sexta-feira, 21 de abril de 2017

O cego de Jericó nos evangelhos sinóticos

                                                                                                                     Josivaldo de França Pereira



A história do cego mendigo de Jericó encontra-se registrada em Mateus 20.29-34; Marcos 10.46-52 e Lucas 18.35-43. João não a menciona por uma questão de propósito e objetivo a nós desconhecida. Marcos narra a cura do cego “Bartimeu”; Lucas conta a história de “um cego”, sem citar o nome do pobre homem. Mateus fala de “dois cegos”. E enquanto Mateus e Marcos situam o acontecimento quando Jesus saía de Jericó, Lucas inverte a ordem, dizendo que o Mestre se aproximava da cidade. Qual o motivo para essas aparentes contradições? Por que Mateus diz que eram dois cegos e Marcos e Lucas apenas um? Por que Lucas relata que a cura do cego aconteceu quando Jesus se aproximava da cidade de Jericó, e Mateus e Marcos quando ele saía da cidade?
Existem muitas sugestões de respostas para estas perguntas, mas nenhuma delas é conclusiva. Alguns acreditam que a narrativa de Mateus apresenta dois homens curados porque ele deixou de lado a narrativa dada por Marcos em Mc 8.22-26, e que dessa maneira quis compensar pela omissão. Contudo, tal explicação não tem base bíblica. Outros entendem que houve dois homens (conforme declara Mateus), porém, um deles foi muito mais vociferador (Bartimeu), sendo o principal a chamar a atenção para si, mencionado por Marcos e Lucas, enquanto seu companheiro foi deixado omisso, ou que então se tornou um discípulo de Jesus bem conhecido dos leitores originais. Não temos como confirmar ou negar essas sugestões. Porém, parecem melhores do que as que afirmam tratar de duas ou três narrativas sobre milagres separados, isto é, que as narrativas de Marcos e Lucas estão separadas da de Mateus. É óbvio que as três narrativas abordam um único incidente.
Não existe contradição alguma entre os três relatos bíblicos. Nós é que não dispomos de todos os mecanismos para visualizar a história como um todo. Portanto, a contradição entre os três evangelhos não é real, mas aparente, visto que nem Marcos nem Lucas dizem que Jesus restaurou a visão somente de um cego. Quanto ao mais, devemos admitir que não temos a resposta: não sabemos porque Marcos escreveu sobre Bartimeu, Lucas não registra o nome do cego e ambos não mencionam o outro homem.
Outros ainda têm apelado para a teoria das duas narrativas a fim de explicar porque Lucas afirma que a ocorrência se deu quando Jesus entrava em Jericó, ao passo que os demais (Mateus e Marcos) asseveram que o episódio ocorreu quando Jesus saía da cidade. Muitos creem que os arqueólogos descobriram a existência de “duas” Jericós, o que explicaria a aparente contradição. Assim, Mateus e Marcos se referiam à antiga Jericó (a cidade cananeia original), e Lucas à nova Jericó (fundada por Herodes, o Grande), que ficava próxima da localidade mais antiga, uma espécie de continuação ou divisão da primeira cidade. A nova Jericó fica a 8 km a oeste do rio Jordão, e cerca de 24 km a leste de Jerusalém, a 1,5 km ao sul do local da antiga cidade. Nesse caso, é possível que os dois cegos estivessem realmente entre as duas localidades quando ocorreu o milagre.[1]




[1] Para outras possíveis interpretações e objeções, consulte Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 789-791; Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 505.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário