quarta-feira, 22 de março de 2017

A LIÇÃO DO AMOR

Mensagem de João 21.15-17

Josivaldo de França Pereira

Certamente, uma das perguntas mais intrigantes que o Cristo ressurreto fez a um reles mortal foi esta: “Tu me amas?”. E no caso de Pedro uma inquietação ainda maior surgiria porque este discípulo, a pouco, havia negado o Mestre três vezes. No entanto, a tripla indagação não veio em forma de revanche ou acusação. Ela está repleta da ternura daquele que busca a ovelha perdida para restaurá-la – Jesus.
Nos Evangelhos o amor que devemos ter para com os irmãos e os inimigos aparece sempre no modo imperativo (cf. Mt 5.44; Lc 6.27,45; Jo 15.12,17). Jesus ordena: “Amai”! Ele nunca diz que o amor é algo que devemos simplesmente sentir pelo nosso semelhante. Amai é um mandamento imperativo. O amor cristão é algo que deve ser buscado, desejado, perseguido!
Entretanto, quando Jesus fala do amor que devemos ter para com ele, o verbo amar aparece no presente do indicativo (cf. Jo 14.15) e, em João 21.15-17, na forma da indagação que espera um “sim” definitivo. E mesmo que a resposta não venha de imediato na primeira ou segunda vez, Jesus, que conhece o nosso íntimo, insiste novamente, e, de novo, sem usar o imperativo “amai-me!”. Aquele que ternamente pergunta: “Tu me amas?”, aguarda um sincero: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”, no presente do indicativo também!
Alguns estudiosos têm-se limitado a examinar o texto de João 21.15-17 em torno das palavras gregas “agapáo” e “filéo”. Dois verbos para “amar”. Hendriksen, por exemplo, assegura que em João 21.15-17 existe uma semântica diferente entre os dois termos. Segundo ele, agapáo é o verbo da classe mais elevada de amor, enquanto filéo é o verbo do amor subjetivo de afeto.[1] Carson discorda do ponto de vista de Hendriksen e conclui: “Talvez eu devesse acrescentar que não estou sugerindo que não há nada distinto sobre o amor de Deus. As Escrituras insistem que há. Mas o conteúdo do amor de Deus não está relacionado em termos diretos com o campo semântico de qualquer palavra ou grupo de palavras. O que a Bíblia tem a dizer sobre o amor de Deus é transmitido por meio de frases, parágrafos, discursos, e assim por diante; isto é, por meio de unidades semânticas maiores que a palavra”.[2]
Bruce segue a mesma linha de Carson quando diz que “aqui [em Jo 21.15-17] a base é precária para sustentar uma distinção entre os dois sinônimos”.[3] Calvino, embora não diga de forma explícita, parece considerar os dois verbos igualmente idênticos em seu significado.[4]
“A variação é um aspecto do estilo de João: nos mesmos três versículos [Jo 21.15-17], foram empregadas duas palavras diferentes para ‘saber’, duas para ‘apascentar’ [ou ‘pastorear’], e duas para ‘ovelhas’ [ou ‘cordeiros’]”.[5] De modo que a ênfase de João 21.15-17 não está na disputa dos verbos agapáo e filéo, mas no diálogo em si, ou seja, Jesus quer saber se Pedro o ama, o quanto Pedro o ama e como Pedro deve amá-lo. A primeira pergunta talvez seja a mais difícil das três porque está acompanhada de um complemento crucial: “Amas-me mais do que estes outros?”.
 A expressão “estes outros” sugere os outros discípulos (cf. Jo 21.1-14). Em outras palavras Jesus estaria perguntando a Pedro: “Você me ama mais do que estes outros discípulos me amam?”. Naturalmente Pedro não tinha como saber. Então, por qual razão Jesus fez essa pergunta? Justamente para colocar o impulsivo Pedro em seu devido lugar. Há pouco tempo Pedro achava que amava a Jesus mais que todo mundo. “Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim” (Mt 26.33). Agora, em resposta à pergunta de Jesus, Pedro reafirma seu amor, porém, recusa-se a fazer qualquer comparação com os outros. Ele simplesmente diz: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. E para por aí.
Pedro se nega a dizer o tamanho do seu amor em comparação com os outros discípulos. Jesus não insiste na comparação. Apenas diz a Pedro como esse amor deve ser demonstrado: “Apascenta os meus cordeiros”. Jesus não desiste de Pedro. Nas outras vezes em que o Mestre pergunta: “Tu me amas?” e Pedro diz que sim, o Senhor de novo ensina como Pedro deve amá-lo: “Apascenta, pastoreia as minhas ovelhas”. É o processo de restauração daquele que seria o grande líder da Igreja de Jesus (cf. Mt 16.18,19).
Pedro aprendeu tão bem a lição do amor que mais adiante diria em uma de suas cartas: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2,3).




