terça-feira, 24 de abril de 2018

As Orações de Jesus na Cruz do Calvário

Josivaldo de França Pereira

 
Das sete palavras ou declarações proferidas por Jesus Cristo na cruz do Calvário, três delas são orações de nosso Senhor ao Deus Pai; a saber, a primeira, a quarta e a sétima declarações. Embora não se tenha certeza da sequência exata das chamadas “sete palavras da cruz”, tradicionalmente adota-se esta ordem:
1)     Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem;
2)     Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso;
3)     Mulher, eis aí o teu filho... Eis aí tua mãe;
4)     Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
5)     Tenho sede;
6)     Está consumado;
7)     Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. 
Observe que três das sete palavras da cruz – exatamente as que estão no início, meio e fim – são orações.
A oração intercessora de Jesus
"Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda. Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem ..." (Lc 23.33,34). A interpretação de Hendriksen sobre o sentido da expressão "perdoa-lhes" é interessante, sobretudo porque a oração de Jesus envolve não só o esquecimento da culpa dos transgressores, mas também a livre graça de Deus em conceder-lhes o arrependimento para a vida, conforme Atos 18.11. Segundo ele, a expressão "perdoa-lhes" significa: "Apaga suas transgressões completamente. Em tua soberana graça concede-lhes o verdadeiro arrependimento, de maneira que eles venham a ser totalmente perdoados".[1]
Por quem Jesus orava quando rogou ao Pai "perdoa-lhes"? Quanto aos objetos desta oração, isto é, os “lhes”, as interpretações são bem heterogêneas. De acordo com Robertson, "Jesus evidentemente está orando pelos soldados romanos, que estavam apenas cumprindo ordens, mas não pelo Sinédrio".[2] Hendriksen discorda de Robertson quanto à exclusão do Sinédrio.[3] Kevan entende que essa é "uma oração não só para os soldados romanos, mas também para os judeus".[4] Morris argumenta que a oração de Jesus "Não define restritamente aqueles em prol dos quais ele ora, e seu lhes provavelmente inclua tanto os judeus que eram responsáveis pela crucificação quanto os romanos que a levaram a efeito (cf. At 2.23; 3.17; 13.27,28; 1Co 2.8)".[5] Barnes diz que não fica claro se Jesus está se referindo "aos judeus ou aos soldados romanos. Talvez se refira a ambos".[6] Champlin inclui a todos nessa oração: "Os intérpretes se equivocam quando tentam limitar as aplicações dessa declaração, dizendo 'não Pilatos', e nem os 'escribas e fariseus', etc., por terem pecado contra o conhecimento e a luz".[7] Lenski é cauteloso ao responder a pergunta que ele mesmo faz, Estavam Caifás e Pilatos incluídos? "Nós preferimos não fazer julgamentos individuais, pois somente Deus conhece os corações e o grau de pecado deles por falta de melhor conhecimento".[8]
O Sinédrio, enquanto instituição e organização, realmente não estava incluído nessa oração; porém, indivíduos, membros do Sinédrio, não podem ser descartados dela. Nicodemos, Paulo e outros, são exemplos disso. Os judeus também foram lembrados. Não o povo como um todo, mas muitas famílias e indivíduos foram convertidos. Do mesmo modo, todos aqueles que posteriormente viriam a crer em Jesus, sendo judeus ou gentios.
Por que Jesus orou, “... Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem...” se na verdade a maioria daquelas pessoas sabia que ele estava sendo injustiçado?[9] Jesus orou assim porque elas não tinham ideia da enormidade do crime que estavam cometendo. Não compreenderam a grandeza da maldade que praticavam. Não sabiam que matavam o Autor da vida, o Messias prometido, o Filho de Deus.
Nós estávamos lá, representados por aqueles que crucificaram o Senhor da glória, e por causa daquela oração igualmente fomos alcançados e perdoados.[10]
A oração misteriosa de Jesus
“Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46; Mc 15.34). A quarta declaração de Cristo na cruz do Calvário é sem dúvida a mais rica em mistério e significado. Somente Mateus e Marcos relatam essa incógnita oração, proferida primeiramente por Davi no Salmo 22.1, um Salmo messiânico.
A conexão entre a escuridão (Mt 27.45; Mc 15.33) e o clamor de Jesus em alta voz (Mt 27.46; Mc 15.34) é muito estreita: a primeira é um símbolo agonizante do segundo. O grito de angústia de Jesus começa com Eli (no hebraico em Mateus) ou Eloí (no aramaico em Marcos), que quer dizer “Deus meu”. A repetição de “Deus meu” indica a profundidade do sofrimento espiritual e da agonia de nosso Senhor. O pronome pessoal (meu) expressa a estreita relação que o Deus Filho tem com o Deus Pai. Esse relacionamento recíproco de amor e confiança é a razão do lamá (por quê?).
Como entender o sabactâni, o desamparo de Jesus pelo Pai, posto que o próprio Cristo havia dito aos seus discípulos: “Eis que vem a hora e já é chegada, em que sereis dispersos, cada um para sua casa, e me deixareis só; contudo, não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16.32)?[11] Em que sentido Jesus foi desamparado por Deus? Esse abandono foi real ou imaginário? Alguns estudiosos, como Russell Champlin, chegam a afirmar que Deus não abandonou Jesus em nenhum aspecto.[12] Para estes, Jesus estava somente recitando as Escrituras, não expressando o que verdadeiramente sentia no coração. Mas pensar assim é contrariar a própria oração de Jesus na cruz.
É certo que não podemos compreender como a natureza divina de Jesus Cristo, sendo uma única em substância e essência, indivisível em poder, honra e glória com o Pai, pôde exclamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Como Deus poderia abandonar a Deus? Ainda que não possamos entender esse misterioso fato, podemos perfeitamente saber a razão de ser desse mistério. “De algum modo misterioso, durante essas horas terríveis na cruz, o Pai derramou a medida completa da sua ira contra o pecado, e o receptor dessa ira foi o próprio Filho amado de Deus!”.[13]
Jesus Cristo, vindo ao mundo para representar e substituir o pecador, satisfazer a justiça de Deus em lugar do pecador, necessitava experimentar tanto a morte física como, principalmente, a morte espiritual: a separação de Deus! Isaías disse acerca do povo de Israel: “... as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Is 59.2). E Habacuque declarou sobre o Senhor: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal...” (Hc 1.13). Naquela hora de agonia e dor de Jesus na cruz do Calvário, o Pai virou as costas ao Filho por causa dos nossos muitos pecados (cf. Is 53; Rm 8.3; 2Co 5.21; Gl 3.13; 1Pe 3.18; 1Jo 2.2).
Deus Pai abandonou o Filho na cruz quanto a sua natureza humana, e mesmo assim em um sentido temporal e limitado, embora mui real e agonizante.[14]
Cristo foi intensa e momentaneamente desamparado por Deus para que nós pudéssemos eternamente ser acolhidos e amparados por ele.
A oração triunfante de Jesus
“Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (Lc 23.46). Jesus está citando o Salmo 31.5, todavia, não ipsis verbis. Comparando Lucas 23.46 com o Salmo 31.5 percebe-se com nitidez que o Senhor Jesus faz um acréscimo, uma retenção e uma omissão ao referido Salmo.
Jesus acrescenta o vocábulo “Pai”. Curiosamente, a primeira declaração dele na cruz também começa com a palavra “Pai”: “Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem...” (Lc 23.34). Significando que: da primeira à última das palavras proferidas por Cristo no Calvário existe um vínculo entre elas, além de evidenciarem verdadeira comunhão e confiança do Filho em relação ao Pai. Mesmo na quarta palavra onde o Senhor pergunta “por que me desamparaste?”, por duas vezes ele chama o Pai de “Meu Deus” (Mt 27.46). 
 A relação Pai-Filho é o maior elo de ligação entre a primeira e segunda pessoas da Santíssima Trindade. Nada é tão forte como a união do Pai e o Filho, a ponto de Jesus nunca incluir seus discípulos no mesmo nível do relacionamento dele com Deus. Ele falava de “meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20.17). Jamais dizia: “Nosso Pai”. A expressão “Pai nosso” é o que nós devemos dizer (cf. Mt 6.9).
Jesus retém a expressão “nas tuas mãos entrego o meu espírito”.   Comentando essa cláusula de Lucas 23.46, Leon Morris observa: “As últimas palavras de Jesus são uma bela expressão de confiança enquanto se recomenda ao Pai nas palavras de um Salmo (Sl 31.5)”.[15] O Salmo 31 é messiânico, isto é, ele aponta para a pessoa e obra do Messias prometido. Davi o escreveu cerca de 1000 anos ou mais antes de Cristo.
Nosso Senhor invocou o nome do seu amantíssimo Pai para entregar-lhe, em suas mãos, o seu espírito. Jesus, como Deus-homem, possuía a natureza humana completa, perfeita. Além do corpo ele possuía uma alma racional, ou espírito. Ele pôde assim falar porque deu a sua alma, deu a sua vida, deu o seu coração à obra de seu Pai.[16] Dizer nas tuas mãos entrego o meu espírito é significativo, pois “indica que o Salvador morreu o único tipo de morte que podia satisfazer a justiça de Deus e salvar os homens. Tinha de ser um sacrifício voluntário. O próprio fato de Jesus pronunciar esta palavra em alta voz também revela que ele dera sua vida de bom grado e voluntariamente (Jo 10.11,15)”.[17]
Jesus omite as palavras que vêm imediatamente em seguida no Salmo 31.5: “Tu me remiste”. No caso de Cristo essa remissão não era necessária e nem mesmo possível porque ele não tem pecado. Ele levou sobre si as nossas iniquidades (Is 53.4-6), mas ele mesmo não tinha pecado algum (Jo 8.46; Hb 4.15).
Esta não era a oração de quem desistiu de viver, mas de quem triunfou sobre a morte. Não era a oração de quem se rendia à morte, mas de quem se entregava aos cuidados do Pai.
Qual a aplicação prática do acréscimo, retenção e omissão da oração de Jesus em Lucas 23.46 se comparada ao Salmo 31.5? Pode-se afirmar que Jesus acrescentou o nome “Pai” para que nós também, nele, tivéssemos o direito de chamar a Deus de nosso Pai; reteve a expressão “nas tuas mãos entrego o meu espírito” para que nós também aprendêssemos a depositar toda a nossa vida e confiança no Senhor até à morte; omitiu as palavras “Tu me remiste” para que não esquecêssemos que somente nós somos pecadores e necessitados da graça redentora.




