os arqueólogos descobriram a existência de “duas” Jericós, o que explicaria a aparente contradição. Assim, Mateus e Marcos se referiam à antiga Jericó (a cidade cananeia original), e Lucas à nova Jericó (fundada por Herodes, o Grande), que ficava próxima da localidade mais antiga, uma espécie de continuação ou divisão da primeira cidade. A nova Jericó fica a 8 km a oeste do rio Jordão, e cerca de 24 km a leste de Jerusalém, a 1,5 km ao sul do local da antiga cidade. Nesse caso, é possível que os dois cegos estivessem realmente entre as duas localidades quando ocorreu o milagre.[1]




[1] Para outras possíveis interpretações e objeções, consulte Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 789-791; Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 505.  

quarta-feira, 22 de março de 2017

A LIÇÃO DO AMOR

Mensagem de João 21.15-17

Josivaldo de França Pereira

Certamente, uma das perguntas mais intrigantes que o Cristo ressurreto fez a um reles mortal foi esta: “Tu me amas?”. E no caso de Pedro uma inquietação ainda maior surgiria porque este discípulo, a pouco, havia negado o Mestre três vezes. No entanto, a tripla indagação não veio em forma de revanche ou acusação. Ela está repleta da ternura daquele que busca a ovelha perdida para restaurá-la – Jesus.
Nos Evangelhos o amor que devemos ter para com os irmãos e os inimigos aparece sempre no modo imperativo (cf. Mt 5.44; Lc 6.27,45; Jo 15.12,17). Jesus ordena: “Amai”! Ele nunca diz que o amor é algo que devemos simplesmente sentir pelo nosso semelhante. Amai é um mandamento imperativo. O amor cristão é algo que deve ser buscado, desejado, perseguido!
Entretanto, quando Jesus fala do amor que devemos ter para com ele, o verbo amar aparece no presente do indicativo (cf. Jo 14.15) e, em João 21.15-17, na forma da indagação que espera um “sim” definitivo. E mesmo que a resposta não venha de imediato na primeira ou segunda vez, Jesus, que conhece o nosso íntimo, insiste novamente, e, de novo, sem usar o imperativo “amai-me!”. Aquele que ternamente pergunta: “Tu me amas?”, aguarda um sincero: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”, no presente do indicativo também!
Alguns estudiosos têm-se limitado a examinar o texto de João 21.15-17 em torno das palavras gregas “agapáo” e “filéo”. Dois verbos para “amar”. Hendriksen, por exemplo, assegura que em João 21.15-17 existe uma semântica diferente entre os dois termos. Segundo ele, agapáo é o verbo da classe mais elevada de amor, enquanto filéo é o verbo do amor subjetivo de afeto.[1] Carson discorda do ponto de vista de Hendriksen e conclui: “Talvez eu devesse acrescentar que não estou sugerindo que não há nada distinto sobre o amor de Deus. As Escrituras insistem que há. Mas o conteúdo do amor de Deus não está relacionado em termos diretos com o campo semântico de qualquer palavra ou grupo de palavras. O que a Bíblia tem a dizer sobre o amor de Deus é transmitido por meio de frases, parágrafos, discursos, e assim por diante; isto é, por meio de unidades semânticas maiores que a palavra”.[2]
Bruce segue a mesma linha de Carson quando diz que “aqui [em Jo 21.15-17] a base é precária para sustentar uma distinção entre os dois sinônimos”.[3] Calvino, embora não diga de forma explícita, parece considerar os dois verbos igualmente idênticos em seu significado.[4]
“A variação é um aspecto do estilo de João: nos mesmos três versículos [Jo 21.15-17], foram empregadas duas palavras diferentes para ‘saber’, duas para ‘apascentar’ [ou ‘pastorear’], e duas para ‘ovelhas’ [ou ‘cordeiros’]”.[5] De modo que a ênfase de João 21.15-17 não está na disputa dos verbos agapáo e filéo, mas no diálogo em si, ou seja, Jesus quer saber se Pedro o ama, o quanto Pedro o ama e como Pedro deve amá-lo. A primeira pergunta talvez seja a mais difícil das três porque está acompanhada de um complemento crucial: “Amas-me mais do que estes outros?”.
 A expressão “estes outros” sugere os outros discípulos (cf. Jo 21.1-14). Em outras palavras Jesus estaria perguntando a Pedro: “Você me ama mais do que estes outros discípulos me amam?”. Naturalmente Pedro não tinha como saber. Então, por qual razão Jesus fez essa pergunta? Justamente para colocar o impulsivo Pedro em seu devido lugar. Há pouco tempo Pedro achava que amava a Jesus mais que todo mundo. “Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim” (Mt 26.33). Agora, em resposta à pergunta de Jesus, Pedro reafirma seu amor, porém, recusa-se a fazer qualquer comparação com os outros. Ele simplesmente diz: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. E para por aí.
Pedro se nega a dizer o tamanho do seu amor em comparação com os outros discípulos. Jesus não insiste na comparação. Apenas diz a Pedro como esse amor deve ser demonstrado: “Apascenta os meus cordeiros”. Jesus não desiste de Pedro. Nas outras vezes em que o Mestre pergunta: “Tu me amas?” e Pedro diz que sim, o Senhor de novo ensina como Pedro deve amá-lo: “Apascenta, pastoreia as minhas ovelhas”. É o processo de restauração daquele que seria o grande líder da Igreja de Jesus (cf. Mt 16.18,19).
Pedro aprendeu tão bem a lição do amor que mais adiante diria em uma de suas cartas: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2,3).




