segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A morte antes da morte

Josivaldo de França Pereira
 
Sabemos que a morte é um agente estranho na história da humanidade, posto que ela veio a fazer parte de nossa estrutura por causa do pecado. Deus disse a Adão que ele não deveria comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, advertiu o Senhor (Gn 2.27). O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi o comerem do fruto proibido (Gn 3.6).[1] Paulo escreveu aos crentes de Roma: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). Essas e outras passagens bíblicas claramente ensinam a ligação entre o pecado e a morte.
No entanto, a morte não precisa ser visto desta maneira em relação às plantas e animais, pois parece bastante provável que houve morte no mundo animal e vegetal antes que o homem caísse em pecado. A morte desempenha um papel importante no modo de existir de muitas plantas e animais como os conhecemos hoje. Existem animais carnívoros que subsistem comendo outros animais. Há plantas e árvores que morrem por ação de certos animais ou insetos. Muitas das células de plantas vivas (as árvores, por exemplo), são células mortas e estas células mortas têm uma função sumamente relevante. De acordo com Antony Hoekema, “A menos que desejemos sustentar que a natureza é hoje totalmente diferente do que era antes da queda, devemos admitir que com toda probabilidade havia morte no mundo vegetal e animal antes da queda”.[2]
Assim, a pergunta se a morte como fenômeno biológico já ocorria antes da queda do homem no pecado deve ser respondida afirmativamente. A morte biológica desse tipo não deve ser identificada com a morte que entrou no mundo como castigo pelo pecado do primeiro casal humano.
Contudo, há quem defenda que a morte faz parte da boa criação de Deus em relação ao ser humano também. Celéstio, um dos principais difusores do pelagianismo, ensinou no século V que Adão foi criado mortal e teria morrido de qualquer forma, houvesse ou não pecado. Os socinianos dos tempos da Reforma propuseram um ponto de vista similar ao de Celéstio. No século passado, Karl Barth (1886-1968) trouxe novamente à tona o ponto de vista de que a morte humana não é resultado do pecado, mas um aspecto da boa criação de Deus. Para ele, Deus planejou desde o princípio que a vida do homem sobre a terra tivesse um fim.
Entretanto, esta posição apresenta vários problemas. Se o homem estava de todos os modos destinado a morrer, independente de sua queda no pecado, por que a Bíblia relaciona tão consistentemente o pecado com a morte? Se a morte era parte da boa criação de Deus e o fim natural do homem, por que teve Cristo de morrer pelos nossos pecados? Além disso, se a morte é o fim do homem desde o princípio da criação, por que Deus ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos? E por que a Bíblia ensina que tanto crentes como não crentes ressuscitarão?[3]
Segundo Hoekema, em oposição a Celéstio, Barth e outros, é necessário que nós sustentemos que a morte no mundo humano não é um aspecto da boa criação de Deus, mas um dos resultados da queda do homem no pecado.[4] O ser humano não foi feito para morrer como o foram as plantas e os animais.




[1] Cf. O Breve Catecismo de Westminster, 15.
[2] Antonio A. Hoekema, La Bíblia y el futuro. Grand Rapids: SLC, 1984, p. 95. Itálico do autor.
[3] Idem, p. 97.
[4] Ibidem.

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