segunda-feira, 5 de junho de 2017

A sombra de Pedro e os lenços de Paulo

 Josivaldo de França Pereira

Há um paralelo interessante em Atos. Depois do derramamento do Espírito Santo no Pentecostes, Deus realizou milagres extraordinários por meio de seus apóstolos (At 2.43). Antes de o Espírito Santo vir sobre os samaritanos, Deus operou sinais milagrosos por meio de Filipe (At 8.6,13). Quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos de João em Éfeso, Deus tornou seu poder conhecido por meio dos milagres efetuados por Paulo (At 19.6,11,12).
Pouco tempo depois do Pentecostes de Atos 2, Lucas relara: ”Muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos...” (At 5.12).  E ainda: “E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor, a ponto de levarem os enfermos até pelas ruas e os colocarem sobre leitos e macas, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra se projetasse nalguns deles” (At 5.14,15).
Alguns fundamentalistas sustentam que esperar que a sombra de Pedro curasse os enfermos era uma crença supersticiosa daquelas pessoas, herdada do paganismo. Mas tal afirmação não procede. Lucas diz que quem levava os enfermos pelas ruas sobre leitos e macas, esperando que Pedro os curasse com a sombra dele, eram os “agregados ao Senhor”, ou seja, crentes iguais àqueles que foram salvos e acrescentados à igreja pelo Senhor em Atos 2.47. Certamente, eles acreditavam de verdade que era Deus quem usava Pedro e os demais apóstolos para fazerem muitos sinais e prodígios (cf. At 5.14; At 19.11).  
Outros feitos tremendos ocorreram no ministério de Paulo. Em Éfeso, por ocasião de sua terceira viagem missionária, o apóstolo foi usado poderosamente por Deus para fazer milagres. Lucas, que a tudo presenciou, declara: “E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam” (At 19.11,12).
Lucas deixa claro que não era Paulo, mas Deus quem fazia milagres extraordinários pelas mãos (instrumentalidade) do apóstolo. Deus é a fonte do poder. Paulo era apenas um canal usado de forma poderosa por Deus, a ponto de lenços e aventais de uso pessoal do apóstolo serem levados aos enfermos e endemoninhados, que eram curados e libertos de espíritos malignos. Diferente do que vemos hoje em dia, onde falsos apóstolos vendem lenços e outras tranqueiras como amuletos, Paulo não explorava a fé de ninguém com essas coisas (veja At 20.35).  
Mas o que eram os lenços e aventais do uso pessoal de Paulo? A palavra grega “soudária” (lenços), originada do vocábulo latino “sudor”, que significa “suor”, refere-se a uma pequena peça de pano, usada para enxugar o rosto, ou para qualquer outro uso pessoal. Tais panos eram com frequência utilizados pelos viajantes, ou mesmo na vida diária para enxugar a testa, não muito diferente do emprego que tantas pessoas fazem de um lenço moderno. A referência, no caso de Paulo, é aos lenços que ele amarrava ao redor da cabeça, ou usados por ele para enxugar a transpiração de seu rosto.
O termo “aventais” deriva-se da palavra latina “simicinctium”, que em todo o Novo Testamento ocorre só aqui em Atos 19.12. Eram os aventais utilizados pelos artesãos quando trabalhavam em seus diversos ofícios. O vocábulo latino indica algo posto em torno da cintura, cobrindo parte dela. Não parece haver dúvidas de que tais aventais eram usados por Paulo quando fazia suas tendas, que estavam possivelmente sujos de terra e manchados do uso diário na oficina.
Contudo, eruditos fundamentalistas pensam que, no caso descrito nesta passagem de Atos 19.12, a superstição tinha algum lugar, ainda que, segundo eles, Deus a tenha honrado, de certa maneira. A. T. Robertson (citado por Champlin como um desses fundamentalistas) diz que “Se perguntarmos admirados como Deus poderia honrar uma fé tão supersticiosa, devemo-nos lembrar que não há qualquer poder na superstição ou na mágica, mas tão-somente em Deus”. Surpreendentemente, Robertson classifica tal seção neotestamentária dentro da mesma categoria das superstições populares sobre o número 13, a lua ou pé de coelho. E dá a entender que a mulher com fluxo de sangue que tocou na orla da veste de Cristo, e recebeu a cura, também foi impulsionada por uma superstição semelhante.
Howard Marshall, outro fundamentalista, afirma ser surpreendente que Lucas, que tanto critica a magia, possa concordar que crenças mágicas semelhantes, numa forma cristianizada, fossem eficazes no ministério apostólico. E conclui: “Talvez pudéssemos sugerir que Deus é capaz da condescendência ao nível dos homens que ainda pensam de modo tão imaturos, assim como fez com a mulher com a hemorragia que precisou, no entanto, ser levada a um encontro pessoal com Jesus (Lc 8.43-48)”.
Algumas vezes, os crentes fundamentalistas se mostram tão culpados quanto os elementos de tendências liberais, quando, através da ignorância, negam algumas formas de realidade espiritual. Jesus nunca ensinou que bastava tocar nas vestes dele para alguém ser curado, todavia, a mulher com fluxo de sangue creu que isso podia acontecer. Então, o Mestre a curou, e disse: “Filha, a tua fé te salvou: vai-te em paz” (Lc 8.48).
Lucas não fornece qualquer indicação de que o povo tenha adorado Paulo ou que idolatrava seus lenços e aventais. João Calvino corretamente chama a atenção para as coisas sem valor que foram escolhidas para evitar que o povo caísse em superstição e idolatria. Se porventura Paulo tivesse visto em tais práticas qualquer coisa errada, certamente não teria permitido que elas se repetissem, e nem o próprio Lucas teria registrado todos esses sinais e maravilhas, chamando-os de “milagres extraordinários”.
John Stott observa que a atitude mais sábia perante os milagres dos lenços não é a dos céticos, que os declaram espúrios; nem a dos imitadores, que tentam copiá-los, como aqueles televangelistas que oferecem aos doentes lenços “abençoados” por eles, mas sim a dos estudiosos da Bíblia que lembram que Paulo via seus milagres como credenciais apostólicas (cf. Rm 15.19; 2Co 12.12) e que Jesus mesmo foi condescendente com a fé tímida de uma mulher, curando-a quando ela tocou a orla de sua roupa.[1]




[1] Bibliografia consultada:
BRUCE, F. F. Commentary of the Book of Acts: The English Text with Introduction, Exposition and Notes. In: The New London Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1954.
CALVIN, John. Commentary on the Acts of the Apostles. Vol. 2. Grand Rapids: Eerdmans, 1966.
CHAMPLIM, Russell N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2002.
KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Atos. Vols. 1 e 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
MARSHALL, Howard. Atos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2014.
STOTT, John. A Mensagem de Atos. 2ª ed. São Paulo: ABU Editora, 2015.

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