[1] William Hendriksen, New Testament Commentary: Luke. Grand Rapids: Baker Book House, 1981, p. 1029.
[2] A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament: Luke, Vol. 2. Grand Rapids: Baker Book House, 1930, p. 285.
[3] Hendriksen, op. cit., p. 1029.
[4] E. F. Kevan, O Evangelho Segundo S. Lucas. In: O Novo Comentário da Bíblia, Vol. 2. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 1056.
[5] Morris, Lucas: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 306,7.
[6] Albert Barnes, Notes on the New Testament: The Gospels. Grand Rapids: Baker Book House, S/d, p. 156. Itálicos do autor.
[7] Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 229.
[8] R. C. H. Lenski, The Interpretation of St. Luke's Gospel. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1946, p. 1134.
[9] Consulte John MacArthur, Jr, A Morte de Jesus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 208,9 para alguns exemplos dos que sabiam da inocência de Jesus.
[10] Veja mais sobre Lucas 23.34 em meu livro Verdades Para Hoje, vol. 2, p. 81-96.
[11] Destaque acrescentado.
[12] Consulte Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 637.
[13] John MacArthur, Jr., op. cit., p. 217.
[14] Consulte Guillermo Hendriksen, Comentário Del Nuevo Testamento: San Mateo. Grand Rapids: SLC,1986, p. 1019,20.
[15] Morris, op. cit., p. 309.
[16] Cf. Álvaro Reis, A Sétima Palavra da Cruz. In: Sermões Selecionados. Vol. 1. Governador Valadares: Apoio Pastoral, 1999, p. 246,7.
[17] Hendriksen, op. cit., p. 663. Itálicos do autor.

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