[1] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 761-765,771-775.
[2] D. A. Carson, Os Perigos da Interpretação Bíblica: A Exegese e Suas Falácias. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 50. Nota 64.
[3] F. F. Bruce, João: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 345.
[4] John Calvin, Commentary on the Gospel According to John. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 287-92.
[5] W. Günther, H.-G Link, Amor. In: DITNT. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 197.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Aprendendo com o Mestre

Josivaldo de França Pereira
 
Jesus estava orando em certo lugar; quando terminou, um dos seus discípulos lhe pediu: “Senhor, ensina-nos a orar como também João ensinou aos seus discípulos” (Lc 11.1). Os rabinos tinham formulado “modelos” breves de orações para seus discípulos como meios de instrução, a fim de ajudá-los no exercício da fé religiosa. João Batista ensinou seus discípulos a orar e, tempos depois, um dos seguidores de Cristo, tão impressionado pela maneira como o Mestre orava, pediu que o Senhor também os ensinasse.
Quem pediu esta lição ao Mestre não pensou somente em si mesmo, pois notou que o aprendizado da oração era uma necessidade coletiva dos seguidores de Jesus. Não sabemos quem era esse discípulo. Poderia ser um membro daquele grupo mais numeroso de seguidores de Cristo que não pertencia ao grupo dos doze. Algumas passagens bíblicas, como Lucas 6.13, revelam claramente a existência deste grupo mais numeroso. Ainda poderia ser um dos 70 missionários especialmente designados (cf. Lc 10.1-12,17-20). Entretanto, a possibilidade de que fosse um dos doze não deve ser descartada; nem mesmo a possibilidade de ter sido João ou André, ex-discípulos de João Batista (Jo 1.35-40).
A oração ensinada por Jesus é a do Pai Nosso, que em Mateus encontra-se mais extensa no Sermão do Monte (Mt 6.9-15), e em Lucas de maneira condensada (Lc 11.2-4). Em Mateus a oração é pronunciada no decurso de um sermão no início do ministério terreno de Cristo. Posteriormente (Lc 11.1), ela vem como resposta de Jesus ao pedido de um discípulo que possivelmente não estivera presente na ocasião anterior. Com o pedido “Senhor, ensina-nos a orar”, o discípulo talvez quisesse dizer que ansiava por uma forma de palavras que pudesse empregar, ou um padrão segundo o qual pudesse modelar suas orações, ou algumas instruções gerais sobre o assunto.
Jesus amava orar. Ele não apenas falava de oração. Ele praticava a oração. O Mestre orava sempre que algo muito importante estava para acontecer. Por exemplo: (1) Antes de iniciar seu ministério terreno, permaneceu no deserto por quarenta dias, jejuando e orando (Mt 4.1-11). (2) Antes de escolher e chamar os doze para ser apóstolos, “retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12). (3) Antes de se transfigurar diante de Pedro, Tiago e João, para lhes mostrar como seria a glória do reino de Deus (Lc 9.27), ele permaneceu em oração (Lc 9.28). (4) Antes de andar por sobre o mar, “subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava ele, só” (Mt 14.23). (5) Antes de ser preso, julgado, açoitado e crucificado, orava com muita intensidade no Getsêmani (Lc 22.44).
E você, já orou hoje?