[1] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 761-765,771-775.
[2] D. A. Carson, Os Perigos da Interpretação Bíblica: A Exegese e Suas Falácias. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 50. Nota 64.
[3] F. F. Bruce, João: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 345.
[4] John Calvin, Commentary on the Gospel According to John. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 287-92.
[5] W. Günther, H.-G Link, Amor. In: DITNT. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 197.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Natanael

Josivaldo de França Pereira
 
Natanael aparece nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) como Bartolomeu (Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.14). João nunca menciona Bartolomeu; os sinóticos nunca mencionam Natanael. Como sabemos que se trata da mesma pessoa? Primeiro, porque Natanael seria seu nome próprio e Bartolomeu indicaria sua filiação hebraica, significando filho de Tolomeu em português. Essa era uma maneira comum das pessoas se identificarem na cultura judaica (cf. Mt 16.17; Mc 10.46; Lc 23.18; At 13.6).
Segundo, na lista dos doze apóstolos (que ocorre somente em Mateus, Marcos e Lucas) os nomes de Filipe e Bartolomeu estão sempre juntos. Natanael/Bartolomeu era o companheiro mais chegado de Filipe. Além disso, nos relatos mais antigos da história da Igreja primitiva e em muitas lendas da antiguidade sobre os apóstolos, os dois nomes também aparecem associados com frequência.
Os três primeiros Evangelhos e o livro de Atos não contêm detalhes acerca das origens, caráter ou personalidade de Natanael. Na verdade, cada um deles o menciona uma única vez, ou seja, somente na listagem dos doze discípulos. O apóstolo João cita Natanael em apenas duas passagens: João 1, texto em que descreve seu chamado, e João 21.2, quando mostra que ele foi um daqueles que voltaram para a Galileia e foi pescar com Pedro depois da ressurreição de Jesus.
De acordo com João 21.2, Natanael era da pequena cidade de Caná da Galileia, lugar onde Jesus fizera seu primeiro milagre ao transformar água em vinho (Jo 2.11). Caná ficava bem próxima de Nazaré, a cidade de Jesus.
Ainda segundo João, dos doze discípulos de Jesus, somente Pedro e Natanael não foram chamados diretamente pelo Mestre, por assim dizer. André levou seu irmão a Jesus (Jo 1.40-42) e Filipe convidou o amigo Natanael. O encontro entre Jesus e Natanael é um dos mais notáveis da Bíblia, conforme descreve João 1.45-51:
45Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José.
46Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê.
47Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!
48Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.
49Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!
50Ao que Jesus lhe respondeu: Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás.
51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.

Filipe faz um relato perfeito da pessoa de Jesus a Natanael: “Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo 1.45). Sua citação das Escrituras relembra o que Jesus, ressurreto, diria a dois seguidores dele no caminho de Emaús: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). E também aos seus discípulos: “... São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44).
Contudo, Natanael se declara francamente incrédulo no fato de que alguma coisa boa, muito menos o Messias, proceda de Nazaré. Nazaré era uma cidade pequena, inexpressiva e insignificante aos olhos de muitos. Ela não é citada uma única vez no Antigo Testamento, nos apócrifos, nos escritos de Josefo ou no Talmude judaico. O povo da Judeia considerava os galileus inferiores, porém, até mesmo os galileus desprezavam os nazarenos. Apesar de ser de uma vila ainda mais humilde (Caná da Galileia), Natanael só estava repetindo o desdém geral dos galileus pelos nazarenos. [1]
Filipe convida Natanael a vir e ver com os próprios olhos o Messias. Mas quem o vê primeiro é Cristo. “Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em que não há dolo” (Jo 1.47). Nosso Senhor conhece perfeitamente a natureza humana (Jo 2.23-25). Portanto, ele pôde dizer com precisa exatidão que Natanael é “um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”. O adjetivo grego para verdadeiro (alethós) em João 1.47 significa “autêntico, genuíno”. Natanael era um israelita de verdade.
Não se trata de uma referência à sua descendência física de Abraão. Jesus não estava falando de genética. Estava associando a condição de Natanael como verdadeiro israelita ao fato de não haver nele nenhum dolo. Sua sinceridade era o que o definia como autêntico israelita. Grande parte dos israelitas do tempo de Jesus não eram pessoas autênticas e sim hipócritas. Eram falsos. A vida que levavam era recoberta de um verniz de espiritualidade, mas não era real e, portanto, não podiam ser considerados verdadeiros filhos espirituais de Abraão. Natanael, porém, era verdadeiro.[2]

