quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Sem tirar nem por

Josivaldo de França Pereira

 
Na Bíblia temos vários testemunhos sobre o perigo de se extrair ou acrescentar qualquer coisa à palavra do Senhor. Por exemplo: “Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4.2). “Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Dt 12.32). “Toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Pv 30.5,6). “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhe fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se tirar qualquer cousa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das cousas que se acham escritas neste livro” (Ap 22.18,19).
Distorcer a verdade escrita segue na mesma linha das advertências acima. Durante toda a história da igreja cristã, inúmeras seitas e heresias deliberadamente distorceram as Escrituras e suas doutrinas com interpretações enganosas, como o gnosticismo, o arianismo, o unitarismo, entre tantas outras.
A verdade mesclada, híbrida com a mentira é igualmente perigosa. O apóstolo Paulo relembrou aos coríntios que ele e seus colaboradores não mercadejavam e nem adulteravam a Palavra de Deus (2Co 2.17; 4.2). Disse-lhes na primeira carta: “... não ultrapasseis o que está escrito...” (1Co 4.6); e advertiu aos gálatas acerca das práticas judaizantes: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6,7). A expressão “perverter o evangelho de Cristo” é o mesmo que ir “além” do verdadeiro evangelho (cf. Gl 1.8,9).
Paulo fala daqueles “para tudo quanto se opõe a sã doutrina” (1Tm 1.8-11); do “tempo em que não suportarão a sã doutrina” e “se recusarão a dar ouvidos à verdade” (2Tm 4.3,4), e recomenda a Timóteo e Tito, respectivamente: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina...” (1Tm 4.16); “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1).
Pedro, semelhantemente, condena aqueles que deturpam as epístolas de Paulo, como também as demais Escrituras, “para a própria destruição deles” (2Pe 3.15,16). E alerta: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo...” (2Pe 3.17,18).
Jesus demonstrou seu cuidado e zelo no cumprimento e ensino correto das Escrituras. Ele disse: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.17,18).[1]Do início ao fim de seu ministério terreno Jesus recusou a descumprir as Escrituras.
Nós, cristãos evangélicos, devemos estar atentos para não cairmos nas ciladas de uma interpretação errônea das Escrituras. Segundo Carson,
É fácil demais aplicarmos ao texto bíblico as interpretações tradicionais que recebemos de terceiros. Então, podemos involuntariamente transferir a autoridade das Escrituras para nossas interpretações tradicionais, investindo-as de um falso e até idólatra grau de certeza.[2]
O intérprete da Bíblia é fruto de sua época, influenciado por todos os fatores e ditames do seu tempo. Milhares de anos e circunstâncias culturais separam o intérprete das Escrituras Sagradas. O Espírito Santo sabe e compreende essas diferenças. Dá ao intérprete a liberdade de se aproximar da Palavra de Deus com os seus pressupostos, embora não lhe dê o direito de fazer com que a Bíblia diga o que ele gostaria que ela dissesse. René Padilla afirma com precisão: "O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura".[3]
Os reformadores do século XVI enfatizavam o sentido literal e gramático-histórico do texto bíblico.[4] João Calvino, por exemplo, dizia que não devemos ir além do que a Bíblia nos ensina. E ilustra sua posição dizendo: “Um piedoso ancião foi indagado com maledicência: ‘Do que se ocupava Deus antes de criar o mundo?’, a resposta veio rápida e certeira: ‘Em preparar o inferno para os curiosos’”.[5]
Ademais, um dos princípios defendidos pelos reformadores é que a Escritura interpreta a si mesma. Um século depois da Reforma Protestante esse princípio foi apreciado e sustentado pela Assembleia de Westminster: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.[6]
Em suma, é a própria Bíblia que, de per si, nos dá as garantias de uma interpretação segura e correta dela mesma. Assim, outro conselho de Paulo a Timóteo também é válido a todos hoje: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).





[1] Para um excelente comentário de Mateus 5.17 e 18, consulte D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2018, p. 242-253.
[2] D. A. Carson, Os Perigos da Interpretação Bíblica: A Exegese e Suas Falácias. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 15.
[3] René Padilla, A Palavra Interpretada: Reflexões Sobre Hermenêutica Contextualizada, 1980, p. 6. Obra não publicada.
[4] Cf. Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e Seus Intérpretes: Uma Breve História da Interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 160-167.
[5] Institutas, I, xiv, 1.
[6] Confissão de Fé de Westminster I, 9. Acerca da profundidade e simplicidade da Bíblia, isto é, sua perspicuidade, consulte L. Berkhof, Introducción a la Teologia Sistemática. Jenison: T.E.L.L., 1988, p. 186-187.

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