segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O último apóstolo

Josivaldo de França Pereira

O termo “apóstolo” é usado cerca de dezessete vezes para se referir a Paulo, quer por Lucas no livro de Atos, quer pelo próprio apóstolo em suas cartas. De acordo com James Dunn, apóstolo é um título que Paulo prezava acima de todos os outros e no qual insistia como sua autodesignação mais regular ao apresentar-se aos destinatários das suas cartas.[1] Essa afirmação é correta, pois Paulo se identifica como apóstolo em onze de suas treze epístolas.[2]
No Novo Testamento, um apóstolo (no sentido técnico do termo) era alguém que viu o Senhor Jesus ressuscitado, sendo diretamente chamado e designado por Cristo para o apostolado, e capaz de afirmar e fundamentar sua vocação (At 1.22; 26.16-18; 1Co 9.1; Gl 1.1). Por conseguinte, uma nota constantemente repetida nas epístolas de Paulo é: “chamado para ser apóstolo” (Rm 1.1; cf. 1Co 1.1; 2Co 1.1; Gl 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; 1Tm 1.1; 2Tm 1.1). “O apostolado é o ofício máximo da igreja, e Paulo é apóstolo no sentido mais completo”.[3]
Desse modo, para Paulo a vocação e comissão ao apostolado não eram através dos homens, "mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai" (Gl 1.1; cf. Rm 1.5; 1Co 1.1; 2Co 1.1). Tal comissão veio através de um encontro com o Senhor ressurreto (1Co 15.8), que pessoalmente entregou a ele a mensagem do evangelho (1Co 11.23; 15.3; Gl 1.12). O apóstolo Paulo proclamou as boas novas de salvação a homens e mulheres como "embaixador" de Cristo (2Co 5.20), não por capacidade inata do seu ser (2Co 3.5), mas pelo favor livre e imerecido de Deus (1Co 15.9,10; Ef 3.8).
Os aspectos diferenciados do apostolado de Paulo foram a nomeação direta dele por Cristo (GI 1.1) e a designação feita a ele do mundo gentio como sua esfera de trabalho (At 26.17,18; Rm 1.5; Gl 1.16; 2.8). Um apóstolo tinha a função básica de ser um delegado (aquele que recebeu delegação) do Cristo ressurreto, indo a todos os lugares como seu representante e em sua autoridade. Paulo fora separado desde o ventre materno para ser o apóstolo dos gentios (Gl 1.15-17; cf. At 9.15,16; 22.14,15; 26.16-18; Rm 11.13; Ef 3.8; 1Tm 2.7). Muito embora o testemunho aos judeus apareça nos relatos, era primeiramente aos gentios que ele haveria de testemunhar.[4]
Em 1Coríntios 15.8, Paulo declara que seu chamado apostólico foi incomum e excepcional, pois o Cristo vivo, afinal, depois de todos, foi visto também por ele como a um abortivo, uma espécie de nascimento ectópico, ou seja, “como por um nascido fora de tempo” (1Co 15.8). No caminho de Damasco (At 9.3-7), Paulo não teve uma visão de Jesus; ele realmente viu o Senhor Jesus Cristo. E foi o último homem a quem o Mestre apareceu (cf. At 23.11). Por conta disso, dizia ser o menor dos apóstolos e não se achava digno de ser chamado apóstolo por ter perseguido a igreja de Deus (1Co 15.9). Paulo considerava seu apostolado uma demonstração da graça divina, bem como uma chamada à labuta sacrificial, ao invés de uma oportunidade para se vangloriar (1Co 15.10; 2Co 12.11; Ef 3.8).
De acordo com Martyn Lloyd-Jones, há pelo menos cinco coisas essenciais nas Escrituras do Novo Testamento com relação ao ofício de apóstolo. De forma resumida, apóstolo era, segundo ele, um homem (1) que tenha visto a Cristo ressurreto (cf. 1Co 9.1; 15.8); (2) que tenha sido chamado e comissionado para realizar a sua obra pelo próprio Senhor, em pessoa (cf. At 26.16; Gl 1.1); (3) a quem tinha sido feita uma revelação sobrenatural da verdade (cf. Gl 1.10-12; Ef 3.2,3); (4) a quem foi dado poder para falar não só com autoridade, como também infalivelmente (cf. 1Co 4.16; Fp 3.17); (5) que tinha o poder de realizar milagres (cf. Rm 15.19; 2Co 12.12; Hb 2.4).[5]
Augustus Nicodemus Lopes acrescenta uma sexta marca ao ofício de apóstolo: a necessidade de sofrer pelo nome de Jesus. E conclui: “Muitos, hoje, que se consideram apóstolos como aqueles do Novo Testamento, não parecem apreciar o sofrimento como parte de seu apostolado. Apóstolos modernos pregam a teologia da prosperidade e não a teologia da cruz e do sofrimento por Cristo”.[6]
Só o primeiro destes requisitos (ver Cristo ressuscitado) é suficiente para Wayne Grudem afirmar com toda segurança: “já que ninguém hoje pode preencher o requisito de ter visto o Cristo ressurreto com os próprios olhos, não há apóstolos hoje”.[7] Portanto, o único sentido em que o termo “apóstolo” poderia ser usado hoje é aquele de missionário pioneiro e desbravador de novos campos, que levam o evangelho a povos e nações. É assim que o título foi usado algumas vezes na história da igreja cristã, como por exemplo, Bonifácio, o apóstolo dos germanos; Sadhu Sundar Singh, o apóstolo dos pés sangrentos e Miguel Gonçalves Torres, o apóstolo de Caldas.





[1] James D. G. Dunn, A Teologia do Apóstolo Paulo. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2008, p. 7.
[2] Exceção para Filipenses e Filemom.
[3] Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 167.
[4] Cf. Augustus Nicodemus Lopes, Apóstolos: Verdade bíblica sobre o apostolado. São José dos Campos: Fiel, 2015, p. 73.
[5] D. M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã: Exposição sobre Efésios 4.1-16. São Paulo: PES, 1994, p.p. 159-161.  
[6] Nicodemus, Apóstolos, p. 72.
[7] W. Grudem, Teologia Sistemática. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 764.