Em Romanos 9.6,7 o apóstolo Paulo diz: “Nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos”. Em Romanos 2.28,29 ele escreve: “... não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus”.
Natanael era um israelita autêntico, um dos verdadeiros filhos espirituais de Abraão. Não havia nele dolo ou engano, isto é, qualquer hipocrisia. Algo bastante incomum e particularmente raro no Israel do primeiro século (cf. Mt 6.1-8; 23.13-33). Por sinal, as palavras de Jesus “eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”, recordam o que Deus disse sobre Jó no Antigo Testamento: “... Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (Jó 1.8; cf. 1.1; 2.3).
A revelação de Jesus deixou o amigo de Filipe surpreso: “Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira” (Jo 1.48). Jesus não está dizendo que passou por aquele local e viu Natanael debaixo da figueira. Não se refere à sua presença física ali, pois onde Natanael estava, humanamente falando, ninguém poderia vê-lo. Jesus falava de sua onisciência divina, de um atributo idêntico ao do Salmo 139.1-4, e Natanael percebeu isso (cf. Jo 1.49).
Com certeza, o Senhor Jesus não diria o que disse a Natanael se este estivesse simplesmente dormindo debaixo da figueira, ou comendo figos. Por conseguinte, qual o significado da figueira nessa passagem bíblica? MacArthur explica:
É bem provável que fosse o lugar em que Natanael ia para estudar e meditar nas Escrituras. As casas dos israelitas normalmente eram construções pequenas, com um só cômodo. Cozinhava-se quase tudo ali dentro, de modo que sempre havia um fogo aceso, mesmo no verão. Com isso, o cômodo podia ficar cheio de fumaça e abafado. Costumava-se plantar árvores ao redor da casa para mantê-la fresca e à sombra. Uma das melhores árvores para se plantar era a figueira, pois dava frutos maravilhosos e boa sombra. As figueiras só crescem até ficar com cerca de quatro metros e meio. Têm um tronco relativamente curto e retorcido e seus galhos são baixos e se espalham por até sete a nove metros. Uma figueira perto de uma casa oferecia uma grande área externa protegida e com sombra. Se alguém queria escapar do barulho e do ambiente abafado da casa, podia sair e descansar sob a sombra da figueira. Era uma espécie de recanto particular ao ar livre, perfeito para meditar, refletir e ficar só. Sem dúvida era para lá que Natanael ia a fim de estudar as Escrituras e orar.[3]

Debaixo da figueira Natanael estava com a mente e o espírito sintonizados em Deus. À semelhança de Simeão, Natanael também era um homem justo e piedoso que esperava pela Consolação e Salvação de Israel: o Messias prometido. O Verbo encarnado que agora se encontrava diante dele era a resposta viva às orações de Natanael. Deus atendeu as preces dele!
A primeira confissão de fé de um discípulo feita a Jesus vem cheia de emoção: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo 1.49).
A resposta do Senhor foi ainda mais surpreendente: “Ao que Jesus lhe respondeu: Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores cousas do que estas verás. E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo 1.50,51).[4]
Quem crê nas menores coisas que Jesus diz haverá de ver as maiores também. Talvez você esteja debaixo de sua “figueira” hoje – meditando na Palavra, orando, clamando e chorando na presença de Deus. Saiba que ele vê. Deus é o Deus que vê (cf. Gn 16.13) e virá ao seu encontro. Creia nisso.



[1] Atualmente Nazaré é uma próspera cidade de cem mil habitantes (relativamente grande para os padrões de Israel), com belas casas e carrões importados.
[2] John MacArthur, Doze Homens Comuns. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 139.
[3] Idem, p. 141.
[4] João 1.51 conduze-nos a Gênesis 28.12. A escada é o Cristo Mediador. Consulte João Calvino, Institutas I.xiv.12.